Sobre morder a língua

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Meninas e meninos, moças e moços, amigas e amigos: mordi a língua. Esse texto vai pras minhas vocês sabem quem. Aquelas que me ouviram madrugadas adentro desfilar o meu banquete de certezinhas entre um e outro gole de chope. Vai para aqueles e aquelas que sabem o quão crítica eu sou nesta vida. Vai pra vocês que já perderam horas a fio me ouvindo reclamar em altíssimo e bom som – apesar da voz cada vez mais rouca – do modus operandis dos casamentos e relações caretas que assolam o planeta. Vocês que já me ouviram questionar zil vezes o fato de tudo neste mundo evoluir, mudar , acabar e ser recriado menos o sistema educacional e as relações estáveis. Enfim, repito pra não pairar nenhuma dúvida, eu mordi a língua.

E pra começar a explicar o inexplicável, reproduzo aqui um parágrafo-desabafo escrito num rascunho qualquer em 07 de Junho de 2016, apenas um mês e pouco antes de encontrar aquele que me faria morder a língua várias vezes em algumas semanas. Segue o parágrafo sem filtro e sem edição.

“Daí eu olho pros casais e volta. E na maioria dos casos, com honrosas exceções, não gosto muito do que vejo. Difícil esse troço de generalizar, mas é tão comum ver por aí umas duplas que nem fazem mais sentido. Ou que fazem sentido de uma forma meio automática de ser.  Que não deixam o outro ser, sei lá, o que ele quiser. Tem o inominável ciúme. Tem a vontade de ver tv enquanto o outro quer ir pra rua. Tem as crias, o quem faz o quê. Tem as famílias de um e de outro. Tem uma sensação pairante de uma certa amarração que dá uma agonia profunda…”

Pois bem, foi em meio a essa agonia, a esse tom professoral, distante e crítico, em meio à quase certeza de que eu não queria mais ser um casal que eu esbarrei nele. Não foi amor à primeira vista, nem à segunda, nem à terceira. Na verdade eu nem lembro a primeira vez que a gente se viu na vida, a gente já se conhecia há um tempão. E agora é tão estranho lembrar de todos esses anos em que eu nem imaginava o tamanho dessa alguma coisa que a gente ia inventar junto. Eu casada com outra pessoa. Ele casado com outra pessoa. Depois, mais adiante, eu separada e ele ainda casado. Recentemente, os dois solteiros, mas até bem pouco tempo sem fazer nenhuma ideia disso tudo.

Pois bem, como diria Chicó, só sei que foi assim. Um dia eu olhei com curiosidade pela primeira vez. E logo ele olhou de volta. Aí mantive o olhar. E ele também manteve acoplado a um sorriso. Pensei, assim como o criador de Chicó já disse certa vez: “Essa alminha quer reza…”. Alguns segundos, nenhuma palavra, frio na barriga mode on. Daí pra isso tudo aqui foi um pulo. Jump cut.

E agora, José? O que a pessoa que nunca mais queria ser um casal na vida faz com as certezas elaboradas e repetidas por anos a fio na hora que vira um casal? Como encarar as amigas parças, confidentes e cúmplices? Como reaprender esse negócio de ser com o outro? Cursinho rápido online alguém?

Das coisas que achei que não eram mais possíveis de ser vividas estão:

  • Vontade de ver todo dia.
  • Falar no tel à la anos 80, por horas a fio (sem a parte do fio) e fazer vozinha (!!!!!!) como bem reparou a amiga fono.
  • Vontade incontrolável de contar pro mundo que isso tudo está acontecendo (o que, vejam bem, estou fazendo agora usando esse texto como desculpa).

Pronto. Só essas três coisinhas já abalam certezas estruturais tais como:

  • Um saco essa obrigação de se ver todo dia.
  • Odeio falar no telefone.
  • Prefiro mil vezes não contar do que contar.

Qualquer um que me conheça um pouco sabe dessas certezas. Só que agora aquelas 3 coisinhas bem clichês lá de cima já destroem a moral de uma alma com tantas convicções. Já viram a vida de cabeça pra baixo. Já remexem de um jeito o avesso da gente que a gente nem sabe mais ser aquela pessoa que moldou e cultivou por anos de sozinhez.

