Fogueira

Leitor

Eu pensei em fazer um post chic, descritivo e erudito sobre uma autora que gosto muito, M. Yourcenar, e um dos seus livros que mais me tocam: Fogos. Eu sempre acho bem difícil escrever sobre livros. Complicado mesmo. Fico meio ensimesmada: se é pra falar mal do livro ou do autor, não me dou ao trabalho. Se é porque gostei e quero dizer isso, fico pensando: como posso dizer melhor o que já está lá tão bem dito? Dá vontade de assinalar apenas: vai lá! Porque alguém vai perder tempo lendo o que eu tenho a dizer sobre um livro ao invés de ler o próprio livro? Eu sei que não é o enredo que conta – ou não só. É a própria forma como se escolhe escrever, o estilo, o ritmo, a forma.

fogueira

Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour, 1903-1987

Autora

M. Yourcenar é uma autora incrível, ela mesma vivendo sempre no limite do que a nossa sociedade insiste em chamar de biscate: um amor homossexual, duas paixões platônicas por jovens homossexuais, uma vida sexualmente ativa com homens com os quais ela escolheu não casar, uma negação consciente da maternidade, uma vida de viagens e descobertas intelectuais, o não-conformismo diante do mundo posto…Uma mulher inteligente, sensual e livre. E uma grande escritora, primeira mulher a participar da Academia Francesa de Letras. Entre suas obras, destacam-se: Memórias de Adriano (1951), A Obra em Negro (1968), O Labirinto do Mundo (1974-77), Mishima ou A Visão do Vazio (1981) e O Tempo, Esse Grande Escultor (1983).

Livro

Passeando nesse impasse, perguntei-me porque Fogos…e logo eu soube, Fogos é uma bela coleção de biscates. Como mais seriam classificadas, hoje, uma mulher que se apaixona pelo enteado, um homem travestido de mulher, uma moça que desobedece a família e o Estado e insiste em um comportamento autônomo, uma concubina, um jovem em um triângulo homossexual, uma outra que mantem como amante um jovem primo do marido enquanto este viaja e a própria Maria Madalena?

Fedra ou o Desespero – “…embriaga-se com o sabor do impossível, o único álcool que serviu, desde sempre, de base para todas as desgraças. No leito de Teseu, experimenta o prazer amargo de enganar de fato àquele que ama e, em imaginação, àquele que não ama. Ela é mãe: tem filhos como teria remorsos…”

Aquiles ou A Mentira – “…um dia essa grande beleza tornaria mais difícil sua obrigação de morrer…”

Maria Madalena ou A Salvação – “…amar sua inocência foi meu primeiro pecado…”

Clitemnestra ou O Crime – “…durante o dia lutava contra a angústia; à noite lutava contra o desejo e, ininterruptamente, contra o vazio, que é a forma mais covarde da desgraça…”

Eu, Personagem

Eu sou em labirintos. Escavo percursos pra me perder de mim. Planejo fugas e marco paredes com indicações de futuros que não percorrerei. Monstro encarcerado, sei minhas sombras. Sou besta e herói, fio e espera. Morro. Morro todas e tantas vezes: espada no peito, abandonada na ilha, caindo do penhasco. E nunca. Permaneço no oco de mim, desfiladeiros de histórias que se fazem em angústia. Sempre, sempre, sempre a solidão de uma cabeça cindida do corpo. O desejo de saber em desejos do outro e só encontrar os caminhos de volta. Esperar a oferenda de amores que morrem em minha mão, um após o outro. Morrem todos tão jovens e eu nunca sei o que poderiam ser. Lá fora, eu espero, o fio na minha mão indica o caminho da desilusão: quando voltar do espelho, verei a gratidão fazer morrer o que prometia ser eterno. Quando todas as histórias forem esquecidas, saberei: eu sou em labirintos.

