Beleza é subjetivo?

Semana passada, me senti muito mal com um comentário que me contaram sobre mim. Me contaram sobre um papo que rolou sobre mim, que eu tinha o rosto feio, que a única parte bonita do meu corpo é a minha bunda. Me senti um lixo, ouvi muito isso na adolescência, que era feia de rosto e tinha a bunda bonita. Adolescentes sofrem muito com a opinião dxs outrxs, eu me lembrei muito daquele momento quando ouvi o comentário.

Machucou demais, mas parei pra enxergar o que aquele comentário queria dizer. Padrões de beleza racistas e gordofóbicos, que dizem que negras são feias, gordas são feias, se for as duas coisas, mais feias ainda. Dizem que beleza é subjetivo, mas é, na verdade, uma construção social, você se interessa pelo que sempre lhe foi mostrado como belo. Através da história das artes visuais, notamos o quanto essa “subjetividade” se adapta aos padrões da sociedade e seus preconceitos.

E, sim, o tesão também é uma construção social, então, se excitar com mulheres loiras, brancas e magras vem sim de como você foi criadx em uma sociedade racista e gordofóbica, você aprendeu a desejar a loira magra e enxergar a negra e gorda como uma mulher “com qualidades, mas não tão bonita” ou “com um rosto tão lindo, mas não se cuida” ou ainda assim “tão bonita, mas o cabelo não combina com ela”.

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Eu me desconstruo todos os dias pra me enxergar bonita e desejável aos meus próprios olhos, pois também sou fruto da sociedade, é difícil, luto contra tudo que absorvi por 30 anos vivendo em contato com o mundo. É esquecer o preconceito, o bullying e tudo que já ouvi de preconceituoso e seguir adiante, me transformando e transformando quem passa por mim. Afetando as pessoas e fazendo–as compreender que a beleza precisa ser desconstruída, no dia a dia. Calma e pacientemente.

Uma negra na capa da Playboy

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Quando era criança, o mês de maio era celebrado como o “mês das pessoas negras”, por causa da assinatura da Lei Áurea. Com o fortalecimento e ampliação do movimento negro, o mês de novembro passou a concentrar as demandas de luta e cada vez se fala menos na “abolição da escravatura”. Esse foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu ao ver que na edição de maio da revista Playboy brasileira, havia uma mulher negra na capa.

Ivi Pizzott é bailarina do “Domingão do Faustão”. A nona negra, em toda a história de quase 40 anos da revista no Brasil, a sair na capa. Meu pai assinou por anos a revista e, em minha memória, só consigo lembrar de Isabel Fillardis, num cenário de dunas.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

As primeiras críticas que vi, falavam que não há nada de novo em ter uma mulher negra sexualizada na capa de uma revista. Não há empoderamento, não há representatividade. É fato que na mídia a mulher negra é ou hiperssexualizada ou invisibilizada, e nos contextos capitalistas o poder dificilmente muda de mão, mas me questionei: nos dias de hoje, essa capa da Playboy pode representar algo?

Se a Playboy existe, num mundo em que corpos femininos são comercializados para o prazer, especialmente masculino, o fato de termos apenas 9 negras num universo de mais de 400 edições da revista é a comprovação que os corpos dessas mulheres não servem nem mesmo para essas revistas, são cruelmente mais descartáveis.

Trago para a reflexão um texto, que considero clássico, de Charô Nunes: Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! A maioria dos elogios feitos as mulheres negras foca em seus atributos físicos opulentos, retirando-lhes humanidade, colocando-as no açougue, exatamente o trabalho de uma revista como a Playboy, que vende corpos femininos. Especialmente tendo uma capa que remete a etnicidade com os acessórios e exibe o cabelo de Ivi como uma grande coroa, temos a referência animalesca com a chamada que diz “solta suas feras”. Uma questão parece ser o espaço social que o racismo nega e que ainda mantem negras e negros acorrentados a representações legitimadas pela branquitude. O mesmo cabelo que na capa da Playboy é destaque e elemento componente da construção do desejo e apelo sexual, em outros é ridicularizado e tratado como abjeto. Não parece ser a mulher negra que decide como seu corpo lhe agrada mas a narrativa, as fotografias, os discursos externos que são feitos sobre esse corpo.

Porém, negras e negros também são pessoas que desejam, também são corpos desejantes, que muitas vezes gostariam de ver mulheres e homens negros lindos, gostosos, sedutores, todo mês em revistas que pudessem ser folheadas com prazer. A expressão da sexualidade acaba por ser mais um espaço a ser conquistado, um espaço em que negras e negros não precisem existir apenas para servir, apenas para ser a bunda do carnaval ou o maior pênis da festa gay.

