Guia Biscate Para Homens (módulo 01): Como Andar na Rua

Aqui, no nosso clube, diariamente re-afirmamos que a vida vem sem bula. Que o como viver é sem receita, modelo ou prescrição. Sem guia. O como é a medida da individualidade. Mas também re-afirmamos que o como não é um dado natural, estático, imutável, mas um processo a ser construído, diariamente, em interação. O como vai se fazendo na medida em que somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas e, assim, nos aproximarmos de sermos capazes reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas. Neste movimento, acreditamos, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias. É por isso que, aos domingos, aqui brincamos de contradição. Porque se há pouca coisa menos biscate que modelos, fôrmas, padrões, é muito biscate subverter as receitas e torná-las caminhos pra um viver assim, menos dolorido.

Propomos, então, um guia de convivência bem biscate. Começamos com esse ótimo texto do Everson, mas estamos abertas (ui!) pra sugestões e textinhos de vocês. Quem gostaria de escrever, por exemplo, “como chegar junto em baladas sem ser um babaca” ou “elogiando sem agredir”? Por agora, leiam e aprendam, #ficadica.

Guia Biscate Para Homens: Como Andar na Rua, por Everson Fernandes*

Eu tenho lido bastante blogs, feministas principalmente,  e conversado bastante com as feministas e uma das coisas importantes que eu aprendi se chama ter empatia. Com isso em mente, somando-se aos vários relatos de violências cotidianas pelas quais as mulheres passam, adotei uma tática simples para tentar minimizar situações de tensões em determinados momentos. Conversei com algumas amigas para saber se essa tática ajudava em algo e a maioria delas respondeu que sim. Então resolvi repassar para outros homens.

Quando você, homem, estiver numa rua – principalmente quando for uma rua com pouca movimentação e à noite – e houver alguma mulher por perto, você pode “ajudar” com alguns passos simples:

1 – caso não seja possível não caminhar atrás dela (evite sempre, pois ela não está vendo você, mas nota sua presença poderá se sentir ameaçada) mantenha a distância, reduzindo a velocidade dos passos, se for preciso;

2 – se estiver atrás dela e estiver com pressa, atravesse a rua para ultrapassá-la, sempre mantendo distância;

3 – caminhe do outro lado da rua, quando possível;

4 – se já estiver caminhando na frente dela, mantenha a distância, acelerando o passo, se for preciso; e, se possível, não reduza a velocidade ou atravesse a rua;

5 – nunca, em hipótese alguma, dê cantadas ou assovios ou tente qualquer interação;

6 – caso veja outro homem se aproximando dela de forma que considere agressiva ou suspeita ou mesmo interagindo com ela de modo que a incomode, intervenha. Nem que seja somente de modo a se mostrar presente e vigilante para o possível agressor (consideremos inclusive agressão simbólica), que pode desistir da agressão somente por se perceber observado.

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Cantada de Rua é assédio, não elogio.

Isso serve, pelo menos, para tentar demonstrar que naquele momento e naquele trajeto, ela não precisa se preocupar (tanto) com você. Porque, veja, você é um desconhecido para ela. E nunca se sabe o que um desconhecido pode fazer.

Que fique claro que essas sugestões não são uma medida de combate ao machismo. Não são essas atitudes que vão dar segurança de fato às mulheres na nossa sociedade. Isso serve APENAS para evitar tensões em determinados momentos. Além do mais, isso não custa nada, não atrapalha em nada, não faz perder tempo, só exige boa vontade.

Ps. 1: agradeço à Ariane Silva que reescreveu o item 1 e acrescentou o item 6, à Lucya Tobleronne por ter revisado e a todas as outras que tiveram paciência de ler e opinar

Ps. 2: esse texto foi publicado depois de mostrado a algumas amigas feministas e ter sido discutido.

Ps. 3: quando se trata da situação da(s) mulher(es), deem ouvidos a elas, conversem com elas, inspirem-se nelas. Elas vêm dizendo tudo isso há muito tempo.

everson*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Entre o pão e a poesia

Por Antonio Miotto*, Biscate Convidado

pão

foto: Antonio Miotto

Biscate que é biscate amassa seu próprio pão. Tem suas próprias receitas, faz e compartilha por aí… E se não tem, a gente dá — dar é com a gente mesmo — a nossa.

O sabor do pão: puro, com manteiga, geleia ou até mesmo um fio de azeite extra virgem…

Pede um som:

“numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar”

 

PÃO SEM LEITE E SEM OVO
Separe 500 ml de água morna; 1 e 1/2 kg de farinha de trigo; 1 copo americano de óleo; 3 colheres de sopa de açúcar; 1 colher de sopa rasa de sal; 50 g de fermento de padaria ou 2 tabletes de fermento de mercado.
Para fazer, siga as etapas: 1) Amornar a água e colocar todos os ingredientes, menos a farinha, em uma tigela; 2) Misturar tudo e acrescentar farinha até a massa desgrudar das mãos; 3) Tirar da tigela, colocar na mesa e sovar; 4) Colocar uma bolinha de massa em um copo d”água; 5) Enrolar o pão e deixar crescer até a bolinha subir, depois é só colocar em uma forma e assar.

pão

foto: Antonio Miotto

Outra receita de pão.

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Toni*Antonio Miotto (Toni) é um paulistano que há 47 anos transita quase que por toda a cidade, historiador por formação, e abraçado profissionalmente a uma lente como giz. Um atento observador social caminhando e pedalando na megacidade com uma câmera na mão, que acredita na integração do sujeito com o seu contexto social.

