De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

Carícias: de leve…

Ano novo começando e deu aquela vontade de falar de carícias… Aquelas pequenas, cotidianas, costumeiras, que podem virar um acontecimento. E tem esta receitinha que uso e vi sei lá onde. Provavelmente, numa revista feminina dessas “para agradar o parceiro”. Aí, a gente subverte tudo e vira uma folia a dois, pra nos agradar em primeiro lugar. Afinal, carícias podem apenas ser. Somente. Elas. E a pessoa que você quer.

Coloca óleo mineral num potinho, esquenta de leve no microondas, volta correndo pra cama e comece a brincadeira!

E com a pele besuntada, depois de palmas das mãos cheias e onipresentes, vem aquela outra parte que mais adoro.  O roçar das pontas dos dedos nas costas… Leve, mas longo e contínuo. Por horas. Saindo da omoplata, passando pela cintura, quadril e subindo de novo. Às vezes, desliza pro abdômen. Mas, nem sempre. As costas. Nas costas. E um ir se desmilinguindo toda. Virando pele. E silêncios. Quando muito, suspiros. Baixinhos. Um sussurro qualquer.

Tenho pra mim que se me mover os dedos vão se lembrar que estão ali e perceber que estão cansados. E de bruços, arrisco só um abrir de pernas. E os dedos percebem e escapam pra lá. E voltam repetindo o trajeto ao revés: quadril, cintura, omoplata, pescoço…

Posso gozar só nisso.  Com as pontas dos dedos nas minhas costas. E desse ir manchando o lençol de óleo. Há anos.

Daquele jeito fácil ou Vai De Buraco Quente

Acho carne moída uma das comidas mais deliciosamente biscates que existe. Dá (ui) pra tudo: pra recheio, pra cobertura, pra comer cru, no ménage do escondidinho, na suruba do mexidão (quase um pleonasmo!) ou pura como prazer solitário. E ainda passeia em todos os salões – desde no pastel do boteco até na massa fina com vinho tinto, num inocente PF pra crianças pequenas ou num chili ardido de fazer chorar.

Fico com a sensação que carne moída tem aquele prazer de sê-lo, apenas. Fácil. Frequente. Democrática e pronta praquela rapidinha apressada. Ai, que delícia, bendita carne moída!

A minha gosto assim: cheia de temperinhos, algumas ervinhas, cebola, tomate, pimentão e coentro. Sim, seus incréus que não gostam de coentro, revejam seus conceitos. Só digo isso.

Quando eu era criança, um dos lanches de maior sucesso no meu colégio de freiras era pão com carne moída. Só mais tarde descobri que o nome disso é “buraco quente”.

Sim, podem sorrir. Também tenho 12 anos.

E foi um “buraco quente” mais metidinho que experimentei dia desses. E antes que digam que gourmetizei a receita das freiras, apenas respondo que a delas faltava-lhe cor.

Tinha que preparar carne pruns 60 sanduíches, pelo menos, naqueles pães franceses dos menores feitos pra gente comer mais de uma vez repetida. Era minha primeira vez pra tanto. Deu até nervoso.

Fiz assim. Comprei uns 4 kg de carne e fui refogando na cebola, alho e sal grosso. Não sei de quantidades, amigues. Sempre acho que a quantidade do que nos apetece a gente descobre mesmo é sentindo, intuindo, provando, até chegar no sabor que melhor agrada. As vezes, prum prato vai de um jeito. Pra outros, um pouco mais. Ou menos. As vezes de um jeito diferente prum mesmo prato. Gosto de botar na mão e ir lambendo, até sentir que chega.

Como era pra muita gente, não coloquei condimentos. Fosse só pra mim, tinha um tico de cominho e pimenta do reino. Mas joguei uns oito tomates picados, seis ovos cozidos também picados e fui deixando o molho apurar. Dá pra colocar azeitona se você quiser. Mas não pus. Na verdade, eu me esqueci. E no lugar do coentro, usei salsão.

Repito: gente que não gosta de coentro. Não entendo.

Quando virou aquele molhão, dei por encerrada a feitura. Aí é servir.

Abra o pão por cima, tira o miolo, mas não todo, recheia com a carne, e está pronto seu “buraco quente”.

Coma feliz.

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Foto dos buracos meramente ilustrativa

Lidando com Nevascas

Angústia não pede licença. Não manda aviso. Não precisa de batedores. A angústia mora no sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando lhe dá agonia de ser ela mesma, ela, a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa. Percorre-me, em corredores que se tornam sombrios, lâmpadas que amarelam os cantos e aquele vento frio que assovia como a manter acordado o desespero. Ela, a Angústia, em seu desbotado estar, se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Corto cebolas pra nos alimentar e não confessar minha entrega. Ela revira os armários e desordena o tempo que eu pensava meu. É sempre frio por dentro quando a angústia faz a ronda.