O jeito é reconhecer que não se tem mais certezas. O jeito é rir. E gozar. E tentar aprender. Tentar fazer diferente do que já se fez. Errar erros melhores, como diz o meme. Tentar ser um par sem deixar de ser dois single, únicos, inteiros (ô coisa difícil). Prestar atenção no outro e em si mesma. E, apesar da vontade de se atirar de olhos fechados, tentar ir se segurando, olhando o caminho, pisando devagarinho, ensaiando se misturar sem se perder no meio disso tudo. O jeito é descobrir como encaixar a pessoa, a relação e esse tanto de sentimento que brotou aqui dentro no resto da vida. Ou o resto da vida dentro disso tudo. E saber que a língua será mordida mil vezes mais.

O jeito é escrever uma história nova com trilha sonora original. Simbora.

Morde-se a língua sozinho. E mordisca-se junto.

P.S. Esse texto foi levemente inspirado no incrível Enquanto, da bisca-diva Luciana Nepomuceno. E a foto é uma copiagem descarada mesmo.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Navegante

Naquele fim de tarde a tristeza era uma velha conhecida, visitando-me com roupas novas de um novo inverno. O frio me abraçava os pés gelados, colados no chão de cimento do quintal da casa. Assim como eu gostava de costurar minhas – meias – verdades, sempre cheias de perguntas sem resposta. Nua no chão de cimento, sentindo o gelado percorrer minha espinha, soltando ar frio pelos pulmões, tão presente quanto meus assombros.

De novo estava só em meus pensamentos de quase noite. Pensei em ti ali do lado, tão perto e tão longe, envolva em dores que eu não conseguia segurar, nem ao menos partilhar – como tanto se espera. Assustada com minha fragilidade diante dos sustos da vida. Eu menina contorcida no canto do quarto, revisitando lugares, tecendo dores nas minhas cobertas esvaziadas de afeto.

O amor é estranho. Um bicho arredio de penas longas, macias, que se assusta fácil. Afugentado por anos de posses e certezas sobre como se ama. Nós, pobres tentantes, tão cheios de sentenças feitas que não cabem no espanto de sentir. Coisas da nossa cultura positivista. Seja nos livros acadêmicos, seja nas religiões cristãs que explicam tudo. A gente precisa saber como. Mesmo quando não é possível somar equação alguma. Quando os ponteiros desorientam-se na tempestade de ventos e areia de mar revolto. Mesmo quando a vida pede calma e um tempo de espera em suspenso.

Não sabemos contemplar o horizonte tomado de ondas e esperas à beira mar. Temos que finalizar a tese com conclusões, com respostas que nos levam sem ao menos termos maturado o tempo de estio. Esse tempo que não podemos perder e que nos perde, o tempo todo, nessa costura estranha e espessa de calos e mágoas. Nossos relacionamentos sem paciência para o tempo de plantar a desconstrução de nós mesmos. E de colher a nudez, sem regras, réguas e exigências estranhas ao sentir do amor. Sem vestir, logo e com voracidade, essa roupa pequena que nos sufoca e nos aperta a vista, cega para o que de fato somos e queremos em nossas solidões partilhadas.

O nosso amor padrão capitalista, superestimado em poesias de Vinícius e contas correntes conjuntas, acalentado em vasos curtos e caros comprados nos shoppings que vendem à prazo no cartão, uma conta que nunca terminamos de pagar. Todas essas alegorias tão frágeis e tão pequenas diante de tudo que se sente com o peito aberto. Toda essa dor de não caber no comercial de margarina onde o outro não nos falta, onde não tem vazio nem dúvida nem medo nem nada entrecortado por espaços em branco. Onde o amor é tão fácil e completo como o kit colorido que vem junto com a carta de princípios e o conjunto de regras morais. É só achar a pessoa que. Ou não é a pessoa porque isso, aquilo, aquilo outro que.

E é amor também esse tanto que nos escapa nas entrelinhas, esse tanto que nos falta em respostas, em caminhos, essa falta tamanha, sem contornos e sem rédeas. Esse tanto misturado, cheio de surpresas e avessos que não conhecemos. Esse vento que não precisa parar de soprar nem quando a rota se desvia e a vida nos derruba. Isso que a gente não controla como quer e como manda o roteiro. Porque – penso eu – não se faz inteiro o que não vem dessas descobertas de fundo de rio e de mares profundos. Cada qual o seu próprio, e as mãos estendidas para alguém cheio de si mesmo, tão faltante quanto real. E que sejamos insatisfeitos atravessantes, porque as marés nos levam sempre para além de nós. E que bom poder navegar no que não se sabe.

Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

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Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

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Jane Eyre e o Sr.Rochester

“Como Homem”

Por Vevê Mambrini*, Biscate Convidada

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Hoje eu tinha que trocar as lâmpadas do farol do carro, e trocar o óleo – na verdade, já tinha passado do tempo. Cheguei no Mercado Car, fui direto pedir ajuda, e o atendente identificou em segundos as lâmpadas queimadas. Eu tinha reparado como ele é bonito e atraente. De costas, debruçado no carro de capô aberto, ele se vira e me fala: “Você não se assusta com o que vou falar? Mas você é a Hermione”. Não tinha como eu não me assustar. “Emma Watson, né? Você é igualzinha a ela.” Eu já tinha achado ele tão simpático, tão atraente. E de repente ele era também divertido – então só conseguia pensar em como deixar meu telefone, como chamar para uma cerveja, perguntar se ele queria bater um papo, se ele queria e podia sair comigo.

Subi no mercado para comprar as lâmpadas e o óleo de motor, pensando em atalhos para chegar no moço (por que não ser direta?) e me pareceu tanto com como quase sempre os moços se aproximam, como se precisasse de um grande pretexto, de uma história. Como se houvesse um “pensar como homem”. Fiquei pensando em como ele se virou de uma forma espontânea e despreocupada, e no fim, eu não sei se ele não olhou mais nos meus olhos longamente por desinteresse ou por vergonha. E eu fiquei com a cabeça nisso: outro dia, um outro moço “se comportou como homem” comigo: contou mentirinhas de amor para chegar num apaixonamento que ele nem queria, e sem querer, descobri que na mesma semana ele tinha feito o mesmo com outra pessoa. Problema nenhum com a piriguetagem, quanto mais melhor. Só me ressenti com a falta de fair play. Não precisava: a gente ia dar de qualquer jeito. Flertar de qualquer jeito. Tremer de qualquer jeito. Mas acho que o interesse, posto assim na mesa, fez perder a graça para ele, especulo. Me pergunto se para todo mundo é assim: se o jogo de enredamento precisa ou prescinde de mentirinhas.

 Mentiras de amor, como o Tom cantaria para a Lígia. Os desencontros de interesses fingidos para chegar a algum lugar. Os papeis esperados para as pessoas ficarem menos confusas diante do mistério do outro. Me peguei na fila, com quatro litros de óleo de motor nos braços, pensando no que lubrifica as relações, no que impede que nossa engrenagem não pare. No meu combustível, na manutenção que falta em algumas relações: uma educação emocional, que ensine a ler o outro, a improvisar um pouco mais fora dos scripts, a ceder com gosto e avançar ao ler com segurança o desejo alheio. Em que uma isca rende uma fisgada, em que onde um lança, o outro caça, e onde o silêncio também é uma resposta.

Esses dias andei pensando em reler O amante de Lady Chatterley. O livro é lindo e livre, mas preciso saber se as mil leituras da minha adolescência vão resistir às pensaduras dos últimos anos. O que ficou são imagens de escolhas muito livres e corajosas, muito além de quadrantes de gênero, ou classe. Escrito em 1928, chega a doer pensar que em 2016, ele seja tão progressista quanto eu me lembro. Arrisco dizer que foi grande parte da minha educação emocional: da escolha de ser transparente com quem desejo, de abrir o peito e mergulhar no vendaval. De gostar de jogar, mas no fair play. De querer curtir as regras iguais para meninos e meninas, nas infinitas combinações. De combinar os combinados, e experimentar o que se apresenta, maduro e doce.

Aí eu penso no moço das mentiras, e no moço para o qual eu não consegui falar a verdade. E penso se tem segunda chance para todos nós. Penso no tempo que estamos perdendo.

vevê* Verônica Mambrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

De perdas virtuais etc.

Sou do tipo que não se desfaz de amigo. Amigo, se é amigo, é amigo. Discordo, discuto, contesto: só que é amigo, ora. E assim será.

Mas esse texto – de que gostei muito – me fez pensar em outra circunstância: aquelas pessoas com quem convivo em redes sociais, algumas que até  já encontrei pessoalmente, e que se desfazem de mim. Assim, sem nenhuma briga, nada: elas me “desamigam”, provavelmente por não concordar com algo que eu disse, que eu postei, ou por terem problema com as pessoas com quem interajo. Por não aderirem à minha opinião, por achar que tenho más frequentações, por se sentir atingidas por uma indireta que não mandei.