Caindo de Boca: receita de bolo, pau e reflexões biscates

Tamanho não é documento. Dizem e eu assino. Mas, às vezes, o assunto cresce, sob certo ponto de vista. Ainda mais quando tá à mão. Precisa só do jeitinho certo: ingredientes em temperatura ambiente, bater com jeito e esquentar. Como bolo. Ou pau.

duro como pedra

É que estes dias eu fiquei pensando (eu penso muito, vocês sabem, sou praticamente uma escultura de Rodin) como os fenômenos pauzísticos são distintos. Por exemplo, um dos meus primeiros namorados tinha um pau grande. Ora, pra que modéstia: um pau enorme. Mesmo quando domesticado. Era grandão, não crescia mais quando ele ficava excitado (ou crescia bem pouquinho). Era mais tipo um fenômeno “levanta-te e anda”. Ou algo como um gancho invisível que ia puxando aquele lance pra cima e: voilá, tudo pronto, o pênis praticamente não cresce, só enrijece e sobe. Não que eu esteja reclamando, veja bem meu bem, ficava mesmo (tô aqui procurando a palavra certa…) admirável. Tentador. Apetitoso. Como bolo de queijo, sabe coméqueé? Não leva fermento. Se você tem um liquidificador e um forno quente, já tem meio caminho andado. Mistura aí 3 ovos, 01 copo de leite, 01 copo de leite de coco, ¾ de copo de açúcar (se é chegado a um doce, coloca um copo todo), 01 lata de leite condensado, 2 colheres de manteiga cheinhas, 01 copo de farinha de trigo, 01 pires cheio de queijo ralado e 500g de coco ralado. Bate tudo no liquidificador, verte em uma forma untada e enfarinhada, leva ao forno pré-aquecido e deixa a mágica acontecer. É de lamber os beiços, garanto.

E tem aqueles outros, os que enganam. Estão por ali, miudinhos, discretos, às vezes até meio rosados como querubins e, patati patatá, um afago, um abraço mais jeitoso, um xêro no cangote e eles começam a colocar as manguinhas de fora. Ou seja, crescem e crescem. Quase todos até aquele tamanho – que eu não sei em centímetros mas sei em vivência – que é mais usual. Mas tem os que. Putz, crescem muito. Você quase não acredita (no caso, eu quase não acredito) que aquela coisinha miúda e fofa se possa tornar tão vermelho, pulsante e, pô, com o perdão da redundância, grande pra cacete. Eu sei, eu sei, elasticidade, irrigação, tal e tal, mas parece mágica. Enquanto o pênis versão 01 é uma beleza da mecânica, esse é quase místico. Dá uma certa reverência (deve ser por isso – e não por tesão em tê-los crescendo na minha boca – que gosto tanto de chupá-los). Essa é a turma do bolo fofo. Aqueles que ficam ali, discretos na forma, mas o resultado é de encher os olhos. Tem os elaborados, mas sou da turma dos facinhos. Vamos a ele. Pega 03 ovos, separa claras e gema. As gemas você mistura com 04 colheres de margarina ou de manteiga (bem cheias, viu, gente) e com duas xícaras de açúcar. Deixa isso quieto e vai ali bater as claras em neve. Capricha. Volta pra mistura de gema, açúcar e margarina e vai juntando e misturando 03 xícaras de farinha de trigo e 1 ½ xícara de leite. Tá tudo lisinho? Junta as claras em neve e 01 colher de sopa de fermento. Bota pra assar no forno pré-aquecido (prelimirares WIN) e voilá: cresce e fica com aquela crosta gostosinha e crocante.

E tem, claro, os que enganam por não enganar: são o tipo 3. Estão por ali, miudinhos, discretos, às vezes até meio rosados como querubins e, patati patatá, um afago, uma abraço mais jeitoso, um xêro no cangote e eles agem com os lá de cima: endurecem e sobem. Sem crescer nadinha ou quase nadinha. Não perceptível a olho – e, geralmente todo o resto – nu. Não que isso – ser pequeno – seja um problema em si. Tem posições (sem falar de outras medidas) que tornam o sexo ótimo. Não pensem que não tem bolo pra gente degustar nesse estilo. Tem sim. Fica chapadinho, mas quem se importa se o sabor é de virar os olhos? Bolo de banana, nhami, nhami. Faz assim: em uma tigela mistura 1 ½ xícara de farinha de trigo,  1 ½ xícara de amido de milho, 1 xícara de margarina, 2 xícaras de açúcar e 1 colher de fermento (mas não crie expectativas). Tá bem misturado¿ Esfarele com a ponta dos dedos até conseguir tipo uma farofa. Coloca metade dessa farofa em uma assadeira untada. Cubra com 06 bananas fatiadas. Coloca a outra metade da farofa. Aí bate 03 ovos com 1 xícara de leite e despeja em cima de tudo. Polvilhe com canela, se quiser decore com umas uvas passar e asse. Não cresce, mas fica saborosíssimo.

Atualmente, ando com uma versão 2. É meio um livro da Agatha Christie (pra mim, outras pessoas podem ter outra relação com os livros dela, então substitua pelo livro que quiser e que a fizer sentir assim): eu já conheço os personagens, a trama, o final, mas sempre ressurge a surpresa, o encanto, a magia. Não era e, de repente, sobra. Ui. É claro que entre uma Agatha e outra, sempre se pode ler uma coletânea de contos, um romance russo, um Sidney Sheldon que seja. Com uma xícara de café e bolos de todos os sabores, estilos e tamanhos. O negózi é o fogo.

Uma dança apenas

 lista

Às vezes dá essa sensação: que as pessoas andam com preguiça de conhecer pessoas. Conhecer, sabe? Olhar de verdade. Parar, conversar. Tentar entender como outro, e não encaixar num molde pré-concebido.

Que los hay tantos, os moldes pré-concebidos. Vai olhar nas revistas. Tem lá os testes, um monte deles: “Como saber se seu namorado a ama de verdade”. “Dez coisas que o homem deve fazer no primeiro encontro”.

Sem falar no famigerado “Ele simplesmente não está a fim de você”. Regras. Testes. Listas. Não ligou? Não tá a fim. Não procurou? Não tá a fim. Não guardou seu telefone? Não tá a fim. E em vez de você olhar pra pessoa real que tá ali, com seus medos, com sua história, com seu jeito particular de lidar com a vida e com os relacionamentos, você chega com seu check-list. Não preencheu os quesitos? Fora.

