Algumas anotações sobre “Cat Person”

Teve aquele texto na New Yorker, “Cat Person”, que viralizou loucamente e eu – como de hábito – não entendi por quê. E vou tentar comentar sem ter entendido. Bora ver onde consigo chegar.

Vou contar como li o texto, pra começar. Como já li há um tempo, vai ser um resumo bem resumidinho. Uma moça e um cara começam uma historinha, bem de leve. Se encontram uma ou duas vezes e adquirem alguma intimidade por mensagens de texto. Tão comum nos tempos atuais. O cara se afasta em algum momento, a moça manda mensagens e mensagens, o cara reaparece. Conversam, brincam, trocam ideias, piadas. Mandam carinhas pra lá e pra cá. Combinam de sair – vão ao cinema e, em seguida, beber algo. Tudo meio desajeitado: a escolha do filme, a bebida depois.  Na hora ir embora, ela sugere ir pra casa dele. No meio do caminho fica em dúvida, mas aí, já tinha dado a ideia, né. Quando chega na casa dele ela perde o tesão, de repente. Olha pra ele e não tem mais vontade nenhuma de trepar. Só que já estava ali, já tinha concordado. Não se sentia ameaçada, era apenas difícil dizer que não sem motivo, àquela altura. Então, sim. Sexo “por cortesia”, ou por constrangimento. Vão pra cama e tudo o que ela quer é que aquilo acabe. Sem dar nenhum sinal a ele disso. Não diz o que gosta, não mostra o que quer, apenas se deixa levar. Depois, quando acaba, ela vai embora e simplesmente não quer mais contato com o cara. Que, evidentemente, fica sem entender nada.

O texto rodou um monte por aí, assim como os zilhões de textos que se seguiram a ele. Mas é basicamente isso. Uma noite de sexo ruim. Que viralizou.

Não é apenas isso, porém: é também a história de uma relação que existia – tantas mensagens, tantos textos, tantos emojis – e que deixou de existir porque o sexo foi ruim. O cara, aquele com quem ela conversava, se divertia e ria, de quem tinha saudade depois que desaparecia, esse cara deixa de existir de uma hora para outra. Nenhum cuidado lhe é devido, é como se o sexo fosse um “tudo ou nada”.  Como se fosse a prova dos nove. Como se ela ter perdido o tesão e ter trepado com ele mesmo assim justificasse riscar o cara de uma vez da vida, assim.

Eu acho meio esquisito, na real.

Sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim. Gente é mais que isso. Claro que uma trepada casual de alguém que se conhece em uma noite pode ficar apenas nisso e não pede explicações: só que não era o caso ali. Não vi ninguém falando disso, embora tenha lido tantos textos sobre esse texto. O ponto de vista dela, o ponto de vista dele. Mas com foco no que seria o ápice da história: o sexo ruim. Ninguém discute muito a relação pré-existente e o que acontece com esta depois. E quando o cara, no final das contas, perde a compostura e manda uma sequência de mensagens grosseiras, é como se tudo fosse justificado: era apenas um “macho” equivocado, que não merecia nenhum respeito ou atenção.

Sei lá. Fiquei sentindo falta de alguma conversa no pós. Ou, pelo menos, de uma mensagem mais simpática. Tipo “não rolou bem, mas a gente pode se falar”. Ou “vamos ficar sem se falar um tempo, depois a gente vê”. Ou … alguma coisa, né?  Nem precisava falar mesmo de novo, era só um jeito de não encerrar assim abruptamente. Achei, mesmo, que a protagonista da história meio que objetificou o cara. E jogou fora sem nenhum cuidado a relação que existia, como se não fosse nada. Como se o fato dela mesma não ter conseguido dizer que não estava mais com tesão fosse justificativa pra simplesmente descartar o cara. O cara inteiro, quero dizer, e não somente o sexo. Porque ele, a pessoa, merecia alguma consideração da parte dela, não? Eu acho que sim.

