Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

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E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

Ligações Invisíveis

Por Angela Scott Bueno*, Biscate Convidada

Existem ligações invisíveis entre pessoas que uma vez construídas não se desfazem, sempre lembraremos delas num momento importante, num turning point. Nem sempre tem a ver com laços de parentesco ou amizade, pode até ser que a pessoa que mudou seu rumo, você sequer conheça, oficialmente. Pode ser que sejam pessoas que se encontrem uma única vez, num acontecimento fortuito. Alguém que pediu um cigarro na rua e houve uma troca de olhares – você tem um cigarro? Eu não fumo. E entre estas duas frases, houve uma revelação. Alguém que sentou no mesmo banco de praia que você. Você e aquela pessoa desconhecida, ficaram um tempo olhando o mar, cada uma a seu modo e então ela abriu a bolsa e tirou um livro e era o mesmo livro que mudou sua vida, tempos atrás. Você vê o livro e lembra de ter decidido como queria viver. Ver o livro deu a dimensão do quão distante você foi parar desse desejo. E então, decide voltar. Alguém que olhou para a lua na mesma hora que você. Traçou o mesmo movimento no espaço e no tempo: olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava você. Que olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava o outro. Ali se construiu uma ponte entre lua e humanos e entre humanos e suas existências. Sua vida e a vida daquela pessoa foram transformadas por uma sutil sincronia. Um segundo e a vida te deu a dimensão exata do lugar que ocupa nela. Você afinal é essa pessoa e apenas o que é belo para você – e não importa mais se alguém entenderá, aceitará ou reconhecerá -, é que vai guiar a sua vida. Você não pode mais escapar da sua beleza, da sua lua no céu. Tenho essa fantasia de ter certeza – essa é a fantasia, a certeza, de que nós nunca saberemos quem é que realmente muda o nosso destino. Aparentemente pode ser um grande amor ou a maldade de uma mãe, uma viagem ou a doença de um filho mas aposto mais nesses momentos aonde um humano olha para outro humano, sem defesas, sem resistência, sem expectativas. Seremos apenas corpos de afetos, pegos desprevenidos, vivendo um momento grandioso, numa situação banal. A pessoa que me pediu um cigarro, ao nos olharmos, por imponderável, fez com que eu tivesse contato e afirmasse tudo o que é meu. Um livro MFK Fisher, a forma de ver o mundo de Wyslawa, a voz de Miles, os quadros de Ortner, o vento e as nuvens, não uma árvore mas as pedras, o licor e não o vinho, os pássaros, as baleias, os sonhos de madrepérola, a medida exata do meu desejo. Tudo isso me pertence e eu pertenço a eles e, ao virar à direita na esquina e não à esquerda e encontrar o homem que me pediu o cigarro, de quem eu jamais saberei dos afetos, tive os meus devolvidos quando, sem aviso, nós dois humanos nos reconhecemos claramente. A grande ilusão é achar que nós nos criamos sozinhos e somos independentes: a gente só se revela e só se conhece através do outro. E na mágica desse caldo de acasos que é a existência.

13618214_10206437356320753_420784083_n*Angela Scott Bueno é Floralista e de vez em quando gosta de descrever o que acontece com ela ou o que ela vê na vida, no mundo e nas coisas. Pisciana de raiz, o que a salva é o ascendente em Leão, senão já tinha virado geleia. Não curte discurso excludente, mas curte medicina, dança, música, comida e fotografia e sempre se sente mais em casa com quem é Biscate na vida.

Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

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Mensagem Para Uma Paixão de 20 Anos

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

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Era um dia como outro qualquer. Acordei para ir ao trabalho e como sempre  faço chequei as mensagens no Whatsapp. Deparei-me com uma que chamou minha atenção. Era de um amigo  com quem há muito tempo não conversava. Achei estranho, pois ele nunca me mandava mensagens, nosso contato era tão formal que mal nos falávamos virtualmente. Apesar de achar estranho, fiquei contente com aquele contato. Tomei café e segui para o trabalho normalmente.

Ao chegar lá, comentei com uma amiga sobre a mensagem que havia recebido. Ela me sugeriu conversar com ele e saber qual é.

– Ah, amiga, se você soubesse, eu sempre fui a fim desse cara!

Sorrimos.