Então, há essa luta pela liberdade dos corpos. A luta por uma estética que não seja eurocêntrica, exotificada, ridicularizada ou hostilizada. É preciso reconhecer que a objetificação do corpo das mulheres negras ocorre de formas diferentes a da mulher branca, portanto é preciso levar em consideração também outras formas de representação e vivência de sua sexualidade.

E há inúmeras perguntas que acompanham: o protagonismo individual de Ivi Pizzott pode significar ganhos dentro da teia capitalista, que vislumbra um poder também individual? Porque posar nua, ver-se nua numa revista famosa, traz novas formas de se olhar. Talvez seja também o sentimento que carrega a passista nua da escola de samba, que tem no momento do desfile o seu auge individual. Coletivamente, para as mulheres negras não há mudanças, mas individualmente pode haver significados diversos? E caso sim, como acolhermos e legitimarmos os desejos e ações individuais sem perder de vista os compromissos coletivos de transformação da realidade?

É uma capa da Playboy, mas é bom que até isso seja o catalisador de novas perguntas sobre o protagonismo das mulheres negras.

+Sobre o assunto:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Racismo

Por Niara de Oliveira

Não posso falar da condição de opressão imposta pelo racismo. Sou antirracista e me policio para não cometer racismo em minhas atitudes e falas há um bom tempo. Mas, independente do quanto me doa e indigne atitudes racistas, nunca saberei de verdade o quanto doi, humilha e destroi. O meu lugar de fala é do lugar que oprime. Gostando disso ou não, detenho privilégios raciais. Reconheço isso com tranquilidade e com a disposição de não piorar ainda mais a situação.

Negras e negros não precisam das minhas considerações, opiniões, autorização ou conhecimento sobre a realidade deles e nem mesmo que eu fale em seu nome. A realidade é deles, quem sabe são eles e quem fala em seu nome são eles mesmos. Tudo o que posso fazer é tentar não atrapalhar e principalmente recusar, não dispor dos privilégios que minha condição de branca me dão. De sua libertação cuidam eles.

A solidariedade necessária e urgente que negros e negras precisam é serem ouvidos quando dizem e apontam que estão sendo ofendidos e violentados. Basta não duvidar da palavra e da condição de vítima da opressão racial.

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Jogo Grêmio x Santos em Porto Alegre em jogo válido pela Copa do Brasil. O goleiro santista Aranha é xingado de “macaco” por centenas de torcedores na Arena do Grêmio. Apenas uma torcedora foi identificada e está sendo responsabilizada, embora fosse possível identificar e responsabilizar outros individualmente além da torcida da qual a moça faz parte, e que costumeiramene entoa cânticos racistas dirigidos a torcida rival.

Ok, a moça foi hostilizada de forma machista e misógina, o que não cabia e nem é resposta ou justiça ao seu ato racista, mas ela em nenhum momento reconheceu o erro, apenas tentou desesperadamente se justificar. Aranha não se comoveu e manteve a denúncia. O Grêmio foi condenado com a desclassificação da Copa do Brasil. A torcida gremista aos poucos foi se revoltando contra Aranha, a vítima, insuflada pela imprensa que teve suas intenções de armar a reconciliação entre vítima e agressora diante das câmeras (e faturar com isso) frustradas com a recusa de Aranha em participar do circo.

Dias antes de um novo confronto Grêmio x Santos em Porto Alegre agora pelo Brasileirão, o técnico gremista Luiz Felipe Scolari acusou Aranha de ter sido o “responsável pela confusão no jogo da Copa do Brasil, ao provocar a torcida gremista”. Sim, em uma semana Aranha foi de vítima a vilão por 1) não ter aceitado o papel de vítima, 2) por não ter aceito participar do circo proposto pela imprensa, 3) porque é consciente de sua condição e continua exigindo respeito e que a justiça seja feita no caso. Detalhe: não precisava. A postura de Aranha não atenua a violência que sofreu e nada, nada, nadinha do que ele venha a fazer ou dizer desfaz o crime cometido pela torcida gremista naquela noite.

Depois de passar a semana desfilando em programas de tevê e sites de notícias tentando justificar/negar seu ato racista, Patricia Moreira, a torcedora gremista flagrada xingando Aranha de macaco teve sua casa queimada em Porto Alegre e disse querer “ser um símbolo nacional contra o racismo”. Hã? E veio o anúncio de que foi contratada pela Ong CUFA (Central Única das Favelas) para contar sua experiência com o racismo. E ela ainda contou na entrevista já ter ficado com negros, o que — claro!!! — atesta que ela não é racista. HÃ??????????

