A voz solta no papel

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
C.D.A.

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de cantar. Cantar é parte da vida, é trilha dos momentos, é forma de contar a história. Em outro canto, já contei como decorava discos de Chico Buarque e ensinava à família, para fazer parte do nosso repertório de viagens: cantar é também político.
A voz foi algo que fui aprendendo que era um “a mais”: algo de que os outros gostavam, algo que dava pra modular e usar a favor – para seduzir, claro, como não, mas também para (me) acalmar. Como comecei a dar aula muito cedo e era extremamente tímida: usava a técnica de prestar atenção na minha própria voz, que me tranquilizava. Voz-companheira e amiga, a minha.

Mas sempre tive problemas de rouquidão. Ao primeiro excesso de praia, ao menor sereno, à mais branda noitada em boteco… pronto, ficava rouca por dias. Quando não afônica de vez.

A voz: minha fortaleza, minha fragilidade.
Outra dor de garganta também sempre me acompanhou: a dor das palavras não-ditas. Que sempre foram muitas. Como se, ao prender na garganta, eu inconscientemente me machucasse.

Aí que me dei conta de uma coisa curiosa: desde que comecei a escrever regularmente, no Chopinho (que aliás foi presente por uma querida fonoaudióloga, gracias Cacá!), nas redes sociais, aqui mesmo neste Biscate, e agora mais recentemente no Primeira Fonte da Esther e da Fal, minha rouquidão quase sumiu. Como se, ao escrever as palavras que me entalavam, eu tirasse o peso da garganta e a liberasse. Libertar as palavras, libertar a garganta.

Escrever, para aliviar a dor.

Cantar, para deixar a alma mais leve.

E, justamente esta semana, a Luciana-Borboleta me lembrou um livro que foi tão eu, durante tanto tempo: “Les Mots Pour Le Dire”, da Marie Cardinal (o nome em português é: “Palavras Por Dizer”. Minha tradução seria: “Palavras para dizê-lo”. Ou, vá lá, “Palavras para dizer”).

O livro conta a história de uma análise. A análise da autora. Os anos em que ela foi ao consultório de um psicanalista, deitou-se no divã, e desfiou sua história. E como isso fez diferença em sua vida. Mas também em seu corpo. De novo, como se, ao lançar as palavras ao mundo naquele consultório, ela aliviasse seu corpo da própria dor de existir.
Palavras. Como mágica. Como encantamento. Palavras que curam, apenas por serem ditas.

 

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Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

beijo orelha

os não quereres

Não quero. Me falta saco, me falta vontade, me falta empenho, me faltam forças. Não quero. Aliás, sim, quero. Quero a possibilidade de exercitar o meu amplo e total direito à recusa, a dizer não.

Desde quando se criou a convenção de que nós devemos viver para dizer o sim? Na minha cabeça isso sempre pareceu o padrão. Não transgredir, ser um corpo manso, simpático, apático, detentor da única possibilidade de dizer a plenos pulmões: SIM. Pois não quero.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Courbet e Laerte. Foto de Bruno Torturra, publicada no perfil de Facebook da Laerte.

Também não sei que eu quero. Tampouco sei se preciso descobrir. Só sei que o dizer não me excita! Me causa um estremecimento, me aquece, me dá vontades. Me revela que dizer NÃO não destrói o mundo, como se meu não fosse um bomba atômica.

Dizer não transgride, em primeiro lugar, com o meu castelo de certezas e com meu mar de dúvidas. Depois o mundo, sé é que o mundo se importa com o meu não. Sé é que o mundo vai sobreviver com o meu não. Que aceitemos, o mundo e eu, é um NÃO!

Não sei onde isso vai dar, o quanto o não querer importa, afeta, afasta ou aproxima. Mas é não, ao menos por enquanto. É não para derrubar minhas muralhas, nem que seja para construir novas, mas primeiro eu preciso ver o que há além das velhas. Ou, como diria a Lispector, é perder a terceira perna, par então buscar novos pontos de sustentação.

 É um não querer para tirar-se da normalidade, nem sei se para uma anormalidade, ou para-normalidade, mas definitivamente para transgredir-se. Pra por fim, ou dar uma pausa, ao excesso de sins… e é tão engraçado como o plural de SIM se traduz em “pecados” em outra língua. É hora dos NÃOS

Fim de Caso

Meu bem,

Eu sei que passamos muitos momentos juntos. Bons e maus. Sempre flertamos, mas nos últimos meses estreitamos nossos laços. Você me confortou em muitas noites e como foi bom dormir aninhado no seu colo enquanto bebíamos uma boa garrafa de vinho! Andamos de mãos dadas pelas ruas, muitas vezes totalmente absortos em nós mesmos. Dividimos a cama, o café da manhã e o caminho até o trabalho inúmeras vezes.