No dia seguinte, checando mais uma vez o aplicativo de mensagens, mais uma. Desta vez, com a foto de uma flor e a pergunta de como eu estava. Isso me enchia de felicidades e ao mesmo tempo de angústia. Não tinha coragem ainda de perguntar o que estava acontecendo.

Conversando com outra amiga, ela me disse para desencanar, pois podiam ser apenas cuidados e gentilezas de um amigo. Mas, dentro de mim, havia algo que sinalizava que não era apenas isso. Mesmo assim, não quis criar coisas na cabeça.

Os dias foram passando  e eu fui me acostumando a, toda manhã, ser acordada com estas mensagens de carinho. Minhas manhãs eram tristonhas, pois havia acabado de sair de uma depressão, e o que ele estava me proporcionando eram momentos de alegria, que me reenergizavam.

De repente, as mensagens se tornaram mais explícitas. E aí, o sinal vermelho acendeu: Nossa, será que ele está apaixonado? Este não era o problema, mas sim o fato dele ser casado. Isso para mim era um choque.

Criei coragem e perguntei o que ele pretendia com tudo aquilo.

– Pretendo pretender….não sei – ele disse.

E eu a cada dia ficava encantada e perturbada. Se fumasse, já tinha fumados os cigarros do mundo inteiro, tamanha minha angústia. Era o homem de quem eu tinha sido a fim na adolescência, que eu sempre quis e que agora estava aí, atraído por mim. Mas, eu também pensava: já foi, é passado, ele perdeu a chance, me perdeu, não vai mais me ter. Ficava num dilema. Parecia ter voltado à adolescência. Era de fato um pouco tarde para isso. Ele vem agora. Casado. Seria tudo isso um pesadelo? Sem falar nessa condição que nos impedia de ficarmos juntos, morávamos em cidades diferentes. 600 km nos separavam.

Apesar de todos os empecilhos, eu me via apaixonada, via a oportunidade de ficar com ele. Mas, mantinha meus pés no chão, pois não sabia ainda – apesar dos evidentes sinais – o que estava acontecendo.

Conversava sempre com minha amiga sobre esta situação, para poder ter a opinião de alguém que estava de fora. Ela, sempre moderada, me alertava para “ter cuidado” e “não cair em armadilhas”.

Em um dia que estavámos conversando via Whatsapp, perguntei a ele se tudo isso não era uma aventura para ele. O casamento devia ter caído na rotina e ele queria apenas se distrair comigo. Ele negou. Porém, em nenhum momento, ele me disse que estava apaixonado. Ao passo que eu já estava e dizia. Ele não admitia. Ou não estava.

Nossas conversas se tornaram  mais íntimas e ele me perguntou se não estava sendo machista por não falar com a esposa sobre o que estava acontecendo. Disse a ele que deveria criar coragem, saber o que realmente queria e aí então conversar com ela.

Toda vez que falávamos nesse assunto, me vinha uma aflição. Já imaginava que ele não iria deixa-la, pois tinha um relacionamento de muito tempo, tinham filhos e até um neto. Aí eu recuava e dizia a ele que era melhor não nos falarmos mais. Voltar ao contato formal. Mas, ele insistia que não queria parar de falar comigo e que não se imaginava um dia sequer assim.

– Você me preenche – ele dizia.

Eu parava e olhava para aquelas palavras piscando em meu celular, suspirava e não sabia o que dizer. Ponderava a situação, pensando sempre nos prós e os contras.

Tudo o que acontecia entre nós era maravilhoso, meu peito enchia-se de alegria. Sinto que fui egoísta em alguns momentos em não pensar em como a esposa dele ficaria, caso ele a deixasse. Ao mesmo tempo, sentia que isso não era problema meu. Não era eu quem tinha um compromisso. Mas não queria que ela se magoasse. Olha só, eu já pensava que estava com ele.

Eu não sabia o que podia acontecer. Ao final, podia ser eu a magoada, pois existe também essa  história de que os homens casados, depois de algum tempo, veem as esposas como mães, cuidadoras, e aí isso passa a nutrir o casamento, embora não haja mais paixão e às vezes nem sexo. Ou a estabilidade da relação deles poderia oferecer um encanto que a nossa não poderia. Ou a idéia de monogamia como caminho único e obrigatório podia magoar todo mundo.

Enquanto isso, eu ficava naquela situação surrealmente feliz. Em minha cabeça o impasse de dar seguimento a tudo ou dar um basta e dizer: não!