Tu, Personagem

Quero. Quero que meus dedos sejam pincel e escrevam no teu corpo as letras do meu desejo. Quero fazer, da saliva, tinta, desenhando os indecifráveis signos da fome no ventre. Quero as narrativas sem sentido e as palavras cantadas como gemido na tua boca. Quero fazer do teu corpo mata-borrão do prazer que me sei dar. Quero deitar a cabeça no teu colo como se fosses livro e sugar-te como se ler fosse em quente sabor na língua. Quero as histórias do prazer em tatuagens passageiras pra começar a reinventar-nos logo a seguir do gozo. Quero esquecer os imperativos, a primeira pessoa, o verbo querer e deixar-me, pele, papel, pincel e letra, tudo eu, tudo teu. Até que, de novo, seja eu a escrever: quero.

Tatazão

Por Érika Meneses*

Começo esse post pedindo desculpas pela incompletude das informações que vou oferecer. Quando a Luciana Nepomuceno me fez o convite – que muito me honrou – para dar uma contribuição ao Biscate Social Club, apresentando alguma personagem de que eu gostasse, eu só consegui pensar NELE: o Zé Tatá. O pedido de desculpas tem a ver com o fato de que, mesmo sendo esta uma figura histórica, que permanece no imaginário de nossa cidade, inexistem registros oficiais e pesquisas sobre sua história de vida. Para escrever esse texto, me baseio em crônicas de Blanchard Girão e Zenilo Almada, memorialistas cearenses, e nas narrativas de mulheres que foram prostitutas nas décadas de 1960 e 1970, na cidade de Fortaleza. As mulheres às quais me refiro foram personagens da minha dissertação de mestrado, sobre histórias de vida de ex-prostitutas idosas. E todas se recordam do (grande) Zé Tatá.

Esse personagem, mais que digno de figurar na quinta cultural do Biscate Social Clube, foi um proprietário de cabarés que se tornou famoso na noite fortalezense, lá pelos idos de 1960. José Vicente de Carvalho, vulgo Zé Tatá, foi o primeiro homem de Fortaleza a assumir sua homossexualidade, anunciando a quem quisesse ouvir que gostava, sim, de homem. Era conhecido por exigir respeito e não tolerar desrespeitos à sua pessoa. Zé Tatá garantia, por meio da fama de valente, a liberdade de circular pelas ruas do Centro da cidade sem ser importunado pela molecagem cearense. A força física era seu salvo-conduto para ir e vir livre das zombarias contra sua homossexualidade assumida.

Em suas crônicas sobre o meretrício em Fortaleza, Zenilo Almada dá destaque à figura de Zé Tatá, e o descreve como um homem alto e corpulento – aproximadamente dois metros de altura, pesando quase 120 quilos, “sempre bem trajado, sem muita afetação, com sandálias quase femininas, mas com roupas adequadas”. O cronista relata que Tatá participava do carnaval da cidade, no conhecido bloco das Baianas, fantasiado de Carmen Miranda – sempre sob aplausos.

Almada enumera, entre as casas de prostituição que foram de propriedade de Zé Tatá, a Pensão Ubirajara, na rua Major Facundo, no quarteirão entre as ruas Senador Alencar e São Paulo; a Boate Tabariz, que ficava no número 120 da rua Pessoa Anta, e a Pensão Hollywood, na Barão do Rio Branco.

Em uma escala de “elegância” no meretrício, as casas de prostituição de Zé Tatá são descritas, pelas próprias prostitutas que viveram o período, como um ponto intermediário entre o glamour das pensões galantes – casas de prostituição com orquestras e bailes, no Centro da cidade – e os prostíbulos menos sofisticados, localizados na antiga zona conhecida como “o Curral das Éguas” (sim, Fortaleza já teve uma zona de meretrício com esse nome infame. Passou a existir na década de quarenta, após uma ordem do prefeito que resultou na expulsão das prostitutas das ruas centrais da cidade para casas em um local mais discreto, na descida da rua General Sampaio, por trás da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe. Décadas depois, no final dos anos 60, as casas de prostitutas do Curral das Éguas foram removidas pelo governo estadual, para construção da avenida Leste-Oeste. Mas essa é outra história). Nas palavras das minhas entrevistadas, as mulheres do Zé Tatá não eram consideradas as prostitutas mais chiques da cidade, nem as mais bem remuneradas. Elas eram submetidas à vigilância constante do dono da casa, que cuidava para que os clientes fossem bem tratados e não tolerava confusões em seus estabelecimentos. A figura de Zé Tatá é erigida, nos discursos das mulheres da época, como um mito, a tal ponto que primeira referência que ouvi sobre ele foi: “nessa sua pesquisa você já falou de Zé Tatá? Porque se tu falar de prostituição em Fortaleza, e não falar em Zé Tatá, tu não falou foi nada!”.