Tem outra coisa, que é o próprio sexo ruim: certo, ela não disse que não queria. Mas, já que tinha topado, podia talvez colaborar um pouco praquilo ter alguma chance de ser razoável, né? Não me pareceu. A moça simplesmente se deixa fazer e cria fantasias pra conseguir levar o ato até o fim. Não há nenhuma tentativa de interagir com o cara. É como se ele estivesse ali para satisfazê-la. Ou como se o fato dela não querer no começo já destinasse tudo ao fracasso e a desobrigasse de qualquer participação efetiva no processo. Ora, tem tanto sexo que começa mais ou menos e depois melhora, com alguma ajuda dos participantes…

E, na verdade, esse “sexo ruim que define tudo” me parece exatamente o outro lado dos livrinhos de banca para moças, aqueles Sabrina, Bianca, Julia, em que o sexo bom define tudo. O cara pode ser o que for, um canalha, um bruto, mas pega a mulher de jeito e… pronto. Está tudo resolvido. Como se não precisasse de mais que isso. Como se toda a relação encontrasse seu sentido ali. Uma espécie de “e foram felizes para sempre (trepando muito e tendo múltiplos orgasmos cintilantes)”. Tão igual aos contos de fada.

Sexo, ruim ou bom, é apenas sexo. Não precisa ser abismo e não precisa ser paraíso. Além de precisar contar com a participação das duas pessoas envolvidas. Não é algo que está dado antes de acontecer. Se não for bom, não é necessariamente “culpa” de ninguém. É tentativa e erro,  né? E, às vezes, acerto. Há que se ter alguma boa vontade. Alguma generosidade. Alguma atenção com o outro. Se interessar, alguma persistência.

Por aí.

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Amor e jeitos de

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

Tenho certa pinimba das odes ao amor romântico. Pinimba, assim. Como se fosse uma irritação na pele. Ah, o amor romântico, tão exaltado por profissionais das artes e diletantes dos sentimentos. Aquele dos grandes gestos, das flores, das velas em castiçal, dos incensos (inclusive tenho alergia), das declarações em poesia derramada, das hipérboles. Aquele que todo mundo gostaria de ter. Pois bem, sei lá.

Tem quem navegue em serenatas ao luar e sonhos de valsa.
E se deixe levar pela intensidade exibida, pelos arroubos, pelas brasas.
E, claro, pode ser, tanto pode.

Mas tem também quem aprecie aquele amor que se descobre nas frestas, o improvável, o dos pequenos gestos de delicadeza, o dos silêncios e da quietude acompanhada.

Uma imagem que me vem à mente é aquela cena final de “Notting Hill”, no banco: ela, grávida, deitada no colo dele; ele, lendo um livro. Estando ali, dando uma olhada de vez em quando, sentindo aquele quentinho por dentro. Sabendo que dá pra estar ali sem dizer nada.

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Tem aquele amor meio áspero também, que aparece na comida feita, na casa limpa, um amor construído pelo esforço, talhado na pedra, de sol a sol.

Amor bonito esse que se mostra no fazer. Que precisa de tempo pra se entender. Que vem de mansinho, aos poucos, e um dia está instalado, sem que ninguém tenha percebido direito como.

Jeitos de amores. Talvez não tão óbvios. Nem por isso menos preciosos.

O cinema, me parece, afetou um tanto a forma de se perceber afetos: confunde-se tantas vezes a embalagem com o conteúdo. Ou, por outra, espera-se sempre uma só embalagem, quando podem ser tantas quanto há jeitos de ser, de chuva ou sol, de riso ou siso. As outras, tantas vezes, não se reconhece. E criam-se faltas de algo que não falta. E dores onde não precisava. Porque não houve rosas. Porque não houve violinos ou exuberantes declarações. Porque a roupa era o macacão de todo dia e não o vestido de baile, o traje de gala, que demonstrasse… o quê? O que é que precisa ser demonstrado pela roupa, pelos violinos, pelas rosas? Por que não pela comida no fogão, pela sacola do mercado, pela faxina na casa? Menos romântico, vão dizer. Sim, é certo; mas não necessariamente menos amoroso. Não menos cuidadoso. Não menos presente. E, algumas vezes, mais sólido, mais duradouro. Resistente aos ventos, às intempéries. Amor, a cada dia.

E tem o vai-e-vem das ondas: um que começa daquele jeito, de mansinho, a cada punhado de sal, um dia pode encher barragem e transbordar em arroubos, assim, sem mais nem menos. O outro, aquele dos grandes feitos, das conquistas de territórios, dos tapetes de rosas, em algum momento pode amansar, qual fera domada, pode aquietar e deitar-se ao pé da lareira, no tapete, ronronando. Vá você desenrolar.