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Pra sentir-me melhor e reconduzir a angústia pra seu embolorado sótão – porque embora ela só vai quando vamos todos: sonhos, esperanças, amores, alegrias, suspiros, até o último – tem que ter comida que conforta. E, como todo mundo sabe, há 3 coisas que fazem a vida ter sentido: açúcar, gordura e fritura (rá, vocês pensaram que eu ia dizer sexo, né?). Então, comida que conforta deve ter pelo menos um desses ingredientes. Se eu fosse de doces, abria logo uma lata de goiabada, uma caixa de chocolates ou fazia essa receita da Niara. Como não sou…

…quando é frio em mim, faço coisinhas. Tipo bruschetta (já disse como faço as minhas aqui mesmo nesse blog). Ou corto cubinhos de queijo coalho, tempero com azeite e ervas finas e coloco um minutinho no microondas. Linguiça no forno com mel pra comer com pãozinho de leite. Torrada com patê, farinha de castanha com queijo gorgonzola e uma taça de vinho branco seco. Ou os quitutes que outras biscas já fritaram e garantem.

Mas se é nevasca no peito, apelo. E convoco Ele. Isso mesmo. Bacon. Com carboidrato, então, é batata (#trocadilhoinfame). Deixa ele chegar como for. Em quadradinhos que se juntam ao gorgonzola e envolvem o penne (quase, quase #12anos), em fatias finas torradas com ovo pra acompanhar as torradas, com cogumelos dando novo status ao arroz cremoso, pode ser com requeijão e cebola no recheio de uma torta rápida com massa de pizza… pode ser envolvendo, amorosamente, nosso rocambole de carne. Pode, pode, pode, desde que seja ele, a frigideira e aquela crocância que faz, de quase todo mundo, um devoto fiel.

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Um dos jeitos mais legais: pega aquelas batatas miudinhas e coloca pra cozinhar por uns dez minutos em água temperada com aqueles tabletes de caldo de bacon. Depois faz uma pasta com manteiga, azeite, alho amassado, pimenta-do-reino e mais as ervas que você curtir. Passa nas batatinhas com vontade. Luxúria. Deixa a batatinha lambuzada. Aí embrulha com aquelas fatias finas de bacon, prende com palito e coloca no forno por mais ou menos meia hora (até o bacon ficar crocante). Se não tiver a batatinha miúda? Ué, biscate improvisa. Cozinha a batata maior conforme indicado, amassa como se fosse fazer um purê, faz as bolinhas, espalha a pasta e cobre com os bacons da mesma forma.

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Se não resolver com bacon, bom, aí só com sexo mesmo 😉

A fórmula única – garrafas aos mares

Tem dias que tudo é dúvida. Todo dia, na verdade, é dúvida. E eu penso se estou me perdendo em batalhas perdidas, afundando em derrotas e amarguras.

Tem dias que é Adelir, grávida e em trabalho de parto, sendo arrastada no meio da noite, com um mandado que violou não só a lei federal, a Magna Carta, mas a mais fundamental parcela de dignidade de um ser humano: autonomia.

Tem dias que é brigadeiro de colher e carne moída com batatinha, sabor de colo e aconchego.

Tem dias que a inspiração não vem, sobre nada. Tudo de profundo e relevante já foi dito, por alguém que diz melhor que eu o que eu quero dizer. E só cabe compartilhar, curtir, curtir mil vezes, postar dez vezes o texto fantástico que, olha que fantástico, as vezes foi escrito por gente que eu conheço e gosto pessoalmente.

Essa internet é muito boa, no final das contas. Se permite que grupos de ódio se propaguem, garante também que nós possamos denunciar.

Se permite que personagens caricatos à esquerda e à direita se revelem, de forma anônima e invisível e covarde, garante que a gente possa se juntar, dez doze vinte cem, e formar nossos coletivos de amor. Nosso clubinho.

Sabem, mesmo quando a gente acha que não tem ninguém lendo, nem se importando, a gente pode estar sendo aquela garrafa lançada ao mar e encontrada pelo náufrago, à deriva ou nem tanto. As vezes somos todos náufragos. As vezes o mar é terra firme e concreto, e estamos à deriva.

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Ontem eu li um artigo de um blog sobre criação de filhos com apego. E foi logo depois de ter lido um amigo postar aquele quadrinho da Super Nanny.

E como é que a gente fazia antes, quando não tinha tanta “corrente” dizendo como é que devemos ser/estar/parecer? Como a gente criava filho?