A última casa de prostituição que Zé Tatá possuiu ficava próxima ao atual Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na avenida Alberto Nepomuceno. Pouco tempo depois da morte de Zé Tatá, a cidade de Fortaleza via desaparecer a era das pensões de meretrício, com seus salões apinhados de prostitutas excessivamente arrumadas, ostentando maquiagens marcadas e vestidos longos de veludo ou lamê em cores berrantes. A velha molecagem cearense deu um jeito de “mangar” – ou prestar sua última homenagem? – e apelidou de Tatazão o primeiro viaduto da cidade, construído nas proximidades da antiga casa de prostituição.

A história dele me impressiona demais. Já procurei registros em jornais antigos, em fontes variadas, com pouco sucesso nas buscas. O “Tatazão” resiste como um mito e como uma existência contada em poucas linhas – afinal, não é o tipo de história que interessa do ponto de vista oficial. Sabe-se que existiu, que foi biscate – ele mesmo – que foi chefe de um tanto delas –  e que prezava sua liberdade.

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*Érika Meneses é cearense arretada, bem-humorada e aquele ar de quem, distraída, vai aprendendo o mundo. Tem 28 e almeja se tornar uma verdadeira biscate – uma mulher que não quer abafar ninguém, mas faz o que quer, sem sofrer, sem se preocupar com o moralismo alheio. É jornalista, mestra em sociologia e está convencida de que não existem vidas comuns. Toda existência é extraordinária.

Como Ser Uma Biscate – Piaf

Por Liliane Gusmão*

Nascida em 1915 e morta aos 47 anos em 1963. Ela cantou o amor, ficou conhecida primeiro como pardalzinho “Môme Piaf”. Ela amou e muito. Seus romances foram a inspiração para sua música, o amor foi a força da sua arte.

É adorada até hoje na França e no mundo inteiro. Edith Piaf a biscate que primeiro me inspirou. Encontrei-a na minha adolescência, nos vinis da coleção do meu pai e passei muitas tardes embalada na melodia da sua voz. Naquela época não entedia o que ela dizia mas sua música me encantava assim mesmo. Me interessei em aprender francês pela primeira vez por causa dela, para entendê-la.

Com o tempo a minha admiração só cresceu pela força e coragem dessa biscate. L’hymne à l’amour, Padam Padam, Milord, La vie en Rose, Non Je ne regrette rien entre tantas embalaram os dias de melancolia da minha adolescência.

Esses dias escutei a música de Michel Emer: “A quoi ça Sert l’amour” que ela cantou em dueto com seu último marido Theo Sarapo. Essa música me inspirou a escrever esse texto.

Na música ela explica para que serve o amor. Edith era uma mulher livre, que viveu com intensidade todos os seus amores. Só quem amou como Edith, sem travas ou convenções e sem arrependimentos. Só quem, como ela, se entregou livremente, sem amarras e intensamente, pode explicar para que serve o amor. Ela diz na música: o amor serve para amar, depois de passar o amor nos deixa na boca o gosto de mel dos dias que passamos amando. É isso que alimenta nosso coração enquanto outro amor não vem.

O que pode ser mais biscate que amar assim sem freios, sem normas e expectativas. Amar pelo amor, pelo gosto de amar, viver para amar e se fazer amar. Entregar-se generosamente sem esperar nada em troca, sem requerer contratos e compensações. Há que se ter muita coragem, para nos entregar nos braços dos amores e gozar de todos os seus desejos.

