O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

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Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

Sobre o aborto – precisamos, muito

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Precisamos muito conversar sobre aborto. Este é o tema lançado pela revista Trip – TPM, na matéria publicada no dia 13 de novembro de 2014. Aqui no Biscate a gente tem falado muito sobre o assunto, antes mesmo da campanha desse veículo com maior visibilidade.

É quase impossível falar sobre aborto sem que alguém solte algo como “assassinato de seres humanos inocentes” se referindo, sempre, ao embrião em gestação, com a clara intenção de silenciar quem se manifesta a favor da regulamentação e descriminalização da interrupção voluntária da gravidez – que no Brasil só é não é punido criminalmente em três casos: gravidez decorrente de estupro, risco de morte para a mulher e depois do STF assim decidir, quando se trata de feto anencéfalo. E se mesmo os três casos em que não há que se falar em CRIME, ainda não há a regulamentação sobre como a MULHER vai proceder para se submeter à intervenção, pelo sistema de saúde público ou particular, e ainda há o estigma e ainda há a violência moral e até física contra a MULHER que escolhe não levar a termo uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo ou mesmo se houver risco de morte para a gestante, o que dizer sobre o debate amplo e consciente, transparente, claro, pacífico, sobre o abortamento voluntário?

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Me recordo a primeira vez em que pude ouvir e falar sobre aborto, na Faculdade de Direito da PUC MG, em 1997.

Aulas de Língua Portuguesa. Professora Jane.  “Júri simulado”. O tema: aborto. Ao meu grupo coube defender a legalização. Tantos anos depois, e me lembro que foi uma das poucas vezes na vida acadêmica em que pudemos discutir sobre o tema. Obviamente meu grupo “perdeu”, no júri, mas foi por pouco. E foi a primeira vez em que, sem internet ainda, pesquisei a fundo um tema. Maternidade Hilda Brandão, Secretaria de Segurança Pública, Biblioteca Luiz Bessa.

Enquanto escrevo, tento me lembrar dos números, dos dados. Eram parcas as informações, mas conversei com médicos, e havia mortes decorrentes. Muitas. E mortes invisíveis. Na SESP- antiga Secretaria de Segurança Pública, quase nenhuma informação. Nada que eu me recorde hoje.  E quase nada nos jornais. Poucas publicações disponíveis para uma jovem graduanda inexperiente. Algumas publicações em revistas impressas – talvez mais do que hoje!

Mas dos argumentos contra, eu me lembro. Um dos debatedores contrários era de uma religião que não aceita o aborto devido à crença na reencarnação. Outra era evangélica e outros, católicos. Mesmo no meu grupo, que devia “defender” o direito ao aborto não havia consenso, pois alguns eram pessoalmente, contrários (pausa para mencionar: que professora brilhante, Jane Quintiliano. Como trabalhou com aquele pequeno grupo de calouros em Direito as questões do discurso! Somente hoje eu consigo elaborar o quanto foram importantes aqueles seis meses de aulas para a minha formação.) Fim da pausa.

Os discursos contrários não se alteraram. Os argumentos são geralmente os mesmos, como se pode ver nessa pequena pesquisa “google” com o critério “precisamos falar sobre aborto”.

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Eu trabalho com a lei. Com o Direito. E o Direito, bem, ele é essa coisa que admite tanta interpretação, não é mesmo? Um delegado incluiu o ex-marido e a amiga de Jandira como partícipes do crime de “provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem o provoque”. Ah, a letra fria da lei… Ele está errado? Tecnicamente, não. Sim, é possível juridicamente defender essa tese, assim como tantas outras teses aberrantes, de um Direito focado em si mesmo, não visto como um instrumento. A LEI, essa coisa imutável, escrita na pedra – não, esperem… A LEI não é imutável, ainda bem. Ou seríamos ainda, mulheres e negros, objeto e não sujeitos de Direitos – coisas, bens, algo a ser comprado e vendido. Não faz tanto tempo assim que a LEI mudou. E além da lei, há a política criminal. As opções do “aplicador da lei”, seja ele o delegado, o promotor ou o juiz.