A moral? Não tem, né. Não tem moral. Tá tudo valendo. Qualquer maneira e tal. Só que é sempre bom ficar atento, saber escutar, saber perceber, saber acolher as formas de amar que são aquelas, que são outras. As que se exibem e batem no peito, as que não se deixam perceber à primeira vista. As que atravessam mares e conquistam ilhas em seu nome, as que talvez nem se declarem. E, no entanto, estão ali. Na sombra. Ao seu lado. À espera de, quem sabe, talvez.

Exorcizando Fantasmas

I don’t care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul

I want you to notice
When I’m not around
You’re so fucking special
I wish I was special

But I’m a creep
I’m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don’t belong here

– Creep, Radiohead

Passei anos da minha vida tentando me adaptar a um padrão, tentei ser inúmeras vezes alguém que não se encaixava no que eu realmente me identifico, tudo isso pra ser aceita por outras pessoas. Passei anos da minha vida tentando emagrecer, me encaixar num padrão de feminilidade e beleza que nunca combinou comigo. Era outra mulher, outra Sara, uma Sara infeliz, uma Sara azeda.

Relações abusivas criam essa necessidade, não, nunca parece que é exigência do parceiro, parece sempre que você faz porque deseja mudar, que é algo que vem da sua vontade, que é um agrado a quem você ama. E isso vai te consumindo aos poucos, te fazendo mal, minando sua auto estima, te mostrando que sua beleza não existe, afinal, você não se encaixa naquele padrão que agrada seu parceiro.

O processo de se adaptar a um padrão que não era meu começou antes desse relacionamento, mas foi com ele que esse processo minou minha auto estima por completo, como eu acreditava que ele me conheceu magra, de cabelos compridos, usando roupas “femininas” eu devia me manter assim, se não ele procuraria outra desse jeito. Várias vezes ele deixou isso claro nas entrelinhas, que não era mais a Sara que ele conheceu, que eu parecia não me amar e não me cuidar pois estava engordando, não me depilava, queria cortar meu cabelo curto. Quantas vezes vi seus olhos de decepção pra minhas mudanças, todas essas mudanças vinham de um incômodo meu natural, quando fico estagnada por muito tempo num visual eu preciso mudá-lo. Ele não entendia, ele queria de mim apenas o superficial.

Era um objeto que ele mostrava passeando nas ruas, nas baladas, nos bares, nas fotos do facebook, quando deixei de ser aquele objeto, ele parou de me mostrar, vergonha de se relacionar com uma mulher fora do padrão. Não era mais a “morena” do corpão malhado e cabelos cacheados compridos e vermelhos. Queria raspar a cabeça, queria colorir o cabelo de qualquer cor, queria comer e beber bem sem me preocupar em malhar na segunda pra queimar o que ganhei no fim de semana. Ele ainda descobriu que namorava uma preta, comecei a me afirmar na minha identidade, comecei a questionar eu ficar invisível nas conversas, ele me admirava e me achava inteligente no início, eu tinha muita cultura pra passar pra ele, com o tempo ele foi minando o meu discurso, ele foi se afastando da admiração, comecei a incomodá-lo.

Sim, agora, quase um ano após o término, consigo enxergar tudo de errado que vivi nesse namoro, não foi a “infidelidade” ou a “traição” com outras mulheres que me fez mal, não ligo pra monogamia, o que me fez mal foi a insegurança da corda bamba por anos. Medo de ser abandonada pelo, segundo ele, único homem que iria me querer gorda, feia, de cabelo curto, desleixada, sem me depilar, louca, maníaca de ciúmes. Precisamos dar nomes aos bois, o que vivi foi uma relação abusiva e violenta.

Mulheres, tenham cuidado, se alguém precisa te fazer se sentir menor pra ficar bem, essa pessoa não merece estar ao seu lado. Procure amigas, apoio na família, numx psicólogx ou onde preferir, tente trabalhar sua auto estima pra sair disso antes que seja devastador.

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

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Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

Sexo é a dois [2]

Já escrevi um sobre este temaMas dá sempre vontade de voltar a ele , tais são as demandas, as pressões, as exigências. Ser “bom de cama”, “satisfazer o outro”. Estar pronta para tudo, sentir um prazer intenso, ter múltiplos orgasmos coloridos, querer uma vez e outra e outra…. Tenso o negócio. Quem faz a contagem de pontos? Quantos quesitos serão avaliados? Evolução, enredo, harmonia? Comissão de frente, alegorias e adereços?

