Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

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Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

corpo

*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

Mergulho*

“Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (…) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo”. (Clarice Lispector)

mergulho

É esse o convite, acho. Pra um mergulho. Pra se permitir. O que? Qualquer coisa que apeteça. Sentir, talvez. Esquecer o destino, aproveitar a estrada. Estar. Aceitar a dança. O risco. O riso. Apostar no bom. Em movimento: dos barcos, dos quadris. Como andar: desequilíbrio e coragem. Matéria. Ser o corpo. Ouvir a carne.

Dar a mão. Oferecer o ombro. Ser abrigo. Acolher abraços. Olhares. Expor-se. Deixar o querer chegar manso. Distrair-se. Rir alto. Sussurrar. Tocar. Tocar-se. Acreditar que é possível isso de gostar. Apenas por. Assim: um, outro, um espanto.

Desfrutar. Vento no rosto, ponta da língua, tatear. Encantar-se. Rasgar as listas. As exigências. Esquecer o branco, o preto. Viver a cores. Pintar o sete. Como se fosse brincadeira de roda, rodopio, entontecer. Farejar.

Ouvir, ir além, perguntar. Querer saber. Querer percorrer. Querer. Dilatar-se em aceitações. Venha. Toque. Saiba. Diga. Deixar o dia ser noite e a noite se fazer dia em conversas de pouco dizer. Intervalos. Olhos. Contato. Desprezar amanhãs, o futuro é o agora do depois.

Ser encontrada. Vista. Desejada. Encontrar, ver, desejar. Deslizar. Roçar. Encostar. Perto. Abrir portas e janelas. Ainda mais: prescindir das paredes. Desistir da hora certa, do lugar certo, da pessoa certa. Abandonar a régua e o singular.

Umedecer-se. Aceitar-se molinha, flexível, aberta. Mergulhar. Brincar. Bater na água. Fazer borbulhas. Tomar caldo. Deixar o sal se fazer gosto na pele. Salgar-se. Resgatar-se. Querer apenas o querer. Um dia. Outro dia. Lembrar: é divertido. Um avaro pelo avesso: viver os dias como quem desenterra tesouros. Sem certezas. Deixar as âncoras no barco, deixar a bússola na gaveta, experimentar. Vai doer? Vai doer. Isso sentido, seguir.

 Como disse Clarice, saber que fez um perigo: viver.

 

*Post síntese de sensações/conversas biscates com a querida Renata Lins.

Sou fácil

Pegando o bonde do Maycon, venho declarar que sou fácil. E gosto de gente tão, ou mais, fácil do que eu. Mas calma lá que tem muita coisa envolvida aí.

Sou fácil. Não quer dizer que eu esteja sempre disponível. Sou fácil de acordo com os meus desejos e minhas vontades. Minhas fantasias, minhas paixões e meus dissabores. Sou fácil, mas posso não querer trepar com alguém que seja tão fácil quanto eu. Não rolou tesão, não rola. Sou fácil quando quero. Mas não quero o tempo todo. Todo dia e toda hora. Posso não querer com você, e posso querer com o moço ao seu lado. Na mesma da hora. Acontece.

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Sou fácil, mas não tenho que querer sempre que você quer. Você quer e eu não quero? Bom, é chato. Mas não jogue a culpa em mim. Não posso dar conta dos seus desejos e anseios. Dou conta dos meus. Apenas. Não quero e não adianta me cobrar: carinho, amor, sexo. Não vai adiantar nada. Juro. Pode ser até que eu fique meio possessa com você. Saiba entender um não.

Gosto de gente fácil. Gente que não faz jogo, que não faz charme, que entrega os pontos. Não gosto de ficar cortejando a pessoa, deixo isso pros pretendentes de Lady Mary Quando quero vou atrás. Ligo, pergunto, convido. Uma cerveja, duas, um cinema ou uma praia? Um bar? Melhor ainda.  Não quer? Ok, uma pena. Se quer, fale, demonstre, olhe no olho, passe a mão no meu cabelo. Só não vale dizer que “queria”. Não vale dizer que quer e deixar esperando duas horas. Não vale dizer que quer no último minuto, na hora que a porta está fechando e o trem seguindo seu rumo. Quer? Queira hoje.

Isso tudo para ajudar a clarear que ser fácil diz respeito a mim. Somente.