A Deborah Leão respondeu lindamente à minha angústia: “Antes era assim: você fazia como a sua mãe. E cada mãe fazia de um jeito, mas a gente não sabia bem disso. Algumas coisas davam mais certo, outras davam mais errado, mas a humanidade está aí criando filho não é de hoje. (…) Mas isso é meu. Vai ser o meu filho. A minha criação. Vai ter hora em que eu vou deixar chorar, vai ter hora em que vou pegar no colo. Vai ter hora em que vou estimular o apego, vai ter hora em que vou ter certeza que o melhor pra ele é algum distanciamento. E vai ter hora em que eu não vou ter certeza de nada. Já não tenho. Faz parte. Não sofre com isso, não, Rê. Já tem angústia de mais na experiência toda, a gente não precisa acrescentar, não.”

E ai eu pensei também numa mensagem que recebi outro dia, eu também náufraga, na qual uma pessoa que eu conheço pouco e admirava quando conheci, à distância dizia que se sentia feliz em saber que havia mais gente que pensava como ela (no caso, eu) e agradecendo por postagens minhas numa rede social (onde eu sou daquelas que postam “demais”) pois a faziam sair da zona de conforto (acho que saímos juntas dessa zona).

E voltando ao começo, eu acredito que esse clube, esse coletivo, assim como uma rede de amor e amizade, as vezes virtual mas sempre real, mora no meu coração porque não propõe uma fórmula única, não propõe sequer uma única fórmula. Se há algo que tentamos ter aqui é a proposta inicial:

“Este é um blog de princípios, os textos são concretude dos pensamentos individuais e revelam especificidades, mas não se afastam de uma reflexão abrangente e coletiva.

Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Sim, estamos falando desexo, mas não só.

Escrevemos por prazer. Aliás, é assim que tentamos viver. Beleza, Gentileza, Leveza, eis as musas.

Não sabemos de tudo. Muitas vezes suspeitamos que não sabemos de nada. Não escrevemos pra convencer ninguém, mas para expressar o que sentimos, pensamos, queremos. Tentamos construir diálogos.”

Jogamos mensagens em garrafas, esperando que um dia elas voltem, com a resposta ou só com um oi e um abraço.

Nos dias em que a gente tiver certezas, não vai ser tão divertido.

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Faça você também

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

Entradas

PAPAYA VERDE E PIMENTÕES

– torradinhas
– 1/2 unidade(s) de mamão papaya verde sem semente(s)
– 1 unidade(s) de pimentão vermelho em tiras
– quanto baste de alcaparra em conserva
– 1/2 xícara(s) (chá) de azeite extra-virgem
– quanto baste de sal
– quanto baste de pimenta-do-reino branca
Rale o papaya verde no sentido do comprimento, a fim de obter tiras finas e longas.
Corte o pimentão da mesma maneira.
Misture os dois, regando com o azeite. Tempere com o sal e a pimenta.
Coloque um pouquinho dessa mistura sobre cada torradinha e decore com uma alcaparra sobre cada uma delas.

DICA: Mantenha a mistura de papaya com pimentão gelada, montando os canapés somente no momento exato de servir. Assim, ficam mais refrescantes.

COISA DE ABACATE ( ou quase um guacamole)

– 2 abacates pequenos ou a metade de um abacate grande maduro picado em pedaços cúbicos médios; – Coentro picadinho; – Cebolinha picadinha; – 1/2 limão para temperar a gosto ; Azeite
– 1/4 de cebola picadinha; – Pimenta-do-reino e sal a gosto

misture todos os ingredientes com uma colher sem amassar demais o abacate. Coloque na geladeira e sirva bem fresco. [pode acompanhar tb pão ]

3- BATATAS COZIDAS COM PIMENTA E COENTRO

– 3 batatas doces; – 1 batata inglesa ; – 1 limão; – 1 pimenta dedo de moça; – 50g de tofu(dido); – Coentro (um punhado); – Sal; – Pimenta-do-reino; – Azeite

As batatas; Corte-as ao meio e lave-as (mantendo a casca). Ponhas as batatas em uma tigela para que cozinhem no vapor. Corte um limão ao meio e coloque-o virado para cima, sem deixar o interior encostar nas batatas. Acrescente uma pitada de sal para temperar. Tampe a tigela com plástico filme e leve ao micro-ondas por cerca de 12 minutos. Após o cozimento, retire a tigela do micro-ondas, descarte o limão e quebre as batatas cozidas com uma colher. Reserve. Fatie a pimenta e, sobre ela, jogue sal e pimenta-do-reino a gosto. Acrescente alguns fios de azeite. Corte o coentro grosseiramente e amasse o tofu por cima. Misture tudo com as mãos. Despeje as batatas por cima dessa mistura e pique tudo grosseiramente com uma faca.