É preciso olhar além e adiante da lei, e por baixo da letra da lei, o que há, subjacente. Uma cultura que ainda vê a mulher como coisa, como incubadeira. Uma cultura que ainda vê a mulher que faz sexo como alguém que “merece apanhar”. Não faz tanto tempo assim também que a LEI, essa coisa imutável, extinguiu com uma norma que diferenciava o tratamento dado a um crime diante do fato da mulher ser “honesta” ou não, sendo que o “honesta” entre aspas mesmo já era questionado há quinze anos, quando meu professor de Penal, juiz e conservador, disse em sala de aula que nenhuma de nós ali, em uma faculdade  noturna de Direito, em 1997,  era uma mulher honesta, para os critérios do legislador e do julgador de 1940.

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Vejo que hoje, em 2014, estamos tentando discutir, debater, há pessoas sérias e honestas se dispondo a sair de dentro dos muros da hipocrisia para falar sobre o aborto como questão de saúde pública, e com questão de dignidade da MULHER, mas infelizmente, em uma pequena googlada é possível encontrar dezenas, se não centenas, de textos e vídeos escritos e produzidos por pessoas que usam com tanta futilidade do argumento da defesa da “vida” quanto se lixam para a vida e a saúde das MULHERES. Com argumentos geralmente religiosos e emocionais, muitas vezes agressivos e violentos. 🙁

Não desistiremos.

Nenhuma mulher tem que morrer por culpa da SUA convicção pessoal.

O direito ao aborto seguro é direito das mulheres!

Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

Dicas de leitura: escritoras pop da atualidade

Tess Gerritsen, Gillian Flynn, Liane Moriarty.

Duas estadunidenses, uma australiana. Todas, mulheres escritoras pop da atualidade.

 As obras das três tem me cativado nos últimos meses. De um estilo mais pop, menos lírico, todas me surpreenderam positivamente.

 Tess Gerritsen é autora de thrillers de suspense médico-policial, uma linha que gerou inúmeras séries de TV, de relativo sucesso, como Bones, Crossing Jordan e Body of Proof. A dupla detetive/legista de Tess Gerritsen, Jane Rizolli e Maura Isles, também virou série. Já falei sobre os livros e a série no Blogueiras Feministas.

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 Além das obras com a dupla Rizolli&Isles, Tess escreveu várias outras obras, suspenses médicos, que tem em comum o fato de apresentarem as mulheres sob uma perspectiva forte – seja positivamente ou seja como vilãs bem construídas. Nos últimos livros da dupla eu senti que ela anda ‘escorregando’, não está sendo fácil manter o nível, mas ainda vale a leitura.

 Um dos meus favoritos é “O Jardim de Ossos”, de 2007, publicado no Brasil em 2009.

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 Gillian Flyn, autora de “Garota Exemplar” – Gone Girl, e outros três livros, tem um estilo mais marcante, mais sombrio. Não à toa, Gone Girl virou filme, pelas mãos de David Fincher, com estréia prevista para 03 de outubro (mal posso esperar, a escolha de elenco  me pareceu fantástica! Rosamund Pike se encaixa perfeitamente na minha imagem da Amazing Amy, e Ben Affleck, bem, ele pode surpreender )

 As personagens, boas ou más, são mulheres, que falam sobre outras coisas além de homens e relacionamento – mas também sobre. Há acusações de misoginia (cuidado! o link contém spoilers) quanto ao enredo de “Garota Exemplar” – eu não vou dar spoiler, o livro é muito bom e merece ser lido até o final, para que cada um pense por si. A autora falou sobre isso aqui, e apenas digo que EU não senti isso na obra.

 Já Liane Moriarty, autora australiana com poucas obras traduzidas no Brasil, entre elas “O Segredo do Meu Marido”, foi a mais recente descoberta, e da mesma forma que as outras escritoras, me conquistou por apresentar personagens complexos, nada maniqueístas, ainda que, obviamente, em um cenário muito restrito da alta classe média de Sydney, Austrália.

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Em “O segredo do meu marido” a autora liga três histórias em um final que é meio anticlimax, mas ainda assim, interessante.

Já em “As lembranças de Alice” (disponível aqui para download)  desta vez contado sob três perspectivas, a de Alice, dona-de-casa perfeita do subúrbio, sua irmã Elizabeth, que não é assim tão “perfeita’, e a avó postiça, Frannie. A história nos é apresentada gota a gota, e se no começo lembra muito algo bem “água com açúcar’, aos poucos se revela mais como o filme com a maravilhosa Juliette Binoche, “A vida de outra mulher”.