Não tem resposta certa e caminho fácil. Não tem modelo ou prescrição. Histórias são em aberto, sem soluções ou definições. Tudo pode acontecer, nada pode acontecer. Importa que a vida é minha, o caminho é meu. Um espaço se abriu, algo já aconteceu. Daqui pra frente….  verei para onde os passos que dou me levarão.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

A Praia

Voltei à nossa praia esses dias. Refiz o mesmo caminho, passei pelo posto onde compramos cigarro, mas dessa vez não parei. Segui pela mesma estradinha estreita, vi as casas dispostas em círculo, lembrei das histórias que me contou da sua infância. Sorri ao me lembrar de você. Dessa vez não tinha sua mão na minha perna, nem a cerveja entre as minhas coxas.

Refiz todo o caminho, mas cheguei à praia por outro lado. Engraçado isso. Ver que existem outras saídas, outras formas de se chegar àquele lugar tão bonito e tão esquecido. Olhei o mar e lembrei de você. Na verdade, falei de você por um bom tempo enquanto chegava lá. Olhei o mar e me joguei. Pela primeira vez. Sozinha.

Mergulhei naquelas águas calmas em consonância com meu peito agora tranquilo. Deu saudade de você. Deu saudade daquele dia ali com você. Vi o mirante de longe. Sorri aquele canto de boca das lembranças de volúpia da noite que passamos ali.

Aquele mar me lembra você. Entrei nele sabendo que era preciso ressignificá-lo. Ir “à nossa praia” foi a minha maneira de ressignificar os lugares por onde passamos juntos, ressignificar você na minha vida. Entrei no mar e mais uma vez me deu saudade de você. Imaginei teu corpo bronzeado mergulhando ali. Uma pintura bonita. Mergulhei e tive a certeza de que fiz a coisa mais certa que eu podia fazer, a decisão mais sensata que eu podia tomar. Voltei à superfície feliz com que eu sou.

Saí do mar e me esperavam na areia com uma cerveja. As coisas agora eram diferentes. O mesmo cenário, outras histórias. Começo de temporada. Fiz questão de almoçar naquele mesmo restaurante, disse a todo mundo que era o melhor peixe da região. Acho que é o único por ali, né?

Voltei pra casa por outro caminho. Aquela praia não é mais a minha praia com você. É mais uma praia por onde já andei, que está no meu roteiro, que posso dizer que já a conheço. Vivenciei outras alegrias, estive com outras gentes. Você ainda é a pessoa que me apresentou aquele lugar até então desconhecido, mas não é mais minha única referência. Você agora é lembrança doce que me visita vez ou outra.

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Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

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Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

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O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

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O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

Indo

Eu estava. Eu estou. Com essa vontade. Ou esse vazio. Com essas lágrimas. Com esse eco. Com essa dúvida. Eu não sou boa de escolhas, gosto quando vou vivendo a vida no fluxo. Mas a cama grande demais, o retrato em branco e preto e aquela pergunta que acompanha madrugadas insones vão atrapalhando o ritmo. Eu tropeço. As pessoas que me amam entendem, o que me surpreende um pouco, porque eu mesma mal consigo perceber relances dessa fome. Só sei que falta. Respiro. Tenho dificuldade de ser essa eu que estou sendo. Abro portas, janelas, aplicativos e peito. Se houvesse som no vazio, seria um riso de deboche. Mas nem. Sinto um pouco de inveja de quem tem fé, além daquela da canção. Eu não costumo encontrar respostas fora de mim. E, dentro, hoje, mal encontro as perguntas. Trago o corpo em desalinho. Dizem por aí que o mestre surge quando o aprendiz está pronto. Dizem, por outro lado, que a gente escuta o que quer ouvir. Uma coisa, outra ou as duas, fui ler a Fal* para lembrar que o bom, o belo e o justo sim, são possíveis. E eis que ela, além de tudo, se faz oráculo. Eu li. Leiam também:

Q: Fal, e quando você acha que achou o cara da sua vida, mas ele é quase 15 anos mais novo do que você? como faz?

