Quem garante?

Apesar da correria insana, ontem arranjei um tempo para ouvir música. Porque proporcionar alguns momentos (ainda que mínimos) de prazer era fundamental para mim num dia f*dido como foi essa última segunda-feira.

cachorro música

Ownn… *-*

Entre um álbum e outro (dos trocentos mp3 guardados no celular) e uma estação e outra de metrô, me deparo com Tiê (é, nem só de rock são feitos os ouvidos da biscate que vos escreve). Mais precisamente, a canção Perto e Distante. E comecei a prestar uma atenção especial na letra:

 

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro espera de você?

Distante
O que você me diz do que eu sinto
Não sei porque.

Quem garante
Que seguindo adiante eu possa enfim viver?

Sem me comparar
Sem entristecer
Sem tentar mudar
Sem poder entender.

Não dá
Eu vou ter que sair pra poder voltar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Me ver
Me achar
No seu olhar
Pra entender o que é o gostar.

Quem garante
Que o que você é
É o que o outro enxerga?

 

idealização

Idealizando…

Acho que todo mundo já teve a mesma sensação que eu: “puxa, a música certa no momento certo”. Momento este em que eu estava pensando justamente em como a gente idealiza tanto os sentimentos e as pessoas a ponto de achar que elas são “perfeitas”. A ponto de achar que elas devem fazer exatamente aquilo que a gente gostaria que elas fizessem. A ponto de julgarmos que as atitudes do outro deveriam acontecer de acordo com o que acreditamos ser correto ( eu já disse que odeio demais essa palavra???).

Eu estou tentando “aceitar” (juro) que somxs feitxs de carne, ossos, erros, acertos, escolhas e anseios. Mas é difícil!!! Idealizar é tão reconfortante. Tão cômodo. Tão menos amargo do que armar-se da mais pura racionalidade. Tão mais rápido do que procurar em algum lugar dentro de nós o “tal” do bom senso…

Você garante que o que você é, é o que o outro enxerga ou espera de você???

Casulos

Riso fácil, vivacidade, liberdade. Ser/estar/descobrir-se bisca é bem legal, né povo?

Maria_Sibylla_Merian-728x993É, eu também acho. Fantástica essa ruptura das amarras que uma galera chatona aí insiste em nos colocar. Ser o que se é, sem pudores, desconfortos ou medos. Sentimentos normais, mas que podem nos fazer sofrer  –  na maioria dos casos – mais pelos outros do que por nós mesmxs.  E a gente deixa.

As mesmas amarras que tentam nos impedir de mostrar a nossa verdadeira essência, são as que tentam nos obrigar a acreditar que a felicidade (desde que seja comedida e sem escândalos. Bem coxinha mesmo, tipo comercial de margarina) é  estado normal  e intrínseco a todas as pessoas e pelos mesmos motivos. Parece até que ficar triste ou precisar muito de uns momentos de reflexão quanto à própria vida é crime…

Sei lá. Acho que nós, humanxs, precisamos tanto de casulos (no nosso caso, “casulos sentimentais”) quanto as lagartas. Um tempinho para nos fecharmos e ficarmos quietinhxs até que a metamorfose aconteça. Até que melhoremos. Até que surjam novas cores e que possamos criar asas para voarmos, biscatemente livres. Como as borboletas.

sybillaClaudinha está lagarta. Meio feinha, perdidinha e esfomeada. Preparando um casulo quentinho, bom para aquecer meu coração e renovar meus pensamentos. Quando eu finalmente for uma borboleta, só espero uma coisa: que minhas asas sejam grandes. Para que eu voe mais longe. Para que eu possa ver e mostrar como sou leve e bonita.  Para que eu repense meus caminhos. Para que eu sinta que mudar é bom. Mudar… Mudemos.

* As imagens que ornamentam este post são de autoria de Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora científica alemã. Pioneira, num tempo em que as Ciências Naturais eram “coisa de homem”. Conheci os trabalhos dela no ano passado e coincidentemente, hoje seria seu 366º aniversário e o Google fez um doodle lindo em sua homenagem. Veio a calhar com o texto de hoje: Sibylla dedicou sua vida a registrar por meio de sua arte as metamorfoses dos insetos, principalmente das borboletas. Que danada, né? Em pleno século XVII, justo uma mulher se destacar por fazer essas coisas!  