A coragem de ser do amor sem se importar em conquistas eternas, casamentos ou convenções sociais. A coragem de sofrer o que for preciso e depois de ter tido a chance de amar, se refazer e não perder a próxima chance de ser e fazer feliz. Seguir em frente, seguir vivendo e amando, sem amarguras, sem arrependimentos, sem medo, sem reservas.

A coragem de se entregar ao amor não pelo medo da solidão ou qualquer outro motivo, e sim pelo prazer do encontro. A coragem de fazê-lo quantas vezes forem necessárias até que encontremos o amor que ficará conosco até o dia de nossa morte.

Amar em todas as oportunidades deixar-se encher de lembranças boas e doces com as pessoas que o amor nos entrega. Levantar-se após as quedas disposta ainda a continuar amando sempre e ser para sempre amada por tantos, por todos. Assim foi Edith.

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* Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 38 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna. É autora do Ponto de Fuga.

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

Sem Medo de Ser Nina Simone

Por Amanda Vieira*

Aviso: esse texto é pra ser lido ouvindo Nina Simone – veja as sugestões de trilha sonora ao longo do texto

Ouvir Nina é como se transportar para um lugar onde qualquer um pode dançar. Ela te pega pela mão, te joga para o alto. Roda com você até você flutuar, criar asas, sair do fundo do poço. Nem que seja por alguns minutos ela leva você pra um lugar que você nem sabia que existia – e que estranhamente você reconhece como se fosse sua casa, sua festa, seu mundo. Ela não fala português, ela canta em inglês – língua que eu pouco ou nada conheço. Mas a música dela diz tantas coisas que é muito fácil dançar com ela, se encantar, se entender com toda a arte dela.

My Baby Just Cares For Me

Difícil é falar sobre Nina Simone com toda a graça, a profundidade e a leveza que ela desperta. Nina nasceu Eunice Kathleen Waymon, nos Estados Unidos em 1933. Sua infância foi humilde: nasceu numa família simples, filha de uma empregada doméstica e de um mestre de obras. Desde muito cedo já tocava piano e cantava ao lado das irmãs no coro da Igreja Metodista dirigida pela mãe. Ainda menina viveu na pele a situação ambígua de ser aplaudida e sofrer preconceito ao mesmo tempo.

Ter talento ajudou Eunice a conseguir uma vaga na prestigiada Escola de Música de Julliard, em Nova York, onde estudou piano. Mas talento e estudos não eram suficientes para que uma mulher negra pudesse brilhar numa sociedade racista como a norte americana das décadas de 1940 e 1950. Era preciso muita rebeldia. Para driblar as adversidades, Eunice adotou o nome artístico Nina Simone aos 20 anos. Assim, ela podia cantar Blues, conhecida como “música do diabo”, nos cabarés de Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City, escondida de seus pais, pastores metodistas. Ser mulher negra e viver de música num país como os Estados Unidos da década de 1950 era um desafio enorme. Há registros de que ela sofreu violência doméstica: teria sido espancada marido. Nina Simone teve que dançar muito pra encontrar seu sol: abraçou publicamente todo tipo de combate ao racismo em seu país.

Here Comes The Sun

O fato é que ela lutou não só por um lugar pra ela, mas por toda uma geração de mulheres negras. Dizem que ela rejeitava o rótulo de “musa do jazz”. Ela poderia dizer que este é o título que todo branco concede, piedosamente, aos cantores negros. Nina Simone cantava jazz muito bem, obrigada, mas não se restringiu a isso: gravou canções de protesto como “Four Women”, pelos direitos femininos e “Young, gifted and Black”, canção inspirada no Movimento Panteras Negras (do qual era militante). Cantou no enterro de Martin Luther King. Cantou a música “Mississippi Goddamn” que fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963, e que se tornou um hino ativista da causa negra. Gravou também músicas populares como “Here Comes the Sun”, dos Beatles; “My Sweet Lord”, de George Harrison, e até música “Pronta pra cantar (ready to sing)” com Maria Bethania.