Era uma vez

Era uma vez. Sempre quis começar algo assim… Era uma vez. Não pelo fato de ser tradição entre os contadores de história… Mas pelo fato de que “Era uma vez” é uma garantia… Uma garantia de ter sido… pelo menos uma vez!

Ser… já pensou em como é “SER”? Ser uma vez, ser sempre, ser o que quiser, quando quiser, na hora que quiser e com quem quiser… Ser uma vez e ser daí por diante…

era uma vez

era uma vez

Pois é, o “Era uma vez” é uma garantia… um conforto… Quando alguém diz “Era uma vez” está selada uma então possibilidade em um destino, um acontecimento histórico! E mais, um acontecimento para quem era naquela vez…

Por que dessa obsessão? Não sei… porque do nada me ponho a pensar, sem culpa, mágoa, pena, rancor, ou prosopopéias sobre quem não é, não foi… Lidar com quem não era vez nenhuma… coisa que não sei…

Coisas que procuro entender… Entender quem quer ser, mesmo não sendo… Isso até é fácil… o querer é muito bom de ser entendido, embora as vezes nem concordemos com ele… Mas entender o não querer ser de quem não é, a resignação, me inculca…

Já julguei, não minto… Já quis que todo mundo quisesse na proporção ou mais como eu queria, mesmo que não quisesse o que eu queria… Mas isso era querer para além de mim… Daí, passei a não intervir no não querer ser alheio… achei que não me cabia, mas continuei a não entender… seria isso resignação?

Não sei… quando penso em não querer ser, penso em tanta coisa… quando imagino que um não querer ser é a exclusão de um “Era uma vez”, me ponho macambúzio… meio que só pra usar uma palavra difícil… mas me ponho… Afinal, de que adiantam as palavras difíceis senão para engrandecer ou engraçar nossos “Eram algumas vezes”…

Mas daí me ocorre, não ser depende só de quem não é? Existe dor, opressão, imposição, dominação ou o raio que o parta que faça não ser? Que determine a “vontade” de não ser? Pois é… parece que tem…

Eita “vontade” que  não permite! Oxi, arre, situação que não deixa… “NÃO SER”, não! Não entendo… Quero que seja, mesmo que não seja do meu jeito! Que contar, mais de uma vez, do “Era uma vez” que eu quis ser…

A ordem da casa

As ruínas da casa estão aí
Só paredes em pé, não tem telhado
Falta porta, está tudo escancarado

Depois de muito tempo olhei aquela casa. Eu estivera ali, mas parecia que havia pisado há mais de século naquele lugar. Tudo jogado ao chão. Cadeiras quebradas. Poeira. Um sem fim de teias de aranha. O sofá partido ao meio. A pintura descascada. Onde eu estive?

Voltei e vi. Com olhos de ver. Era eu quem tinha estado ali tanto tempo. Vivi sem prestar atenção. Não vi a lâmpada que queimou. Também não reparei na porta emperrada. Ah, e mexer nessa infiltração enorme no meio da sala? Não mesmo. Estava tudo feio, mas dava pra continuar vivendo ali. Sem gosto. Sem sol. Sobrevivendo.

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Fui me acostumando a não estar. A passar por ali. A não olhar. E cada vez que pensava no que estava desmoronando mais eu fechava a janela, o cenho, os olhos. Menos eu ouvia o passarinho no quintal. Mais eu tinha vontade de derrubar a goiabeira.

E foi assim até o dia em que abri aquele janelão antigo e a maresia entrou mexendo em tudo. Com ela, um cheiro de vida. Abri os olhos e vi. Vi com olhos de refazer. Percebi, assombrada, que aquela casa não era minha. Nem era meu esse lugar. Não daquele jeito. O que é meu tem cheiro de anis. Tem gosto de manjericão.

Pelo menos por enquanto. Posso enjoar do anis e trocar o manjericão pela salsa. Ou misturar tudo e fazer uma orgia nos aromas e sabores. Eu posso. Eu quero. A casa está sendo arrumada aos poucos. Tem dias que faço mutirão. Com cerveja estupidamente gelada prum batalhão e muita água no feijão. Tem horas que limpo sozinha os rodapés com escova de dente velha. Tem dias de sonho. Tem dias de alegria. Tem dias de dor fina. Mas essa tem sido visita rara. Uma tia que mora muito longe e dorme aqui só para seguir destino na manhã seguinte.