Devo dizer que foi muito bom dormir e acordar com você nesses dias todos, acalentado nos teus braços. Sem você eu me sentia meio só, meio sem rumo. Deixei de fazer muita coisa para que você estivesse sempre ao meu lado e não me arrependo. Sei o quanto foi importante estarmos juntos nesses dias, nos conhecendo, nos tornando cúmplices e vivendo com ardor nossa relação.

Saiba que quando estivemos juntos, eu estive só com você. Ok, eu confesso que flertei com outros, alguns amigos seus, outros que você nem conhecia e vez ou outra saía com alguém que você odiava. Nunca foi pra te provocar, mas é que às vezes sua companhia me sufocava tanto e eu queria rodar por aí sem você.

Nos dias cinzentos e de chuva era ainda pior. Porque aí sim a sua presença entrava pelos meus poros e ia me tomando até que eu não pudesse mais respirar sozinho. E eu me cansava de ti e me deitava esperando que você entendesse a deixa e fosse embora me deixando só. Quando acordava e você não estava mais lá, eu te chamava e você voltava e a gente se enroscava num abraço longo e ficava assim um par de dias.

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Mas aconteceu aquilo que acontece com todo mundo que se relaciona tão apaixonadamente assim: o amor arrefeceu. Eu já não sinto mais tanto a sua ausência, os dias e as noites, principalmente, já passam muito melhores sem você. Sua companhia já não me falta e eu sinto que é hora de nos despedirmos. Eu sei que nada do que eu disser vai adiantar e o clichê vai aparecer, mas “o problema sou eu e não você”, “eu gosto de você, mas não quero um relacionamento agora”, “estamos em ritmos diferentes”.

Portanto, Tristeza, apesar de tudo o que vivemos juntos é hora de você seguir seu caminho e eu, o meu. Chegou a hora de nos despedirmos e aproveitar o que a vida tem de melhor e me relacionar com outros sentimentos. Chegou a hora de encerrarmos nosso ciclo tão intenso e cheio de desventuras. Acredito que ainda vamos nos reencontrar, mas espero do fundo do meu coração que demore.

Mais e Menos

Ainda bem menina do juízo ouvi falar de Freud e da ideia de que viver é um estado permanente de incompletude. De que a possibilidade de ser/existir advém justamente dessa impossibilidade de ser-todo que nos estrutura. E para mim isso fez – e continua fazendo – todo sentido. Além, isso me proporcionou uma bem vinda liberdade, especialmente no que tange a relacionamentos.

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Saber que não é possível a metade da laranja, a tampa da panela, o encaixe perfeito, o sapato velho pro pé cansado (qualquer que seja a alegoria preferida), me fez lidar de maneira mais solta com as idealizações, demandas e expectativas tão disseminadas na cultura a respeito do amor romântico.

Não importa o quão bom seja o relacionamento, não importa o tanto que o moço ou moça nos faça bem, não importa o quanto a gente se acerte, se ajeite, se curta, vai ser menos do que o que nos completa (ainda bem). Reconhecer isso geralmente me garante duas frentes:

1) ter a monogamia como algo irrelevante nos meus vínculos: saber a minha incompletude é, também, reconhecer e respeitar a das outras pessoas. Sentir que ninguém vai ser capaz de me completar (inclusive ninguéns, porque não é uma questão de quantidade) me faz lidar de forma leve com o fato de que eu também não sou “o que basta” pra alguém. Que o que falta ao outro, para além de mim, se encontre ora em um disco, em uma caminhada, em um programa de tv ou em sexo onde eu não estou envolvida não implica na diminuição, aviltamento, whatever, do que a pessoa sente e vive comigo.

2) amenizar aquele momento pós lua de mel dos afetos: a gente se encontra, se esbarra, se roça, se enrosca, se encanta, mergulha. A pele arde, o corpo pede, palpitação, falta de ar, deslumbramento. Gozo. Muitas vezes se pensa: agora vai, é essa “A” pessoa. E quando o desassossego encontra o cantinho dele no peito que lhe é de direito (seja primeiro no nosso, seja primeiro no do outro), sem a ideia da incompletude ali na mesinha de cabeceira, a desilusão com a outra pessoa, com a gente, com os relacionamentos de maneira geral cai na cabeça que nem piano em desenho animado da infância.