Até eu que sou branca consigo ver que tem algo de muito errado nessa história…

Veio o novo jogo na Arena do Grêmio e a torcida gremista, toda ela, vaiou Aranha quando ele entrou em campo e toda vez que ele pegou na bola, confirmando que o ato racista contra ele não era um caso isolado mas uma prática cotidiana da torcida gremista. Dessa vez não o chamaram de macaco, mas o chamaram de “viado” e de mais uma dúzia de outros insultos. E as vaias tinham outro sentido além de apenas desconcentrar o goleiro adversário. E como já estava pouco de racismo, tinha que ter homofobia também. A imprensa? Na transmissão pelo no Sport TV (Globo) disse o repórter: “tá bonito o duelo atrás do gol entre o Aranha e os gremistas”. O bonito para o repórter era Aranha sendo vaiado e insultado. O mesmo repórter tentou colocá-lo em várias saias justas na entrevista após o jogo. Aranha tirou de letra, embora não precisasse, é um show de consciência e respeito próprio. Uma verdadeira aula de dignidade. Assistam aqui a entrevista de Aranha após o jogo de ontem (18) em Porto Alegre.

E só para mostrar que não é um caso isolado, vou compartilhar as notícias e discussões sobre racismo que me chegaram nos últimos dias. Nenhum é ameno.

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

A atriz americana Danièle Watts foi algemada pela polícia na rua, sob suspeita de prostituição. Segundo a polícia, lhe foi pedido que apresentasse identidade após “demonstração de afeto”. Ela e o marido branco estavam se beijando. Clique aqui para saber mais detalhes.

R10 macaco_carlos trevino

Ronaldinho Gaúcho se apresentou ao seu novo clube, o Querétaro da cidade de Querétaro, no México (segunda cidade mexicana mais rica) na última sexta-feira (12). A apresentação foi feita diante de 35 mil pessoas no Estádio La Corregidora no intervalo da partida válida pela séire do Mexicano, e trancou o trânsito da cidade. E foi por causa do engarrafamento que o político Carlos Trevino xingou R10 de macaco no facebook e disse não gostar de futebol. Trevino pediu desculpas, mas pelo twitter e já cancelou seus perfis em ambas as redes.

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta, atriz e cantora brasileira que dispensa apresentações, completará 70 anos de vida e 50 anos de carreira interpretando Sebastiana, empregada doméstica do elenco de apoio na novela das 18h da Rede Globo, Boogie Oogie. (*)

Estreou na Rede Globo “O Sexo e as Nega”, série que segue a linha de Sex And The City, só que com um narrador branco, uma protagonista branca, hipersexualização da mulher negra, o reforço do racismo e machismo quando as personagens negras em situações de discriminação e violência não reagem de forma positiva. Isso sem falar no título… A Charô Nunes e a Bia Cardoso escreveram muitíssimo bem a respeito e ainda virão outras análises bem apropriadas pelo seu lugar de fala e contestação.

A modelo Mahaneela Choudhury-Reid foi agredida fisicamente e xingada com insultos racistas no metrô de Londres. Mahaneela denunciou a violência sofrida pelo twitter e o diretor do metrô londrino diz que os 700 funcionários do metrô estão instruídos a orientarem as vítimas de casos parecidos a denunciarem na Polícia de Transporte Britânica (PTB), o que a modelo já anunciou que fará.

Cleide Donária, candidata ao governo de Minas Gerais pelo Partido da Causa Operária (PCO) relatou ter sido agredida, cuspida e ter ouvido insultos racistas e misóginos por defender a desmilitarização da Polícia Militar. O agressor deixou claro em meio aos insultos o motivo da agressão.

Presidenta Dilma Rousseff em campanha pela reeleição disse ‘ter muitos negros no segundo escalão’. Dilma encontrou com integrantes de movimentos negros e grupos de congado em Minas Gerais e durante entrevista sobre propostas de combate à desigualdade entre negros e brancos disse: “Eu tenho muitos negros no segundo escalão. E acho que isso reflete também o fato, por isso é muito importante a lei de cotas nas universidades. Nós temos de formar pessoas negras para ocuparem os postos mais altos desse país. Temos de fazer isso”, declarou. Juro que prefiro não comentar.

E essas foram as percepções de apenas UMA semana…

Racismo não se tolera, não se empurra pra debaixo do tapete nem se justifica. Racismo se combate. A começar ficando alerta com nossas próprias atitudes.

(*) percepção do Gilson que compartilhou em casa comigo e eu chupei pro meu texto.

A barbárie e o que tem de nosso nela

Por Niara de Oliveira

"O Sacrifício de Abraão", Candido Portinari

Candido Portinari

 

Os últimos dias-meses-anos têm sido especialmente difíceis para qualquer ativista dos Direitos Humanos e para quem sofre algum tipo de opressão. Lembro de ter lido e ajudado a produzir muitas análises de conjuntura no final dos anos 80 e início dos 90 que apontavam para o que estamos vivendo hoje: a barbárie. E não sinto nenhum orgulho em estar(mos) certa(os).