E nessas arrumações todas achei uma caixa no sótão. Tinha uma poeira fininha por cima, daquelas que a gente manda embora só com um sopro. Estava ali há pouco tempo. Era uma caixa de papel tão brilhante que era impossível resisti-la, envolta num laço de fita. Desfiz o laço. Abri. Achei o bilhete do trem que há muito havia comprado e guardei para um dia. Uma oportunidade. Uma próxima vida, talvez. Estava esquecido. Olhei a data da passagem e se eu corresse chegava na estação a tempo. Fui e volto para continuar a enfeitar a casa.

Arrumar a Casa

Por Bárbara Guimarães*, Biscate Convidada

Nunca fui boa dona de casa. Sabe aquela coisa de tudo sempre arrumadinho, panelas brilhando, chão brilhando, vidros brilhando? Jamais foi minha prioridade. Pelo contrário, quem me conhece com certeza já me ouviu falando que minha pia da cozinha estava virando foco de dengue ou olhando para um vidro de janela embaçado e falando “É… acho que alguma hora vou precisar chamar uma faxineira”.

(Pensando bem, acho que tenho é um certo orgulho de não ser boa dona de casa… reação minha a modelos antigos, expectativas paternas, sociais etc e tal. Enfim.)

Mas vez em quando uma coisa ou outra, um momento de vida ou outro me faz parar e arrumar a casa, num contexto mais amplo. O que significa revirar todos os armários, as estantes, as prateleiras, as malas debaixo da cama, as caixas de guardados. Espalhar tudo no chão e mergulhar. E então perceber que boa parte do tudo que estou guardando há anos – às vezes décadas – não me serve mais.

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Por que guardamos tantas coisas?

Arrumando, arrumando… Fotos. Antigamente as fotos vinham reveladas em papel, vocês lembram? A gente escolhia as melhores, colocava em álbuns… As não tão boas, guardava, sei lá pra quê. Escritos, tantos. Para que ainda estou conservando comigo anotações de cursos que fiz 15, 20 anos atrás, e nunca mais li? Roupas. Meu deus, quantas roupas. Algumas nunca usei. Livros. Já vendi toda a minha biblioteca uma vez, quando estava me mudando de país. Voltei e consegui juntar mais uma centena… quantos ainda vou de fato ler?

Sento no chão, cercada de mil e uma coisas. Separa, separa, separa. Isso fica porque eu uso, isso vai pro lixo, isso vai pro bazar – é, o volume é tão grande que resolvi fazer um bazar com precinhos camaradas para os amigos. Assim tudo ganha outros donos, felizes com suas boas compras, e eu ainda fico com um dinheirinho para ajudar na nova mudança. Círculo virtuoso.

Arrumação feita, caixas lotadas de coisas que vão ser vendidas, sacos pretos cheios de guardados eternos e nunca usados que agora vão para o lixo… E de repente me pego sentindo uma leveza nova na minha casa. Camadas descartadas. Paro tudo, me olho no espelho, e a mulher que vejo também parece mais leve…

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Aí fico pensando no lado simbólico do “arrumar a casa”. Sei muito bem que quando não estou em uma boa fase minha casa fica o caos. E então arrumar a bagunça alivia. Jogar lixo fora alivia. Simbolismos? Sim, mas tão efetivos… Arrumar uma casa também acaba sendo um parar e olhar para a nossa vida, para nosso passado. E deixar vir a percepção do que ainda nos cabe e do que estamos carregando a toa e só nos traz peso. É também parar a arrumação para chorar uma saudade, deixar sair uma dor… ou para dedicar a alma inteira a sorrir com uma lembrança boa. É sentir a delícia de jogar fora o que não nos serve mais. Lixo. Sai de mim, me deixa em paz, por favor.

Quatro anos atrás eu estava me mudando de uma cidade pequena depois de 8 anos lá, e um pouco assustada. A conselho de uma amiga, conversei por telefone com um pai de santo maravilhoso de Salvador, Tatá Anselmo. Ele me disse o fundamental: “Minha filha, mude, vai ser bom para você. Mas lembre que não adianta mudar de cidade sem se transformar também. Se não, você se muda, mas tudo que incomoda permanece”. Ele estava certíssimo. Já eu, talvez não tenha feito muito bem a minha parte. Mas estou no caminho, aos poucos.