Acho que se fala muito de performance. Se fala pouco de escuta. Escuta do corpo, escuta do outro. Da dança que é o sexo a dois: ajeitos, encaixes, tentativa e erro. Acertos também, como não. Deixar-se ir sem pensar demais na chegada, aproveitando o processo. Exploração. Curiosidade. Abertura para o novo, para o outro: o outro que é outro e que é sempre diferente.

Adianta quase nada seguir regras estabelecidas, usar técnicas aprendidas: pra cada pessoa um ritmo, um gosto, um toque. Claro que a prática ajuda: mas com “prática” quero dizer experiência de escuta, de flexibilidade, de aceitação do que vier. Quanto mais prática, menos regras, acho. Mais possibilidade de perceber nuances e sutilezas. Murmúrios e delicadezas. A escuta do outro: não a mecânica – que é necessária, e seria até bom entender disso melhor -, mas aquela ali, do momento. A escuta sutil. A reação a cada ação.

E algo que acho que talvez seja o mais difícil de tudo: o soltar-se. “Solta o corpo e vai”, como no carnaval. Um desapego da pose, da máscara de todo dia, da compostura. Sexo é sem compostura. Deixar-se perceber assim não é evidente. Pode até dar um frio na barriga, uma sensação de desproteção. Sexo é mergulho também.

(Não, gente, não é amor: amor é outra coisa. Não precisa ter amor, sempre bom frisar. Mas respeito pelo outro, pelo desejo do outro, pelo corpo do outro. Confiança na entrega. Aquela, ali, daquele momento).

E assim dá pra vagar, sem muitas respostas, com vontades de saber mais. De conhecer mais. Aquela pessoa que está ali, naquela hora, com você. Aquele cabelo, aquele olho, aquela boca, aquela mão, aquele corpo inteiro que tem consistência e forma, que tem seu próprio jeito de ser-com-você. Na cama. Ou “na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”.

Ah, só mais uma coisa, que já disse no outro texto, mas acho que vale repetir: leveza. A leveza de saber que não precisa ser incrível todas as vezes. Nem sempre o encaixe, o ritmo, o gosto vão ser aqueles que tirarão você do chão. E daí? Daí nada, ora. Pode ser apenas o.k, ou até nem ser bom de fato; dessa vez não foi, quem sabe na próxima? Até mesmo com aquela pessoa, se houver interesse e vontade: de repente não foi da primeira, mas se conhecendo mais, dizendo dos gostos e vontades… sabe-se lá. Vai que.

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PS. Também no Biscate: Boa de Cama e Tem Sempre que Gozar?

De Noite

Aquela pele clara, a respiração dele em seu pescoço, ela nem conseguia acreditar que estava sentindo o calor dele, o cheiro dele a deixava tonta. Ela se virou e olhou nos olhos dele, e viu aquele olhar de entrega. Ele falou “Me beija!”, ela beijou e com uma das mãos apertou a cintura dele pra perto dela. Ele apertava sua bunda enquanto ela colocava sua perna por cima da dele, a outra mão dele estava entrelaçada na dela, sim eles estavam de mãos dadas!

"Lick me alone!" #eroticdrawing #eroticart #erotic #petitesluxures

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Ela era apaixonada pela bunda dele, pelo peito, pela barriga, pelas coxas, eles se achava magro demais, ela o achava maravilhoso, ele se achava alto demais, ela só queria sumir naqueles quase 2m de altura e ficar lá sentindo o gosto, o cheiro, o toque dele. Ela falou no ouvido dele “Te amo!”, era amor, construído de forma linda e numa conexão que nunca sentiu antes. Ele sorriu, ele não gostava do próprio sorriso, ela amava o sorriso dele.

“You’re in my mind all of the time
I know that’s not enough
If the sky can crack
There must be someway back
For love and only love ” – U2, Electrical Storm

Ele disse “deita!”, ela deitou de barriga pra cima, ele se apoiou por cima dela, beijou sua boca, seus peitos, beijou e mordeu sua barriga, desceu até a virilha, beijando as coxas e a virilha, abriu suas coxas, beijou e mordeu enquanto ela segurava os ombros dele com ambas as mãos, ele olhava pra cima, parecia sorrir com os olhos e continuava, sugando e beijando.