Algumas dessas eu gostava de ler, com outras de interagir. Com algumas dessas eu já conversei inbox, já troquei e-mail: um passo à frente nas relações virtuais. Outras ainda eu já encontrei “no mundo real”, já sentei em bar, já tirei dúvidas, compartilhei preocupações e alegrias.
E, claro, é sempre possível brigar. Se desentender de verdade, achar que pra tudo há um limite e que não dá pra continuar daquele jeito. Não é disso que estou falando: é do desamigar fofo, sem aviso prévio: de repente, você vai falar com a pessoa e ela não está mais ali, na praça virtual em que se encontravam todo dia.

A minha reação, nesses caso, é assim, em geral: lamento um pouco pela relação que eu achava que era e não era.

Sinceramente, é só um pouco: porque, de verdade, o que fica mais forte é o “que não era”. E eu sou boa de me adaptar a choques de realidade. Se não era, então… não era. Porque alguém que corta relações comigo por esses motivos, sem nem dar um tchau, afinal, não era amigo, não é mesmo?

Vida que segue.
É aprender a entender a falta, lamentar sinceramente, e seguir adiante. Desapegar, soltar, deixar ir o que não é mais.
(E, sim, eu estou escrevendo um texto inteiro sobre corte de relações virtuais: pequenas coisas que têm a ver com coisas maiores, virtual-real que a cada dia mais são dimensões de uma realidade só.)

Se poupar? Economizar relações? Ficar protegida e resguardada? Não é a minha praia. Não é “do lado de fora”, não será “do lado de dentro”. Prefiro estar sujeita a isso: a descobrir, de repente, que uns que achava que era não eram. Até porque afinal, tem os outros: aqueles que, de verdade, são. E aí é de grão em grão. De clique em clique. De post em post. A gente vai construindo. Desbravando, caminhando, conhecendo. Se escrevendo, comentando, discutindo. Gostando, sim. Gostando, ué. Faz parte.
Bora lá. Me adiciona aí que eu tô com um bom pressentimento.

fogueira

Declaro para os devidos fins

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Declaro para os devidos fins que…

Eu sou a fim de você.

Pronto. Falei. Ufa. Saiu. Nem foi tão difícil.

Peraí… Tá falado mesmo? Você ouviu? Ou escrever foi só um jeito que eu arrumei de não falar de outro jeito. Eu sempre com essa mania… Mas agora, fui lá, voltei na primeira linha e parece que eu falei mesmo, com todas as letras.

AFimDeVocê

Não sei se você queria ouvir isso. Nem sei bem o que eu quero dizer. Mal te conheço… A fim. A fim como? No dicionário diz que é: com intenção ou vontade de. É isso. Tô com vontade. Sou hoje uma vontade em forma de gente. E vontade é como fome, a gente sabe quando sente.

Quando eu tava pensando como é que eu ia falar isso, fiz até uma rima desajeitadamente adolescente que diz assim:

Vou falar de um troço bonito
De um jeito diferente
Vou pegar essa vontade
E embrulhar pra presente

A coisa em si eu não sei definir
Tá lá dentro e é bom de sentir
Faltava falar
Pra poder existir

E aí, você me pergunta: mas por que agora? O mundo caindo e você aí sentindo coisas? Ainda mais em público. Qual é o link? Explico. Outro dia, escrevi um texto aqui mesmo que era um pouco sobre isso. Era alguém muito seguro falando um monte de coisas sobre esse negócio de gostar, de ter vontade e não saber o que se passa na outra cabeça. O texto teve mais de 300 compartilhamentos. Uma penca de gente achou legal. Mas uma amiga observou que eu simplifiquei tanto tudo que aquilo não queria dizer mais nada. E que até parece que esse negócio de gostar é simples. Devo dizer que a amiga tende a ler entrelinhas, sobrelinhas, sublinhas, onde às vezes só tem as linhas mesmo. Mas nesse caso, ela tinha razão. Gostar não é simples.  A começar por mim que não consigo nem falar que eu tô a fim.

Me senti meio canastra, sabe? A real é que pra mim, falar é a última opção possível. Evito com todas as forças, sobretudo na vida pessoal. Falar pra mim é trabalho. Às vezes eu gosto que seja assim. Às vezes desgosto profundamente. Hoje particularmente eu tô achando uma covardia não te contar dessa vontade. Cara, não sinto uma vontade gostosa assim há tanto tempo que seria uma puta sacanagem guardar só pra mim.