E nem quero falar dessas regras específicas aí não: tô querendo falar de regras, de quaisquer. Tenho uma amiga que saía com um cara uma vez e dava a lista: “você não precisa me ligar, a gente não precisa se ver sempre, você pode sair com seus amigos quando quiser…” . Não entendia por que isso haveria de assustar alguém. Só que é a mesma coisa, né? Regras, como as outras.

“Eu apenas te chamei pra dançar”.

Só pra dançar. Hoje. Agora. Nesse momento. Sem expectativas. Sem “o que tem que ser”. Nada tem que ser: solta o corpo e vai. O ritmo vai te pegando. E você vai se incorporando. As regras? Depois, né? E não pré-estabelecidas: constroem-se no caminho, naquele caminho. Que a gente se surpreende com a gente mesma também. E o que um dia era essencial de repente parece tão secundário. Outra história, outros caminhos.

Ou não.

Apenas uma dança.

Mas que delícia dançar.

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Orgasmo, Uma Receita. Ou não.

Por Teresa Filósofa**, Biscate Convidada

Todo mundo quer orgasmos. Todo mundo fala sobre orgasmos. Todo mundo ao menos pensa neles – ainda que não admita*.

Zilhares de livros, matérias, programas de tevê prometem ensinar o caminho das pedras. Quer saber? A questão é que nada do que eu li, pesquisei ou conversei me preparou para eles. Quer saber mais? Até atrapalhou. Quando eu era adolescente, tinha uma vida sexual legal pra caramba, composta por um namorado carinhoso, um certo conhecimento do corpo, autoestima, uma educação bastante liberal, até uma mãe que falava do assunto eu tive. E o que faltava então para eu chegar no orgasmo? Segundo o manual, nada. E eu não tinha problemas fisiológicos me impedindo (porque já tinha tido orgasmos na pré-adolescência, antes da vida sexual propriamente dita começar). Faltava o quê então? Por que não rolava?

Tive a intuição de que faltava uma certa maturidade psíquica para chegar lá. Que o tempo de rodagem faria seu trabalho. E que era só continuar o que eu estava fazendo e gozar a fresca da brisa que uma hora tudo entraria no seu eixo, devagar, curtindo o caminho. Tomei coragem para comentar com uma ou outra amiga aqui, com uma médica. Rechaçaram minha intuição e reforçaram o discurso de que já devia ter ido. Acharam bobagem minha tranquilidade, falta de pressa. Por que deixar para amanhã o que você pode gozar hoje? Cheguei a me sentir ridícula: que tabu é ter a faca e o queijo na mão e não ter pressa de comer. A verdade é que não devia nada: poucas coisas tem que ser nos caminhos do corpo. Cada corpo tem seu tempo e sua história.

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E segui fazendo o que eu tinha que fazer. Tive um parceiro que se recusava sequer a falar no assunto. Não preciso nem dizer que não ajuda em nada. Outras relações vieram, muita biscatagem rolou, e precisou de um bom tempo de eu comigo para descobrir como funciona a maquininha mental de puxa o gatilho dos orgasmos. Taí uma verdade nas teorias todas: masturbação realmente tem um papel fundamental para trazer o orgasmo de uma sorte do acaso para um efeito do corpo que se possa estimular, com algum controle. E o bloco do eu-sozinho também toca uma música diferente para cada uma. Eu só passei a curtir a brincadeira quando ignorei os manuais (de novo). Autoconhecimento pede uma dose de determinação e força grandes, principalmente quando o desejo sai do script, da curva, cai no delicioso terreno do inconfessável.

3 Pão com ovo, por Caroline SporrerOutras coisas que ninguém te diz: eles têm sim intensidades diferentes. Tem dia que é pão com ovo, tem dia que é entrada, principal e sobremesa, com mesa virada e taças de cristal trincadas. O que se passa com essa penca de sexólogos que não consegue afirmar com certeza que existe sim uma gama de intensidades diferentes? E de infinitas reações do corpo. Não estou falando da divisão de clitoriano e vaginal: cada um tem sua própria escala Richter. E tem dia que, mesmo num estado orgástico, de quase-quase, não vem mesmo. E tudo bem.

Numa conversa bem mais sincera com uma amiga que também já tinha se enchido dos especialistas infalíveis, caiu o assunto do orgasmo vaginal. Compartilhamos o desabafo meio triste, meio aliviado, de que não era para nós. Que bom não estar só num mundo (ou numa rodinha feminina) em que esse orgasmo, parece, vende de baciada. Até que um dia chegou para uma. Depois quase veio para a outra.

E aí chegamos a como eu cheguei. E a um outro tabu. Eu fingi. Fingi um bocado até gozar de verdade. Transformei muito quase em finalmente. E não me arrependo nem um pouco, assumi o ônus e o bônus. Quem dá entrevista para a Nova e congêneres dizendo que não se deve fingir orgasmo certamente nunca lidou com o ego ferido de um homem (não que todo homem vai reagir assim, mas como saber antes?). Às vezes o rapaz se machuca tanto, encara como falha, e não como coisa da vida, que tem jeitos melhores de lidar com a coisa. Cada vez que quase foi, levou o par a aprender o que funcionava, o que era bom, o que arrepiava. E foi ficando cada vez melhor. E muito rápido o quase virou de verdade. E quedê manual ditando regra agora? Queimei todos, do fundo do meu coração.

É triste não gozar, mas é mais triste ainda ter culpa por não ter gozado. Queria ter ouvido essas coisas quando era mais nova. Queria que nos espaços de falar das coisas do corpo, do sexo e do amor, houvesse mais paciência com os muitos tempos e histórias diferentes. E que a nossa liberdade e direito ao gozo, em todos os sentidos, não fosse nunca uma prisão. Queria saber mais cedo que com o tempo tudo ia ficar mais fácil – na cama e fora.

* quando a gente diz todo mundo é frase de efeito, né. Sabemos que existem os assexuais e que sua orientação é tão válida quanto as demais.

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Teresa Filósofa já ouviu muita bestagi por aí afora. De vez em quando fica matutando que há tanta coisa importante sobre a qual não se trata, porque tem muito tabu até em se falar de se falar disso… Aí ela vem e solta o verbo.

