Os Outros

Acho que sou recorrente e repetitivo. Uma das repetições a que me presto é falar do “outro”, ou dos “outros”. Não como fofoca, mas da importância e presença deles em nosso convívio. Sim, prefiro usar CONVÍVIO a VIDA, pois não é qualquer “outro” que faz parte das nossas vidas: muitos são mera passagem, alguns poucos passagens marcadas, poucos são permanentes. O que os reúne, de uma forma geral, é que são “outros”.

A idéia não é fazer um post de blablablá anti-individualista, pró-gregário e sociologiquês. A idéia é pensar no “outro” de um jeito biscate. Mas como pensar nos “outros” de um jeito biscate? Poderia ser um pensar igual, um pensar livre, um pensar fraterno, um pensar sexual… Ou poderia ser só um pensar…

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Mães e Filhas – by Paula Rego

Acho que é uma tecla em que eu sempre bato. Nós (eu estou incluidíssimo) estamos acostumados a pensar o “outro” do nosso viés. Às vezes, também nos preocupamos em pensá-los de seu próprio viés (aquela coisa lá de calçar o sapato do outro, etc…).  O que é raro, mas que dá pra tentar fazer, é pensar o outro sem o compromisso consigo mesmo ou com ele, simplesmente pensar, pra procurar entender as nuances e, em princípio, não julgar.

Não se trata da demagogia de “entender a plenitude do outro”, muito menos de buscar a “verdade do outro”, “a realidade do outro”. A ideia é buscar um novo viés, ou um anti-viés, ver o outro em conjunto, amalgamar as ideias próprias, com a dele e, se possível, com a de quem mais. Ou seja: dialogar o “outro”.

Claro que não é fácil: se fosse fácil chamava pipoca e não diálogo. Fazer a palavra circular é a dificuldade. Na impossibilidade de ser como os “outros”, na dificuldade de entendê-los pura e simplesmente da própria perspectiva e na inglória tentativa de se colocar no lugar do “outro”, a forma que sobra é interagir. Romper a barreira do isolamento, ser fácil para que o “outro” facilmente se aproxime.

Não tem método, não tem forma, só há experiência. Vale pro sexo, pro pré-conceito e pro preconceito, para a amizade, pra família, para as paixões e para o amor. Mas só vale se for junto. Não se trata sequer de unir, de amálgamas: trata-se de circular a palavras, de “sins”, “nãos”, “talvezes”, “comos”, “de quais formas/ maneira/ modos”. Trata-se de entender. E é isso, entender o outro sem compromissos e ver no que isso vai dar.

Biscatagem e responsabilidades

Por Verônica Mambrini*

Começa tão promissora a biscatagem: interesse mútuo e instigante. A primeira vez que a pele roça na outra, quase por acidente – quase. Marcar um bar, um boteco, um restaurante qualquer para, entre copos, comer com os olhos e antecipar o que pode vir a ser. Conversas: ir tateando o que o outro gosta, como gosta, para onde quer ir. Se deixar levar em discussões profundas ou conversinha furada e mole. Tudo tão bom.

É o ponto em que a boa biscate se lança no salto livre do desconhecido: o querer. É quando ela, mordida de curiosidade, dá ou rouba um beijo. E os corpos vão se avançando. Guerra de trincheiras, que se batalha lentamente.

Nessa zona cinza as relações não têm nome exato. Não existe um compromisso, não existe uma intenção clara, detalhada, definida – com exceções. Tem quem discuta e ponha tudo às claras, de cara. Mas é parte do próprio jogo de sedução não colocar as cartas na mesa todas de uma vez, dar um pouco e tirar um tanto mais, confundir um pouquinho no entontencimento do desejo, em vez de deixar tudo claro e conversado. É ingrediente fundamental da euforia.

Acontece que nem sempre os desejos caminham para o mesmo lado. Nem sempre as falas de um se casam com o silêncio do outro. Nem sempre os corpos fulminam de paixão. Se a relação é justamente de paridade, o laço se desfaz como fez.

E quando o encantamento toca um só? A biscatagem é arte de adultos – todos responsáveis sobre si e mais ainda, cientes do risco de cair nos os enredamentos do tesão, da paixão, do amor. É um pouco amargo se permitir travar contato com o outro, deixar a intimidade progredir, sem intenção de levá-la adiante. Sobretudo quando se lê no outro a fome de continuidade, a expectativa. Não tem gozo nenhum em não poder matar vontades e ainda assim, alimentá-las.

Tem biscate que e mestra na arte do não, do virar a página. Tem as titubeantes, que se melindram porque tudo dó um cadinhos: dizer o não ou deixar o silêncio que pode virar sim na cabeça do outro. Ainda assim, atravessar o pequeno deserto da dúvida e experimentar a relação até ter certeza do não querer é necessário. Porque nem só de doçura e maciez é feita a biscatagem.

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* Verônica Mabrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

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