Como disse o Lucas Salgado sobre o filme, e serve também para o livro: “É sobre a vida de uma pessoa que toma rumos inesperados por ela própria. É sobre reencontrar o caminho desviado e reconstruir as relações perdidas.”

 Ainda assim, apesar da falta de diversidade em todos os livros – quase não há personagens negros, latinos, que dirá indígenas ou aborígenes, não há personagens homossexuais ou trans* – ainda são leituras interessantes.

 Aceito dicas de livros – especialmente que possam ser baixados no Kindle! Que possam suprir essa lacuna, bem como autoras brasileiras e latinas.

 Em outra oportunidade, vou falar sobre o que achei do livro da Maria Dueñas!

 Bem, por hoje é isso!

 Abraços para as biscas-leitoras!!!

Cuidado, zelo, divisão de tarefas: desconstruindo Amélia

Como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro? Cuidado e zelo não tem que ser obrigação, mas partilha.

Há algum tempo eu li um compartilhamento de status de Facebook de uma amiga, a Débora Vieira , que compartilhou o post de uma amiga dela, Joyce Guerra). Era este o status:

“Estou num domingo de manhã fazendo sanduíches de pão de forma na frigideira. Essa atividade é extremamente cotidiana mas me deixa completamente feliz. Eu sei que por muito tempo acreditou-se que, na vida adulta, eu teria uma pessoa paga especialmente para prover minhas necessidades. Sei que supôs-se que eu viveria sempre na casa de outras pessoas. Então, numa manhã de domingo, cá estou eu, morando na minha própria casa, responsável por fazer os sanduíches de quatro pessoas, cada qual com sua especificidade. Pode parecer tolice, talvez, mas me sinto extremamente gratificada por fazer o café da manhã de todos eles. Por poder realizar seus desejos,ainda que em algo tão simples que é um café da manhã; por partilhar dessa atmosfera familiar entremeada por pessoas comendo e assuntos esparsados sobre o futuro e o passado. Existe uma gratificação indescritível em servir, seja aos filhos, seja aos amigos, seja mesmo a quase desconhecidos. Em receber coisas da vida e passá-las adiante, tanto em gestos complexos, quanto nos mais simples de estar disponível para alguém, e simplesmente ouvir, ou servir um pão de forma esquentado na frigideira. De repente percebo que a vida é boa. Não porque seja perfeita, mas porque ela gira, gira, gira e gira…”

E eu comentei, abaixo, com um link sobre as impressões que os gringos estavam expressando sobre nós, brasileiros: “Os brasileiros adoram dar comida para as visitas. É a forma de eles cuidarem de você.”

AMÉLIA

No entanto, nem tudo são flores. “Richard Diaz, do Chile – Fiquei surpreso de ver como é rápido fazer amigos aqui, tanto na favela quanto nos condomínios mais exclusivos. – Percebi que os homens são muito machistas. Eles tratam as parceiras como empregadas deles, especialmente em relação às tarefas domésticas.

E praticamente em seguida, outro link compartilhado me trouxe essa notícia, sobre a porquinha Peppa Pig acusada (?) de feminista. Nesse link, da Revista TPM, foi esclarecido o motivo da “acusação”: na casa da família Pig, todos dividem as tarefas de cuidado, ou seja, não tem essa de “ajudar” e achar que está sendo um favor.

Conversei sobre o assunto via Facebook com uma amiga que mora e Dublin, na Irlanda, e é mãe de quatro crianças (ou seja, uma especialista em Peppa Pig). Ela discordou veementemente da “acusação” feita à família de porquinhos. “O Papai Pig ajuda nas tarefas de casa, mas essa é a realidade da maioria dos lares europeus que não tem a ajuda de uma empregada”, afirmou Karine Keogh, brasileira e blogueira do “Ká entre Nós”. Segundo ela, a família Pig não seria comunista, socialista ou trabalhista, apenas uma família normal que divide as tarefas de casa entre pai e mãe. Eu sempre tive essa mesma impressão e por isso sempre gostei do desenho que é adorado pelo Samuca. No episódio abaixo, um exemplo da “acusação”: Mamãe Pig trabalha no computador enquanto Papai Pig faz o jantar sem-re-cla-mar. Isso acontece na minha casa e na casa de muitas famílias. Ainda bem! Uma pena que cenas como essa não sejam vistas como normal nos dias de hoje.”