Mudar de casa, de cidade, de país é duro. (Eu sei, já mudei dezenas de vezes nesta minha vida de cigana.) Livrar-se das coisas materiais que a gente vai acumulando, por um motivo ou outro, também é. Mas difícil mesmo é mudar por dentro. Desacumular por dentro. Parar, olhar-se com atenção, perceber como são antigas as causas de um sentimento ou de um comportamento… e se tocar que não são mais válidas para a pessoa que somos hoje. Chacoalhar os ombros e deixar cargas despencarem. Adeus, não quero mais vocês. Adeus pesos, adeus culpas, adeus lembranças ruins, adeus cobranças excessivas. Adeus, eu-antiga, te quero mais não.

Arrumar a casa. Por dentro e por fora. Difícil. Mas precisa, né?

bolhas1*Bárbara Guimarães é mulher multifacetada, às vezes maremoto, às vezes águas acolhedoras. Temperamento artístico e inquieto. Alma que se alimenta de música. Em uma busca eterna, tentando achar um caminho entre fomes, medos, luz, escuro, racionalizações e emoções.

Para não mais voltar

Quando eu fui, fui sem fazer alarde, devagarinho, mas com passos firmes de quem sabia que era chegada a hora de ir. Fui para não mais voltar.

Quando eu fui, fui na calma de quem sabe o caminho a seguir. Sem estardalhaço, sem gritos, sem cena. Eu saí de cena.

Quando eu fui, não fui lamentando o que ficou para trás. Nem mesmo pensei que tinha demorado a ir. Quando eu fui, fui na hora certa, no exato instante. Não fui com a impressão de que já ia tarde, embora tenha esquecido a carteira de identidade.

Quando eu fui, não fui pensando na dor, na mágoa, nas feridas. Eu fui pensando na alegria que me aguarda, no conforto que me espera. Na paz que anseio.

'eu bato o portão sem fazer alarde'

‘eu bato o portão sem fazer alarde’

Quando eu fui, não fui para deixar você. Fui para me encontrar comigo mesma, para me abraçar de novo, me acalentar. Fui para não ter vergonha dos meus desejos, da minha vida.

Quando eu fui, eu fui a tempo de ainda poder gostar de você. Eu fui para não te odiar, para não me odiar. Eu fui para relembrar que não é possível ser feliz sem mim. Eu fui para continuar sendo quem sou.

Você Não Acredita No Amor?

“Os amantes estão, de fato,condenados a aprender indefinidamente a língua do outro,
tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis.O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.” (J. A. Miller)

Uma das coisas que frequentemente me perguntam quando me identificam com a biscatage e nosso clube é sobre o amor/paixão (e, não aleatoriamente, relacionando esses temas com monogamia, perpetuidade dos relacionamentos, fidelidade)… “e então, você não se apaixona nunca?”, “você é contra o namoro/casamento?”, “você acha certo alguém trair?” e a mais legal de todas: “você não acredita no amor?” Então eu começo este post dizendo: não, eu não acredito n’O Amor. É esta a questão que vou desenvolver nesse post, mas adianto que sim, eu me apaixono – muito e com intensidade; não sou contra nenhum tipo de relacionamento (mas tenho preferências sobre os tipos de relacionamento onde quero estar), eu não acho certo ou errado alguém “trair”, mas me interessa muito repensar o uso desse termo.

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Então, voltando ao lance: eu não acredito n’O Amor. Não acredito n’O Amor maternal, filial, fraternal. Não acredito nO Amor romântico, erótico, whatever. Não acredito que O Amor se aposse de alguém. Invada. Domine. Não acredito n’O Amor como entidade, abstração, à parte de alguém, do sujeito. Esse amor maiúsculo, abstrato, anterior a nós mesmos, independente do sujeito que o sente, esse amor – para ficar na frase da moda – não me representa. Não acredito em um Amor que seja em si mesmo, maior do que quem o sente (embora acredite, claro, que nem sempre damos conta do que sentimos).