Pensou em pessoas se matando por comida? Sabe de nada, inocente! Matar por comida é um instinto que considero até justo, é a lei da sobrevivência no mundo animal. Mas somos os únicos animais a matar por motivos outros — que não os justos — e a destruir o lugar onde vivemos, piorando dia a dia a nossa “qualidade de vida” (vai entre aspas a expressão, porque está prestes a se tornar piada).

Mulheres morrem por abortos mal feitos, assassinadas pelo machismo. Favelados morrem assassinados pela polícia. Ciclistas morrem por um… ops! era para ser só brincadeira encostar o carro e desequilibrá-lo(a). Pedestres morrem pela pressa dos carros. Operários ainda caem de andaimes em obras e outros acidentes de trabalho. Índios ainda são assassinados pela conquista da terra.

O que todos eles têm em comum? Afora ciclistas e pedestres no trânsito e os índios, a maioria das mortes dos outros casos são de negros(as) e pobres.

O que nós temos com isso? Tudo. “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”, dizia Martin Luther King. Somos uma imensa massa silenciosa que permite todas essas atrocidades.

Na semana passada mais um negro foi assassinado pela PM numa favela carioca. Nada de novo. Acostumamos, e acostumamos a silenciar diante dessas mortes. Foram 500 mil mortes violentas na última década, dez mil desaparecidos, só no Rio de Janeiro. Douglas Rafael da Silva Pereira poderia estar entre os dez mil, junto com Amarildo, não fosse ele dançarino de um programa de tevê na Rede Globo. No entanto, Regina Casé, a apresentadora desse programa não se sente co-autora de seu assassinato e diz sofrer pelo colega. Mas, há pouco mais de um ano, promoveu em seu programa um circo para exaltar a política governamental que vitimou DG. Até quando fingiremos que não temos nada com isso? No primeiro programa sem o dançarino, em sua memória, a palavra assassinato sequer foi mencionada e ficamos todos com a impressão de que ele morreu em virtude de um desastre natural, dada a quantidade de vezes que a palavra tragédia foi repetida.

Nesse mesmo dia um episódio já comum e corriqueiro nos campos de futebol: um jogador negro foi alvo da sanha racista de torcedores. A novidade esteve na reação, instintiva e até admirável (se analisada isoladamente) de Daniel Alves. Mas é fato que ele e os demais jogadores negros não poderão ficar comendo todas as bananas jogadas em campo; terão de engolir (?) o racismo ou precisarão pensar em outra(s) forma(s) de reagir (texto do Blogueiras Negras questionando a orquestração dessa reação). Da reação de Daniel Alves “surgiu” uma campanha de marketing capitaneada por um outro jogador brasileiro, Neymar, que não se assume como negro (e mesmo que tenhamos muita boa vontade em supor que ele mudou de opinião de 2010 — quando declarou não ser “preto” — para cá, o fato é que não há nenhuma declaração dele desdizendo àquela, e foram vários os momentos em que ele se debateu com a questão) dizendo que “todos somos macacos” (me nego a usar a hashtag). Todos quem, cara pálida?

Não vi, me corrijam se estiver errada, nenhum(a) negro(a) que seja ativista do antirracismo que a tenha usado ou repetido. A campanha foi assumida por brancxs (muitxs inclusive declaradamente contra a luta dxs negrxs por direitos) e por negrxs que não se assumem como tal e tampouco são reconhecidos como referência da luta antirracista. Isso se resume a dizer que a campanha foi assumida por quem reproduz o racismo. Resultado: uma campanha de marketng supostamente contra o racismo que reforça o racismo. E podem até forçar a barra comparando com o uso do termo vadia pelas feministas ou nós que ressignificamos o termo biscate. Fomos nós, oprimidas e ofendidas cotidianamente com esses termos que nos apropriamos deles. Uma campanha capitaneada por alguém que não se diz negro chamando negros de macacos nunca será a mesma coisa. (e a nota ‘esclarecedora’ da agência responsável pela campanha ilustra bem o que direi a seguir). Isso é o opressor — e quem se coloca a seu lado fingindo não ser oprimido, mas sendo — dizendo ao oprimido: “divirta-se aí com o termo que uso pra lhe colocar no seu lugar, assuma o seu lugar, esse lugar que eu lhe dou, que permito que ocupes”.

O que isso tem a ver com a barbárie? Ora, se a intolerância passa a ser nomeada e “identificada” na fala e na luta dos oprimidos por sua libertação, estamos ou não vivendo a barbárie? Nesse momento são xs negrxs, feministas e esquerdistas acusadxs de intolerantes, vândalxs, promotores da desordem, enquanto quem reproduz os preconceitos estruturais posa em seu bom-mocismo e lucra com suas boas intenções. Sim, se a ordem é além de oprimir manter os oprimidos calados, óbvio que seremos desordeirxs.

Quem quer manter a ordem? Eu, NÃO!