Eu não “fui criada” para ser dona de casa (isso significa que fui ensinada a viver em um mundo onde alguém lavaria minhas calcinhas) – me ensinaram a fazer para saber mandar, claro que ainda bem que esse mundo ruiu e não achamos mais mão de obra barata a ser explorada para fazer as nossas tarefas domésticas.

O problema é que não são as “nossas tarefas”. Muitas e muitas vezes a tarefa é só de uma das partes. E quando não é, é de uma terceira, que é bem ou mal paga para cozinhar, lavar, passar, limpar, passear com o cachorro, cuidar das crianças, etc e tal.

E o dilema, meu e de algumas outras mulheres, sem falar em geração ou qualquer outro adjetivo que tente englobar as mesmas características em um grupo, quando são vários grupos, com várias características, é de como, realmente, conseguir dividir os trabalhos domésticos com o companheiro.

E ainda, falando, obviamente, por mim, é como reagir de forma equilibrada, buscando encontrar um método que permita que a divisão ocorra e que eu não coloque defeito em tudo o que meu parceiro faz, porque algo colocado lá dentro de mim há três décadas grita que “HOMEM NÃO SABE FAZER ISSO” e não adianta tentar ensinar. Sou eu, mesmo, essa mulher que pensa assim?

É, sim, um trabalho de desconstrução de tudo que aprendi, de tudo que cresci tendo como natural. Eu não seria como minha mãe, que só pode fazer o curso de Magistério. Eu voaria alto, eu e minhas irmãs. Foi todo um processo inclusive para aprender a entender as escolhas de minha mãe, colocá-las em um contexto, poder criticar de forma fundamentada (mamãe teve duas ajudantes, pessoas maravilhosas, que eram uma delas “como se fosse da família” e outra que realmente foi de certa forma como uma irmã, que trata meu pai como pai, mas que não teve as mesmas oportunidades, quis parar de estudar e parou, isso seria inimaginável para eu ou minhas duas irmãs “de sangue”. “Como se fosse da família”, essa frase tão corriqueira e tão… tão… não consigo expressar, é dolorido, com a vivência que tenho hoje, e fico querendo reparar os erros do passado, os meus, os da minha família, os de todo uma época).

E hoje, eu vejo minhas mãos enrolando pão de queijo, me vejo ligando para minha mãe e conversando sobre receitas, e reconheço o dom e o gosto pela cozinha, pelo prazer de cozinhar, pelo gosto de cuidar, de zelar, e ao mesmo tempo que me orgulho, vejo também aquele temor que Belchior escreveu e Elis cantou, de sermos os mesmos e vivermos como nossos pais.

Não quero reclamar que meu marido não fez tudo do meu jeito. Quero aceitar que ele tem o jeito dele, que não é o MEU, mas que nem por isso é errado. Quero que dividir as tarefas possa ser algo mais leve, mais feliz, sem cobranças. Quero aprender a ceder e a ensinar quando preciso, e a ser gentil ao explicar meu incômodo.

Quero cuidar, sem que seja só a minha obrigação, só isso.

Quero fazer o café da manhã e quero que façam para mim o café da manhã.

Quero desconstruir essa Amélia, para poder aceitar que tenho sim muito do cuidado e do zelo, mas que sou mais do que só cuidado e zelo. Que posso ser várias amélias, inclusive, e alçar altos vôos, sim.

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Amelia Earhart, aviadora

A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

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A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

origem do mundo

A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Menstruação é tabu na Índia. Só na Índia?

Hoje de manhã uma das primeiras postagens que vi ao abrir o Facebook foi uma noticia da Revista Exame, sobre um homem que revolucionou o absorvente na Índia. Compartilhei, pois achei fantástico, e várias outras mulheres compartilharam também.