Dando Um Empurrãozinho ou Sexo e Rotina

Por Verônica Mambrini*

Sexta-feira, mala pronta pra viajar, só esperando ele chegar para juntar as mochilas no porta-malas e cair na estrada. Será que dá tempo de uma rapidinha? Sem muitas preliminares dessa vez, só a pressa cedendo à urgência. Vai que dá! Então vamos.

Uma amiga tava pedindo dicas numa lista em como fazer a vida sexual andar. Porque ela gosta do esporte, até queria mais, mas chega em casa cansada e sem pique. E o par (felizmente) sempre quer. Proseamos como resolver a parada. Aí lembrei de bolas-fora e outras dentro.

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– Se você chega cansada, nada de embarcar no banho morno e massagem. Para quem está semi-morta, em vez de preliminar, vira um convite pros braços da pessoa errada: Morfeu. Vale mais uma ducha rápida pra acordar do que um banho longo para relaxar.

– Pensar em sexo já é parte do próprio sexo. Excitação, além de ser um processo físico, é um processo mental. Então me arrisco a dizer que esse é um dos poucos casos em que a correlação entre mentalizar e acontecer é direta e comprovável. Isso ajuda também a resolver o problema de descompasso entre um que chega zonzo e com a cabeça na lua e o outro que já está em ponto de bala. Ter e partilhar ideias no caminho do trabalho pra casa, mensagens sexys, uma pequena provocação, o assunto pulando safadamente no meio de uma conversa sobre qualquer outra coisa, tudo isso pode colaborar com o clima desejável.

– Se o querer sexo existe, mas falta pique de começar, por que não pegar no tranco? Começar mesmo sem estar louca de vontade pode ser suficiente para noite com final feliz, num relacionamento bacana. Se ambos gostam, a tendência é o prazer da relação começar a falar por si só, soterrando a preguiça, o desânimo e outros bloqueios. Indispensável que o ambos estejam tranquilos com a possibilidade de não pegar no tranco, se a tentativa não vingar. (por favor, pegar no tranco não é submeter-se à violência, mas dar aquele empurrãozinho, seja com imaginação, seja com carícias, pra desejo sexual comparecer)

– Simplificar é bom. Numa sociedade em que tudo tem que ser espetacular, inesquecível e performático, o sexo não escapa dessa sina. E com isso perdemos os pequenos prazeres de uma rapidinha inesperada, da falta de expectativas. Não ter pretensão nenhuma é uma delícia.

– Eu particularmente acho importante reservar um certo tempo para sexo na vida. Em outras palavras, priorizar. É muito fácil colocar uma pilha de outras coisas, sejam tarefas ou lazer, e acabar deixando passar eternamente. Claro que não é ter o sexo como uma obrigação a marcar com checklist, mas como algo que faz parte da rotina, prioritário e se nunca sobra tempo pra ele, pode ser sinal de alarme.

Claro que isso não é um guia salva-pátria. Não são nem exatamente dicas, mas muito mais uma perspectiva. Nem que eu quisesse saberia fazer um manual, pessoas são tão diferentes. Mas espero sinceramente que ajude a biscatagem a esquentar com mais ânimo os lençóis e os travesseiros (conjugais ou não).

vevê* Verônica Mabrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

Dicas para um Carnaval Bem Biscate

dicas de carnaval2Vai chegando o Carnaval e as biscas todas vão se animando. Como cada bisca tem seu estilo, tem quem se acabe atrás do trio elétrico, quem vai no carnajazz alternativo, quem se une com os amigos roqueiros, quem se enfia em uma praia deserta…as opções (e a aparente falta delas, tem quem vai tomar banho de mangueira no quintal e é super divertido) são várias.

O que uma bisca mais rodada sempre sabe é que o Carnaval é época propícia pra surgir um novo lance, pra incrementar o lance de sempre, pra alternar lances, enfim, é carnaval, a carne vale…

E é reconhecendo esse cenário que a galera do clube pesquisou nos alfarrábios (vulgo boas memórias, confidências alheias, etcetera, etcetera) e fez uma listinha de sugestões pra animar os pulos (inclusos os de cerca) nessa festa pagã.

Embora nós aqui achemos que todo tempo é tempo pra uma boa diversão a dois, a três, a quatro (ups), e que liberar as amarras apenas em uma época do ano é privar-se de muito tempo de prazer, não somos nós que vamos regular os limites, desejos e anseios de cada um, né. Nosso trabalho aqui é pitacar pra você ter uma folia ainda mais gostosa.

São sugestões, não temos manual nem roteiro. Se não quiser mais dica nenhuma, fica só com essa: faça aquilo que você nunca ousou antes, mesmo que a vontade tenha sido grande.

dados-adultos-de-posicoes-sexuais-sexo-romance-amor_MLB-O-3315405972_102012Das Posições: use e abuse. A imaginação é super aliada. Mas se você chegou, cheirou, agarrou e na hora do rala e rola se assustou com o tamanho maior ou menor do pênis dx coleguinha, nós temos a solução pro seu problema: um ou dois travesseiros embaixo do quadril e uma penetração mais suave e profunda. Não vá perder a chance de um bom momento por preconceitos, afinal já conversamos no biscate que tamanho não é documento (Pau Grandescência ou sobre Bucetinhas e Paus Enormes)

Das Bebidas: Bebeu e amoleceu? Gente, carnaval é carnaval… o povo bebe, né? E, como se sabe, quando se bebe muito, existe o risco de paumolescência aguda. Rola, todo mundo sabe que rola. Não é falta de tesão, é excesso de álcool. O toque? Relaxa, acaricia, esfrega, se esfrega, usa dedo, usa mão, usa língua. Desencana da penetração. Aproveita a hora e goza o momento. Pau duro é bacana e nóis gosta é muito. Mas não pode ser condição sine qua non.