Leia também:
Quando me gritaram “macaco!”, por Karu Vinícius
A bananização do racismo, por Ana Maria Gonçalves
Contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor!, por Negro Belchior
Macacos e vadias são a mesma premissa de ressignificação?, por Luka

Eu sou neguinha?

“era o que eu dizia:
eu sou neguinha?”

Enquanto neste final de semana rolava a Marcha das Vadias (não sabe o que é? tire suas dúvidas aqui) em algumas capitais do Brasil, eu, bisca escrevente deste club, vadia militante e adepta dos prazeres mundanos estava num convento. Não, eu não resolvi abdicar dos prazeres do mundo, mas é que foi na Casa das Irmãs da Misericórdia que aconteceu o segundo módulo do curso intitulado “gênero, raça, e enfrentamento a violência contra as mulheres”, oferecido por um coletivo feminista aqui do meu Estado.

Arrumei a mochila com poucas coisas e dois ônibus depois cheguei num local à beira mar, cercada de verde e expectativas. Iríamos tratar especificamente sobre racismo. Durante dois dias. E, bom, excetuando-se a companheira da Marcha que havia me convidado, eu não conhecia muita gente, na verdade quase ninguém.

Por pouco tempo.

Ao todo estavam presentes cerca de setenta mulheres. Índias, negras, mulheres de comunidades quilombolas, do sertão, da associação das empregadas domésticas, de diversas entidades feministas, de movimentos afro religiosos, enfim, mulheres como eu, mas também de realidades tão diversas da minha que me perguntei o que afinal de contas eu estava fazendo ali. Fiquei tímida ao me apresentar como “das vadias”, confesso. Logo eu. Pois é.

Aos poucos, nas conversas, nas trocas de experiências, no escutar atentamente o que dói em outras pessoas, vítimas de racismo cotidianamente, lembrei. Eu acredito na igualdade. Acredito, acredito mesmo. Com respeito às diferenças. E talvez por isso mesmo, não foi fácil reconhecer, que sim, tento disfarçadamente esconder a bolsa no ônibus ou acelero o passo na rua se avisto um negro.

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Também não foi fácil compartilhar a história da minha família. Onde meu avó negro era citado como moreno e suas filhas tratadas de forma diferenciada por sua viúva filha de Portugueses. Principalmente depois de saber que houve no Brasil um ideário de branqueamento, mecanismo social pensado para que em 2012 a população Brasileira tivesse 80% de brancos. Sim, teve um cara chamado Lacerda que fez esses planos e cálculos, acreditem.

Que eu, filha de pai “quase europeu”, talvez tenha sido uma das netas “prediletas” por esse motivo. Por ser mais branquinha e “afiladinha”, sabem? Sim, não foi fácil admitir finalmente que minha amada e doce avó era racista. E que a distribuição de afeto na minha família era medida também por tais parâmetros. Que eu, mesmo de forma inconsciente ou simplesmente quando me calo diante de uma injustiça, ainda ajudo a perpetuar essa herança terrível.

Também não ajudou saber que apesar de sermos o segundo País de maior população negra depois da Nigéria, 40,9% das mulheres negras jamais realizaram uma mamografia, enquanto apenas 26, 4% das brancas não fizeram o exame. Que essas mesmas mulheres têm um índice de mortalidade maternal 65,1% maior que aquelas. E que enquanto o homicídio entre xs brancxs diminuiu 25, 5% em 08 anos, esse índice aumentou 29,8% entre xs negrxs.

E como podemos continuar fingindo que o racismo não é existente e cotidiano e escolhe muito bem suas vítimas, afirmando que negros também são preconceituosos com brancos quando vemos um filme como esse aí embaixo? E não, não adianta dizer que essa é a realidade estadunidense, porque isso é tão verdadeiro aqui quanto lá, eu sei e você deve saber também.

Ou como continuar calada diante da necessidade de cotas nas Universidades Brasileiras, por simples justiça social, e diante das disparidades numéricas, quando numa dinâmica de grupo, anoto das companheiras frases como essas para um cartaz que perguntava se elas notavam o racismo em seu cotidiano?

Quando as pessoas me veem passam a mão no cabelo para ver se está arrumado.” (A., Negra)

““Eles” ficam olhando desde o jeito que a gente anda até como pega na colher.” (M., Índia)

Eu estava de uniforme e com uma bandeja, só pela cara feia dele eu não entrei no elevador.” (G., Negra)

No quilombo mulher tem que estar na roça, não pode estudar não.” (J., Quilombola)

Minha cunhada diz ao meu marido: Tu, casado com uma negra?” (M., Negra)

Minha madrinha me arrumava e ela dizia: Vai levar a negrinha? Então eu não vou!” (L, Negra)

Na universidade pediram para uma branca passar na minha frente na fila para solicitar uma documentação.” (M., Negra)

Enfim, ainda não consegui dimensionar o que me aconteceu nesse encontro, sei que foi lá que escancarei de vez as janelas, e encostada no parapeito do meu (falso) privilégio não foi nada fácil conter o grito de horror com o cenário que eu avistei. Mas sei que posso sair daqui e ir gritar na rua, no meio da praça, para todo mundo ouvir, exigindo o cumprimento do estatuto da igualdade racial, a capacitação dos profissionais que perpetuam o racismo institucional, brigando para garantir o exercício da cidadania para todxs xs Brasileiros. Mesmo que como agora, escrevendo ao som de Vanessa da Matta e dos grilos lá fora.