E isso me fez ficar pensando em menstruação, absorvente e tabus. Mês passado, ao fazermos as compras do mês, estávamos eu e meu companheiro no supermercado, e eu com a lista na mão fui me dirigindo ao corredor de absorventes. Chegando lá, fiquei observando os preços e os tipos, antes de fazer minhas escolhas. Havia também outro casal hétero, e não pude deixar de notar o quanto os dois homens, meu namorado e o outro rapaz, ficaram de lado, meio acanhados (ou foi impressão minha, e na verdade é só desinteresse mesmo? Não sei.)

Tantas opções nós temos, mulheres ocidentais de classe média, que confesso que fico perdida. Coberturas secas, extra-secas, natural, que disfarça odor. Com abas, sem abas, noturno. Com abas, cobertura seca, noturno. E os internos? Mini, médio, grande, super. Serve para o fluxo ou para o tamanho da vagina (piadinha, é para o fluxo de sangue menstrual, dependendo da intensidade, não tem nada com o tamanho da vagina ou com a existência ou não de hímen.)

Tantas opções me lembram da cena do cappucino em “Mensagem para você”, onde Joe (Tom Hanks) pega um café na Starbucks, a maior rede de cafeterias dos EUA, e explica: “A única utilidade de cafés como Starbucks é fazer com que pessoas que não têm capacidade de tomar decisões tenham que tomar seis decisões somente para comprar uma xícara de café. Curto, longo, puro, com leite, normal, descafeinado, light, desnatada… etc. Assim, pessoas que não sabem o que estão fazendo na Terra ou quem elas mesmas são, por apenas US$ 2,95 não apenas conseguem comprar um café, mas também um senso de si mesmas que as define.”

 


Enquanto na Índia o tema é tão tabu que o inventor da máquina que produz absorventes baratos para mulhers na área rural, Arunachalam Muruganantham, foi ameaçado e acabou se exilando de seu povoado, e as mulheres tem tão poucas opções que o mero fato de menstruar as impede de decidir quem serão, as impede de serem quem querem ser.

(Em um texto publicado aqui mesmo, em setembro de 2013, se falou um pouquinho sobre o tema. A autora Mabelle Bandoli abordou o ponto da ritualização da menstruação.)

Minha abordagem é outra. A gente não fala muito. Nem entre nós nem entre homens que não menstruam (destacando que podem existir homens que menstruam, não é? Me corrijam se estiver errada).

Para começar, os tipos de absorvente. Cobertura extra-seca? Me dá alergia! Aquilo não é feito para ter contato com mucosa, gente! Especialmente nessas épocas de depilação “completa”. Como aguentar?

REPORTAGEM DE SAUDE - ANTICONCEPCINAIS

Absorvente interno? Copinho? Dizem que o copinho é fantástico, mas ainda não experimentei. As Blogueiras Feministas já escreveram sobre o coletor menstrual, aqui. E já postaram textos bem bacanas sobre o assunto, também, como podemos ver aqui e já propusemos o tema como blogagem coletiva, e vários links foram divulgados aqui, na Campanha da Segunda Vermelha. Vermelha, sim, é preciso destacar, porque até hoje campanha de absorvente coloca via de regra roupa branca (quantas calças legging brancas vocês tem, normalmente? ) e com líquidos azuis.

Sexo na menstruação? Para algumas mulheres, aumenta o tesão. Para outras, some. Algumas mesmo com vontade não se sentem a vontade. E quase nunca falamos disso.

Todavia, o tabu que temos aqui nem se compara ao vivido em outros lugares, por questões culturais e também, como provou o inventor indiano, por questões materiais/econômicas. Não consigo imaginar a situação em que vivem mulheres como a mãe e a esposa de Muruga e milhões, centenas de milhões, de outras mulheres e meninas pelo mundo.

“Fui criado por mãe solteira. Eu vi como minha mãe lutou para me criar, então eu quis fazer isto para ajudar outras mulheres a ganhar a vida para sustentar suas famílias.” E então ele diz algo tão comovente que é poderoso: Se você empodera uma mãe, empodera um país.”

Não consigo pensar em algo mais contundente para encerrar essa postagem, apenas que trocaria “mãe” por “MULHER”. Para que todas possamos ter ESCOLHAS e LIBERDADE, para escolher como vivenciar nossos corpos.