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Do Fio Terra: Já faz tempo que vocês estão enrabichados e você está naquela vontade e nada? Fia, se você ainda não falou com seu parceiro sobre estimulação anal e afins essa é a hora. Tem de ser uma sugestão, notou o grifo? Nunca como um desafio. A técnica funciona tão bem com alguns parceiros que ficam tão abertos (não resisti) pra ideia que pedem para fazer. Nessa hora faça cara de paisagem e deixe ele pedir uma, duas vezes. Ai você entra (opa) em cena. Mas não em tom triunfal fia, o segredo é o j.e.i.t.i.n.h.o, de novo. Tem que ser com carinho, sempre criando mistério. O resultado? O tabu deixa de ser tabu e vira uma delícia entre o casal.

óleo de amêndoa com colágenoDa Lubrificação pro Sexo Anal – algumas vezes não precisamos de agentes externos, o trabalho prévio conjunto já pode ter garantido uma lubrificação própria. Mas não custa incrementar, só pra garantir. Pra tudo correr mais gostoso e (até) cheiroso, creminhos e lubrificantes são bem vindos. Especialmente se os dois estão animados por álcool e a paciência tende a falhar, não é? Recomendamos: óleo de amendôa com colágeno — e o colágeno faz toda a diferença para o cu. Quem quiser já seguir essa dica, está à venda em farmácias, não é caro e rende muuuuuuuito. Outra uma ky sachêboa sacada pro carnaval é o gel lubrificante que vem em embalagem individual do tamanho de embalagens de camisinha porque dá para colocar no bolso…ky sachê custa uns quatro reais na farmácia. Má ideia: leite de rosas e óleo de ameixa do Boticário, experiências confirmam que arde pacas e margarina com sal nem-pen-sar! Na falta de alternativa, óleos comestíveis. O nome já indica, né…

Do Vestuário: não, não vamos dar dicas de moda. Vamos só partilhar o segredo do nosso sucesso: short soltinho. Claro que blusa tomara que caia também é um must da estação carnavalesca, mas o shortinho folgadinho nas pernas é im-ba-tí-vel. Como não amar uma roupitcha que você dá uma afastadinha, coloca de lado e está garantido o livre acesso?

na piaDos Móveis e Utensílios: rapidinhas são uma das grandes atrações do Carnaval, bateu tesão, a galera #sejoga com empolgação. E os banheiros costumam ser um dos lugares preferidos, entre outras coisas, pela chave, né? A rapidinha sentada na pia costuma ser uma delícia, mas não custa dar aquela verificada na resistência e confiabilidade… a dica se generaliza pra mesas, bancadas, muretas e outras coisas igualmente tentadoras. Depois sair com cara de quem não fez nada demais ou com um olhar de gato que engoliu o passarinho (rá) faz parte da diversão…

Dos Carros: Embora o Carnaval costume incorporar vários percursos a pé, mesmo a carnavalesca mais empolgada pode ter seus momentos de fraqueza e reconhecer que amar a pé é lenha.

Daí, se você e o lance estiverem no carro e pintar a vontade, não se acanhe, depois de encontrarem um bom lugar pra estacionar, puxarem o freio de mão, engatarem uma marcha (minimiza os riscos do carro sair deslizando com o movimento), é só arriar o banco do passageiro (muito mais confortável que o banco traseiro na maior parte dos carros), sentar x coleguinha lá, sentar-se no colinho e mandar ver. Vidros com (aquele lance escurecedor que esqueci o nome) são boa pedida.

Das Ressacas: misturar chá verde com bebida no carnaval, por dois motivos: primeiro, e o mais importante, chá verde é afrodisíaco e segundo é porquê ajuda a curar a ressaca do dia seguinte!

89Das Técnicas Refinadas: Beijo grego, pompoarismo, haraquiri-baiano…Ouviu falar e não sabe o que é? Ou sabe e não tentou ainda porque quer mais informações? #VemGente! Beijo grego é facinho: lamber, beijar e chupar o fiofó. Conte com a sua empolgação e com a sensibilidade dx parceirx e já está com meio caminho andado. Pompoarismo: sugerimos que treinar com com dildo é melhor do que com as bolinhas. Pra saber se tá apertando bem e usando todos os músculos, uma dica saborosa: aqueça levemente uma banana, bote camisinha nela e aperte. Assim você vai saber como está a performance. Atenção: banana com casca, hein. E o haraquiri-baiano (a explicação da modalidade baiana desse haraquiri vamos ficar devendo), você se pergunta entusiasmadx, pois lá vai: melhor hora pra fazer é  nas preliminares ou já no fim da brincadeira, principalmente se a mulher ainda não gozou. Faz assim: dedos indicador e médio enfiados no ânus e polegar enfiado na vagina; aí massageie como se tivesse fazendo  movimento circular localizado do polegar nos outros dois dedos; use a boca com criatividade…Uma dica super importante: nojinho e sexo não combinam nadica. Deu vontade? Prove. Experimente.

 E, claro, não esquecer: camisinha no bolso, sempre.

dicas de carnaval

 

Uma costela que se faz sozinha

Receita por Aiaiai, nossa Biscate Convidada*

tudo pronto e misturado

Sabe quando você aprende uma receita nova, fácil e deliciosa, e fica querendo contar para todo mundo? Na minha longa carreira de cozinheira amadora, posso contar nos dedos quantas vezes apareceu uma receita assim, todinha boa.

É o caso dessa Costela na Panela de Pressão. Fiz, adorei e comecei a espalhar para o mundo. Qualquer assunto servia de motivo para eu fazer a minha intervenção:

– E por falar em pressão, aprendi uma receita ótima ….

Ou: – E por falar em recursos hídricos, outro dia aprendi uma receita ótima que não leva nem um pouco de água.

Ou ainda: – E por falar no mensalão, sabe o que eu acho que resolveria todo o mau humor dos ministros do STF? Uma boa costela na panela de pressão. Sabe como faz?

 Bom, vocês entenderam, né?