Penso que o viver é material. Que o sentir é material. Que os amores – sempre no plural – são construídos, aprendidos. E que no processo de construção do amar, construímo-nos sujeitos. E ao nos fazermos únicos, fazemos única nossa forma de sentir. Penso que o amar é na concretude de cada existência. Que amamos não apesar de, mas em relação a: ao lugar, à época, à classe, ao gênero com o qual nos identificamos, pra citar só o básico. Penso (oi, psicanálise) que a materialidade vivida e que dá estofo ao sentir se faz narrativa em nós. Acredito que é como ficção que se faz possível o amor. Que o amor é um deslocamento de ausências. Acredito que amamos a suposição de uma resposta sobre a nossa verdade. Amamos a ideia de que é possível que alguém possa nos completar, que alguém possa saber, além de nós mesmos, o que queremos. Vivemos em um mundo de discurso (é pela linguagem que somos inseridos e nos inserimos no mundo e nos humanizamos, é o discurso que localiza poderes, é o impossível de nomear que identifica nossa falha estruturante) e isso é determinante também – acho eu – quando tratamos do amor.

Assim, acredito que o amor, que os amores, são construídos, aprendidos, vividos e simbolizados a partir de uma dinâmica (que eu vou chamar de dialética, tá) entre o que está incrustado no discurso em que nos formamos e nossa forma particular de construir, aprender, viver e simbolizar – e esta forma particular não vem de fábrica, também ela é processual e construída a partir dessa mesma relação dialética do sujeito que age no mundo e mundo que age no sujeito.

Vamos pro exemplo? Eu penso que o sujeito A ama o sujeito B de uma determinada forma em uma determinada época, em um lugar específico. Mudando-se o sujeito, o lugar, o período, muda-se o amor. Ou ele nem acontece. Por exemplo: a sujeita L pode amar, hoje, um sujeito C, mas talvez não o amasse se o encontrasse dois anos antes. Ela e ele seriam outros. Outras necessidades, vivências, hábitos, rotina e por aí vai. A sujeita L poderia estar em um relacionamento que, na época, a fazia feliz. O sujeito C. podia ter um filho pequeno que lhe demandasse mais tempo e atenção. Ou seja, podiam se cruzar na rua, no bar, se notar (ou não), se considerarem atraentes (ou não) e necasquitipitibiriba de amor. Ou, ainda, a sujeita L que ama hoje o sujeito C pode ainda amar o mesmo sujeito C daqui a dois anos, mas se o encontrasse só daqui a dois anos, pode ser que nunca viesse a se interessar por ele, dependeria do que eles estivessem vivendo nesse tempo futuro, né (e não há garantia, acho eu, que os sujeitos C e L continuem se amando daqui a dois anos, embora eles até pretendam e se alegrem se for o caso).

O sentido disso é que penso o amor como um sentir histórico em um dado contexto sócio-cultural. Fico com um pezinho atrás quando leio críticas aos laços sociais contemporâneos (e eu tenho várias) que se baseiam na ideia de um certo X errado nas relações. Como se houvesse um jeito “bom” de amar e estivéssemos nos equivocando. Como se houvesse um “deve ser” no amor e não um “o que foi”. Eu sou a favor da arqueologia das emoções (lato sensu). De aprender com o que fomos e sentimos e não prescrever o que devemos ser ou sentir, a não ser no dimensionamento de um espaço ético para as relações humanas.

Uma coisa que me inquieta e, vez ou outra até irrita, é a facilidade com que se rotula os relacionamentos, nossos ou alheios. Se isso então aquilo. Se o sujeito A faz assim com o sujeito B então (e apenas) tal coisa. Um exemplo que apareceu na minha TL essa semana reproduz bem essa lógica:

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No primeiro momento a gente pode até se inclinar a rir, parece que é discurso aliado da biscatagi, né? questionando os relacionamentos monogâmicos aparentemente certinhos e tal e coisa e coisa e tal. Mas eu digo não. Eu acho que não tem forma ou modelo pros relacionamentos e que eu prefiro não julgar intenções e realidades. Digo que acho meio moralista e caga-regra dizer como os outros devem se sentir e expressar o seu sentir (e muito, muito melancólico que esse “como” passe pela dúvida da felicidade). Digo que cada pessoa constrói, aprende, vive e significa seu sentir da forma que quiser e o expressa da maneira que sua estrutura e conjuntura permitem e possibilitam. E digo que ser feliz não é impossível.

E me repito: como não tem receita, modelo ou prescrição. O como é a medida da individualidade. Quando somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas damos um passo a mais na direção de sermos capazes de reconhecer e respeitar a alteridade, de reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas e, assim, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias.