Então pronto. Declaro para os devidos fins que… Ah, você já sabe.

Pode não ser a hora nem o lugar pra uma declaração de gostar desatinada. Essa cartinha pode ser datada, pouco moderna, nada cool, mas taí. E pensando bem, eu sou meio assim mesmo: datada, pouco moderna, nada cool, só que de tênis.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Das nossas faltas

texto-caindo

Vou escrevendo esse texto conversando comigo mesma. Tentando entender. Desentender. Sem pretensão de ser ou dizer nada que faça muito sentido. Sem teorias ou rotas explicativas. Coisas de que apenas desconfio.

– corta –

Somos falantes. Todxs nós, humanos. Humanas. Faltamos. Sempre faltamos conosco e com os outros que nos relacionamos. Em nossas complexidades de existir resolvemos tantas vezes existir juntos. Juntas. Casamos, namoramos, nos relacionamos. Fazemos casa, criamos laços, amamos, trepamos, enredamos umas às outras em afetos. Somas. Talvez seja da natureza humana criarmos famílias, relações afetivas, casas. Talvez seja uma convenção social ou uma imposição cultural. Ou talvez não seja nada disso. O fato é que somos inclinados aos laços. Eu sou.

Nos damos uns aos outros. Abrimos espaços em nós para que nos ocupem. Criamos juntos espaços comuns. Como já cantou o poeta, “a vida só se dá pra quem se deu”. E assim vamos nos dando, nos amando, nos penetrando em nós e nos que nos cercam.

As relações conjugais são dessas. Mergulhamos. Namoramos, nos apaixonamos, casamos, queremos. Eu quero. Vou nadando até chegar no fundo. Até que a ilusão de não sermos sós tome conta do espaço vazio de quando as luzes se apagam. Mas. Por mais que nos abracemos embaixo das cobertas e grudemos nossos corpos, a solitude é igualmente humana. Somos nosso próprio universo, cada qual, um ser separado do outro com toda sua complexidade individual. Ou, como diria Rilke sobre o amor, somos em casal duas solidões que se inclinam uma para a outra.

E dentre essas tantas coisas que nos desafiam a dois (ou a três, quatro, em relações poliamorosas), está o limite da individualidade. Quando nos amamos umas às outras, sempre queremos mais daquela que está conosco. Como já dizia Freud, procuramos de alguma maneira a incompletude. Um motor para que a outra pessoas nos prenda e nos encante em conquistas diárias. Um algo intangível da eterna imperfeição que nos encanta, na mesma medida que nos aterroriza. Será que nos encanta um ser sem surpresas e sem contradições às nossas expectativas? Perguntas…..

Pois é, temos expectativas. Cada qual. Cada um. De como o outro deveria agir, de como a outra deveria se posicionar frente a uma e outra coisa, de como o outro deveria demonstrar seu amor, de como a outra deveria se interessar pelas coisas que ela não se interessa. Expectativas sobre coisas cotidianas, expectativas sobre coisas grandes.  De como a outra irá lidar com seu desejo, de como conjuga o trabalho com a vida cotidiana, de como o outro vai lembrar que seu companheiro gosta de receber flores no dia do aniversário. De como ele não gosta. De como ela gostaria que fosse. Somos um eterno jogo dos sete erros, onde vamos marcando com X as faltas do outro na figura que imaginamos ser aquela do relacionamento desejado.

E nessas expectativas reside um grande motor para a desilusão,  e para a quebra do encanto romântico de que o outro irá nos completar, e nos corresponder. Sim, a exatamente aquilo tudo que pintamos em nós quando nos apaixonamos.

A verdade é que sempre será faltante. A outra pessoa não suprirá nossas lacunas. Não corresponderá a tudo que projetamos. Não será o que esperamos. Não, nem sempre. Sempre haverá figuras fora do lugar. E ainda bem.

Mas. Como faz para acomodar as faltas que o outro nos traz? Como acomodar o que você espera que a outra pessoa seja e que – talvez – mesmo que ela tente ela não consiga ser?

