moussaká de batata e frutos secos

Por Alexey Dodsworth Magnavita, Biscate Convidado

Mais vegetais e menos carne com um prato grego clássico: o moussaká de batata e frutos secos. Trata-se de um prato típico também da culinária turca, e em geral é feito com carne de cordeiro. Mas como cordeiros são mamíferos fofinhos amigos que fazem bé, eis aqui um moussaká menos conhecido – mas bem gostoso e adequado a este verão tórrido. De quebra, ensinarei uma macumba para prender o amor.

1. Vista uma toga e escreva o nome da pessoa amada no fundo de uma travessa grande.

2. Você vai mergulhar 675 g de batatas em água fervente com sal. Deixe cozinhar por 5 minutos. Escorra, enxágue tudo com água fria, escorra de novo. Seduza alguém para que descasque as batatas e as corte em tiras finas de aproximadamente 5 mm.

3. Aqueça duas colheres de sopa de azeite [não use o extra-virgem, é pecado e desperdício de dinheiro] em uma panela grande, e vá acrescentando: 1 cebola grande picada; 2 dentes de alho amassados; 2 abobrinhas fatiadas; 1 pimentão verde picado [sementes retiradas!]. Refogue, mexendo por 5 minutos e vá virando os legumes conforme eles vão amaciando. Então junte: 400 g de tomate pelado picado; 400 g de feijão branco cozido; 2 colheres de sopa de extrato de tomate; 2 colheres de chá de orégano; 1 colher de chá de canela em pó; 3 colheres de sopa de azeitonas pretas graúdas sem caroço e fatiadas; pimenta-do-reino a gosto [eu uso a verde, menos pungente]. Atenção para o ingrediente diferenciado: 200 g de frutos secos quaisquer, picados. Para a receita ter ares gregos, use damasco e figo secos. Mas aqui vale inventar de vez em quando e fazer uma apropriação cultural: você pode usar manga seca, morangos secos, kiwi seca, pode usar até seu próprio coração ressequido. Qualquer fruto seco serve, mas eu curto a combinação tradicional de damasco com figo, sou conservador nos pratos e liberal nos costumes. Deixe ferver, abaixe o fogo e cozinhe em fogo brando por 15 minutos, até os vegetais ficarem macios e o molho ficar grosso. Mexa de vez em quando com uma colher de pau e invoque Dionísio, deus do vinho.

Mistura de Vegetais - Moussaká de Batata e Frutos Secos

Mistura de Vegetais – Moussaká de Batata e Frutos Secos

4. Preaqueça o forninho a 180 graus. Em uma travessa refratária grande, ponha metade da mistura vegetal cozida no passo 3 e espalhe até ficar uniforme. Em seguida, faça uma camada de cobertura com as batatas fatiadas. Em cima das batatas, ponha o resto da mistura dos vegetais. Finalize com uma camada superior de batatas fatiadas.

5. Num processador, bata 400 g de creme de leite fresco, 2 ovos, orégano a gosto e um pouco de sal e pimenta-do-reino. Espalhe sobre a camada superior de batatas. Para finalizar, rale queijo parmesão em cima de tudo. Nada de usar aquele parmesão já ralado em saquinhos! Zeus ficará furioso e te rogará uma praga com raios!

a moussaká saída do forninho!

a moussaká saída do forninho!

Pronto, macumba grega feita! Coloque a travessa no forninho e grite bem alto:

GIOVANA, NEM TU DERRUBA ESTE FORNINHO!

Deixe assar por 45 minutos. O calor vulcânico de Hefestos fará sua moussaká ficar dourada e firme, ao mesmo tempo em que aquece o nome que você escreveu no fundo da travessa.

Ao retirar a travessa do forno, deixe esfriar um pouco para intensificar os sabores, mas sirva ainda quente.

O prato tem uma boa harmonia entre os gostos salgado e doce. Os frutos secos dão um toque especial.

o prato servido com folhas de rúcula para acompanhar.

o prato servido com folhas de rúcula para acompanhar.