Então, como uma cobra que morde o rabo, eu volto ao mote eu não acredito n’O Amor, mas não duvido das várias formas que as pessoas constroem pra viver e expressar o que sentem. Eu não acredito n’O Amor, mas acredito nos amores como possibilidade de encontro. Lacanianamente eu repito, como uma cantiga de dormir: amar é dar o que não se tem. É, para além de sustentar a promessa de completude, o encontro de duas ausências. O amor, assim, se faz recíproco: ao nos colocarmos, também, como objeto do desejo do outro e sujeitos do nosso querer, acolhendo que o outro seja sujeito do seu desejo e não apenas objeto idealizado. Amar alguém diz algo sobre esse alguém, algo que se vislumbra e se interroga, algo que talvez o outro desconheça. O olhar e o amor do outro, por sua vez, me indicam algo que desconheço ao mesmo tempo que me colocam no lugar de sujeito desejante. Amar assim demanda que se ignore o ridículo e se abra mão do controle, implica em saber que a incompletude é o que nos torna humanos.  Amar assim implica reconhecer (nem sempre em uma elaboração consciente) que o lugar do amor é o lugar da ética, em última análise; e que é a falha que nos dá acesso à linguagem e, com ela, ao que resta, gozo. Só é possível enunciar este saber enunciando-o. E se oferecendo como lugar de enunciação.

É nessa brecha, o amor que acredito: minúsculo, diário. Um amor que só é naquele momento, para aquelas pessoas, naquele lugar, daquele jeito. O resto é com a sujeita L, o sujeito C, o desejo e tanta vida por viver.

Gramática Biscate, Lição II

Faz tempo que escrevi a lição I desta gramática, desse jeito todo nosso de conjugar, adverbiar, substantivar… Então, leia ou relembre a primeira lição e vamos aos verbos e tempos verbais conforme prometido.connie-corpos

Tinha dito que QUERER, na minha opinião, é o verbo preferido das biscates. Bueno, porque sem ele, conjugado na primeira pessoa do presente em alto e bom som, nenhuma mulher é biscate. O querer conjungado no pretérito imperfeito — queria — ou no pretérito mais que perfeito — quisera — pode revelar desejo represado, contido e biscate que é biscate dá uma levantada na saia, areja a vontade e passa a conjugar o querer no futuro — quererei –, de novo e sempre até saciar a vontade, matar o desejo na saliva, enfim…

Conjugar o querer abre espaço e evidencia outros verbos e a necessidade de outras conjugações. Quando se quer, quer alguém ou alguma coisa. Para chegar a esse alguém, coisa ou lugar é preciso ir. E o IR, no caso da associação com o querer só cabe conjugar no presente. Eu quero, eu VOU (tu vais, ele/ela/você vai, nós vamos, vós ides, eles/elas/vocês vão).

Mas há outros verbos que nascem da conjugação do querer que são mais amplos… DAR, por exemplo! Dar é um verbo lindo, e sua lindeza está justamente na conjugação que nós biscas damos (com vontade, com louvor e devoção) a ele. Eu dou no presente, dei no pretérito perfeito, eu dava no pretérito imperfeito (e sigo dando), eu dera no pretérito mais que perfeito e eu darei, muito e cada vez mais, no futuro. \o/

tesão_tumblr_Henrique Brandão

E olha a biscatagi tomando conta do verbo… DAR no imperativo só existe no afirmativo. Dá tu, dê ele e/ou ela — dê você, demos nós, dai vós, deem eles e/ou e vocês. DEEM! Porque é dando, no gerúndio ou não, que se recebe. AMÉM? E o que foi dado no particípio passado sempre pode ser dado de novo. ALELUIA!