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

Fotografia retirada da página de facebook da Cunhã Coletivo Feminista

E não gostaria de fazer isso por culpa histórica ou pessoal, compaixão (por mais “nobre” que seja esse sentimento) ou me apropriando de vivências que não são minhas (já tenho minha cota delas), mas simplesmente porque se o racismo se fundamenta na noção de inferioridade ou superioridade racial, não quero ser melhor nem pior que aquelas mulheres, tão humanas quanto eu, e que tive a honra de compartilhar histórias.

Ah, e se você nunca se fez a pergunta do título, que é uma forma que pode ser tanto preconceituosa quanto carinhosa (oi, Bahia amada!)  de se referir as pessoas negras, deixa eu te contar uma coisa… O IBGE considera pardxs e negrxs como sendo todxs negrxs, no final das contas.

PS. Quer pensar mais sobre isso? leia o Blogueiras Negras. 

Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Um conceito essencial na luta pela igualdade travada por grupos minoritários é o de que a vitória de nenhum deles será completa enquanto outros continuarem a sofrer opressão, venha ela de onde vier. As lutas não são excludentes. É uma espécie de “mexeu com um, mexeu com todos”. Audre Lorde, poeta, negra e lésbica, disse que não existe hierarquia de opressão e que “sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo”. Um sub-gênero cinematográfico perfeito para ilustrar a interseccionalidade das lutas é o blaxploitation. Surgido nos EUA na década de 70, consistia em filmes onde os negros eram os protagonistas, não apenas narrativamente, mas invertiam as atitudes historicamente reservadas a esses personagens no cinema. Assim, o negro não mais se contentava em ser salvo pelo branco, mas assumia as rédeas de seu destino e ainda por cima tirava um sarro da autoridade botando o pé na mesa e rindo na cara do opressor. No more nice guy. And girl.

Um interessante desdobramento desse movimento foi a aparição de filmes policiais estrelados por mulheres negras. E aquela que talvez possa ser considerada o símbolo dessa onda é Pam Grier. Intérprete de Coffy, Foxy Brown e Sheba Shayne (não são os nomes de personagens mais legais de todos os tempos?), Grier ajudou a definir esse momento na luta pela igualdade racial e de gênero. Anos mais tarde, quando o blaxploitation era uma página virada na história do cinema, Pam foi trazida de volta ao centro dos holofotes por Quentin Tarantino em Jackie Brown, uma homenagem à estética daquele período.
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Um de seus melhores filmes na década de 70 é Foxy Brown, escrito e dirigido por Jack Hill. No papel-título, Pam interpreta uma mulher que, tendo seu namorado, um policial no programa de proteção à testemunha, assassinado por gângsteres, resolve partir para a vingança passando por cima até mesmo de seu irmão. Sem nenhuma vergonha de usar o corpo escultural para atingir seus objetivos, ela assume um trabalho de prostituta para se infiltrar na gangue. É incrível a naturalidade com que o roteiro lida com temas como prostituição e homossexualismo, especialmente se levarmos em conta que só há poucos anos esses assuntos têm tido um tratamento menos moralista no cinema mainstream. Foxy transita por bares de lésbicas e fica claro que aquele é um mundo que ela já conhecia. Em nenhum momento o trabalho das prostitutas é julgado, apenas a exploração dele pelos vilões. E aqui cabe outra observação: a líder da gangue e principal antagonista de Foxy é também uma mulher. Ou seja, os dois principais papéis de um filme policial são femininos. Você lembra quantos filmes assim foram lançados nos últimos 30 anos?

jackie-brownMas aquele que talvez seja seu melhor papel vem de um filho desgarrado do movimento. Jackie Brown, com todo o refinamento narrativo que Tarantino impõe a seus filmes, se coloca acima das obras que homenageia, pelo menos sob o ponto de vista puramente cinematográfico. Contando a história da aeromoça que tem que dar um baile em policiais e traficantes que querem enquadrá-la, cada um a seu modo, o roteiro coloca sua protagonista no mesmo patamar que os personagens masculinos, embora o caráter sexual dos originais setentistas não esteja tão presente. É verdade que Tarantino tem sua parcela de erros, incluindo aí o retrato um tanto caricato dos outros poucos personagens negros, mas sua protagonista é tão bem definida e a narrativa flui tão facilmente que esse defeito acaba se apequenando.