Garanto que é delicioso. Já a macumba para esquentar o coração da pessoa amada eu não sei se funciona, mas se você convidar a criatura para comer este prato com você, já é um ponto a mais na escala Richter do amor 

[Este prato não contém assassinato, mas contém alguma escravização de vacas e galinhas]

10429277_10153033445359913_2025333463143611136_nAlexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

Faça você também

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

Entradas

PAPAYA VERDE E PIMENTÕES

– torradinhas
– 1/2 unidade(s) de mamão papaya verde sem semente(s)
– 1 unidade(s) de pimentão vermelho em tiras
– quanto baste de alcaparra em conserva
– 1/2 xícara(s) (chá) de azeite extra-virgem
– quanto baste de sal
– quanto baste de pimenta-do-reino branca
Rale o papaya verde no sentido do comprimento, a fim de obter tiras finas e longas.
Corte o pimentão da mesma maneira.
Misture os dois, regando com o azeite. Tempere com o sal e a pimenta.
Coloque um pouquinho dessa mistura sobre cada torradinha e decore com uma alcaparra sobre cada uma delas.

DICA: Mantenha a mistura de papaya com pimentão gelada, montando os canapés somente no momento exato de servir. Assim, ficam mais refrescantes.

COISA DE ABACATE ( ou quase um guacamole)

– 2 abacates pequenos ou a metade de um abacate grande maduro picado em pedaços cúbicos médios; – Coentro picadinho; – Cebolinha picadinha; – 1/2 limão para temperar a gosto ; Azeite
– 1/4 de cebola picadinha; – Pimenta-do-reino e sal a gosto

misture todos os ingredientes com uma colher sem amassar demais o abacate. Coloque na geladeira e sirva bem fresco. [pode acompanhar tb pão ]

3- BATATAS COZIDAS COM PIMENTA E COENTRO

– 3 batatas doces; – 1 batata inglesa ; – 1 limão; – 1 pimenta dedo de moça; – 50g de tofu(dido); – Coentro (um punhado); – Sal; – Pimenta-do-reino; – Azeite

As batatas; Corte-as ao meio e lave-as (mantendo a casca). Ponhas as batatas em uma tigela para que cozinhem no vapor. Corte um limão ao meio e coloque-o virado para cima, sem deixar o interior encostar nas batatas. Acrescente uma pitada de sal para temperar. Tampe a tigela com plástico filme e leve ao micro-ondas por cerca de 12 minutos. Após o cozimento, retire a tigela do micro-ondas, descarte o limão e quebre as batatas cozidas com uma colher. Reserve. Fatie a pimenta e, sobre ela, jogue sal e pimenta-do-reino a gosto. Acrescente alguns fios de azeite. Corte o coentro grosseiramente e amasse o tofu por cima. Misture tudo com as mãos. Despeje as batatas por cima dessa mistura e pique tudo grosseiramente com uma faca.

4- SALADA DE PEPINO

– 1 pedaço pequeno de gengibre;– 1 limão; – 1/2 pimenta chilli vermelha; – 1 colher de café de óleo de gergelim; – 2 colheres de sopa de azeite extravirgem; – 1 colher de sopa de molho shoyo; -1 pepino; – 1 punhado de coentro

Descasque e rale o gengibre. Ponha em um recipiente e acrescente as raspas da casca do limão. Em seguida, parta o limão ao meio e o esprema bem, para obter o suco. Acrescente o óleo, o azeite e o molho shoyo. Misture tudo com uma colher. Com um auxílio de um descascador de legumes, descasque o pepino no sentido de seu comprimento – e de maneira que fique bem fino. Pare de descascar quando chegar ao centro do pepino, que é aguado. Faça um montinho com o pepino em cima do molho preparado anteriormente. Misture tudo.

5- SOPA DE TOMATES

4 tomates
1/2 pimentão verde
1 pepino pequeno
Azeite, manjericão e sal a gosto

Bata no liquidificador.
Coloque na geladeira por 2h e sirva.
Se os ingredientes estiverem gelados e a fome grande, pode consumi-lo logo após o preparo.

Alimentação. SÃO PAULO/SP, Brasil 02/03/2014. (Foto: Antonio Miotto)

Caindo de Boca: receita de bolo, pau e reflexões biscates

Tamanho não é documento. Dizem e eu assino. Mas, às vezes, o assunto cresce, sob certo ponto de vista. Ainda mais quando tá à mão. Precisa só do jeitinho certo: ingredientes em temperatura ambiente, bater com jeito e esquentar. Como bolo. Ou pau.