Lembrar que a impossibilidade da completude é o que nos define e nos possibilita viver me ajuda a reconhecer meu desejo e lidar com ele. Seja para partir em busca do coração em descompasso e da sensação de inebriante bebedeira de um começo outro com outro pequeno vislumbre do encontro perfeito, seja para respirar, puxar o cobertor mais um pouquinho pro meu lado, encaixar no abraço e seguir.

É que, penso eu, não há garantias. Não há escolha certa. Saber o não-toda tem uma beleza silenciosa que é acolher, em antecipações, o que vem. O que faremos de nós. O que nos acontecerá e o que faremos com isso. Vem, vida. Sentir que amor e felicidade não vivem uma relação causal, que felicidade é nas horinhas de descuido, alivia.

Então eu falto, eu falho, eu tropeço, eu manco. Eu não-toda. Buracos. Espaços. Às vezes úmidos de lágrimas. Mal não há, o molhado faz o fértil, tantes vezes. Então o mais, o além, o depois, o também. Então o desconforto, o desassossego, o desmantelo, a demanda. Então o repouso, o morno, a certeza, o descanso. Então os encontros, as marés, as danças, os ritmos. Tudo menos do que. Bonito. Gostoso. O vão, a brecha, o intervalo, lacuna. Os outros. E a voz da Elza Soares no peito:

Talvez um sorvete…

Queria nada, não. Outro dia mesmo, numa dessas megas torres blaster última geração que rasgam os céus da cidadona, mal consegui usar um elevador. Sim, um mero equipamento moderno. Sem botões, não sabia como subir, indicar andar, descer, parar. Bastava entrar e a máquina lá: prum. Minha cara de idiota e espanto.

Nem o celular sei usar. As “mileduas” pastas de arquivo, página de downloads, reconhecimento de voz,  aquele escarcéu todo de possibilidades. Queria era só fazer uma ligação, talvez: “cheguei.” “tudo bem.””como vai.”. Talvez usar a internete. Talvez um sorvete.

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A televisão? Ela grava, assovia, filma. Tem mais recursos que meu cérebro inútil, parado no tempo, perguntando a hora do jogo e preocupado porque vai perder o horário do filme. Queria nada, não. Ou talvez queira, porque nesse mundo tem sido assim o querer sem saber porquê. Nem a maldita regra do “por que porque porquê”…

Queria era um sorriso, talvez. Daqueles repletos, mesmo quando repete piada. Queria era um pau calibroso, durão, bonito, sempre a postos, sem que a porcaria do cartão de crédito ou a flacidez de ânimo estivessem ali, na espreita, na companhia, querendo algo que não sabe o quê. Queria era só um sorvete, de suco com água ou leite, congelado – sem gourmet, mesmo que feito daquela groselha antiquada.  Queria ler livro de papel, jornal de papel, mimeógrafo e colar cartaz de campanha política em poste, com soda cáustica e um cadinho daquela farinha de milho da embalagem amarela na calada do noite. Queria beber sem pressa mas no bar de sempre, sem deixar as calças numa cerveja super gostosa com preço de champanhe e retrogosto de alguma obra do romero brito.

Enfim, ando desconfiado que não caibo mais, não visto mais, não sonho mais, não quero mais…

Nessas horas, confesso, o único remédio possível é recordar, mastigar, saborear memórias, afetos, dengos e de sexos – molhado, amplo, geral, irrestrito, com sabor de quem chupa e se lambuza numa manga amarela doce, veludo, fiapo. No fundo, a tabacaria deveria ter o cigarro, a cerveja e uns libretos de foda.

A caretice é a última carta da tal mão invisível do mercado. Uma mão que não te masturba, mas só nos fode trazendo o prospecto das últimas novidades super lindas das torres de elevador inteligente internetes de oito mil gês e cacetes infláveis com pílulinhas azuis de um matrix sem fim….

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Êxtase

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Às vezes é muito rápido, vai, entra, faz e sai, urgente, correndo, fugindo do mundo, nem que seja só por um instante de calor e esquecimento. Um instante de explosão, um instante de paz. Um minuto para suportar todos os outros minutos do dia. Um minuto tão rápido, os gestos quase de máquina, a eficiência quase de funcionário, a atenção só no no essencial, no objetivo, no fim.