E agora vão dar por aí e aguardem a próxima lição. 😉

Data de Validade

Filmes, livros e as vizinhas mais xeretas vivem nos dizendo: pra sempre. Os relacionamentos são – devem ser! – permanentes. Duradouros. Sem data de validade.  Eternidade. Se não era eterno não era amor. Pra sempre. E aprendemos assim, homens e mulheres, mas para nós, mulheres, a ênfase é mais acentuada e há a mensagem, nem sempre explícita, de que somos as responsáveis pelo sucesso da relação. O mundo privado é nossa esfera de competência (seja pelo argumento da rainha do lar, seja pela falácia da essência feminina mais suave, compreensiva, etc). O que você está fazendo aí parada que não está em busca do seu “final feliz”? Leia todas as revistas, faça todas as poses, aprenda todas as posições e estratégias de sedução pra manter seu relacionamento. Porque se não foi pra sempre, olha, deu errado e lá começam os “onde foi que eu errei” e todo mundo vira meio Paula Toller procurando a fórmula do amor. Cada relacionamento que acaba parece assinar um atestado de incompetência. E a gente passa um tempão pra descobrir que relacionamentos não são para dar certo

Eu nem lembro direito quando me chegou a descoberta oswaldiana: sempre não é todo dia. O primeiro dia que a gente acorda e vai dormir sem ter um pensamento sobre o moço (ou moça) por quem estamos apaixonados e com quem estamos envolvidos pode ser um rebuliço na alma. Porque vamos sendo educadas a pensar que quando a gente quer, a gente quer com constância e mais que qualquer outra coisa. Passar um dia inteiro desejando além da pessoa passa a ser motivo de culpa, arrependimento e questões sobre o relacionamento: será que cansei delx? será que elx é mesmo o amor da minha vida? E se de lá pra cá ocorre o mesmo (esquece de ligar, chega atrasadx e coisas assim) é um deusnosacuda de sentimentos de abandono e, às vezes, despudadoradas acusações: você-não-me-ama-mais-se-pensa-mais-no-seu-(complete aqui: time, trabalho, amigo, chulé)-que-em-mim. Porque aprendemos a andar com fita métrica e balança pro bem querer. E nessa tentativa de escalonar o desejo, o afeto, as relações, a gente vai perdendo e se perdendo. E aí, quando chega uma hora em que não se consegue e/ou quer e/ou pode mais se estar junto, o que resta é o sentimento de fracasso, de vazio, a ausência de nós mesmas porque, afinal, perdemos o que nós mesmas hierarquizamos como o “mais importante”.

pra sempre

Aí vem a segunda faceta do “pra sempre”, aquela que a gente cantarolou mas não acreditou na Cássia Eller: o pra sempre, sempre acaba. Não são as relações que acabam ou os vínculos (necessariamente), mas a percepção da continuidade, da repetição, do mesmo. Acaba porque um dos envolvidos morre, pra ficar no exemplo mais simples e definitivo. Acaba porque mudamos de emprego, de cidade, porque se adota um filho, porque se leu um livro que mexeu com a cabeça, porque se viu um filme que fez repensar escolhas, acaba o pra sempre porque somos outros e o outro se torna um outro além da alteridade que era. Tudo que está além do “e foram felizes para a sempre” é a materialização do final do pra sempre e é, também, o que a gente pode chamar de vida adulta.

pra sempre 2

E nem mesmo nas entrelinhas do “pra sempre” as doutrinas da felicidade amorosa mencionam aquele relacionamento que, tal como os outros, traz em si o seu fim, mas não apenas de uma forma potencial, e sim como uma certeza. Como ter um relacionamento com data de validade se o que valida os vínculos é a ideia subjacente de permanência, de que “é esse” e que “agora sim” posso me aquietar? Como escolher sem ter certeza? Ninguém nos diz que se pode (e como) amar sem um depois de amanhã. Não tem ninguém pra contar pra gente como viver sem planos. Não digo nem a ideia da aposentadoria conjunta, cadeira de balanço e netos no colo, mas o simples e trivial: o que vamos fazer na próxima semana. Porque não há a certeza de que a semana que está próxima está próxima o bastante pra que se chegue, juntos, nela. Amar sem calendário é um desafio. É abrir mão do “pra sempre”.

Já não me importa que o você não seja o enfim. Eu não quero escrever histórias, quero fazer viagens. Quero pegar estrada tendo o desejo como roteiro. Perder-me. Quero quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero cama, pele e música. Quero seu gosto de agora. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero acordar com aquela perna pesando na minha, a barba reescrevendo vontades no meu ombro, uma voz fazendo lembrar a saudade que ainda nem comecei a sentir. E descobrir que saudade pode não ser solidão e sim encontro, o meu encontro com essa eu que ama você.