duro como pedra

É que estes dias eu fiquei pensando (eu penso muito, vocês sabem, sou praticamente uma escultura de Rodin) como os fenômenos pauzísticos são distintos. Por exemplo, um dos meus primeiros namorados tinha um pau grande. Ora, pra que modéstia: um pau enorme. Mesmo quando domesticado. Era grandão, não crescia mais quando ele ficava excitado (ou crescia bem pouquinho). Era mais tipo um fenômeno “levanta-te e anda”. Ou algo como um gancho invisível que ia puxando aquele lance pra cima e: voilá, tudo pronto, o pênis praticamente não cresce, só enrijece e sobe. Não que eu esteja reclamando, veja bem meu bem, ficava mesmo (tô aqui procurando a palavra certa…) admirável. Tentador. Apetitoso. Como bolo de queijo, sabe coméqueé? Não leva fermento. Se você tem um liquidificador e um forno quente, já tem meio caminho andado. Mistura aí 3 ovos, 01 copo de leite, 01 copo de leite de coco, ¾ de copo de açúcar (se é chegado a um doce, coloca um copo todo), 01 lata de leite condensado, 2 colheres de manteiga cheinhas, 01 copo de farinha de trigo, 01 pires cheio de queijo ralado e 500g de coco ralado. Bate tudo no liquidificador, verte em uma forma untada e enfarinhada, leva ao forno pré-aquecido e deixa a mágica acontecer. É de lamber os beiços, garanto.

E tem aqueles outros, os que enganam. Estão por ali, miudinhos, discretos, às vezes até meio rosados como querubins e, patati patatá, um afago, um abraço mais jeitoso, um xêro no cangote e eles começam a colocar as manguinhas de fora. Ou seja, crescem e crescem. Quase todos até aquele tamanho – que eu não sei em centímetros mas sei em vivência – que é mais usual. Mas tem os que. Putz, crescem muito. Você quase não acredita (no caso, eu quase não acredito) que aquela coisinha miúda e fofa se possa tornar tão vermelho, pulsante e, pô, com o perdão da redundância, grande pra cacete. Eu sei, eu sei, elasticidade, irrigação, tal e tal, mas parece mágica. Enquanto o pênis versão 01 é uma beleza da mecânica, esse é quase místico. Dá uma certa reverência (deve ser por isso – e não por tesão em tê-los crescendo na minha boca – que gosto tanto de chupá-los). Essa é a turma do bolo fofo. Aqueles que ficam ali, discretos na forma, mas o resultado é de encher os olhos. Tem os elaborados, mas sou da turma dos facinhos. Vamos a ele. Pega 03 ovos, separa claras e gema. As gemas você mistura com 04 colheres de margarina ou de manteiga (bem cheias, viu, gente) e com duas xícaras de açúcar. Deixa isso quieto e vai ali bater as claras em neve. Capricha. Volta pra mistura de gema, açúcar e margarina e vai juntando e misturando 03 xícaras de farinha de trigo e 1 ½ xícara de leite. Tá tudo lisinho? Junta as claras em neve e 01 colher de sopa de fermento. Bota pra assar no forno pré-aquecido (prelimirares WIN) e voilá: cresce e fica com aquela crosta gostosinha e crocante.

E tem, claro, os que enganam por não enganar: são o tipo 3. Estão por ali, miudinhos, discretos, às vezes até meio rosados como querubins e, patati patatá, um afago, uma abraço mais jeitoso, um xêro no cangote e eles agem com os lá de cima: endurecem e sobem. Sem crescer nadinha ou quase nadinha. Não perceptível a olho – e, geralmente todo o resto – nu. Não que isso – ser pequeno – seja um problema em si. Tem posições (sem falar de outras medidas) que tornam o sexo ótimo. Não pensem que não tem bolo pra gente degustar nesse estilo. Tem sim. Fica chapadinho, mas quem se importa se o sabor é de virar os olhos? Bolo de banana, nhami, nhami. Faz assim: em uma tigela mistura 1 ½ xícara de farinha de trigo,  1 ½ xícara de amido de milho, 1 xícara de margarina, 2 xícaras de açúcar e 1 colher de fermento (mas não crie expectativas). Tá bem misturado¿ Esfarele com a ponta dos dedos até conseguir tipo uma farofa. Coloca metade dessa farofa em uma assadeira untada. Cubra com 06 bananas fatiadas. Coloca a outra metade da farofa. Aí bate 03 ovos com 1 xícara de leite e despeja em cima de tudo. Polvilhe com canela, se quiser decore com umas uvas passar e asse. Não cresce, mas fica saborosíssimo.