Assim que ela gozou, ela pegou a camisinha na mesa de cabeceira – “vem cá”, ela disse, ele deitou e ela colocou a camisinha nele, ela deitou por cima dele, o encaixe era perfeito, ela sempre soube que seria. Ele apertava seu bumbum, ela segurava em seus ombros, ela adorava os ombros dele. A respiração ficou mais forte, os movimentos mais rápidos, ele estava com o rosto vermelho, estava lindo, ele subiu as mãos pelo corpo dela, passando pelo pescoço e chegando em sua cabeça, ele alisava a cabeça dela, ela descobriu que sente muito tesão na cabeça desde que começou a raspá-la.

Ela sentiu o corpo todo arrepiar, ela iria gozar, ele também iria, sentiu por sua respiração….

Nesse momento o despertador tocou e ela acordou, mais uma manhã comum. Abriu o zap e viu o boa noite dele, deu bom dia e foi pra sua rotina de todo dia. Sem ele.

Final Feliz

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo

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Na véspera do aniversário ela se pegou pensando em mais um ciclo que se fecha. Enquanto pedalava os pensamentos dançavam na sua cabeça. Pensamentos voam e ela não tinha ideia da quantidade de textos que já havia perdido em cima da bike, correndo ou nadando. Pra evitar que isso se repetisse, de vez em quando parava no meio-fio pra fazer uma ou outra anotação.

E nesse momento de começo de uma nova história, ela pensava nos finais que já tinha vivido. Eram muitos. Impossíveis de classificar em alguma ordem. Mesmo a cronológica é meio dúbia, já que algumas histórias só acabam mesmo muito depois de um final. E outras acabam bem antes do fim oficial. O que ela já aprendeu em 44 anos de finais e começos é que cada final acaba fazendo sentido em algum momento, ainda que pareça na hora do vivido a coisa mais sem sentido do mundo.

Algumas pessoas sonham com a dobradinha clássica: “casar e ser feliz para sempre”. Ela lembrava da discussão histórica que tinha com uma amiga nas noites intermináveis dos seus 20 e poucos anos…  A amiga acalentava o sonho do “pra sempre”. E ela, já naquela época, tinha convicção de que o pra sempre não era coisa pra ela.

Assim, a cada relação que tinha, sonhava em ser feliz por um tempo. E, no único casamento que teve digno deste nome, sonhou muito com uma separação feliz. Não no momento do fim, claro. O fim é sempre triste. Mas tristezas passam, dores prescrevem e ela achava possível manter ou resgatar uma relação de amizade e companheirismo depois do fim. Agora parecia que estava próxima do sonho. Não foi um caminho fácil. Foram necessários vários finais infelizes, estranhos, dramáticos, patéticos pra chegar neste momento. A cada fim aprendeu um pouquinho ou um muitão.

O primeiro final merecedor de nota foi internacional. Neste época ela vivia um tumultuado namoro-de-vai-e-volta que de tantos finais, parecia não ter mais fim. Em um dos intervalos, decidiu ir pra longe, ver as coisas a partir de outra perspectiva, ou fugir mesmo e ser outra pessoa por um tempo. Foi morar um ano na Inglaterra e, logo na chegada, arrumou um namorado inglês, que em seguida se mudou pro quarto que ela ocupava na república de amigos ingleses. Passaram o ano todo ano juntos.

Foi um fim com data marcada, ela tinha dia pra voltar e nenhum dos dois pretendia alongar o romance à distância. Fizeram uma linda viagem de despedida, uma lua de mel ao contrário, logo antes da separação, uma das coisas mais felizes e tristes que ela já viveu.  Tudo isso podia ter funcionado como um belo final e uma transição pacífica pra uma saudável amizade. O problema é que eles combinaram que ele viria pro Brasil visitá-la um ano depois do fim. E um ano depois, aos 20 anos, é tempo suficiente pra ela já estar enganchada em várias outras histórias e não dar a atenção que ele merecia. E quebrar todas as expectativas dele. Sem cuidar muito daquele final, ela fez uma lambança. O cara ficou muito puto da vida (com razão) a ponto de não querer mais falar com ela ou ouvir falar dela. Nunca mais. Ainda hoje ela tenta encontrar essa criatura nas redes pra dar um alô, saber da vida dele, contar da dela.  Mas ele tal qual Arlindo Orlando, o caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, sumiu, desapareceu, escafedeu-se.  Triste fim. O aprendizado: não prolongue um fim.