4- SALADA DE PEPINO

– 1 pedaço pequeno de gengibre;– 1 limão; – 1/2 pimenta chilli vermelha; – 1 colher de café de óleo de gergelim; – 2 colheres de sopa de azeite extravirgem; – 1 colher de sopa de molho shoyo; -1 pepino; – 1 punhado de coentro

Descasque e rale o gengibre. Ponha em um recipiente e acrescente as raspas da casca do limão. Em seguida, parta o limão ao meio e o esprema bem, para obter o suco. Acrescente o óleo, o azeite e o molho shoyo. Misture tudo com uma colher. Com um auxílio de um descascador de legumes, descasque o pepino no sentido de seu comprimento – e de maneira que fique bem fino. Pare de descascar quando chegar ao centro do pepino, que é aguado. Faça um montinho com o pepino em cima do molho preparado anteriormente. Misture tudo.

5- SOPA DE TOMATES

4 tomates
1/2 pimentão verde
1 pepino pequeno
Azeite, manjericão e sal a gosto

Bata no liquidificador.
Coloque na geladeira por 2h e sirva.
Se os ingredientes estiverem gelados e a fome grande, pode consumi-lo logo após o preparo.

Alimentação. SÃO PAULO/SP, Brasil 02/03/2014. (Foto: Antonio Miotto)

sobre jaquetas jeans com caráter e amor de bicho solto – ou o que eu aprendi em 2013

Por Cíntia Moraes*, Biscate Convidada

deixar-se livre é dessas coisas mais bonitas que aprendi com as porradas que o coração levou. deixar-se livre significa muitas coisas, entre elas, que estar sozinha é bom, que estar com alguém também é bom, que esse “estar” pode ser de muitos jeitos e que “bom” é aquilo que te cai bem naquele momento.

não tem muito isso de “eu era assim, agora sou assim”, parei de ficar tentando definir demais as coisas numa tentativa de explicar pra mim mesma e apreender tudo o que acontece comigo. não que não seja importante refletir sobre sentimentos e situações, mas parei de tentar encaixar tudo em quadradinhos que fizessem sentido, resolvi deixar solto. e me vi assim, muito bicho solto também, nesse meio de caminho.

e bicho solto não significa, talvez, não se prender. significa deixar que os encontros fluam com mais liberdade, significa permitir a esses encontros a possibilidade de serem o que vieram pra ser, ainda que seja pouco, ainda que seja muito, ainda que seja diferente de tudo que eu já vivi, mas gosto de pensar que são o bastante.

libertador.

não tento convencer a ninguém de que esse é o melhor jeito de se levar, mas me pareceu tão bom por agora que, nossa, deu vontade de dividir. fazia tempo que eu não dividia isso de sentir, porque eu sempre deixava pra dividir o que era dor, o que era aperto, o que era sufocante e exaustivo, eu escrevia para transbordar. escrever com essa paz é muito novidade pra essas bandas de cá.

gosto de gostar assim e de estar assim. fico bem. demorei a descobrir que nem tudo precisa ser desesperado, ainda que não signifique que não será intenso.

nisso de ser bicho solto eu andei arrastando minha jaqueta jeans muito velha e muito cheia de caráter por mais lugares, conheci mais pessoas e tenho vivido meu tempo numa conta mais frouxa. e o espelho não mente: tá tudo bem agora.

não sei se estou bicho solto ou se sou bicho solto, mas gosto de pensar que bicho solto é como um passarinho que você não prendeu na gaiola, mas que sempre volta pra cantar na sua janela. porque, eu sei, eu sempre volto, mas gosto de pensar que agora eu não “preciso”. eu volto porque a vida me faz voltar, e nessas voltas, os encontros fluem, se desenrolam, mas o sentimento não é jaula mais. deixar livre – a mim e ao outro – é minha única resolução de ano novo.

cintcha

*Cíntia Moraes é ex-jornalista, feminista e caipira.

Nosso Livro de Receitas

#ReceitaBiscate #2anosBiscateSC

Dois anos de BiscateSC, dois anos escorregando entre modelos, desviando de padrões, escapando de ideias preconcebidas. Biscate não gosta de receitas, certo? Mais ou menos. Aquelas que se sabem mais indicações que roteiros imutáveis, essas nós até curtimos. E a gente aproveita daqui pra lembrar: “no nosso clube, diariamente re-afirmamos que a vida vem sem bula. Que o como viver é sem receita, modelo ou prescrição. Sem guia. O como é a medida da individualidade. Mas também re-afirmamos que o como não é um dado natural, estático, imutável, mas um processo a ser construído, diariamente, em interação. O como vai se fazendo na medida em que somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas e, assim, nos aproximarmos de sermos capazes reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas. Neste movimento, acreditamos, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias. É por isso que aqui brincamos de contradição. Porque se há pouca coisa menos biscate que modelos, fôrmas, padrões, é muito biscate subverter as receitas e torná-las caminhos pra um viver assim, menos dolorido.”