Outras vezes não, é devagar, sentindo cada momento, cada carícia, cada toque. Se deixar envolver, ver quase que de longe o calor crescer, perdida do mundo, perdida do tempo, rendida. Tudo bem lento, tudo quase parado, gestos longos, olhando para cada pedacinho do corpo, para cada canto escondido, para cada vontade insatisfeita. Sem hora para começar nem dia para terminar. Várias vezes. E de novo. Até não aguentar mais.

Às vezes é em pé, quase um exercício, quase uma dança. Giros de corpo, a cabeça virada para trás, as mãos se esforçando para alcançar todo o corpo, a pernas ora levantadas, ora estendidas, por vezes dobradas. Por vezes ajoelhada, por vezes curvada até tocar os pés.

Outras vezes deitada, imersa, coberta. O corpo todo tocado ao mesmo tempo, a pressão, o abraço, de algum controle, de chão. Acolhida, envolvida, entregue. Dada. O corpo inteiro envolto vagarosamente, o calor nascendo nos lugares mais inesperados.

Rápido ou devagar, mas sempre. Todo dia. Pelo menos uma vez por dia. Duas, nos dias em que o calor cresce. Três, quatro, muitas, nos dias de feriado e férias, nos dias vadios de verão na praia.

Em pé, deitada, mas sempre. Todo dia, como uma rotina cega, o dia todo como respirar. Nos dias de lida, rápido e em pé, nos dias de folga, devagar e deitada. Nos dias de férias o dia todo, nos dias de suor, todo dia.

Como? Não. Não é nada disso. Não tenho culpa se você só pensa nisso. Eu estava falando de banho.

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PauloCandido

Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Biscateando às vezes

Às vezes… nem sempre, nem nunca…  em muitos casos,  em poucos. às vezes surpreendentemente, para o bem, para o mal ou para o incerto e às vezes, muito às vezes, a vez.

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às vezes
by Chagall

Não é bem uma matemática afetiva… não é uma multiplicação de pessoas e gestos e feições e afeições, sequer é soma… tampouco o clichê da divisão e, menos ainda, o subtrair do outro, mas, às vezes, esse é mais…

O querer é da ordem do “às vezes”… querer sentir, querer estar, querer ser… é em meio à infinitude, encontrar o que a gente quer e, também, o outro quer… para mais, para menos, por isso às vezes dá certo… nem nunca, nem sempre… às vezes…

O querer… querer é um bicho com quem ninguém pode… o querer é da destruição de qualquer matemática da vida… mas, às vezes, ele desperta um quê para além do querer… aquela ponta de desejo que vai para além do infinito e, por vezes, explode em uma profusão de querer também.

TAMBÉM, como querer também é bom! querer também subtrai pra dividir uma soma que multiplica tudo o que se é junto… mas também não é matemática… também é linguagem… de uma língua das mais aplicadas! Também é quando o às vezes do querer acontece…

São linguagens para além de palavras, são linguagens do sentir em forma de música, de movimento, de um conjunto de formas e maneiras confusas e inconfundivelmente abstratas para que só a ordem só sentir entenda… e para que só no tocar, no envolver, no beijar e no ser se entenda… linguagens para poder realizar o querer… esse querer também que parece difícil, mas que entre uma biscateada e outra, às vezes, desavisada e despretensiosamente captura…

Sedução

Essa história de química é batata. Saliva, cheiro, pele, o jeito de olhar e até de tirar remela do olho tem alguns encaixes do outro lado que pouca cousa pode explicar. Não é ciência, não é amor, não é gratidão, nem afago, nem nada, absolutamente nada. Aquele jeito dela responder aquela última pergunta e pronto. Sobe um sangue pela alma do corpo e alea jacta est. Estamos perdidos e obcecados e apaixonados e entregues. A fome passa a ser e estar naquele desejo fluído, de gozo. De sexos eretos. A ponta do grelo quando pulsa, sabemos, revela quânticos elementos elétricos. Assim como o cacete que refastela pra cima procurando ar. Parece um girassol buscando o sol, de tanto que remexe.