Atualmente, ando com uma versão 2. É meio um livro da Agatha Christie (pra mim, outras pessoas podem ter outra relação com os livros dela, então substitua pelo livro que quiser e que a fizer sentir assim): eu já conheço os personagens, a trama, o final, mas sempre ressurge a surpresa, o encanto, a magia. Não era e, de repente, sobra. Ui. É claro que entre uma Agatha e outra, sempre se pode ler uma coletânea de contos, um romance russo, um Sidney Sheldon que seja. Com uma xícara de café e bolos de todos os sabores, estilos e tamanhos. O negózi é o fogo.

O Pão da Ira

Receita Biscate Por Niara de Oliveira

esse é o pão que fiz nesta madrugada

Pode parecer oba-oba, mas ser biscate não é fácil. Tem o lado divertido, óbvio, decidimos pela rebelião, pela não-conformismo com a opressão e o triste papel que a sociedade machista nos impõe e todos os seus efeitos colaterais. Optamos pela alegria. Mas matar todas as ofensas sutis e veladas no peito (e haja peito), engolir sapos, desfeitas, desaforos e, principalmente, os enganos é dureza.

Não falo dos nossos enganos, mas dos enganos de pessoa (erro fundamental de pessoa), quando o ser que deveria vir junto com sexo, risadas e poesia, mete os pés pela mão e te trata como biscate naquele sentido pejorativo que combatemos aqui – ou seja, acha que a biscate está ali pra saciar o desejo DELE e não porque ela também tem desejos. E se a gente – biscate – aponta este equívoco, ainda cobra a nossa suposta “contradição”.

Geralmente essa tal contradição se refere à facilidade de acesso. Desenhando a razão da raiva: conversando a gente se entende. Pode ser só sexo. Se a gente quiser, pode. Pode ser sexo e amizade? Mesma coisa. Pode ser relacionamento monogâmico fofinho-dormir-de-conchinha-ir-buscar-na-rodoviária? Pode. Pode tudo. O que não pode é sugerir A e, depois, dizer que é só B e que como somos biscates, tá tudo ok. Dá raiva. E, aí (vamocombiná), não tem nada de biscatagi, é o velho e péssimo machismo de sempre que trata mulheres como objetos.

Nessas horas, amiga-biscate-decepcionada-e-cheia-de-raiva, nada como fazer um pão. Tem pratos que se feitos com raiva dão errado. Pão fica melhor com esse ingrediente. Então, vamos à receita.

Tenha em casa os ingredientes para o dia que essa raiva aparecer. São eles: óleo e/ou azeite, sal, açúcar (refinado — não pode ser nem cristal, nem orgânico e muito menos mascavo), ovo (opcional), farinha de trigo e fermento biológico seco (envelopes de 10 gr ou uma colher de sopa) e água.

Numa bacia média coloque pouco mais que meio quilo de farinha e cave um buraco no centro, jogue conteúdo do envelope de fermento, cubra com duas colheres de sopa rasas de açúcar e coloque apenas sobre o fermento com o açúcar um pouco de água morna (mais para quente). Cubra com um pano de prato e deixe o fermento agir (= fermentar) por uns 10 min. Verifique se água continua na temperatura mais para quente e acrescente mais uma colher de sopa de açúcar e outra de sal, de 3 a 4 colheres de sopa de óleo e/ou azeite (pode misturar um pouco de cada) o ovo (temperatura ambiente, ou cave um outro buraco na farinha para abri-lo — se o ovo estiver gelado o deixe entrar em contato com o fermento), vá misturando direto com a mão e colocando a água morna aos poucos. Caso fique mole demais e não desgrude das mãos, coloque um pouco mais de farinha até acertar. Não é difícil achar esse ponto. Massa de pão quando está no ponto desgruda fácil da mão. Tire a massa da bacia e coloque sobre uma superfície onde possas amassá-la.

Vá amassando, intercalando movimentos de juntar (embolar) e abrir (rasgar) a massa. Não é agora ainda a hora de descarregar a raiva. Trabalhe na massa o suficiente para ela ficar homegênea e desgrudando tanto da mão quanto da superfície. Faça uma bola da massa e a coloque de volta na bacia. Cubra com o pano de prato e se possível coloque num lugar morno. (coloque a bacia sobre uma vasilha com água quente, por exemplo). Deixe a massa descansar por no mínimo 20 min.