Nina Simone morreu na França aos 70 anos, em 2003. Deixou uma filha, Lisa Simone. Não vou dizer que Nina vive para sempre nos corações dos fãs porque ela não queria ser vista como musa ou deusa intocável. Gosto de lembrar simplesmente que Nina Simone viveu e viveu muito bem, sem medo de abraçar as causas nas quais ela acreditava. Não se limitou aos padrões impostos, não se comportou como artista decorativa. Preocupou-se em viver, mesmo sem a aprovação da sociedade. Sem medo de ser Nina Simone!

Ain’t Got No…I’ve Got Life

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* Amanda Vieira é jornalista, paulista dando o ar de sua graça e profissionalismo em Brasília, mãe da fofa Sofia, feminista, de esquerda, ativista das lutas essenciais e justas e uma das pessoas lindas desse mundo que ajudam a mantê-lo habitável, “fazendo castelos de areia e soprando as brincadeiras dos outros”. Dá uma espiadinha no seu blog e a acompanhe no tuíter em @amanditas1904.

Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

Por Charô Nunes*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Num mundo onde as mulheres são todas loiras e devassas, no máximo variações do mesmo tema, mulheres e homens transitam entre o lá e o cá desse caldo cultural que alguns chamam de gênero, enterram clichês normativos e se libertam do sexo que por acaso carregam entre as pernas. Esse post fala sobre essas pessoas que destroem as barreiras entre os sexos e difundem a ideia radical de que nós mulheres somos gente.

Enjoy.

Oi, quem tem medo de Gracyanne Barbosa?

Ao olhar para o corpo milimetricamente desenhado de Gracyanne Barbosa alguns sentem que algo está fora de lugar. Um dos blogues mais influentes do país chegou a afirmar categórica e irresponsavelmente que em seu corpo há menos Gracyanne e mais Barbosa. Infelizmente, o twitter também serve de termômetro nesse caso. Porém, ao contrário do que muitos gostariam de admitir, Gracyanne é mulher e aquele corpo também é o de uma mulher.

E aí que enrolam e assam o pepino.

Se ela é mulher e eu sou homem hetero, existe a possibilidade de eu vir a gostar de uma mulher fisiculturista. Mas não existem (ou não deveriam existir) mulheres praticanto fisiculturismo, esse esporte de homem. Logo Gracyanne é traveco ou não é uma pessoa, mas sim uma coisa, “um troço”. E se eu achá-la bonita mesmo assim, eu tenho de “trocar de time” e me assumir como gay.

Se ela é mulher e eu sou mulher, então eu tenho de questionar as possibilidades de meu próprio corpo. Melhor afirmar que ela é homem do que encarar a ideia de que meu corpo, se malhado, possa vir a ser como o dela. Mas existe um cenário ainda mais assustador: se ela é mulher então pode ser considerada mais bonita que eu. Como rainha de bateria, ela o é. Logo deve ser rotulada a qualquer custo como um homem.

As combinações são infinitas.

Mas existe uma constante: homens e mulheres competem continuamente para saber quem é mais viril (como se a virilidade tivesse sexo) e quem é a mais bonita. Gracyanne ameaça a todos, nas duas modalidades. Assim a primeira coisa que as pessoas fazem é negar sua humanidade e sua capacidade de ser amada. Por causa disso é nossa primeira (e maior?) musa improvável desse carnaval. Gracyanne Rules!

Laerte, a loira morena do banheiro

A Cultura gravou um Roda-Viva de carnaval com ninguém menos que Laerte Coutinho, a morena do banheiro. Tinha tudo para dar certo mas… Brochamos todos que vimos o programa: o entrevistado era muita areia para o caminhãozinho dos entrevistadores. Bloco após bloco a entrevista se arrastava. Parecia que faltava oxigênio no recinto.

A perplexidade diante de um homem trajando o vestido era tamanha que chegaram a perguntar porque ele/ela (ao gosto do freguês, segundo o próprio Laerte) não se veste de acordo com sua classe social. Afinal, se é pra ser mulher, que seja ricka. E quando perderam os pudores, queriam saber se mijava em pé ou sentado, se ainda poderia jogar futebol (esse esporte de macho, né Marta?). Veja bem, pode até se vestir de mulher, desde que continue homem.