Há uma linha tênue nesse bonde chamado desejo que reside na reciprocidade. Reconhece-la é a chave para a cama, o chão, o joelho ralado, a bunda na parede fria, o cotovelo rasgado, o pentelho que engasga na hora agá, para a alegria dos fluídos e da risada larga depois do flacidez. O problema dos amantes, entretanto, muitas e muitas vezes, é esse reconhecimento. Porque reciprocidade pressupõe a tão sonhada empatia, se colocar no lugar do outro. A empatia é o sentimento biscate por excelência.

Nesses jogos de sedução devíamos experimentar sempre e sempre a nudez dos corpos e a nudez de poses e posses. Quando se deixa a empatia – e, portanto, a reciprocidade – como uma preocupação diversa ou diletante, a sedução passa a ser somente um jogo de vencer. Vencer, infelizmente, pressupõe derrotar. Nesse xadrez todo, sabe-se lá, pensar que a metida, a trepada, a abocanhada é mera questão de xeque mate é, sinceramente, uma bosta.

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O fato é que ele sabia do quão ridículo eram aqueles conselhos de revista cosmopolita, guias lacrados de sexo e que tais, que tanto fazem rir quando são levados a sério. Mas não resistiu e numa última tentativa desesperada mandou um envelope para a moça, com a cueca dentro, no meio do expediente. E a chave de um quarto de motel barato, desses que as portas abrem com cartão. Não disse mais nada.

Ela vestiu a cueca. Tinho ido trabalhar com uma calcinha tão confortável, mas tão bege, tão puída, tão descolorida, que achou melhor manter o clima.

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por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

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Quando acordo e te vejo de costas, ali dormindo nesse nosso colchão no chão, dá vontade de desenhar nas suas costas com a língua. Sobe um desejo de abraçar teus ombros e te acordar com mordidas na orelha. Você de costas é um convite para sentir teu coração no peito. Te puxar de barriga para cima e me aninhar por algum tempo, corpos roçando, pernas e pêlos misturados, me encaixar no teu morno e pensar que às vezes mentiras podem ser verdades por alguns minutos.

Quando acordo e te vejo de barriga para cima, você sabe que não resisto a subir em você, começar a beija-la do umbigo até o queixo e de volta até a buceta. Sempre tenho mania de te acordar, porque você sorri ao me ver ali querendo mais. Agora tenho você, nessa casa vazia, com o tempo que temos para sermos duas. Dali a pouco sei que tudo vai acabar, mas agora só meu corpo nu, pedindo você.

Somos nós aqui outra vez, você disse. Porque é mesmo improvável esse nós, porque apesar de nos beijarmos tanto e dormirmos tão bem juntas, amanhã é outro dia e não há nós todos os dias, nossos dias correm ao sabor da água salgada que corrói as cordas.

Sempre preferi as manhãs para transar, porque assim o resto do dia fica mais tranqüilo, porque saio com o sol no rosto e nosso cheiro ainda grudado no meu corpo. É quando gozo no seu ouvido, quando você enfia seus dedos bem fundo e eu dou aquela paradinha sem ar com o rosto entre seus seios. É quando nossos corpos caem suados e entorpecidos. É aí que eu te beijo com mais desejo e cumplicidade. Sempre estamos juntas aí.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

Pequenos Prazeres Biscates: Acordar

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

#PequenosPrazeres
por Bianca Cardoso, Biscate Convidada

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Obra de Darli de Oliveira, 2010. Outras obras, aperte aqui

Ele tinha chegado de viagem no início da noite. Eu havia prometido que ia dormir no seu apartamento. Cheguei arrumada, mas estava cansadíssima, só consegui dar uns beijinhos e quando ele levantou para ir à cozinha, dormi. Uma comédia. Mas na manhã seguinte acordei mais cedo e decidi fazer algo para dar as boas vindas.

Ele ao meu lado dormindo, só de cueca. Levantei o cobertor com toda a delicadeza para não acordá-lo, me movimentava bem devagar. Dei um beijo de leve, ele começou a acordar. Então peguei sua cueca e comecei a tirá-la. Ele ainda com sono, meio sem saber se era sonho ou não. Segurei seu pau e comecei a movimentá-lo para cima e para baixo… Bem devagar, olhando para seus olhos ainda sonolentos. Minha língua começou percorrendo a região ao redor, lambendo a parte interna das coxas… Até chegar na base do seu pau, que já estava duro e pronto para receber todos os carinhos que eu poderia dar.