Pensei em compartilhar a receita no twitter. Comecei a desenvolver um texto de 140 toques com a receita completa. Cheguei nisso: “Panela de pressão, linguiça, costela, cebola. Fogo alto p 30 min. Prova. Acerta tempero. + 30 min. Pronto. Delícia.” Mas, achei que mesmo tendo seguidor@s tão inteligentes como eu tenho, a mensagem ia parecer meio enigmática. Daí eu teria que fazer aqueles tuítes numerados…ou seja, melhor não.

Estava eu nesse dilema, quando a Renata Lins (@repimlins) postou um texto no Chopinho Feminino sobre palavras e expressões usadas no Brasil que são indecifráveis para os estrangeiros ou para quem, como ela, passou muito tempo em outro país. O texto é esse aqui. Lá pelas tantas ela explicava sobre a doideira que é a gente chamar cortes maravilhosos de “carne de segunda”. Foi a minha deixa, né?

Tasquei nos comentários a tal da receita. Ela gostou e a Luciana também e daí me pediram para escrever um textinho para a seção Receita Biscate. Aí eu travei…hummm, será que eu sei escrever??? Mas, aceitei o convite e fiquei matutando numa ligação entre a minha receita e o maravilhoso, livre e amplo conceito de Biscate aqui do blog.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi: receita biscate tem que ser fácil. Pelo menos o tipo de biscate que eu sou: não fica horas na cozinha, não tem planejamento, usa o que tá na geladeira, etc. Não é que eu seja preguiçosa ou coisa assim, mas se dá para fazer coisas gostosas sem ter muito trabalho, pra quê, né? Bolo, por exemplo, adoro ler receitas elaboradas, mas só faço bolo que possa ser batido no liquidificador. Ler é uma coisa, fazer é outra.

Depois, tem a questão de que uma biscate do meu tipo tem muita coisa pra fazer o dia todo, à noite também, dias de semana, sábados, domingos e feriados. Então, preciso de receitas que fiquem prontas quase que sozinhas. Por isso, panela de pressão pra mim é uma das melhores invenções da humanidade. Não gosto muito de micro-ondas, porque acho que o gosto não fica igual. Mas, panela de pressão é tudo.

Outro lado biscate desta receita é que o resultado é ideal para ser degustado em uma reunião de biscates, regada a litros de qualquer tipo de bebida. Caipirinhas, vinhos, cervejas, você escolhe ou não. Pode misturar tudo também.

Então, vamos à receita, que é de uma simplicidade constrangedora.

8 linguiças de pernil para churrasco / 1,5 kg de costela de boi ou de búfalo / 4 cebolas grandes picadas grosseiramente / sal e pimenta se precisar (já já eu explico)

linguiça e costela

Fure bem as linguiças com um garfo e coloque 4 no fundo da panela. Depois coloque metade da costela e metade da cebola picada. Repita: linguiças, costela, cebola. Tampe a panela e deixe no fogo alto por 30 minutos, depois que começar a fazer aquele barulho da pressão.

Cebola finalizando

Confesso que na primeira vez que fiz fiquei preocupada. “Esse troço vai explodir ou queimar”. Mas, após uns 10 minutos, um cheiro delicioso começou a tomar conta da cozinha.

Quando der os 30 minutos, abra a panela (tem que tirar o vapor antes, cêis sabem, né?). Surpresa! O troço virou uma sopa, graças ao choro da cebola e das carnes. Prove o caldo para ver se está bom de tempero e acrescente sal e pimenta se achar necessário. Em geral, o tempero da linguiça basta para dar sabor a todo o conjunto. Mas, vai depender da linguiça por isso a necessidade de correção neste momento.

hora de testar tempero

Hora de testar o tempero

Tampe a panela e deixe por mais 40 minutos no fogo alto. E, pronto!

Se ainda tiver muito caldo, deixe no fogo com a panela aberta para apurar o molho.

O complemento fica por conta do que você quiser. Eu gosto com pão, de vários tipos. E, claro, muitos alcoólicos.

No dia seguinte

Quando eu fiz para fazer essas fotos e, claro, para comer junto com uma amiga biscate que me visitou no último final de semana, sobrou bastante. Então, no dia seguinte eu tirei os ossos da costela, acrescentei uma lata de tomate pelado, uma cenoura grande picada e mais uma cebola. Deixei na pressão por uns 15 minutos. Virou um molho maravilhoso que eu servi com penne integral e muito parmesão ralado na hora.

penne do dia seguinte

Taí. Espero que experimentem, gostem e comentem.

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AIAIAI* A autora do post de hoje é feminista, twiteira e discreta. Como é possível? Pergunta em @aiaiai63 mas não garantimos que ela responde.

Receita Contra a Violência

Por Niara de Oliveira

Para uma vida sem violência, se você for HOMEM:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não manipule. Não estupre. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “presas” suas. Você não é um caçador ou um predador. Você é só humano, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas através do privilégio que tens agora pode se voltar contra você a qualquer momento. Se há alguém reclamando de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito.

Para uma vida sem violência, se você for MULHER:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção de que quem é maior que você e está em situação de privilégio poderá tirar proveito disso. Então, não recorra a subterfúgios para tentar manipular, porque se você é capaz de jogar as pessoas envolvidas no jogo são capazes de entendê-lo. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “concorrentes” suas. Você não é caça nem presa. Você é só humana, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas podem se voltar contra você a qualquer momento. Se há quem reclame de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito. Use a inteligência também para detectar as situações de violência não apenas quando você ou “os seus” poderão se tornar vítimas. Não se proteja das pessoas, mas da violência com que elas possam te atingir e atingir os demais. Se organize com as outras mulheres e com os demais grupos tidos como desprivilegiados na escala do poder e opressão. 

LEMBRE-SE: machismo, racismo e homofobia são estruturais. Não existem pessoas machistas, racistas e homofóbicas. Existem ATITUDES machistas, racistas e homofóbicas e TODOS NÓS podemos cometê-las a qualquer momento, até mesmo quando temos a melhor das intenções. Não há ideologia, organização, cor, orientação sexual, religião ou boa intenção que te imunize desses preconceitos estruturais. Saibamos que ao tentar seguir essa receita iremos errar e o que vai nos diferenciar será a forma como trabalharemos esse erro. Como diria um negão da pesada do samba, o Noite Ilustrada, “reconhece a queda e não desanima… levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Ouça aqui!