Antes de juntar toda a sua força e raiva e partir pra cima da massa com tudo, unte a forma com óleo (bem pouquinho e espalhe com os dedos — o calor da mão ajuda e a mão engordurada ajuda na hora de pegar a massa). Retire a massa da bacia e trabalhe-a de novo sobre a superfície, mas agora usando mais força, rasgando e embolando mais agressivamente. Bata a massa sobre a superfície sem dó, soque-a se isso lhe fizer bem. Faça isso por uns 15 min ou até o braço cansar. Quando terminar, ajeite a massa na forma (se a forma for retangular deixe a massa mais ou menos no mesmo formato, menor — claro). Aqueça o forno levemente e desligue. Coloque a forma lá dentro e deixe a massa crescer até triplicar de tamanho. Ligue o forno em temperatura média, pão deve assar lentamente ou doura muito rápido e não dá tempo de assar por dentro.

Opcionais: Pode substituir um terço da farinha de trigo por farinha de milho ou de centeio e ainda acrescentar linhaça, passas, gergelim e outros grãos da sua preferência (com parcimônia).

Para essa receita não usei a raiva de apenas uma situação, juntei várias porque estou numa fase “revolta mode on”. Pelo menos o pão fica macio.

E a biscate mexicana enfeitiçou Trotsky…

Receita e post da nossa biscate convidada Mayara Melo*

“Olhar amoroso” — Frida Kahlo aos 39 anos, em Nova York, captada pelo fotógrafo Nicholas Muray, seu amante como foram Trotski e Tina Modotti.

“Cada bocado deste prato me faz pensar que a comida no México se rebelou contra os cânones europeus” — Léon Trotsky

Frida era uma grande biscate. Como diria um amigo meu, ela era toda trabalhada nas artes da feitiçaria (rs).  Frida não enfeitiçava apenas por sua inteligência, olhar altivo ou por sua arte, ela combinava vários mistérios, entre eles, a boa mesa. No livro “O Segredo de Frida Kahlo” estão descritas algumas cenas do romance que Frida teve com o León Trotsky.  Um romance que envolveu muito sabores e é um deles que vamos compartilhar neste post. A receita que Frida anotou no “livro da erva santa”* com o nome de “A refeição de Trostsky e Breton”.

Assim Frida escreveu antes da receita que postamos hoje…

“O Piochitas** gostava de ser surpreendido. Não havia muito para dizer, pois Diego me roubava a palavra, a mim e a qualquer um que estivesse perto de Trotsky, por isso eu só cozinhava, pois conseguia dizer mais com meus sabores sobre minha visão de um mundo do que poderia ter dito com palavras. Os dois desejávamos apenas isso: um mundo melhor. Quem é que não quer isso na vida…?”

Natália, Frida e Trotsky

Frida viveu intensamente seus desejos, embora tenha convivido com dores extremas por toda a vida (dores físicas e emocionais. Ela mesma costumava dizer que morreu duas vezes: a primeira no acidente de bonde e a segunda ao casar com Diego Rivera), Frida viveu fervorosamente os prazeres do sexo, da comida e da bebida. A dor, a morte, a traição, a pulsação, o desejo e o prazer foram parte do seu cotidiano. Seu tumultuado relacionamento com o artista Diego Rivera teve momentos de extrema felicidade, mas de brutal sofrimento também. Frida não costumava se importar com as rotineiras traições do marido com as gringas, como ela chamava. Ela mesma teve vários amantes – homens e mulheres ao longo da vida – no entanto, Frida nunca engoliu a traição de Rivera com sua irmã Cristina.  A vingança viria anos depois, justamente com Trostsky.

 “Ao vê-lo pela primeira vez, Frida achou-o arcaico, velho, passado de moda, entediante, chato, solene; um daqueles móveis que a gente herda da avó e encosta num canto do quarto. Apesar disso era um herói revolucionário. Todos os comunistas do mundo o admiravam; nenhum deles lhe oferecia asilo (…) Frida aceitou sem melindres.”

Assim, Trotsky e sua esposa Natália viveram por dois anos na Casa Azul. Diego pedira a ela que abrigasse os dois e Frida aceitou sem reservas a incumbência.  Rivera possuía uma admiração profunda por Trostsky, ele mesmo fez o intermédio com o presidente do México para conseguir asilo político. Em sua presença, segundo descrevia Frida, parecia um bobo concordando com tudo que Trotsky falava e tentando agradá-lo de todos os modos. “Talvez para competir com Diego, talvez pelo desejo de destacar-se, ou ela simples razão de que era capaz disso, decidira ganhar o apreço do homem a quem seu esposo mais admirava. Frida desejava que Trotsky se rendesse a ela e lhe permitisse executar sua vingança”. Assim foi feito. Frida começou a seduzir Trotsky justamente pelos sabores.  Segue abaixo trechos do livro que narram um desses momentos de deliciosa biscatagem.