Amolis, cê sabe que eu não sou uma florzinha, não sou uma pessoa boa, não creio numa energia-muito-linda, não creio na bondade, então creia, não tou te falando isso porque sou uma fofa. Tou te falando isso porque é a real: vai lá. Quinze anos mais novo, que odeia tatuagem, usando peruca, trinta anos mais velha, muito mais alta, muito mais gordo, magro de doer, bigodudo, torcendo pro time errado, com dez vezes mais grana do que você, atleta, tatuado, bicho grilo, careca, duma profissão que sua santa família considera abaixo “do nosso status social”, fumante, cadeirante, dum gênero que você jamais imaginou que rolaria, eleitor de partidos exóticos, pobre de doer, doutro país, artista, funcionário público, com cabelo esquisito, dono de boate, gótico, pagodeiro, sertanejo universitário, iéiéié: vai lá. Sempre. Só não vale quem não quer você, quem você não quer e dimenor. De resto, vai lá. Eu juro pra você que nada, nada, nada disso importa. Na-da. Não é papo “clube dos corações solitários”, é da vida, ouça a tia Fal: vai. Seja ele o cara da sua vida ou o cara dos próximos lindos 15 minutos (a gente nunca, nunca, nunca tem como saber): vai. Vai, vai, vai. O que a sua mãe acha, eu juro, não importa, porque ela dorme agarrada no seu pai e você, vivendo pela cartilha dela, vai ou dormir sozinha (nada contra, eu durmo, mas, né?) ou dormir com um ser que não é teu número. Quem não quiser te receber de fim de semana porque “ela se juntou com aquele cara estranho” e “ele casou com aquela esquisita”, pode ir capinar um lote, porque num sábado chuvoso e tristonho, eles têm com quem ver Netflix, você vê com o cão (eu vejo com o cão, nada contra, mas, né?). Eu já pensava isso antes de o A. morrer, mas depois que ele morreu, falo pra todo mundo, o tempo todo: vai. Porque é raro. É tão bom. E efêmero. Em um segundo a sua vida muda. E se você for quem tou pensando que você é: VAAAI!!!”

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* Se você não conhece a Fal, aproveita. Fal Azevedo é artífice de letras com sentimento. Autora de “Sonhei que a neve fervia”, “minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”, “o nome da cousa” e alimenta tumblrs a rodo. É dela o “Drops da Fal”, maior preciosidade da internet.

Uma Não-Carta de Amor

Por Cristina Charão*, Biscate Convidada

Papel+amassado

Pensei em te escrever uma carta de amor, mas não posso.

Não sei encontrar em mim as bonitezas que cabem em uma carta de amor. Não há em mim sutilezas capazes de criar boas metáforas, nem certezas que me permitam hipérboles.

O que eu sinto agora é mais um desejo de violência do que de zelo, e se eu disser eu te amo (mais uma vez), quero que seja como um tapa, não uma carícia.

Pensei, então, em registrar as mil quatrocentas e setenta e sete vezes que penso em ti ao longo de um dia em pequenas tiras de papel, amassá-las lentamente, reduzi-las a bolinhas infames e atirar cada uma delas em ti. De pirraça.

Passei na Rua Botafogo hoje.

Li o artigo do ex-presidente. Falou abobrinhas, mas não só, né?

Me explica quais foram as não-abobrinhas que ele disse.

Minha mãe fez pudim.

Nossa, tá frio.

Tive vontade de tomar café.

Sabe que eu não tinha vontade de tomar café antes de ti?

Acho que vou comprar aquele hidratante.

Vesti aquela calça florida.

Preciso entender o marxismo.

Devia ler mais.

Ele deve estar estudando.

House. Lupus de novo? Eu ri.

Cada coisa dessas, anotada com a minha letra ligeira e horrorosa em um pedacinho de papel, amassado.

Bolinhas de papel, atiradas como quem joga uma bolinha de gude, assim com o polegar dando um peteleco. Cada uma delas atingindo a tua orelha, uma atrás da outra.

Irritantemente. Despeitadamente. Inconveniente.

Não é assim o amor?

cris charão*Cristina Charão [@cris_charao] é uma jornalista que vive de biscates – ou uma biscate que vive de jornalismos. É mãe, mas não mãezinha. Às vezes mulherzinha, às vezes mulherão. Gaúcha. (Sim, eu sei fazer churrasco. E troco lâmpadas. E mato baratas. E faço ballet nas horas vagas.) Fala mais do que faz. Escreve menos do que pensa.