😉

Por trás de um grande homem

http://www.oocities.org/geysonas/bewitch.jpg

É quase arquetípico: o casal está junto há sei lá quanto tempo. O cara é aquele sujeito artista, gente boa, querido, poeta sonhador; criador, engajado em causas, líder de utopias. Todo mundo o ama.
A mulher? briguenta, centralizadora, dominadora, ranzinza – “não deixa ninguém chegar perto dele”, “controla [a grana/as notícias/ os contatos] com mão de ferro”, é insuportável… ah, se não tivesse essa mulher…

Sério que vocês acreditam nisso? Acham que o cara não sabe de nada – tadinho – e que a mulher decide tudo sozinha, faz tudo sem o conhecimento dele, tem toda a responsabilidade? Pelamor. Casal só se entende em conjunto. Inda mais nesses casos. É uma coisa só: o cara só é “o poeta-gente boa-sonhador-criador” porque tem a mulher “criadora de casos” pra fazer a retaguarda. Pra negociar. Pra acertar as arestas. E valorizar o passe.

Isso é até profissão: não é à toa. Quando é profissão, fica mais claro, embora muitas vezes a culpa da dureza das negociações, da dificuldade do acesso, fique nos ombros do agente. Mas esse é pago pra isso. No caso de casais, não. Mas é uma parceria, igual. É um acordo. Um só pode ser o que é porque há o reverso da medalha – da mesma medalha.

A cabeça só se desloca se os pés a levarem, já pensaram nisso? Parece óbvio. E no entanto. Tem até um ditado, muito difundido por AdeA: “idéia não tem perna”. E é exatamente isso. Tantos artistas sonhadores existem sem ninguém saber. Estão lá, no canto deles. Sem “pernas”: porque brigar, negociar, barrar, dizer não, dá trabalho. E, tantas vezes, a mulher vai assumindo essa função: porque ela quer o que ele quer – que é fazer sucesso, aparecer, virar liderança nacional. Crescer para além das próprias idéias, da própria utopia, dos próprios poemas. Virar inspiração e caixa de ressonância. Difundir, multiplicar. Espalhar-se.

E, vejam bem: eu não estou discutindo se isso é bom ou ruim. Não estou fazendo julgamento de valor. Só estou querendo marcar uma posição: não dá para olhar um sem o outro. “Ele completa ela e vice-versa”. E vice-versa. Sem o versa, não há como entender o vice. Fica pela metade. E entendimento pela metade é entend…  não chega a canto nenhum.

Sejamos menos ingênuos: não há bruxa, não há santo. Ou por outra: só há santo porque há bruxa.

Viver: nossa maior oportunidade

Rua  Augusta, São Paulo, quase 20h. Um monte de gente aglomerada em volta de um carro parado e, ao lado do carro, uma garota caída. Inerte. Parecia ser bem jovem.

Ver aquela cena mexeu bastante comigo , sabe?  Mesmo sabendo que atropelamentos  acontecem todos os dias, sobretudo em uma cidade imensa como São Paulo. Cidade onde a maioria das pessoas (sobre)vive com pressa e estressada.  Cidade onde dá para perceber de forma bem acentuada quanta gente está insatisfeita. E onde a vida parece ser mais breve do que em qualquer outro lugar…

O cotidiano às vezes nos torna cegos para essa brevidade que envolve a nossa existência.  Já repararam como a gente perde um tempo precioso remoendo as nossas frustrações ou reclamando daquilo que, por um motivo qualquer, não deu certo? Ou então julgando as escolhas dos outros pelo fato delas serem diferentes das nossas?

Pode parecer simplista o que vou dizer, mas acho que a gente poderia aprender a enxergar cada dia como uma chance. Chance para errar, para acertar, para começar ou recomeçar.  Viver é uma grande oportunidade que nem sempre valorizamos.  Há tantos caminhos a serem percorridos, tantas ideias ou experiências enriquecedoras para trocar. Por que não começar a exercitar isso desde já?

Não quero me tornar uma escrava dos meus dissabores. Não quero deixar para o futuro as coisas que eu poderia fazer hoje, só porque eu tenho medo de falhar. Quero aproveitar direitinho todas as minhas chances . O mundo pode estar bem ingrato, mas reclamação sem atitude certamente não ajudará em nada para que ele mude.

Não sei se a garota que mencionei no começo do texto sobreviveu. Ou se ela se tornou mais um dígito nas estatísticas paulistanas de mortes no trânsito. Mas eu fiquei imaginando que talvez, ela tivesse muitos sonhos. Ou que ela gostaria de fazer muitas coisas ainda. Pode ser que a última chance dela tenha sido até as 20h de ontem, e nem ela nem ninguém tinha como saber disso…

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