“Cada bocado deste prato me faz pensar que a comida no México se rebelou contra os cânones europeus. Luta por sua autenticidade. Mas a insurreição é uma arte, e, como todas as artes, tem suas leis”, disse Trotsky numa manhã, ao encontrar Frida na cozinha. Para ajudá-lo a despertar, deleitaram-no com uma xícara de café de Olla. Ao vê-lo refeito, encostado ao batente da porta com um grande sorriso, Frida lançou-lhe um olhar avaliador, atraente e cheio de sensualidade. E depois voltou ao trabalho na cozinha, deixando o aguilão do desejo cravado em Trotsky. “Quais são as leis da cozinha, Frida?”, perguntou ele.
(…)
“São mais simples do que o senhor pensa. A primeira é que ninguém se mete na cozinha de uma mulher sem a autorização dela, é uma falta tão grave quanto deitar com o marido dela. Talvez até mais grave, começou Frida sentando ao lado dele. Na cozinha você pode ser ignorante, mesquinho ou descuidado, mas nunca as três coisas juntas, e por isso sempre tem alguém mexendo o arroz quando ferve, deixando de por algum ingrediente porque esqueceu de comprar, cozinhando ao mesmo tempo a massa e o molho, fritando a carne com mais óleo que o lago de Chapala, servindo feijão queimado.”

Em Trotsky foi se desenhando um sorriso que se ampliou numa gargalhada, e, sem querer, suas risadas se tornaram tão altas que fizeram com que o senhor Cui-cui-ri que andava ciscando restos de comida, saísse correndo dali.

(…)
“Tem algo de bruxa na senhora que encanta e deslumbra. Talvez esteja me envenenando com sua comida, pois desde que cheguei ao México estou vendo tudo de outro modo.” Frida jogou o corpo para trás, ao mesmo tempo que soltava fumaça de seu cigarro. No fundo da cozinha, Agustín Lara cantava no rádio “Solo tú”.
“Por acaso agora o verde do pasto faz você lembrar da melancolia, o sangue lhe lembra as cerejas e a felicidade contagiante de uma tarde lhe lembra um doce de mel?”, perguntou Frida.
“Isso mesmo, isso mesmo”, respondeu Trotsky com movimentos afirmativos, muito próprios dele. De professor, de encantador de palavras.
“Então, devo estar lhe passando alguma coisa minha com o sal, pois para viver essa vida é preciso temperá-la. O senhor já vê que estou doente, por isso acabo ficando tolerante, embora às vezes a vida seja danada além da conta, pois ou faz você sofrer ou faz você aprender. Para isso é que se coloca tomilho, pimenta, cravo e canela, para tirar o gosto ruim. Frida pegou-lhe a mão e ficou passando a almofada de seus dedos pelas rugas dos nós dos dedos dele. Se não veja, o senhor sem pátria e eu sem pata.”

Essa cena é uma descrição do começo da biscatagem entre eles, mas a história evolui até Trotsky mandar cartas e mais cartas apaixonadas para Frida. Segundo ela descreveu, parecia um adolescente totalmente entregue. O problema é que quanto mais ele se jogava, mas Frida tinha certeza que precisava acabar com aquilo. Não lhe apetecia tanta melosidade ,além disso, os seguranças de Trostsky e a própria esposa já começavam a observar o comportamento estranho do revolucionário. Sabendo que seria um escândalo que complicaria a situação de Trotsky, e já desinteressada,  Frida o incentivou a mudar-se de casa. A passagem mais interessante dessa parte do livro é justamente a que narra o momento em que Diego percebe que Frida concretizou sua vingança. Quando Trotsky disse que iria embora, Diego se revoltou e fez muito barulho.

“Cale a boca, Diego”, murmurou Frida ao ouvido dele antes que continuasse com seu escândalo melodramático.
Diego ficou pasmo.
“Mas você não entende, Frida?” perguntou, irritado, quando se esconderam no quarto para discutir o assunto.
Frida não queria aumentar o problema. Acendeu um cigarro e atirou-lhe a verdade na cara como um pastelão:
“Quem não está entendendo é você. Deixe ele ir, vai ficar melhor comigo ausente da vida dele. Já fiz mais do que ele esperava.”
Diego compreendeu de repente tudo que acontecera debaixo do seu nariz.