Posicionei-me com o rosto bem em cima de seu quadril, bem na direção onde ele pudesse observar, deixei a bunda bem arrebitada e comecei com longas lambidas, da base até a ponta… Percorrendo todo o comprimento daquele pau, procurando sentir o sangue que corre por dentro dele. Sugando com vontade o líquido que denuncia sua excitação. Chupando primeiro a cabeça, beijando-a, passeando os lábios. Preparei-me para a descida, abri um pouco a boca e deixei que ele entrasse e saísse… Entrava fácil com a ajuda da minha saliva e saía com alguma resistência por causa da pressão que eu fazia, tentando segurá-lo mais tempo dentro da boca. Em intervalos, eu parava de chupá-lo e segurava seu pau com força com umas mãos, procurando manter o ritmo enquanto o assistia se contorcer na cama… Suas mãos tentando alcançar meus cabelos… E sua boca tentando dizer “não pára” entre gemidos. E quanto mais via ele se contorcer, mais eu mexia minha bundinha rebolando… E mais eu brincava com seu pau.

Abri a boca mais uma vez e enquanto escorregava seu pau dentro, passava a língua ao redor, deixava-o todo lambuzado, até o momento em que senti que ele estava mais duro, que seus músculos estavam ficando tensos, aumentei o ritmo e a intensidade das chupadas. E então escutei o gemido profundo, só um. E senti na boca aquele gosto que começa doce na ponta da língua e vai descendo amargo no final, quente e fácil de engolir.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como @srtabia

Desconexas Considerações sobre a Alma Biscate

Desconfio sempre, em cinco minutos de amasso com você e pronto: ejaculo, gozo, meleco, molho. Esta precocidade tem a ver com várias e várias facetas, orgânicas, psicológicas, mundanas, ansiedade, desejo, pressa, vontade. Uma variável ampla, assim como o jeito que te tiro a roupa, peça por peça, só de te olhar. Ou de te ler… te ouvir. Sempre penso que talvez meu pau seja muito pequenino e por isso o sangue circula mais rápido, denso e pronto, não me seguro e é isso. Ou que tenho medo deste mesmo pau pequeno não te agradar e no medo, encabulo. E gozo. Desconfio sempre.

Mas me lembro sempre que depois não é assim, tão rápido. Até porque hoje eu já sei certas trilhas tuas, caminhos teus, ruelas e vale, em você, teus seios, o jeito que gosta da língua lá, bem lá, no grelo falante que te decifra. Decifra, na ponta da língua. E de dedos. E que, de repente, estamos lá nos tocando, masturbando, chupando, cheirando, fodendo, lambendo, devorando, tanto verbo que já recomeço, meço, manejo, meto. Desconfio então que talvez não seja o tamanho do pau e, sim, o tamanho do desejo.

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Você outro dia, nua, nua de tão linda, me disse cousas. Que era melhor não expressar certos tesões – dizendo em códigos todos eles – que depois a gente pode ficar encabulado. E pronto, novos verbos, todos eles querendo nos foder, aos gritos e murros dalgum beiral qualquer. Ou o joelho no chão. Ou sei lá. Ou o silêncio, de uma trepada que prefere calores a exuberâncias, como que rima de verbo com substantivo, adjetivo com advérbio, verdade com mistura. Te cheiro, sabia? E gosto, gosto quando estás com perfume. Mas gosto quando está sem… Tem cheiro nosso ali, tem cheiro nosso ali…

Vou confessar… Você descalça e eu tenciono. Pés sujos de chão, de parque, da praia, pés de gente descalça. E lembro que descalça você rebola mais, remexe mais, me encanta mais. Tesão em pés sujos? Você ri. E teu riso, caralhos voadores, me excita como uma semana inteira de sítios de fotografias de mulheres nuas, mulheres mulheres, de carne, osso, cheiros e pés sujos. Outro dia já me imaginei dentro de você do avesso. Cousas de pensamentos tórridos, torpes, insanos, malucos, sequiosos, teus dedos todos me comendo.

Enfim, às vezes desconfio que em cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco, trinta minutos, horas, dias, anos a gente vai se vir e meter e gozar e conjugar verbos e fazer rimas e errar grafias e espiar corpos e expiar outras cousas.  Às vezes acordo com tanto tesão que passo loucamente a te procurar, com minhas mãos. E fico ali gastando bronha com tuas fotos, teus sorrisos, teus textos, teus bilhetes, teus recados cifrados, tuas conversas clandestinas, tuas roupas molhadas e enfim, tuas coxas.

Sei lá, essa alma biscate encanta serpentes.

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