97f719f9fa1614196efc550d37d65606Grier também teve sua cota de bombas, como o horroroso, e por isso mesmo divertido, Black Mama, White Mama, de Eddie Romero. Mas ainda que seja um exercício amador de cinema, essa produção trazia a visão emancipadora do blaxploitation, com nossa heroína no papel de uma prostituta acorrentada a uma guerrilheira branca lutando para fugir das autoridades.

Depois de seu retorno em grande estilo no final dos anos 90, Pam Grier voltou a ser coadjuvante em produções menores, como na fase que se seguiu a sua explosão nos anos 70. Mas aquela época será sempre lembrada como um marco no cinema de afirmação das minorias. E Pam viverá para sempre nos sonhos eróticos e libertários de biscates e afins mundo afora.

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Eu tenho uma opinião

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.
“Meu melhor amigo e confidente é gay e apesar das nossas diferentes opiniões somos amigos.” — Joelma, Banda Calypso

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Dia desses, fiz coro e perguntei à Astrid Fontenelle porque nunca houve uma negra na banca do Saia Justa. Segundo a jornalista, o programa que já escalou atrizes como Maitê Proença e Luana Piovani, chamará uma negra “assim que precisarmos e tivermos uma excelente opção disponivel, ou a qualquer momento.”

Apenas isso é assunto pra lá de metro. Não entendo como é possível “discutir temas da atualidade, comportamento e relacionamento, sempre com a visão diversificada” sem uma única mulher negra em toda a trajetória da atração. Como não faltam mulheres negras de opinião no mundo e no mercado, questiono a real motivação de nunca terem escalado uma.

Mas falemos sobre aquele momento surreal em que Astrid Fontenelle ensaiou argumentar que não é racista dizendo que “só pra constar, se é que vocês não sabem: meu filho é negro“. Preciso dizer que não me foi nada agradável ver alguém que sempre admirei (sou do tempo que a jornalista era uma descolada VJ, veja você) se aproximando da fala de gente como Rodrigo Sant’Anna, Marco Feliciano e Joelma.

EQUAÇÃO DO PRIMEIRO GRAU

A notícia boa é que o mundo tem estado bem mais sensível aos direitos humanos, aos privilégios. Ninguém ousaria dizer que um misógino não poderia sê-lo por ter uma mãe. Em contrapartida, ainda é frágil a compreensão de que a convivência com pessoas negras, gays, trans, gordas e/ou pobres não é capaz de coibir a discriminação. Infelizmente, o “eu tenho um amigo _________________ (insira aqui alguma minoria)” virou a frase da vez.

Apesar da fragilidade dessa afirmação, muita gente tem insistido nessa ideia ao invés de colocar em xeque seus próprios preconceitos. Marco Feliciano fez questão de posar ao lado da mãe e do padrasto negros. Meses atrás, Rodrigo Sant’Anna se apressou em dizer que sua Adelaide é uma homenagem à sua querida avó. Joelma, após uma série de declarações homofóbicas, também declarou que tem um amigo gay.

Como se os melhores amigos, parentes e parceiros fossem diminuídos ao status de bolsa, acessório a ser retirado do armário quando convém – eu tenho uma amiga negra, eu tenho uma amigo gay, eu tenho um parente negro, eu tenho uma funcionária pobre; logo não sou racista, trans-homofóbico, etc. etc e etc. Como se o preconceito fosse uma simples equação de primeiro grau.

VISCOSIDADE

Falarei mais uma vez de Astrid Fontenelle. Desacredito que tenha agido de má fé mas saliento que o fato de ela ter um filho negro não serve de resposta à crítica pertinente sobre a ausência de uma negra no Saia Justa. Assim como o fato de Ronaldo Fraga ser, muito provavelmente afrodescendente, não diminui em nada a gravidade de sua homenagem com a tal da escultura de bombril.

É muito provável que você e eu, pessoas legais, sejamos parte de uma engrenagem podre alimentada pelos pequenos preconceitos que aparentemente são de ninguém. Afinal todos temos uma mãe, uma amiga negra, um funcionário pobre, uma conhecida lésbica. A pergunta que fica é – quantos de nós pensamos nossos amigos, parceiros e funcionários como sujeitas de equidade, de respeito, de direitos?

A grande questão é pensar a discriminação e o preconceito em sua orgânica viscosidade que toma de assalto as menores brechas, de forma silenciosa e potencialmente letal. É provável que estejam bem mais perto do que imaginamos apesar de nossos amigos gays, negros e gordos, ainda mais se considerarmos que somos uma sociedade estruturalmente racista, machista, transfóbica, gordofóbica e afins.

MAS COMO DIZER QUE NÃO SOU RACISTA?