LEMBRE-SE: qualquer sistema baseado no cerceamento de liberdade e direitos e que segregue as pessoas produz obrigatoriamente violência e NINGUÉM está a salvo nele.

O 25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, em homenagem a LAS MARIPOSAS. Patria, Minerva e María Tereza Mirabal foram atraídas para um emboscada e assassinadas pelo ditador Trujillo na República Dominicana em 1960. A data foi escolhida pela Assembleia das Nações Unidas em 1999 para o dia de combate à violência sexista.

Cardápios

Por Niara de Oliveira

Como biscate e cozinheira prefiro acordar e ouvir o meu desejo do que comer no dia. Odeio cardápios. Às vezes fico horas diante das opções olhando, pensando, tentando adivinhar sabor, textura, satisfação ao morder, mastigar, engolir… Enfim.

Não estou falando de pessoas, óbvio. Se tiver mais de uma opção “ômi” acabo não comendo nenhum. Nem eu entendo porque reajo assim, mas assim como não me acho uma coisa a ser disputada também não olho homem como opção. E essa parte eu entendo, não entendo é essa minha indecisão acabar me fazendo ficar com fome, falta, vontade. Porque, né… Há que se respeitar as prioridades e a lei da sobrevivência.

recorte da capa do “cardápio”

Dias desses num motel resolvi olhar as opções do “cardápio” que tinha na “mesa”. Não estava pensando em pedir nada, era só frege mesmo. Desde então, penso em escrever esse post contando a respeito, porque foram muitas as risadas. Acabei voltando no motel na semana seguinte para fazer as fotos (a-hã, todo mundo acreditou que foi essa a motivação do retorno).

No tal cardápio, que é padrão e é bem capaz que muit@s o reconheçam pelas fotos (tem tudo no site, com mais opções), tinha quase ‘de um tudo’. Gel; lingeries; chicote; fantasias de enfermeira, Chapeuzinho Vermelho, colegial, Mulher Gata e até noiva (socorro!); algemas, dildos de todos os tamanhos; cinta peniana; bolinhas tailandesas e de massagem; dadinhos; “bolinhas beijáveis” (?); capa peniana (e um tal “anel companheiro” – hahaha), estimuladores; anel oriental, vagina; capas de silicone para dedo e língua; e tinha um tal “kit vibro” (vibrador, gel e sexy game).

Agora vamos às considerações. Dildo tinha de todos os tamanhos, cores, espessuras e formatos, mas vagina (vibrador de silicone em formato de vagina) só tinha de um tamanho e cor. Oi? Como assim, minha gente? No cardápio de dildos tinha “Jamanta (com vibro)” – 20x6cm todo ‘veiudo’. O dildo preto, também ‘veiudo’, chama “Destroyer” 20x6cm (tchê… como assim?) e ainda tem “Real Peter” (oi?) em três tamanhos 15x4cm – 18x4cm – 22x6cm, “Realístico” 16x4cm e o “Rambo” 23x5cm curvado (ui… hahaha). Mas nos dildos o que me fez rir mesmo foi o “Real Peter Fosforescente” 17x4cm (tipo vagalume) e o “Pênis Havaiano” com ‘duas cabeças’ (último item da página linkada –juro que não entendi… alguém explica?)

Agora, o problema. O tal cardápio é caro prá caralho! Comprar acessórios no motel não é para qualquer um e quanto maior o brinquedo maior a conta no final. Mas para além das risadas e críticas — se repararem as tais fantasias variam entre os tamanhos 36/38 e 44 apenas (ou seja, está proibido ter fantasia com gorda vestida de enfermeira, colegial, noiva, etc.) — porque dependendo da localização e dos brinquedos, motel não é coisa para trabalhador (sim, tinha que ter a defesa do proletariado), sou super a favor de variar o cardápio, mesmo que seja o velho e bom feijão com arroz de todos os dias. Dá para acrescentar uma pimenta a mais, uma linguiça extra — neám? — um toucinho, um “azeite”. Só acho que a criatividade não depende dos acessórios e nem a relação pode ficar a mercê disso.

detalhe da tabela de preços

E para matar a saudade e a fome de comida depois de uma maratona de sexo e risadas no motel mais próximo, deixo uma receita da minha terra (o melhor país do mundo) para vocês variarem o cardápio também na cozinha. Segue:

ARROZ DE CARRETEIRO

(para duas pessoas)

Corte 1 kg de acém (no Rio Grande do Sul chamamos de agulha) em cubos, tempere com sal e pimenta do reino e jogue na panela com um fio de azeite.A carne vai destilar água, vai ficar dura e vai levar pelo menos uns 40 min para amolecer e começar a fritar. Enquanto isso pique uma cebola, uma tomate e um pimentão (todos grandões). Quando começar a fritar acrescente 2 cubos de caldo de carne, uma colher de alho amassado ou triturado, umas três colheres de azeite e deixe fritar. Quando a carne estiver bem corada, jogue os temperos picados e um pouco de orégano. Acrescente uma xícara de arroz branco (tipo agulha) e uma xícara e meia de água fervente (pode ser um pouquinho mais). Mexa bem, quando levantar a fervura, abaixe o fogo e deixe quase secar com a panela semi- tampada. Quando estiver quase seco abaixe bem o fogo e tampe a panela. Se possível cubra com um pano. Deixe assim por 5min. Desligue, jogue bastante salsa e cebolinha picadas, tampe de novo e deixe por mais uns 5min descansando. Sirva com feijão e salada de alface e tomate.

Mas, ATENÇÃO! Arroz de carreteiro não serve para jantares românticos, é muito pesado e dá aquela lombra depois. É para comer depois de comer, e dormir tipo “jiboiando”. Entenderam? ;-P

p.s.: Esse post é tipo um aquecimento para a cobertura da Feira Erótica que eu e a Renata Lins faremos no final deste mês.

Ao vencedor, as batatas!