E com todo esse furdunço Laerte continuou absolutamente serena. Se veste como bem entender e reivindica o direito de ir ao banheiro sem que ninguém (e todo mundo) tenha a ver com isso.

Mas nem tudo foi tempo perdido. Angeli estava preocupado em saber se é possível fazer humor respeitando direitos humanos. Très legal. E no meio da barbárie, Laerte insinuou o poliamor. Diz, quase sem dizer é verdade, que a monogamia não lhe serve. E conceitua a não monogamia como prática anticapitalista.

Claro, foi tudo en passant.

Ainda assim, foi mais que suficiente para tornar a morena do banheiro ainda mais atraente. É musa improvável e inconteste.

Vânia Flor: gorda, porém casada

Ter samba no pé. Esse deveria ser o único quesito para ser musa de carnaval. Mas na prática a teoria é outra. As rainhas e madrinhas de bateria são todas brancas, magérrimas. No carnaval, as gordas desaparecem e as negras são descaracterizadas (lentes de contato azuis, apliques, descoloração dos fios). Ainda assim, Vânia Flor foi o nome do carnaval 2012. Ainda que negra e gorda. E justamente por isso.

E como era de se esperar, falou-se em dieta, quantidade de quilos (104, para ser mais exata). E uma enxurrada de elogios. Daqueles elogios que na verdade dizem que Vânia deveria se odiar, fazer dieta e ficar escondida em casa. Porque, com esse tamanho, tem de se amar muito e se assumir antes de sair de casa, e coisas do tipo.

Até que (nada é tão ruim que não possa piorar) uma comentarista da Rede Bobo (não lembro o nome) disse algo mais ou menos assim: “Ela é gorda, porém casada. E o marido é magro”.

Nesse momento desceu a Teodora em mim.

Say no more.

E pra concluir…

Obrigada pela paciência de ler um post assim enorme, um postão.

Com direito a dedicatória e o escambau: beijo para todas as mulheres que mijam em pé, que não gastam horas a fio com manicure. Que sujas, não depilam as axilas e virilhas. Para as que adoram puxar um ferro. Para aquelas que dão a mínima para a ideia de se vestir bem. Beijo para negras e gordas. Especialmente negras gordas. Sobretudo aquelas que ousaram se casar e ainda acharam escolheram um magro (só pode ser louco) para chamar de seu.

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Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

"A vida era boa, bastava viver"

Este post não é meu.

É de Jorge.

Jorge Amado, que me soprou pelo ouvido: "Gabriela, biscate, cravo, canela..."

Eu só busquei os trechos. Ele me soprou pelo cangote, que essa quinta era dela.

“Era um gato vadio do morro, quase selvagem. O pêlo sujo de barro com tufos arrancados, a orelha despedaçada, corredor de gatas da vizinhança, lutador sem rival, visagem de aventureiro. Roubava em todas as cozinhas da ladeira, odiado pelas donas de casa e empregadas, ágil e desconfiado, jamais tinham conseguido pôr-lhe a mão. Como fizera Gabriela para conquistá-lo, obter que ele a acompanhasse miando, viesse deitar-se no regaço de sua saia”

Não me lembro da novela. Nem da cena do telhado. Menos ainda do filme.

Mas Gabriela me encanta desde que a conheci. Em papel cheirando a mofo.

Quem era aquela, aquela que se conhecia e se bastava?

“Estava contente com o que possuía, os vestidos de chita, as chinelas, os brincos, o broche, uma pulseira, dos sapatos não gostava, apertavam-lhe os pés. Contente com o quintal, a cozinha e seu fogão, o quartinho onde dormia, a alegria quotidiana do bar com aqueles moços bonitos – o professor Josué, seu Tonico, seu Ari – e aqueles homens delicados – seu Felipe, o Doutor, o Capitão – contente com o negrinho Tuísca seu amigo, com seu gato conquistado ao morro.
Contente com seu Nacib. Era bom dormir com ele, a cabeça descansando em seu peito cabeludo, sentindo nas ancas o peso da perna do homem gordo e grande, um moço bonito. Com os bigodes fazia-lhe cócegas no cangote. Gabriela sentiu um arrepio, era tão bom dormir com homem, mas não homem velho por casa e comida, vestido e sapato. Com homem moço, dormir por dormir, homem forte e bonito como seu Nacib.”