Outro final importante foi o da já citada relação, que durou uns 10 anos entre idas e vindas. O último fim desse relacionamento fechava um ciclo que havia começado com 16 anos e acabava aos 20 e tal. E o  fim da história mais importante da sua juventude foi um pé na bunda clássico, um sustão, um “pula direto pra fossa” bem radical. Tudo agravado pelo fato dela ter acabado com um namorado gente fina pra ficar de novo com o este ex. Quando eles voltaram, parecia último capítulo de novela em que os protagonistas, depois de muitos obstáculos, se rendem ao verdadeiro amor e terminam juntos e felizes. Na vida real, ela ter ido morar com ele aceitando o “pedido de casamento” foi um trampolim para o fim. Menos de um ano depois, ele chegou em casa contando que estava apaixonado por outra pessoa. Eles tinham muitos amigos em comum e, mesmo sofrendo, ela pretendia preservar a amizade. Logo viu que não havia espaço pra isso pelo simples fato de que ele não tinha o mesmo interesse no assunto. Fosse hoje, ela o chamaria de golpista. O resumo da ópera é que os dois passaram de um suposto casamento pra mera formalidade. Uma formalidade afetiva, mas que não passa do “E aí, tudo bem? Como vai a família?”. Aprendizado 2: Quando um não quer, não rola de ficar amigo.

Havia outros finais antes, depois e no meio desses. Nenhum deles era motivo de orgulho na sua biografia. Independente de quem terminava, a intenção de manter uma relação de amizade com os ex sempre tinha sido um retumbante fracasso.

Aí veio um casamento de verdade (por casamento de verdade, leia-se um projeto de vida comum por um tempo razoável e que neste caso incluía filhos). O primeiro fim deste foi só um ensaio lá pela metade do caminho e não deu certo. Depois de quase um ano separados, eles voltaram pra viver juntos as coisas que ainda precisavam ser vividas. Tiveram mais um desejado filho, mais uns anos de rotina, mais uns carnavais e mais algumas boas dose de felicidade. Até que as coisas degringolaram de vez. E foi aí que ela tremeu. Sabia que o fim definitivo estava chegando. Sofria mais com “o que será de nós daqui pra frente?” do que com o fim em si. Porque o fim, ela já tinha aprendido com tantos outros, supera-se. Mas o estranhamento, esse pode ficar pra sempre. E morria de medo que depois de tanta parceria, de livros escritos juntos e de dois filhos ele virasse aquele humano com quem ela só ia falar sobre as crias em telefonemas ou mensagens vazias e sem beijo no final. Ela tinha pavor deles virarem só um: “Então tá, tchau.”. Mas e aí, como faz? Ela também não sabia.

O começo do fim foi meio atribulado. Ele apareceu com uma namorada pouco depois da separação. E a cada vez que surgia uma nova pessoa, a dinâmica dos dois sofria alguma alteração. Mas o tempo foi passando, as feridas foram cicatrizando e ela foi vendo que era possível continuar gostando dele, manter o carinho e a admiração. E sentia que era recíproco. Que ele também queria que aquela separação desse certo, que isso era importante. Quando estavam solteiros saíam juntos, bebiam chope com ou sem as crias. Depois de alguns anos, ele começou a namorar uma pessoa legal. Que os amigos em comum achavam legal. De quem os filhos gostavam e falavam bem. A filha um dia, falando sobre a namorada do pai palpitou: “Acho que você vai gostar dela”. Tinha razão, simpatizou de cara. E ficou imensamente feliz de ver que era possível. Uma tarde foram à praia juntos. Todos. Ela, o ex, as crias, a namorada e o filho da namorada. Depois de muito papo, mergulhos e cervejas, ela achou o pôr do sol incrível daquele novo ponto de vista.

Agora, ali, enquanto pedalava, se dava conta de que, pra uma separação “dar certo”, todo mundo tinha que querer. E querer significa também respeitar o tempo. O seu tempo. O tempo do outro. O tempo das crias. O tempo.

E com o tempo, na medida em que passavam de fase, ela sentia que eles botavam mais um tijolinho na história que construíram e que continuavam a construir juntos. E ela, que não sonhava com um “feliz pra sempre”, começava a acreditar que uma ex-relação pode ser feliz.
Talvez até pra sempre.