Mil pedaços

Renato Russo cantou “me fiz em mil pedaços para você juntar”. E a Luciana sempre fala sobre essa nossa necessidade de nos fazer completos com o outro.

Já não sei dizer se ainda sei sentir, o meu coração já não me pertence.

Amor em mil pedaços.

amor em pedaços

E cantou tantas outras coisas mais. Tem dias que ouvir Legião é como uma tábua de salvação, um pedaço da gente arrancado e colocado de volta. “Não sou mais tão criança a ponto de saber tudo”. Tem dias que ele fala para a gente.

E foi então que eu percebi como lhe quero tanto.

Muitas vezes o que eu vejo quase ninguém vê. E quase sem querer, eu quero o mesmo que você.

Frases soltas que embalam meu choro.

Que país é esse? Eu já cantei “é a porra do Brasil”, quando era jovem e gritava contra Collor e FHC, e quando Dinho caía do palco mas não era jurado da Globo, cara. Tão criança, a ponto de saber tudo.

Não foi tempo perdido. Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo…

Quero ter alguém com quem conversar. Alguém que depois não use o que eu disse contra mim. Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei…

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Tenho o que ficou e tenho sorte até demais. Como sei que você também tem.

As vezes é solitário andar por entre as gentes. E eu gosto de meninos e meninas. Tem sido dias estranhos. O mundo anda tão complicado. É a verdade o que assombra, o descaso que condena, a estupidez, o que destrói. Eu vejo tudo que se foi e o que não existe mais.

….

Tem sido dias estranhos. O ódio vem corroendo, de todos os lados. A gente enfia a cabeça em um chapéu verde amarelo. Vamos celebrar epidemias, é a festa da torcida campeã. Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos. Vamos cantar juntos o hino nacional, a lágrima  é verdadeira.

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Venha, que o futuro é perfeição.

Renato Russo morreu há anos. Era soropositivo. Deixou um filho, e outro dia vi uma noticia sobre a disputa pelo legado do Legião.

Dias estranhos.

 

Sobre aceitação e generosidade – ou uma biscate gorda

Esta texto está sendo escrito e reescrito na minha cabeça, e na minha vida, há tempos.

E num sábado de sol a Renata Lins e a Luciana Nepomuceno colocaram na pauta esse texto-entrevista-bate-papo sobre corpo e seus padrões que, poxa, falaram tanto comigo.

E eu pensei que podia finalmente escrever sobre a minha experiência com o corpo e os padrões, e o que EU tenho tentado aprender com isso.
Você já olhou para trás e viu como você era linda na adolescência mas se achava feia/gorda/esquisita? Acho que muitas pessoas já fizeram isso.

Como disse a Renata Lins:

minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras.

Eu acredito que é um processo, um esforço, uma conquista mesmo.

A gente é bombardeado todo dia com fotos da Gisele e de outras. Na minha época, eram a Cindy Crawford, a Ana Paula Arosio e a Luana Piovani. Eram elas os “padrões”. O narizinho da Ana Paula fazia eu odiar cada dia meu nariz. E a Cindy, bem, ela ao menos eu admirava porque ela mesma era crítica quanto ao que era a persona “Cindy Crawford”, que ela chama(va) de “A Coisa”. Ela dizia que nem ela acordava sendo “A Coisa”. Como Rita e Gilda.Hoje EU acho que é mais fácil, para mim, porque tenho outros modelos, e nenhum deles é uma modelo ou atriz famosa.

Mas tem ainda regramentos sobre como temos que ser “sexy sem ser vulgar” e outras mais. Ou seja, não dá pra dizer que o mundo mudou.
Então, EU tenho tentado aprender que quem muda somos nós, em um processo que não é fácil.

Aos 15 anos, eu pesava 58 quilos, tinha 1,65m e me achava enorme. Meus parâmetros? Duas amigas, uma com 1,50m e outra com 1,55 m, biotipos totalmente diversos do meu, e uma paranóia com os corpos. (Uma delas era aquele tipo de amiga que gosta de fazer as outras se sentirem mal, e infelizmente, gente ruim ou “com problemas” existe e se reproduz, desculpa sororidade.)

Voltando ao tema, eu era gostosa pra caralho (olhando as poucas fotos que tenho da época, já que odiava fotos, quem nunca?) e me achava feia, gorda, bochechuda. Isso não impediu namorados, rolos, etc, mas sempre esteve no meu inconsciente.