Da exigência de respeito à monogamia alheia

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De maneira recorrente vejo apelos para que mulheres não fiquem com homens comprometidos porque isso ia trazer sofrimento para outra mulher. Esse apelo feito em nome do feminismo, sororidade e quetais. Acho que há muita, muita coisa complicada nesse tipo de discurso, mas vou falar só de duas (por exemplo, vou passar ao largo da questão: mulher com mulher a fidelidade é automaticamente garantida? Porque não tem um apelo pra mulheres não ficarem com mulheres comprometidas? A homossexualidade feminina e a bissexualidade foram esquecidas ou mulheres são automaticamente fiéis se estão juntas?).

Mas, dizia eu, vou ficar só em dois pontos. O primeiro deles se refere a uma certa noção do desejo como voluntário. Sim, a forma como o desejo é constituído pode e deve ser problematizada. Os discursos mainstream sobre beleza e atratividade, a estrutura machista que supervaloriza a ação como masculina e implica em uma passividade dita feminina, a cultura que legitima que coisas como crime contra a honra ainda existam no imaginário das pessoas, tudo isso pode e deve ser questionado. Mas isso não significa que o desejo constituído possa (ou deva) ser normatizado. O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações.

O segundo é o próprio horizonte de relações presente nas entrelinhas: a ideia de que a monogamia é um modelo desejável de relacionamento. Ou, pelo menos, de que é um modelo de relacionamento a ser preservado. Parte-se da ideia, nesse apelo, de que todos compactuam dessa visão e desejo (por exemplo, sempre que ficamos com um homem comprometido ferimos nossa própria vontade e sonho de um relacionamento saudável., sim, eu li algo assim). Sem reparar (espero) lança-se o apelo a partir de uma suposição de moralidade comum. Mas e se a gente não tem o anseio por um “relacionamento saudável” ou não deseja que os “relacionamentos sejam saudáveis”? Ou se, mais longe, a gente não tem modelo e cada relacionamento pode ser do jeito que for? Se a gente levar às últimas consequências a ideia de que ninguém pode nem deve definir como alguém exerce sua afetividade e sua sexualidade, nem Igreja, nem Estado nem os parceiros? E se a gente não compactuar com o direito de posse intrínseco à idéia de monogamia?

Eu não. Não à culpa. Não a religiosidade dogmática do discurso pode ou não pode, fode ou não fode. Não às identificações fraternas e suas implicações. Não à conversão. E não, não, não, uma negativa sistemática à noção de que eu ou alguém saibamos o que é melhor pros outros e outras no que se refere ao usufruto do seu próprio corpo.

PS1, Minha questão não é que não existem pessoas que são comprometidas, ficam com outras pessoas E são escrotas. Minha questão é que elas não são escrotas ou sacanas PORQUE ficam com outras pessoas, não é uma relação causal e sim de concomitância (idem para quem é o “terceiro”, não significa que esse terceiro não possa ser um sacana, mas não é sacana porque é o terceiro).

PS2. Não foi intenção desmerecer os sentimentos pessoais. Somos quem podemos ser. A sociedade nos educou pra entender que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque fomos insuficientes de alguma forma. E isso dói. Caso não compremos o discurso da insuficiência tem também a idéia de que se a pessoa com quem estamos estiver com mais alguém é porque ela não presta, e isso dói também, como assim escolhemos errado? Então entendo e acolho quem vive como pode viver, se respeitando e ao seu ciúme e tal. Mas entendendo que isso é um jeito próprio e possível de viver bem, não uma bandeira. E que existe a possibilidade de uma vida em sociedade menos dolorida, possível se baseada na separação entre respeito e exclusividade.

Mais

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Não queria, mas entendi que o nosso tempo se esgotou. Nosso caso – tão curto – já chegou ao fim. Não chega a ser uma dor sabe, mas é que eu achava que faltou a gente conversar mais, se olhar mais, se tocar mais, se beijar mais. Acho que faltou mais vezes seu corpo visitar o meu. Assim, como quem não quer nada. Faltou mais sua boca nos meus peitos, seus dedos na minha buceta.

Sinto falta de sentir mais tua boca de cigarro e cerveja. Teus lábios no meu pescoço. Minha mão na sua barba. Não é que esteja ruim a vida sem você, mas é que ia ser tão bom se você viesse com a tua mão grande na minha perna. Penso nos outros com quem me deito e penso que sortudo seria você se assim o fizesse também. Ai como me faz falta você me comendo de quatro!

