Receita para guardar um leão numa caixa de sapatos

Texto escrito a quatro mãos e dois corações com minha amiga, irmã, escritora e contadora de histórias, Kiara Terra. 

Algumas coisas não decantam. Não adianta pressa porque algumas coisas não vão, ou levam muito mais tempo para chegar ali, no fundão. Um tempo sem tempo que não passa pelos ponteiros do relógio, um tempo porvir que nunca vem. Algumas coisas não chegam lá naquele fundo de coisa esquecida, de lembrança misturada ao chão, de casca roída pelos anos.

As coisas leves não decantam, precipitam. As pedras, sim, essas vão para o fundo. Os medos e suas partículas cinzentas que turvam tudo, sim, podem ser decantados se carregados com cuidado e alimentados com o mar. Os medos misturados ao vento bom dos dias vividos em folia ficam menorzinhos, pequenos lamentos perdidos que afundam no solo de nunca mais.

Mas as belezas são teimosas. São levezas que escapam pelos dedos, escorregam fluídas colorindo o espaço vazio. O pensamento pode dobrar com esmero as belezas partilhadas, passar a ferro, guardar a vácuo, mas as belezas são indobráveis, não guardáveis, risonhas e rebeldes. Desarrumam tudo. Uma por uma sorriem livres de qualquer pacote com laço e fita, qualquer molde com tampa, qualquer ferro bem passado. A beleza assusta, porque não cabe.

E depois de tudo, de quase toda poeira das palavras não ditas, das ditas demais, depois da poeira densa dos “nãos” sobram as belezas. Nunca conheci ninguém capaz que guardar um leão em uma caixa de sapatos.

E então o que fazer com a sua presença, que entra pelas narinas e faz a embriaguez tornar-se rotina? Como andar sem as belezas que ainda estão na minha asa, no perfume das roupas limpas? No frescor do dia novo que ainda não veio?

As belezas flutuam. Flor na água. Folha leve na ventania. Poeira de cavalgada em terra seca. Depois da nuvem passar fica um gosto bom na boca, um pouco de terra nos olhos e as palmas das mãos tingidas de vermelho. E as mãos vermelhas colorem a paisagem, mostram cenas escondidas, distorcem sentidos e seguem sua rota invisível de poesia.

Perfume que não se dissipa antes de ventar outra vez. Dança não vivida. Chopp não tomado. Os tickets de viagens que não foram emitidos. Avião que partirá com as nossas poltronas vazias. Cachoeira do nosso banho juntos, cachoeira que não espera e desce água gelada pelo rio. Corpo na correnteza. Tudo que não veio, voa.

A presença do outro que repousa entre os ombros e desce pela nuca quando a gente dança. Que faz cócegas nos ouvidos quando a gente respira leve advinha o que diz o vento. Que é segredo dissipado e sorridente por entre as árvores do caminho.

As belezas precipitam, aparecem em forma de chuva quando o trovão brinca de ser leão com fome. Flutuam na superfície e só terminam quando o sol esturrica as pétalas e a flor vira outra coisa. Flor beijada por pássaros de cores vivas, que nos enfeita os cabelos. A gente a protege, guarda no casaco com cuidado. Mas uma hora é preciso largar a flor no caminho dos ventos. Ou das águas. Do fluxo. E a gente larga com uma fé teimosa, sim, a gente acredita. Nossa única fé está na natureza de deixar ir. Que na travessia toda desses anos nos levou ao encontro do nosso desejo. Caminho de quem nunca mais volta o mesmo. De quem segue com a chuva, com a corredeira. Com o mar que ainda não veio.

Ainda de manhã, o mar chega. E nós estamos ali de corpo leve, molhado, sentindo de perto o perfume da maresia. Céu azul risonho de noite bem dormida. Onde a gente entra na água sem roupa, porque não tem mais roupa que caiba. O corpo nu, os pelos arrepiados e as ondas. O que vem para lavar as belezas de antes que ainda estiverem no corpo. Deixarei todas, entregues na espuma branca que lambem os pés. Porque o mar tem sal e leva embora tudo que foi deixado antes de ser. Se eu chorar, as lágrimas salgadas voltam para o lugar de onde vieram. Chorar no mar é enxurrada na chuva, segredo de vida líquida. É que a gente também tem um mar por dentro.

Depois. Há de ser doce, há de ter sombra de chapéu de sol. Toalha felpuda a minha espera. Um abraço quente. Um outro bonito, errado, faltante, inteiro, forte e frágil. Que ria de mim e das minhas falas demoradas. E que acolha, sobretudo, a intensidade e o amor. E a coragem.

Alguém para rir até doer a barriga. Para subir em árvores. Para dormir abraçado na rede se houver rede, para segurar junto os pesos quando eles vierem. Um par para voos de dois. E depois para os meus voos sozinha.

Um ter pra quem voltar. Um ter de belezas.

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