 

Meu cu não é troféu

Dia desses um escritor pulicou em sua coluna semanal por aí que o sexo anal é uma dádiva, que era um presente, que, salvo com as mocinhas mais perversas (e acho que ele inclui as biscates aqui) era algo que acontecia só de vez em quando. O texto, até cheio de boas intenções tal como o inferno, esqueceu um detalhe: o prazer. As mulheres fazem sexo anal, dão o cu, liberam a porta de trás porque sentem prazer, não porque querem premiar o namorado/amante/marido/rolo/amizade colorida/sexo casual.

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Tati Quebra-barraco já tinha dado (ops) o recado há muito tempo: dar o cu é bom. Simples assim. Sexo anal é uma prática sexual como qualquer outra. Salvo o tabu que existe em torno do tal buraco. Sexo é um assunto dos mais tabus nessa sociedade de tradição judaico-cristã em que viemos parar, imagine só falar por aí que dar o cu é gostoso, prazeroso. Pobre Sandy quando declarou que “é possível ter prazer anal”.

É talvez esse tabu que impeça que as mulheres explorem seus corpos e se permitam sentir prazer. (E nem pretendo entrar na pauta do quanto é tabu para homens heterossexuais falar sobre seus cus). Sexo anal dói? Claro que dói. Dói quando a mulher não quer e o parceiro insiste, pressiona, chantageia, força e ela acaba cedendo. Dói porque ela não queria. Dói porque não havia desejo ali. E quando não há tesão nem 20 litros de KY resolve. Quando se quer, um cuspezinho resolve qualquer problema.

Foto: Spencer Tunick

Foto: Spencer Tunick

Sexo anal não é prêmio porque meu cu não está para ser conquistado. Se já ousamos gritar que “a porra da buceta é minha”, que tenhamos o prazer de gritar que o cu é nosso também. Que damos, ou não, ele a quem bem entendermos, quando e quantas vezes quisermos. Que não somos “mocinhas perversas” porque gostamos de ser penetradas pelo cu vezes seguidas numa daquelas trepadas ocasionais. Por cus mais livres e menos policiados.

Território

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

O mais antigo mapa de Portugal

Amor. Esse território em construção. Sem rosa dos ventos pra nos orientar. Território feito da colisão de dois mundos. Com suas tempestades, com seus desertos, seus oceanos. Toda uma geografia que se esbarra, que é reconfigurada. O território novo que nasce desse encontro é assustador, é encantador, é sedutor. Até porque cada mundo traz em sua geografia as marcas e matérias que trouxeram de outros encontros. Há cavernas não exploradas, tesouros escondidos, regiões que não se deve entrar. não por falta de permissão, mas por ainda não dispormos do material necessário pra exploração. Material que só vai ser forjado em conjunto. E que dependendo da relação nem chega a ser forjado. Tudo bem, relações não são inventários sobre o que o outro viveu. Nem tudo se fala e se compartilha numa relação.

Entretanto, esse território – como qualquer território – tem uma duração. É feito de matéria viva e como toda matéria se desgasta, se desfaz, se desmonta. É na relação do tempo —  que possibilita a efetuação do território —  e a paisagem pintada, que se revela uma espécie de maldição: Todo território é efêmero.  E sabemos disso. E dói. O desmonte de um território dói. A paisagem que construímos juntos e todos os elementos que faziam parte dela desaparecem. Na verdade, não desaparecem, tornam-se memória. Memória viva. É o registro no corpo da intensidade do encontro. intensidade marcando a pele. Memória viva em cheiros, em gestos, em olhares, em palavras. Os corpos que habitaram aquele lugar carregam em si a memória. Carregam na pele os nomes, os rostos inventados, os odores, as palavras…

Entre encontros e desencontros seguimos. Construindo territórios dos mais diversos tipos. Marcando as peles alheias e tendo as nossas próprias peles marcadas. Registrando no corpo a memória viva dessas colisões com outros mundos. Não há como escapar. Podemos, algumas vezes, cansados parar de participar dos encontros, mas a questão é que não há linha de chegada. Não há ninguém no final do nosso percurso com um caderninho pra julgar e dar um veredicto sobre esses encontros. Se fomos maus, se fomos bons. O valor desses encontros,  o que houve de bom, o que houve de ruim está marcado a ferro e fogo feito tatuagem em nossas peles. E que apenas a cada um de nós avaliar a qualidades dessas marcas. Registros do nosso percurso neste mundo caótico e das vidas que nós encontramos ao habitá-lo.


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maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

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