Não me interessa saber o que aconteceu, porque você não quis, porque não quis ficar dentro de mim de novo. Queria que você quisesse de novo. Só isso. Não posso dizer que mais uma vez bastaria, porque pode ser que não. Mas pode ser que sim também, não sei. Eu queria que você quisesse de novo pra poder te lembrar o quanto chupo seu pau bem.

Eu queria de novo não só pra recriar os caminhos de antes. Queria pra percorrer os novos que nos prometemos naquela noite de muita cerveja e maconha. Sonho com a promessa de que da próxima vez você me comeria o cu. “Da próxima vez tu compra lubrificante, hein?”. Disse eu já querendo amarrar o encontro seguinte. É mais forte do que eu, sou assim, de lua em touro.

Sonho com a possibilidade de você gozar na minha boca. E, ok, quero relembrar tua boca quente na minha buceta. Queria dormir aninhada no teu peito de novo. Lembro que você me abraçou a noite toda e mesmo achando ruim, eu estava achando bom. Acho que talvez soubesse que não mais tua perna pesada em cima de mim.

Quando pensei no próximo encontro, não era uma regra, um dever, um ter que. Estava mais para possibilidade. Está vendo, você não me conhece e aí não sabe que sou inteira possibilidades, alternativas e facilidades. Quisesse tu me comer de novo, ficava sabendo que sou dessas que só dizem sim.

Vai e Vem

Que seja fácil. Sem perguntar o porquê nem o quando. Sem procurar uma norma. Sem modelo. Suave. Borboleta no peito. Não se sabe direito quando chega nem quando vai. O corpo solto. Não controla. Não promete. Vai ficando. Arranca as páginas do calendário e faz tapete. Tira a bateria do relógio. Que seja em diminutivos. Fica pra um cafezinho. Dá um abracinho. Leve. Deixa chover, deixa a chuva molhar, cantarola uma canção sem pejo. Afasta os móveis, afasta os medos, ensaia um bolero. Só dá bola pro amanhã quando for um hoje. Aprende o adeus. Tudo que vem, vem, volta, cantarola outra vez. Lembra do Kronk e cria sua própria trilha sonora. Abre a janela e deixa o vento embaralhar cabelos e sonhos. Aqui pode. Aqui sim. Aqui e aqui também. Vem. Vai. Sem razões, sem justificativas, sem explicações. Vontade. Tesão. A ponta da língua. A pele. Sem linha, sem pauta, sem regra. Desse jeito, apenas. Primeira vez. Única. Singular. Toca. Abre. Cuida. Solta. Lembra. Esquece. A beleza de esquecer. Suspira. Eu. Você. Sem nós. Mais. Quem chegar. Como chegar. Recebo.

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Chega. Abre a porta, os braços, meu zíper. Encosta teu corpo no meu. Me abraça. Geme no pé do ouvido. Lambe aquele caminho debaixo da orelha até o vão do pescoço. Esfrega o pau duro nas minhas coxas. Me encosta na parede, na máquina de lavar, no encosto do sofá, no que estiver mais perto. Enche as mãos com a minha bunda. Aperta. Roça. Morde o ombro, o queixo, o lábio. Aproxima o nariz do meu e manda eu abrir os olhos. Bitoca. Procura o sutiã e ri baixinho de não encontrar. Uma mão na curva das costas, a outra apertando mamilo. Belisca. Me deixa mole. Com a boca aberta deixa saliva no meu rosto todo. Me vira. Me curva. Usa o joelho pra afastar minhas pernas. Segura minha cabeça, mais escuto que vejo sua calça descer.  Encaixa a mão na minha buceta, move a calcinha pro lado. Enfia um dedo. Outro. Sussurra o que vai fazer. Faz. Vem. Volta. Pau. Dedo. Pau. Dedo. Me dá a mão pra eu lamber. Geme. Desce. Senta no chão, levanta a cabeça. Lambe. Suga. Se toca. Me chupa. Deixa o rosto me sustentar enquanto a língua me prova. Fraquejo. Deslizo. É uma almofada? É. Puxo. Levanto o quadril, apoio no macio. Sinto a língua espalhar o gosto minha buceta pela pele arrepiada. Ia dizer me fode, digo eu te amo.

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