Assim viveu essa grande biscate: revolucionária, viva, impetuosa e cheia de mistérios. Segundo narra o livro, Frida conversou com a sua madrinha morte e previu a morte de Trostsky, pediu clemência e tentou um novo pacto. No entanto, nunca soube se obteve da madrinha apenas mais alguns meses de vida para o revolucionário ou se nunca foi ouvida.

Ah …siiiim….eu fiquei falando da biscatagem de Frida com Trostsky e quase esqueci de passar a receita que ela fazia para o comunista. Ok, vamos lá…

Antes de postar, fiz a receita para ter certeza que funcionava mesmo. Aqui em casa todo mundo comeu. Não sobrou nada. Sucesso total 😉

A REFEIÇÃO DE TROTSKY E BRETON (Huachinango com coentro)

– 1 huachinango de mais de 2kg limpo e sem escamas (esse é o nome do peixe no México. É um tipo de peixe vermelho. Use um similar. Comprei 2,5kg lá no mercado de peixes do Mucuripe, em Fortaleza. Procure na sua cidade um lugar que venda peixe fresco e compre algum peixe vermelho, pode ser pargo, ariacó, cioba, etc.);
– 8 xícaras de coentro bem picado;
– 5 pimentas ao escabeche em fatias grossas (existe essa parada pronta nos supermercados, mas outro dia posso passar a receita caseira);
– 2 cebolas grandes em rodelas;
– 4 xícaras de azeite de oliva;
– sal e pimenta.

MODO DE FAZER:

Faça 3 cortes no lombo do peixe para que o tempero penetre bem. Forre uma panela grande com metade do coentro picado, metade das pimentas e metade da cebola, cubra com metade do azeite e tempere com sal e pimenta. Sobre essa cama, coloque o peixe inteiro, cubra com uma camada igual à primeira, decorando com as pimentas, o coentro e a cebola, e despeje o resto do azeite. Leve ao forno preaquecido a 200º C por 40 minutos, banhando-o com o molho de vez em quando para que não resseque. Sirva na própria panela.

Adaptação: Essa é a receita descrita no livro. Fiz pequenas modificações. Passei um pouco de limão no peixe antes de colocar os temperos e cobri com papel alumínio nos primeiros 30 minutos e deixei no forno por mais de 1h. Não sei que forno Frida usava que só demorou 40 minutos…rs. Minha indicação é que, nos nossos humildes fornos convencionais, é melhor deixar por 1:30h, os primeiros 30m deixa com o papel alumínio e depois retira para dar aquela dourada. É uma receita simples e prática. Ah, no tempo que fica lá no forno…rs…dá pra biscatear muuuuuuuuuuuuito 😉 hahahaha!!!!

Escolha um bom peixe vermelho: cioba, pargo, ariacó, etc.

Corte todos os temperos e faça três lascar no lombo do peixe.

Regue com bastante azeite, após jogar todos os ingredientes. Pode deixar no forno por pelo menos 1h30 e vá biscatear ;)

* A história desse livrinho é interessante, pois Frida começou a escrevê-lo ainda cedo, após o terrível acidente de bonde que sofreu. A madrinha de Frida era a morte e elas fizeram um pacto após o acidente. Todos os anos, Frida prepararia uma oferenda para relembrar o pacto que fizera com sua madrinha que lhe permitiu continuar a viver. Todo dia 2 de novembro, dia dos mortos no México, Frida preparava um grande banquete para a madrinha e fazia anotações num pequeno livro preto ao qual chamava de “livro da erva santa”. A receita descrita no post de hoje foi retirada desse valioso livro que desapareceu logo após a abertura de uma exposição em homenagem a Frida no Palácio de Belas Artes.

**Piochitas, diminutivo de piochas, plaquinhas. Possível alusão aos óculos pequenos usado por Trotsky.

Haghenbeck, Francisco Gerardo — O segredo de Frida Kahlo / tradução Luis Reyes Gil. — São Paulo: Editora Planeta Brasil, 2011 — Título original: Hierba Santa

PS: Na edição do livro o nome de Trotsky está grafado como “Trotski”.

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* Mayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol. Publicitária, feminista, de esquerda, trabalha junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas e mestranda no Programa de Meio Ambiente na UFC. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

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