Já no primeiro post da categoria (É Pra Comer), nós indicávamos: “Biscatear é ação, movimento, estilo. Não tem receita. Mas se não tem receita de mulher, nem receita de biscate, tem Receita Biscate. Uma Receita Biscate é aquela que é facinha, flexível, gostosa, fica bem em quase toda hora e lugar…né?” Com essa sinalização, as gostosuras se sucederam: tivemos posts docinhos, posts com sotaque lusitano, tivemos o pão da ira e canjinha das mais (bem ou mal) intencionadas e visitas que moram nos states mas que passam receitas bem brasileiras, que nem coxinha e pão de queijo. E, claro, não podiam faltar, as comidinhas para Depois do Sexo. Talvez a mais biscate das receitas esteve presente no primeiro (e delicioso) encontro da gerência do Clube, no interior nordestino, a famosa, saborosa, indecorosa (rufem os tambores): Galinha Beuba!

Fazendo a ligação entre os temais mais culinários e as demais receitas, temos a curiosa combinação: receita de bolo, pau e reflexões biscates. E, como bem avisamos, tivemos umas receitas pra alimentar outras fomes: seja de vingança (Na Temperatura Certa), de conhecimento (Manteiga, Gel ou Vaselina? Vontade!), de som e diversão (Quem Não Curte Um Brega), de poesia (Encontro Domingueiro). As receitas biscates não se furtaram aos temas sérios e a bisca Niara escreveu nossa Receita Contra a Violência, convidamos a Hailey pra trazer sua Receita de Aceitação e o Everson pra partilhar conosco o Guia Biscate Para Homens: Como Andar na Rua.

E não esquecemos os grandes temas que motivam os humanos: das coisas mais mundanas (Boa de Cama, Masturbação e Orgasmos) até temas como envelhecimento (Para Não Envelhecer: Morra!), morte (Sobre Morrer Amanhã) e amor (Uma Receita Para o Amor).

E na comemoração de aniversário, não podíamos deixar de mencionar a campeã de todas as receitas, a imperdível, a mais divertida, a sensacional: Você Escolheu Errado o Seu Super-Herói.

E você, tem uma receita preferida? Quer partilhar com a gente? Aproveita que ainda vamos ficar em festa até o fim do ano (ou da vida, mais provavelmente). Ah, tem presente pros leitores biscates… clica na imagem e descobre como ganhar um livro:

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Sobre Morrer Amanhã

Por Arwen, elfo convidadx*

Eu li hoje essa entrevista: “Para ser feliz, pense na morte“. Você pode dizer que a Dra. Ana Cláudia é um pouco Pollyana, mas quem não seria? Ela se espanta com o paciente ateu não-analisado que diz não ter nenhum arrependimento. Mas isso é do espírito do tempo, daqui onde a religião e psicologia são as receitas “certas” para a prosperidade e para a felicidade.

Dra. Ana Cláudia Arantes -  médica especializada em cuidados paliativos

Dra. Ana Cláudia Arantes – médica especializada em cuidados paliativos

“Cuidados Paliativos” é o lugar da Medicina onde todos os dados já foram lançados, todos os dias já foram vividos, todos os pontos já foram contados. Não há nada mais a fazer senão esperar. O fim está tão próximo que você pode tocá-lo. E a alegria que ela passa deixa entrever que não deve ser fácil, não deve ser rosa e azul celeste, essa escolha de cuidar dos que já não tem esperança. Fazer da morte sua morada, por assim dizer.

E me deixou pensando em algo que ela diz lá pelo meio, da importância de ouvir a morte, de se aconselhar com a morte, de sentir que a morte está logo ali. Viver como se não houvesse amanhã. Mas isso a cada hora, cada minuto, segundo – nunca tomar uma decisão sem saber que pode ser a última. Nunca ir dormir achando que vai acordar. Nunca acordar achando que a noite você estará de volta nesta cama. Parece um plano.