Meio dia, sabe. E eu, no meio do tempo. Meio perdida. Meio vazia. É fome, penso e vou tratar de disfarçar esse vazio que me acostumei a chamar: eu. Porque sou incompleta e tenho essa vontade do que desconheço. É fome, penso, mas não me convenço, essa necessidade de mais, de outra coisa, de outro tempo, mais, mais, voracidade, angústia. temo. Fome. De mim, De quem sou e de quem não aprendi a ser. Uma outra. É fome, insisto. Por enquanto, então, comida. Abro a geladeira e me vejo lá: tem bacon, mussarela de búfala, batata, peixe, muita cerveja, manjericão… só tem o que gosto, sabe, não o que é certo, não o que combina. Tem o que me apetece.

Fico pensando nisso, nos meus excessos. Na minha vontade de prazer. No gosto pelo fácil. Gosto de mim quase sempre, mas tem dias em que sinto falta de coisas que eu não sei ter. Como hoje. Hoje que olho no espelho e vejo as outras que poderiam ter uma felicidade diversa. Uma que não fosse de tantos risos mas que também não fosse de tantos abismos. Que não tivesse tantas letras. É isso: uma que fosse um tantinho menos. Que risse mais baixo, gesticulasse menos, que falasse depois de pensar e polisse as palavras. Uma que soubesse que menos é mais e escrevesse em contenção. Uma que não escolhesse: batatas. E que não colocasse Casuarina pra tocar.

Vaso Ruim não quebra, alertam e eu danço e choro. Não vai cicatrizar, melhor é deixar sangrar em suor.

É fome, é falta. Ausências. Então, batatas. A alegria do carboidrato. Do morno. Do que parece saciar. Amaciar o futuro: cozinho as batatas, muito e muito. A comida pede tempero, mas pede, também, paciência. Vou aprendendo a me esperar. A me aceitar. Paciência.

Por enquanto: faca amolada. Cortar o bacon em quadradinhos, Cortar uma cebola roxa em pedacinhos pequenos. Cortar a mussarela em tirinhas. É em cortes o viver. Talhos. Fendas.

Se tiver farofa de castanha, é bom. Por agora, torrar o bacon e escorrer a gordura, deixando só os pedacinhos crocantes. É a hora do chiado na frigideira, do cheiro bom na cozinha, os sabores fartos, os gestos amplos, os prazeres fáceis.

E os meninos tocam os sonhos calçando sandálias amarelas: mas se a vida melhorar, eu mudo, vou construir um cantinho bem arrumadinho com flores e tudo.

Tudo pronto, é hora de fazer de conta. fazer de conta que tudo combina. Que tudo se ajeita. Que os sabores  se acertam. Fazer de conta que tenho o controle e sei o sabor. Batata cozida: descasca, amassa, tempera com sal, manteiga, orégano e açafrão. Mistura bem com os demais ingredientes, como se fosse a vida: o excesso do bacon, a liga do queijo, o picante da cebola, o duro das castanhas.  Sabe fazer bolinhas? deixar que as mãos reinventem formas, brinquem de modelar o mundo. Passa no parmesão ralado e leva ao forno. Assou? Faz uma cama de azeite com manjericão e deita as bolinhas de batata.

E as despedidas se fazem em questões: Pergunte pr’o seu Orixá, o amor só é bom se doer... O meu diz que não. Mas ainda não sei se acredito.

Por enquanto: ao vencedor, as batatas.

batatas

Touch, batatas

Encontro Domingueiro

Por Verônica Mambrini*

O encontro tão adiado e recombinado. Eu nunca tinha visto você pessoalmente, não sabia nem se ia reconhecê-lo no ponto de encontro no metrô. Saí de casa antes do sol levantar do horizonte. Ainda tinha estrelas pontilhando o céu, bêbados felizes pelas ruas e calçadas, a ressaca chegando devagarinho pelas pálpebras semicerradas deles. Não das minhas: a cama me abraçou cedo, na ansiedade que perturba a véspera de qualquer coisa esperada, e a madrugada já me encontrou desperta.

Entre conversas banais de quem não tem intimidade, o riso veio fácil. Dois bicudos não se beijam? Nada, eu ria das teimosias, grosserias e polêmicas que escandalizavam amigos em comum porque cada linha que ouvia, podia assinar eu mesma. E você tinha prazer no meu riso, a onda elétrica no ar indo dos lábios aos outros. Que felicidade que é para uma mulher – para essa mulher – ter por perto um homem que a faça rir. É a primeira entrega, e quando essa acaba, todas as outras vão morrendo junto.

E num dia ao ar livre, entre besteiras desimportantes e um céu azul invernal, começou o jogo invisível de gato e rato. Há tanto tempo eu não era rato que tinha até esquecido a delícia de bobamente me deixar pegar aos pouquinhos. Primeiro na risada de cristal, depois nos esbarrões de leve em que as peles que teimam em se atrair e toques que de acidentais só tem a aparência descarada.

Até que, exausta do dia batendo perna, e me entregando aos silêncios oportunos, deixei a cabeça tomar no seu ombro, caixa de Pandora. Às vezes é preciso rodarmundo, matar dragões e atravessar solitariamente oceanos para descobrir que abandono faz falta. Tão bom deixar a cabeça que pende docemente no ombro levar à cama. E preencher a cama, inteira, ao longo de horas e horas suspensas no ar. Tão necessário ser entregue. Nesses tempos modernos em que o jogo de amor deixa quem quiser buscar e ser buscado, esqueceram de contar às Dianas que há outros papéis para jogar. Que a caça é dona do caçador.

Ah, amado. Quanto tempo precisa para ser amado? Suas marcas na minha pele contam que se trata de achar a fresta por onde passa ar, sol, vida; a corrente leve de vento que traz de volta á luz. E com umas poucas noites insones eu acordei de novo, pronta e vulnerável para desejar de novo e querer ser desejada. E quando você partir confusamente sem grandes explicações – e você vai partir em breve- saiba que deixou cama e mesa posta, numa casa ensolarada.

* Verônica Mabrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

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