Sim, o bom de relacionar – se é que as coisas se conjugam, se ajeitam, se adequam. Ninguém precisa estar feliz com o que lhe falta e ignorar suas frustrações. Mas. Será que precisamos dar tanta ênfase às faltas? Será que não podemos reinventar um relacionar – se onde as faltas existem e, desde que não nos violentem, podemos conviver com elas? Até porque né? Amor romântico só é bom em velas e poesias. Na projeção da completude e do que o outro deveria ser é que a coisa complica.

Como diria Regina Navarro Lins “você idealiza, você inventa uma pessoa. O amor romântico existe mesmo no Ocidente, a pessoa se apaixona pela paixão. Aos poucos você começa  a perceber aspectos nas pessoas que não lhe agradam. Mandar flores, jantar à luz de velas, tudo isso é ótimo. Minha crítica é você inventar uma pessoa”.

Aí vem o famoso “abrir mão” em nome do outro. O que é bem diferente de achar caminhos comuns de conviver com as diferenças e com as individualidades. Tanta dor por não conseguir ser o que se espera. Aí.  Tantos relacionamentos bacanas desfeitos. Tantas mágoas. Tantas tristezas desnecessárias. Tanto choro. Tanto drama. Tantas noites em claro. Tanto sofrimento. Tanto amor bonito desperdiçado em nome de uma busca frenética por uma satisfação que não existe.

Lembro sempre de um conto da Clarice Lispector chamado “Perdoando Deus”, onde ela humildemente reconhece : “… É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é”.

Será que um dia nós, ocidentais, capitalistas, possessivos de propriedades e de quereres nossos sobre o mundo, conseguiremos amar o que é?

 

Volto

Eu volto. Correndo, respiração pesada, mais álcool que o necessário no corpo, o vento na cara. Volto não sei porque. Volto pra encontrar teu peito e ter sua boca na minha. Volto na ânsia de nunca mais sair. Mas saio. No outro dia ando tonta, com a ressaca de quem bebeu litros de vodka e saudade. Saio com o peito dividido. Saio com vontade de chegar de novo, de nunca ter saído e com a jura de nunca mais voltar.

E volto. Volto prometendo que aquela é a última. Não mais. Nunca mais. Tenho pulso firme. Até sentir sua mão na minha. Até ver seu sorriso doce. Até você dizer que continua me amando. Até planejarmos uma fuga pro Japão. Mas eu me seguro, digo que aquela outra foi mesmo a última vez. Não mais. Nunca mais.

Mas aí eu volto. De novo. Volto quando lembro que minha cabeça encaixa direitinho no seu peito. Volto porque ficaram coisas pra se dizer, mesmo depois de duas horas de conversa, 100 mensagens e três e-mails. Volto não sei por quê. Volto porque quero. Volto porque preciso.

E quando saio é porque não dá mais para ficar. Nossas vidas já não nos comporta. Não sabemos mais ser um casal. Ensaiamos, buscamos imitar o que fazíamos antes, mas é preciso que eu saia. Saio de cena, saio e me recolho e me escondo de você e nesse redemoinho que se transforma minha vida quando eu volto e saio.

Já pensei que se eu só voltasse – e nunca mais saísse – ficaria mais fácil. Ou menos difícil. Prolongar aqueles beijos, os carinhos, sua mão nos meus cabelos e sua barba roçando nas minhas costas. Mas penso que quero voltar assim, só de vez em quando, um pouquinho de cada vez. Já fostes tanto em mim que agora é preciso doses homeopáticas.

Volto sabendo que vai doer depois. Volto sabendo que não somos mais quem já fomos. Volto sabendo que não posso ficar, que só me resta sair. Saio sabendo que não deveria ter voltado. Saio com o peito dolorido. Saio com saudades do que nunca mais seremos.

Tempos Verbais

No futuro do pretérito, escrevemos o desejo. Seriam tempos de quarto de hotel, palavras rudes e mãos rápidas. Uma certa violência. Seria tua boca, mordendo. Seria um gemido. Seria um encontro, uma conversa, um perder-me. Seria uma paixão sem calendário. Sem retrato, sem saudade, sem espera. Gostaríamos, claro, de nenhuma roupa, nenhum pejo, nenhuma restrição. Enroscaríamos as pernas pra dormir. Eu perguntaria muito. Você riria pouco. Aceitaríamos o enquanto. Sem tempo de nos aprender, adivinharíamos recantos, curvas, anseios. Fecharíamos a cortina e ignoraríamos a hora certa. Certas horas são apenas para o gozo, eu tentaria dizer, mas você me ocuparia a boca. Não conheceríamos nenhum adeus. Eu ficaria dormindo. Você sairia tranquilo. Só a carne é triste depois do sexo.