Porque aí cada “sim” e cada “não” ganham um significado além do mero automatismo, além do desejo da manada ou do caminho suave da cartilha padrão (e numa nota irrelevante, talvez até  leviana neste texto, “Caminho Suave” é de um sarcasmo feroz, não se devia fazer isso com criancinhas analfabetas – quando aquele livro termina você aprendeu a ler, sua vida mudou para sempre, sua expectativa de um dia que nunca termine no parque de areia se perdeu entre uvas e bolas e a sombra da Biblioteca de Babel já ameaça, ao longe, qualquer perspectiva de um final feliz).

Porque aí qualquer coisa que se possa chamar felicidade passa antes pela necessidade – você não é feliz porque fez isso ou deixou de fazer aquilo, isso ou aquilo eram tudo o que você podia fazer e, se foi bom, que bom. Senão, não podia ser de outro jeito mesmo. Todas as consequências boas ou ruins são simplesmente marcos em uma estrada que você escolheu porque, fundamentalmente, não queria morrer sem passar por ali. Ou morreria se não passasse.

É uma terra estranha, além da linha amarela, aquela onde você não devia nem pisar, quanto mais cruzar. E a morte está sempre com você, não como ameaça e sim como destino. Mas é um lugar onde as escolhas podem talvez, finalmente, fazer um sentido.

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*Arwen, porque a gente escolhe, inclusive, reconhecer a finitude.

Masturbação também é coisa de mulher

Onze anos. “Você ficou mocinha!” Não entendi bem. Ainda era uma moleca completa, que se preocupava mais em subir em árvores do que em paquerar ou aprender maquilagem, e não via muito sentido nessa história. Então a parte que registrei foi: a partir de agora é isso todo mês, incluindo as cólicas, e você já pode engravidar (socorro!!!).

Quinze anos. Adeus virgindade. Conclusão: sexo é um troço que dói pra caralho, e tirando isso, não entendi porque falavam tanto nele. Mas estava apaixonada…

Dezoito anos. Sozinha no quarto, resolvi insistir na tal da história de mexer no grelo, que já tinha tentado antes sem ver nenhuma graça. Surpresa! Insistindo, ficava bom. Primeiro orgasmo.

Quarenta anos. Caminhos todos descobertos.

Será?

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Garotos brincam de corrida de submarino. Garotas brincam de casinha.

Homem vê pornô pra bater punheta. Todo mundo sabe, todo mundo brinca com a coisa, todo mundo aceita. Aí você vai perguntar sobre o assunto para uma mulher, constrangimento imediato.

 Passo no sex shop, depois vou tomar um café com uma amiga, mostro a nova aquisição. O olhar dela é de criança fazendo arte escondida. Digo que, para mim, o único problema de um pau industrializado é que não vem com ombro… E ela acaba me confessando que também tem um. Mas quando a conversa surge tempos depois, com outra amiga do lado, ela finge que não sabe de que se trata. Eeeeuu? Imagina.

Mas gente… qual o problema? Mulheres se masturbam. Ponto. E têm vergonha de assumir que usam brinquedinhos? Ou mesmo sem eles, que mulher conta para outra de que forma se masturba? Pouquíssimas.

 Um amigo me descreve em detalhes como masturba as namoradas. E eu fico pensando que a forma dele parece infinitamente mais poderosa que a minha…

Aí entro em um site e abro a categoria de mulheres se masturbando. Coisa que nunca tinha pensado em ver. “Ah, isso é pra excitar homem, pra que eu quero ver outra mulher se masturbando?” E não é que a coisa é educativa? Há vários modos. Não só o meu. E alguns são bem interessantes…

 Por que a gente não conversa sobre essas coisas? Por que tem de ser um caminho trilhado sozinha, às cegas – às apalpadelas… Por que quase não trocamos dicas e informações? Cadê a confraria feminina do bem? Por que ela não atua em prol do nosso prazer? Quem disse que se ele não envolver um parceiro é coisa para ser escondida? Vamos democratizar as informações, minha gente. Eu tenho várias dúvidas, vocês não tem? Por exemplo, será que as diferenças na “anatomia íntima” influenciam no tipo/intensidade de estímulo de que uma mulher precisa para gozar? O Ponto G, esse desconhecido… sei muito bem onde o meu está, mas tenho problemas em descobrir o que/como fazer com ele… Por que algumas mulheres gozam tão facilmente com sexo oral, e outras nem a pau, Juvenal? Verdade que tem mulher que goza pelo rabo, sem nenhum estímulo no grelo?