Essa pergunta não faz muito sentido para mim, afinal é muito improvável que alguém que não é racista seja acusado de sê-lo. E se acontecer, a pessoa saberá refutar a acusação de forma muito tranquila, sem ter de fazer uso de amigos, parceiros. Ou melhor, reconhecerá que a coisa toda pode melhorar em diversos aspectos.

Por outro lado é igualmente complicado afirmar que alguém está imune ao preconceito. Quem não é racista reconhece essa fragilidade, entende a afirmação de que somos estruturalmente racistas, que todos podemos ter comportamentos indesejáveis vez ou outra, é necessária e bem-vinda…

charÕCharô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar ‘Humanidade’, relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.716/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.716/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando  espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara ‘Democrático de Direito’; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês PODEM LER AQUI.

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das ‘provas’ era algo cometer assédio sexual. Aqui outra notícia do mesmo fato.

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos), agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada ‘Ética’), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito ‘Direitos Humanos’.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal ‘brincadeira’repulsiva, lembramos:

‘Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus’  –
Onde não existe justiça não pode haver direito.

Assinam o presente,

 

Das diferenças entre nós e da Chica

Há muitas formas de preconceito e discriminação. Todas elas têm, no início, a mesma origem: o medo do diferente, do desconhecido. No início. Porque depois esse “medo” vai dando lugar a sentimentos menos nobres ou justificáveis, como nojo e ódio e conforme crescem se tornam anomalia social, apesar de sua aparência “natural”.

Dizer que uma mulher é fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta e apontar o dedo para ela achando que não tem o direito a sua sexualidade e a fazer o que bem entender com seu corpo é uma coisa. Todas nós, mulheres, sofremos isso em algum(ns) momento(s) da vida, sendo fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta ou não. Dizer preconceituosamente o que somos (?) e nos negar nossa sexualidade (a gente vai lá e assume ela do jeito que der) é diferente de achar que porque somos fácil-vadia-biscate-galinha-pirigueti-puta estamos ao alcance, a disposição de quem quiser “se servir”.

É aqui que está a diferença nada sutil entre nós, e precisamos ressaltá-la. Uma diferença de pele, de tom, de cor. As mulheres negras estão mais à disposição e ao alcance de quem objetifica a mulher e nosso corpo: herança ainda tão vívida do nosso passado de casa grande e senzala.

Mas, ao invés de fazer um rosário de lamentações sobre porque as mulheres negras — e também as biscates — sofrem mais discriminação que as brancas e fazer o discurso denúncia-vitimização, prefiro lembrar de uma negra, escrava, biscate até a raiz dos cabelos, que deixou sua marca no imaginário brasileiro da mulher negra e dona do seu corpo e vontade: Chica da Silva.

diferençasNão vou contar toda sua história porque há filme, contos e novela onde era o personagem central*, bem mais por sua atitude do que pelo concubinato de quinze anos com o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica (ou Xica) da Silva, “a negra”, ficou conhecida por sua atitude diante da vida e porque ela dava, e muito. E sabia usar sua sexualidade em benefício próprio. E usou o dinheiro que tinha para forçar ser aceita como sinhá. E foi aceita, a contragosto…mas foi! E foi feliz também, apesar dos pesares.

Há historiadores que colocam em dúvida sua existência, mas o que importa é a história que ficou e que se conta até hoje, como registro do agir de uma mulher livre, nada além do seu tempo, apenas dona de si. Quando se fala em Chica, costuma-se dizer que foi o dinheiro e o prestígio do concubinato com alguém muito importante que lhe conferiu segurança, a salvo da maldade, preconceito e injustiças sofridas por suas iguais. Ainda mais numa época em que a liberdade era uma questão de pele e o direito à fala uma questão de gênero.  Claro que a história dos negros no Brasil não é feita só de vitimização**. Teve resistência, e muita, e outras histórias lindas assim como a de Chica. Uma coisa é certa, num mundo machista e escravocrata somente o dinheiro não teria sido suficiente sem a atitude e o desejo pela liberdade. Sem sua alma biscate Francisca da Silva de Oliveira não seria Chica da Silva.

Dizem que Jorge Ben, antes de ser Benjor, teria dito que o “Xica dá” tem o significado que a sonoridade lhe confere, do verbo dar… “Xica dá”, dava e sambou tanto na cara da sociedade e tão antes de nós que mesmo que ela não tenha existido é preciso de alguma forma fazê-la uma figura presente em nossas mentes e corações.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulheres Negras 2012.

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* era o personagem central, não quer dizer que conte sua história de fato, lhe faça justiça ou não faça uma leitura preconceituosa ou moralista.

** nem os negros e nem as mulheres curtem o papel de vítima, mas é através do registro da vitimização que se prova a existência do racismo e do machismo, e é por isso que precisamos recorrer a ele mesmo quando preferimos falar apenas da luta ou da resistência.

 

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