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Nós sempre soubemos que só há um tempo certo para o amor: o pretérito imperfeito – e nele inscrevemos nossa história. Já não procurávamos enganar o tempo fechando janelas e ignorando as horas, o agora é, ele mesmo, uma lembrança. Temos saudades do que estamos vivendo: beijava, tocava, falava, gozava. Pretérito. Eu, imperfeita. Acordava, abraçava, aceitava. Viver em rimas pobres. Também. E conjugo: mordia, ardia, queria. É que havia teus olhos enevoados, a covinha no canto da boca, as mãos enormes e o jeito certo do teu peito me servir de travesseiro, eu inventava teu corpo fazendo passado com o meu. Eu digo: lembra que nós enroscávamos as pernas pra dormir? E você quase lembra em pernas que se misturam às minhas. Você lembra como andávamos sempre nus? E banimos as roupas. Você lembra? Lembra? Lembra? Vamos forjando retratos e desvendando o segredo: a verdade é uma narrativa. Aceitávamos o enquanto, chamando-o de memória.

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Abre, cautelosa, a caixinha delicada onde guarda as palavras mágicas. Aquelas que coleciona para os dias de sofrer, que costumam chegar: menina, sal, adorável, perto, ontem, quente, sorriso, querida, logo, junto. Sorri, a contragosto, acha bonito o tempo do desassossego. Sabe que construiu as janelas todas para o nascente. Há estrelas de papel no teto e disso se ri. Brilham apenas no escuro e há nisso uma beleza que ela hesita em esclarecer pra si mesma. Com algum pudor, fala em voz alta, como quem confessa: longe é o outro jeito de dizer desejo. Desejo. Mais uma daquelas palavras que cabem, direitinho, na caixinha delicada.

A gente vai se esquecendo

E​squeci seu cheiro ou como é sua barba no meu pescoço. Já não sei se nos conhecemos numa sexta ou numa quinta. Se chovia ou se só fazia frio. Quando me esforço ​muito, ​lembro q​ue​ era sexta, chovia e que eu estava no café da livraria. Isso. Foi assim. Mas a lembrança vem meio turva. Já não recordo o cheiro dos livros, tampouco o que estava lendo quando ​te​ vi. Tocava jazz​, eu acho.

A gente foi comer pizza e não lembro se foi você quem pegou na minha mão ou eu que toquei seu braço sem querer. Quando saímos, tremia de frio e você me abraçou. Me convidou pra ir pra sua casa com a desculpa de nos esquentar e eu só saí de lá três dias depois.

​Antes eu conseguia repassar na minha cabeça cada um ​dos nossos gozos, dos nossos beijos, dos nossos abraços. Conseguia lembrar quantas vezes gozei na sua mão, no seu pau e na sua boca. Quantas vezes teus lábios precorreram meu corpo enquanto íamos despertando naquela sonolência preguiçosa. Lembro como era bom dormir com você – ah, isso eu lembro.

​Até uns dias atrás, eu lembrava quantas vezes rimos das piadas sem graça, todas as nossas conversas madrugada adentro, e que sempre aquecia meu nariz no seu pescoço e que você me levava pela mão. ​Lembrava todos os nossos programas em ordem cro-no-ló-gi-ca. Todas as vezes que puxou meu cabelo e cravou os dentes na minha bunda. Agora, mal me lembro se tomamos cerveja ou vinho.

​Hoje, quando fecho os olhos e tento me lembrar do seu rosto, ele foge. ​Já não sei que dia foi aquele em que a brincadeira era você me masturbar enquanto eu continuava a contar uma história e não podia parar até gozar. Era assim mesmo, né? Ou tinha que cantar uma música? Não lembro direito. Estou esquecendo o quanto era bom sua boca nos meus peitos e minha mão fazendo cafuné em você.

Me dei conta que nem uma foto juntas tiramos, que não existe registro no mundo do nosso encontro.Podia ter gravado cada minuto nosso pra poder ver com detalhes agora, pausando, dando zoom, repetindo as falas, igual dizem que será no juízo final. Estou esquecendo e fico aqui espremendo as lembranças, querendo engarrafá-las e guardar num pote ao lado da cama pra sempre poder olhar pra o que a gente foi.

postLis

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