 Já ouvi relatos de mulheres que foram ter o primeiro orgasmo aos 40, com a duchinha do banheiro. É uma forma. Vibradores? Já descobri que a intensidade da vibração nem sempre basta para gozar… se for baixinha, acaba só sensibilizando, e se tornando desconfortável. Filmes, livros? Ajudam, abrem o apetite. Quanto a filmes, odeio os americanos, onde tudo parece plastificado. Tenho um critério básico pra gostar de um filme: a mulher tem de estar se divertindo também. Pragmaticamente: a buceta tem de estar molhada. Só isso não garante, é claro, pode ser um gel qualquer, mas nada me incomoda mais do que ver um filminho onde um homem com um caralho gigante fode sem parar uma mulher seca. Tudo o que consigo pensar é em incômodo.

Mas há filminhos amadores bem interessantes e excitantes. Há fetiches para todos os gostos. E hoje já é fácil encontrar a categoria “Orgasmo” (feminino) em vários sites. Em geral são de squirting, porque sabe como é, filmes feitos por homens, eles acham que se não esguichar alguma coisa não vale como happy end. Mas mesmo assim alguns são ótimas inspirações para auto-punhetagens.

Aí vem a coisa em si. Percebi que tenho um ritual meio fixo de punhetagem. Sentada ou deitada de barriga pra cima. Primeiro mamilos, até dar um grau, depois grelo, movimentos laterais-circulares. Às vezes penetração, com dedos ou vibrador. (Nessas os orgasmos são muito mais intensos. Não me perguntem por que não faço sempre assim então, porque eu também não entendo…)

Mas vendo os tais filmes de masturbação, confirmei a minha impressão de que havia muitas outras formas. Mulheres que cavalgam travesseiros até gozar. Mulheres que enfiam dois dedos na buceta enquanto estimulam o grelo um pouco mais pra cima do que eu. Mulheres para quem um ovinho vibratório encostado no lugar certo é suficiente para orgasmos intensos. E por aí vai.

(Detalhe: tirando os filmes de fetiches, não vi nenhuma se masturbando com vibradores em tamanho ator pornô, o que confirmou minha teoria de que a geral prefere o standard plus, e essa coisa de enormidades é só fixação masculina mesmo.)

 Achei também esses dois vídeos, super explicativos. Meio toscos, mas, na falta de melhores, já ajudam.

 

E você, qual o seu estilo? O que já aprendeu que vale a pena compartilhar? Que tal quebrar esse contraproducente pacto de silêncio? 😉

 

Na cama, na cozinha

(texto originalmente publicado no Feministas na Cozinha, surrupiado, revisto e ampliado pra biscatagem)

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E ontem eu jantei cerveja e sonhos e estrelas e tempo. depois dos rodopios ao som de “vem, morena” em várias versões (com gil e, claro, gonzagão) e um último giro com a fafá cantando filho da bahia (não me julguem, vocês nunca pensaram: “viver não é fácil, não, pergunte pra meu coração”) eu sentei com esta coisa de cozinhar na cabeça. Com esta coisa de que amar é um tantinho como cozinhar.

Cozinhar muitas vezes parece difícil, complicado, demorado e é tão fácil. Pratos com aparência sofisticada que nos custaram um forno amigo, uma taça de vinho pra acompanhar a espera e uma mesa bem arrumada. Às vezes amar é só um cafuné, um telefonema inesperado, um gesto cuidadoso. Peixe? Sal, azeite e fogo. Não tem erro. Massa? Manjericão e tomate. Mas daí a gente pensa: manjo! E, claro, é um erro enorme. Fica até mais bonito em  inglês, como aqueles filmes de final infeliz: terrible mistake, até parece uma sobremesa, né? É que amar também sabe ser difícil. Amar e ser amado são da ordem de uma pergunta e de uma falta e o que temos a oferecer é justamente o que não possuímos. Mas insistimos. Difícil como fazer pão. Tem que ter paciência e saber que tem uma hora, um processo, que não depende de nós, que é lá com ele e sua vida íntima. E que não é garantido. Mais ainda, é preciso saber que, ainda que tudo dê certo, pão pronto e saboroso, nossa fome não finda nele. A de momento, talvez, mas ela se renova.

