Uma Mensagem de Whatsapp

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Ao meu lado no metrô uma moça loura com blusa azul marinho estampada de gatinhos siameses. Ela segura o celular naquela hesitação típica. No whatsapp apenas um “Oi, tudo bem?” E o nome do homem reinando na parte superior da tela, denunciando o futuro receptor da mensagem.

Ela, polegares para o alto, só senta o dedo para fazer tentativas desajeitadas e para apagar tudo depois. Eu tô com tanta pena, afinal eu já estive ali naquele lugar. Tantas vezes. Essa sensação de tudo ou nada, como se uma mensagem de whatsapp fosse sugar a distância fundamental que existe entre duas pessoas.

Você tem medo da mensagem, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses. Seu cabelo está molhado na nuca, esse ar condicionado vai te piorar a garganta, o mundo está tão triste, o Rio de Janeiro começou a sua descida inevitável ao inferno, mas você usa palavras como “ontem” “eu & você”, “amor”, “importante”, “minha” de forma séria, real e urgente, como se não existissem gatos siameses, garganta inflamada, mundo ou Rio de Janeiro.

Mas talvez a romântica seja eu e a mensagem seja apenas um prêmio de consolação, um fora, uma gentileza ou uma administração. E do outro lado o homem com nome no topo da tela sorria ao receber o fio que irá puxar até trazer a moça loura para si. O fio que deve ser puxado com a medida certa. Se puxarmos com muita delicadeza não se desfazem os nós. E com muita força se destroi a trama construída até aqui. Há de se aprender essa habilidade antes que.

Eu só queria dizer, moça, antes que você desça na Cinelândia, que a paixão só tem lugar para um. Certifique-se moça, tenha certeza, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses, que será você a sentar nesse trono.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Brasil, 12 de Maio de 2016

Por Renata Correa, Biscate Convidada

Filha,

Falta um mês para o seu aniversário de quatro anos. Todos os dias antes de dormir a gente conversa sobre sua festa. Você já quis dinossauro, sereia, bailarina, baleia. Depois você me pede duas histórias e uma música para aceitar fechar os olhos. Daí você pega no sono entrelaçada no meu corpo e eu vou me desvencilhando de você para terminar de trabalhar, conversar com os amigos, tomar banho, ver as notícias.

Nos últimos meses eu tenho pensado muito nas histórias que eu vou te contar. Sua bisavó nasceu em 1930, e não votou para presidente até sua avó nascer. Sua vó nasceu em 1956 e não votou para presidente até depois do meu nascimento. Eu nasci no fim de uma ditadura militar e nas primeiras eleições para presidente eu já tinha sete anos. Já quando você nasceu eu já tinha votado para presidente três vezes e uma mulher era presidente da república.

Eu queria contar para você que, nós, essas quatro mulheres, vimos ano a ano uma democracia se fortalecer e estabelecer. Mas a verdade filha, é que a república do café com leite lá da época do nascimento de sua bisavó ainda está em vigor. E que as instituições que matavam, torturavam e desapareciam com pessoas na época da sua avó nunca foram punidas e continuaram em pleno fucionamento. E é por isso que estamos vivendo o que estamos vivendo hoje.

Imagina que hoje filha, alguns homens conseguiram, sem nenhuma justificativa, retirar uma presidente da república de seu mandato. Uma mulher que desfilou em carro aberto ao lado da sua filha também, quando foi tomar posse. Uma mulher que foi eleita pela maioria do povo brasileiro.

Desculpa filha. Quando eu comecei a pensar em política, achei que democracia era uma coisa dada, inabalável, um direito inalienável. Sua avó já tinha lutado por ela, bastava agora aperfeiçoá-la, incluir nesse sistema aqueles que nunca puderam usufruir plenamente dela. Errei.

Forças conservadoras sempre irão tentar esmagar subjetividades e impor retrocessos se isso representar poder. Queria te dizer para ficar sempre atenta e vigilante quando eu não puder estar. Nada está permanentemente conquistado, tudo está permanentemente em processo.

Eu gostaria de te prometer uma coisa: a mamãe vai continuar, tá? Agora um pouquinho mais calejada. Eu, assim como a sua bisa, e a sua avó, fizeram antes de mim, não vou desistir. De ter um País mas justo, igualitário, onde a disputa política não se converta em ódio, onde o cinismo não seja maior que o amor.

Espero que um dia você possa ler essa cartinha sem medo de ser agredida por suas opiniões. Sem medo de amar e ser amada. Sem medo de lutar as próprias batalhas. E claro, que também possa ter a tranquilidade de estar vivendo um sistema democrático pleno. Quero ter daqui uns anos uma história mais bonita pra te contar, filha. Não sei se vai acontecer. Mas eu prometo tentar.

Beijos da mamain.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Mocinha de Valor

Por Renata Corrêa*, nossa Biscate Convidada

Na mais tenra idade, a menina-pequenininha-de-perninha-grossa-vestidinho-curto-papai-não-gosta ouve a ladainha: moça de respeito se dá o valor. Repetida a cantilena em looping eterno, a perninha grossa cresce e aparece, a menina põe um peitinho e lá vem a tia Otília na maior das boa intenções falar pra sua mãe: vamos comprar um sutiãzinho? Moça de respeito se dá o valor.

Sufocando as pitombas no primeiro aperto elástico feminino percebemos o corpo se avolumar, o quadril de régua virar quadril de compasso e no compasso hormonal o poder sexual, feminino, inegável. Namoradinho, bitoca. Moça que se dá o valor deixa passar a mão? Sei não, melhor não arriscar – afinal respeito não se ganha no tête à tête, na malemolência, no estar bem dentro de si mesma. Respeito se ganha na guerra, na fortaleza, no não, já diria vovô – Moça que se dá o valor não deixa certas intimidades.

E assim o mundo gira. Com os outros nos atribuindo valores pelos tamanhos das nossas saias e amassos furtivos na saída do colégio. E assim infinitamente, a lua sobe, o sol desce, e a cada noite uma garota põe a cabeça no travesseiro pensando o que foi que ela pode ter feito de errado para alguém lhe roubar a etiqueta que lhe atribuía esse valor. Afinal, qualquer passo em falso pode fazer uma mulher entrar em remarcação: de filé mignon na prateleira alta para acém moído da sopinha da caridade. Tlim Tlim, fez o caixa.

Moça que se valoriza não vai pra cama na primeira noite. Valoriza o passe, como diria um empresário futebolístico ao segurar um jovem talento num clube nacional. Qual seria a negociação mais vantajosa? Sexo no segundo encontro você ganha uns zeros a direita, no terceiro encontro um namorado. Um apito toca. Sexo no quarto encontro a voz do Silvio Santos desce dos céus em plena divindade: você acaba de ganhar de um milhão de reais em barras de ouro!

E a vida segue. A moça etiquetada que se dá o valor continua ganhando e perdendo pontos através do que os outros acham que ela deve ser, e do comportamento que deve adotar.

Por essa e por outras que para uma vida livre todas as mocinhas, garotas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam valer nada. Eu particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby.

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.

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* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

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A segunda imagem é um desenho de Gustavo Ganso, inspirado no texto “Eu Etiqueta” de Carlos Drummond de Andrade.
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