Gabriela ficou imortalizada com os traços de Sônia Braga, uma Sônia Braga jovem e cabocla, cabelos anelados ao vento, cangote moreno, pernas roliças. Uma Sônia-Gabriela.

Imortalizada na letra de Dorival Caymmi, na voz de Gal Costa.

Descrita por um homem, por um homem que amava as mulheres, por um homem que amava as biscates e que descreveu as maiores personagens femininas da literatura moderna brasileira (sim, eu amo, e sou parcial. Não gostou? )

Gabriela.

Gabriela, cravo e canela.

Flor no cabelo, Gabriela.

Quando Nacib partiu, ela sentou-se ante a gaiola. Seu Nacib era bom, pensava ela, tinha ciúmes. Riu, enfiando o dedo por entre as grades, o pássaro assustado a fugir. Tinha ciúmes, que engraçado… Ela não tinha, se ele sentisse vontade podia ir com outra. No princípio fora assim, ela sabia. Deitava com ela e com as demais. Não se importava. Podia ir com outra. Não pra ficar, só pra dormir. Seu Nacib tinha ciúmes, era engraçado. Que pedaço tirava se Josué lhe tocava na mão? Se seu Tonico, beleza de moço!, tão sério na vista de seu Nacib, nas suas costas tentava beijar-lhe o cangote? Se seu Epaminondas pedia um encontro, se seu Ari lhe dava bombons, pegava em seu queixo? Com todos eles dormia cada noite, com eles e com os de antes também, menos seu tio, nos braços de seu Nacib. Ora com um, ora com outro, as mais das vezes com o menino Bebinho e com seu Tonico. Era tão bom, bastava pensar.
Tão bom ir ao bar, passar entre os homens. A vida era boa, bastava viver. Quentar-se ao sol, tomar banho frio. Mastigar as goiabas, comer manga espada, pimenta morder. Nas ruas andar, cantigas cantar, com um moço dormir. Com outro moço sonhar.
Bié, gostava do nome. Seu Nacib, tão grande, quem ia dizer? Mesmo na hora, falava língua de gringo, tinha ciúmes… Que engraçado! Não queria ofendê-lo, era homem tão bom! Tomaria cuidado, não queria magoá-lo. Só que não podia ficar sem sair de casa, sem ir à janela, sem andar na rua. De boca fechada, de riso apagado. Sem ouvir voz de homem, a respiração ofegante, o clarão dos seus olhos. Peça não, seu Nacib, não posso fazer.
O pássaro se batia contra as grades, há quantos dias estaria preso? Muitos não eram com certeza, não dera tempo de acostumar-se. Quem se acostuma com viver preso? Gostava dos bichos tomava-lhes amizade. Gatos, cachorros, mesmo galinhas. Tivera um papagaio na roça, sabia falar. Morrera de fome, antes do tio. Passarinho preso em gaiola não quisera jamais. Dava-lhe pena. Só não dissera pra não ofender seu Nacib. Pensara lhe dar um presente, companhia pra casa, sofrê cantador. Canto tão triste, seu Nacib tão triste! Não queria ofendê-lo, tomaria cuidado. Não queria magoá-lo, diria que o pássaro tinha fugido.
Foi pro quintal, abriu a gaiola em frente à goiabeira. O gato dormia. Voou o sofrê, num galho pousou, para ela cantou. Que trinado mais claro e mais alegre! Gabriela sorriu. O gato acordou.

Gato ao sol. A vida é boa.

A vida é boa, basta viver.

[os trechos são de Gabriela, Cravo e Canela, obra de Jorge Amado, publicada em 1958. Não leu ainda? Está perdendo…]

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