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Preparando a sopa…

Amar é como cozinhar, ainda, porque se precisa dos ingredientes certos. Mas o certo não é, necessariamente, o óbvio. Alguém diz: ingredientes frescos! e logo penso em juventude e a pergunta: só os jovens amam? Porque é o que parece em tantas revistas e filmes mainstream, todos com a viçosa pele esticada e nenhuma bagagem. Mas aí eu lembro do queijo, do vinho, da carne de sol, tantos que são mais saborosos e intensos depois que o tempo faz sua parte. Amar é também para os que já tiveram seu sabor modificado pelos anos, pelas perdas, pelos sustos, pelos anseios, pelos medos, sim e pelas alegrias, pelas conquistas, pelo gozo, pelo suave apreciar do tempo passando ou pela ansiosa pressa de chegar antes dele. Bom, os ingredientes têm que combinar, outro insiste e eu concordo. Mas combinar é o quê? Sal com sal? Mas e o porco com abacaxi? O salmão com maracujá? O mais gostoso não é justamente quando a boca se surpreende num sem saber de gostos? Eu acho. Por isso gosto tanto de beijar. E comer. Por causa do inesperado.
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A minha cozinha oscila entre ser a das sobras e a do desbravamento. Como disse uma vez, é uma cozinha das sobras como o post da Nikelen indica, porque sempre faço um “a mais”, se depreende uma beleza do excesso, mas é, também, a cozinha das sobras no sentido de intuir que há mais sabor no dia seguinte, de aprender a aproveitar o que restou, de inventar utilidades e combinações para as porções que ficaram. É o querido restô d’ontê. Na cama, como na cozinha, gosto do exagero e gosto do dia seguinte, da intimidade, de deixar apurar. E é uma cozinha de desbravamento porque gosto da diferença, da descoberta, do inusitado. Provar o que nunca provei, sim, por favor. Me atrai a possibilidade de um sabor novo, uma combinação inspiradora, um tempero diferente.
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E nisso do amar se achegar ao cozinhar, tem, claro, a constatação que, nos dois casos, cozinhar e amar, insistimos nas receitas, mas suspeitamos, bem  lá no fundo, que isso é mesmo: mão. E seguimos na peleja: atenção, cuidado, autonomia, desejo, momentos a dois, momentos cada qual no seu cada qual e uma lista interminável de duas xícaras disso e três colheres daquilo. E, às vezes, a comida está feita, receita seguida, tudo no lugar…e tão sem gosto! Outra hora é o excesso que faz o particular: pimenta demais, sal de menos, cozido demais, ficou pouco tempo no forno e tá duro e, ainda assim, com todos os poréns, dá água na boca e sacia.
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Isso de se cozinhar é preciso ter vontade, como amar. E aceitar as limitações. E improvisar o omelete quando não há nada em casa a não ser temperos, ovo e um restinho de queijo. No amor, como na cozinha, os sentidos fazem a festa e é isso de ver-se e cheirar-se e lamber-se e saber a textura. Na cozinha, como no amor, o feito na hora tem vantagens, mas descobrir aquele bilhete, opa, aquele pedaço de torta na geladeira, meio esquecido atrás da garrafa d’água quando se está com desejo de doce, ai ai, é de deixar a perna meio bamba e acelerar o coração.
risoto de camarão

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 Resumindo, o resultado do amar é um monte de alteração no metabolismo, tal qual o resultado de cozinhar. E nisso de estrela, cerveja, suspiros e perguntas – em forma delirante como “ai, quando, quando e quando” daí a um o apressado come cru, (como minha avó alertava), mas eu gosto de sushi, retruco eu mesma – nisso de estrelas e fome e lembranças do que ainda nem sei se será, veio-me Adélia e é a receita que tenho a partilhar hoje:
Alimento da fome que desejo perpétua
Jonathan é minha comida”

Fome

1Quero te comer, gostoso. Sussurro rouca e biscate tentando dizer dessa fome tanta. Antecipo-me satisfeita ao cheirar sua pele, que é meu petisco, manjar, prato feito, ambrósia, banquete.

Passando a língua por lábios até me perder nos seus tantos gostos. Porque o tempero na dobra do seu pescoço é um, diferente daquele do beijo no seu peito antes de dormirmos misturando pernas. Receita que aprendi pra te comer melhor, lobo mau.

Quero te comer sem saber se doce ou amargo, ou sabendo bem, mas inventando desculpas para experimentar o que de repente pode despertar outros apetites. Uma vez mais. Mais um pouquinho. Assim é gostoso também, pergunto e respondo rindo de mostrar os dentes.

2 (2)Ainda tenho fome se faço tudo igual. Nesses dias bebo café devagar enquanto abro armários e invento com o que tem um dia para chamarmos de nosso. Depois vou plantar hortelã, manjericão, pimenta. Belezas de cozinhar em fogo brando o que renasce das cinzas.

Desejo.

Quero te devorar agora mesmo. E sinto frio, calor, loucura de sem jeito bem no pé da barriga. Te comer, gostoso. Quero. Anuncio uma fome lenta e que me encharca o vestido. Gostoso! Grito de fome apressada, gemendo alto meu gozo no seu ouvido.

3De repente já é noite. E novamente. O poeta canta de matar a sede na saliva enquanto nua e tranquilamente caminho até a geladeira para encher nossas taças de mais vinho. E brindarmos juntos, meu pão. Minha Comida.

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