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Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

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Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

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Uma Mensagem de Whatsapp

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Ao meu lado no metrô uma moça loura com blusa azul marinho estampada de gatinhos siameses. Ela segura o celular naquela hesitação típica. No whatsapp apenas um “Oi, tudo bem?” E o nome do homem reinando na parte superior da tela, denunciando o futuro receptor da mensagem.

Ela, polegares para o alto, só senta o dedo para fazer tentativas desajeitadas e para apagar tudo depois. Eu tô com tanta pena, afinal eu já estive ali naquele lugar. Tantas vezes. Essa sensação de tudo ou nada, como se uma mensagem de whatsapp fosse sugar a distância fundamental que existe entre duas pessoas.

Você tem medo da mensagem, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses. Seu cabelo está molhado na nuca, esse ar condicionado vai te piorar a garganta, o mundo está tão triste, o Rio de Janeiro começou a sua descida inevitável ao inferno, mas você usa palavras como “ontem” “eu & você”, “amor”, “importante”, “minha” de forma séria, real e urgente, como se não existissem gatos siameses, garganta inflamada, mundo ou Rio de Janeiro.

Mas talvez a romântica seja eu e a mensagem seja apenas um prêmio de consolação, um fora, uma gentileza ou uma administração. E do outro lado o homem com nome no topo da tela sorria ao receber o fio que irá puxar até trazer a moça loura para si. O fio que deve ser puxado com a medida certa. Se puxarmos com muita delicadeza não se desfazem os nós. E com muita força se destroi a trama construída até aqui. Há de se aprender essa habilidade antes que.

Eu só queria dizer, moça, antes que você desça na Cinelândia, que a paixão só tem lugar para um. Certifique-se moça, tenha certeza, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses, que será você a sentar nesse trono.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

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Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

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Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

Cicatriz

Tem o corte. Que mais arde que dói e vai daqueles mais superficiais aos que precisam de pontos. Se foi fundo, sangra e ficamos fracos. Depois do corte, uns dias de tontura. Não sabemos direito quem somos sem aquela parte lacerada, por que nos expusemos ao corte, por que ficamos, por que fomos. Por quê ainda queremos. Ou pior, nem queremos mas sentimos a noite vazia como se quiséssemos. Decerto é a perda de plaquetas. Ou hemácias. Ou dos projetos de futuro a dois, sei lá. Um copo de suco de goiaba e um misto quente diz que ajuda, como depois de doar sangue. Provavelmente à meia noite, sentada no ladrilho frio da cozinha, com um pouco de secreção balançando na ponta do nariz.

Às vezes o corte inflama ou infecciona. Aí é que dói de verdade. Lateja. Fica sensível toda a área ao redor. “Poxa, não fala em X porque parece com Fulano”. “Ah, ele gostava/praticava/era de X?” “Não, não, ele gostava/praticava/era de Y, mas Y é quase parecido com X…”.  Mas não entreguemos os pontos, a inflamação é o corpo reagindo. Os leucócitos tentando garantir alguma saúde. É um pouco melancólico lembrar que muitos deles morrerão no processo. Bom, mas dizia eu, os leucócitos precisam de tempo para fazer seu trabalho.

Vem o tempo, passa o tempo, traz alívio e casquinha. Que protege, mas só se. Se a gente não coça. Se não esbarra em alguma coisa. Se não roça com a toalha de banho. Se não vê no bar da esquina, se não esbarra por acaso no samba, se não percebe online no messenger, se não precisa encontrar pra tratar de alguma coisa importante como a divisão dos LPs. Quando qualquer uma dessas, magoa. Magoar a ferida é osso. Dependendo, começa tudo de novo, da hemorragia ao risco de infecção. Mas a gente torce que não, ferida quase secando.

A casquinha insiste e por baixo dela, o corte vai deixando de ser. Já não lateja. Já não perdemos sangue, já não ficamos fracos. Nem percebemos mais a luzinha verde entre tantas outras pessoas online e chegamos no bar sem fazer o rastreamento de identificação em todas as mesas. Passou. Não arde, não dói, não sangra. É quase como se não tivesse sido. Passou. E não. Já não há corte, é certo. Mas também não há a integridade antiga do corpo. Aquele risco branco na pele é história.

cicatrizes

PS. Se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção:

Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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