Aos 18 anos, ganhei muito peso, e rápido, e fui parar no Vigilantes do Peso. Tenho as fichas até hoje, em uma pasta com todas as avaliações físicas que já fiz em academias nessa trajetória, as vezes eu acho que para provar que “já fui magra” ou que cumpro o papel da gorda que não se aceita e tenta a todo custo ficar no “peso ideal”. Perdi peso, ganhei peso, entrei na faculdade.

Os anos de faculdade foram de novamente me sentir enorme, mesmo não sendo tanto – as fotos estão em casa, para me mostrar. E na formatura, de novo, ganhei muito peso, muito rápido. Bochechuda.
Formatura, e a luta pelo concurso público, pela estabilidade, pela conquista da independência, e aí, tudo ia mudar, eu ia fazer plástica no nariz, aumentar o peito, etc e tal e achar alguma pessoa legal e ter o pacote Sex and The City em Ovorizonte (isso é assunto para outro post…)

Nos primeiros dois anos de formada, continuei engordando, até que um dia decidi mudar, perder peso, ficar magra. Consegui. Nesse meio tempo, concursos para cargos que exigiam provas físicas, aprendi a malhar, correr, comer bem, parei de fumar… por alguns meses, ao menos.

Fiquei magra. Pesava 57, menos que na adolescência. Passei no concurso. E não foi a felicidade instantânea. Ai a gente continua buscando, buscando, buscando.

Em oito anos, emagreci, engordei, tomei remédio para emagrecer, voltei a fumar, engordei tudo de novo.

Vivo de dieta, como mal, me prometo que na segunda-feira eu volto a correr e comer direito. Compro alface e semente de linhaça. O alface murcha, a linhaça mofa.

E quando me revelo “de regime” já me perguntaram se eu não li “O Mito da Beleza”. Cara, eu li. E me identifiquei total: já fui das convertidas que querem emagrecer todos ao seu redor.

A questão, pra mim, ao menos, não é saber que a ditadura da beleza/magreza é algo criado para gerar lucro e controlar as pessoas, especialmente as mulheres.

O buraco é mais embaixo: é que, mesmo sabendo disso, eu vivo nesse mundo. Eu compro roupas nesse mundo, eu vou ao salão de beleza, eu ouço as pessoas falando, os jornais, as revistas, minha mãe… as pessoas bem intencionadas, como eu já fui, e aquelas que gostam de alfinetar, as maldosas que gostam de simular que se importam mas querem é cutucar pra ver como você reage.

A sorte, nesses dias, é que hoje eu tenho uma rede de proteção. Eu tenho amigas incríveis, e tenho aprendido a exercitar o olhar generoso de que a Isa Cassaloti fala e a Luciana Nepomuceno cita. Eu tenho me permitido me olhar com generosidade, olhar as pessoas e o mundo com generosidade.

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. “

EU tenho preocupações: com a saúde, com a possibilidade de engravidar, com o peso que estou hoje, se seria ruim para mim e para o hipotético embrião-feto-bebê.

Este post depoimento, que não vai ter minhas fotos de antes-depois-agora porque não estou em casa enquanto traço essas linhas, é só para compartilhar que todas e todos temos nossos dias. Que todas somos lindas, inteligentes, gostosas, fantásticas, mas mesmo assim as vezes duvidamos. Como não duvidar? Tanta gente falando de dieta e envelhecimento, bate o medo, a ansiedade, a raiva mesmo as vezes.

Quando bater o medo, a raiva, a ansiedade, é bom respirar (aproveitar e olhar foto de gatinhos e filhotes em geral também ajuda) Se olhar no espelho e ver a beleza que há em casa um de nós, e escolher ser feliz do jeito que você é. Mesmo que te digam que você não pode, não deve, não entendam como. A gente pode, sim.como nos vemos laerte

A fórmula única – garrafas aos mares

Tem dias que tudo é dúvida. Todo dia, na verdade, é dúvida. E eu penso se estou me perdendo em batalhas perdidas, afundando em derrotas e amarguras.

Tem dias que é Adelir, grávida e em trabalho de parto, sendo arrastada no meio da noite, com um mandado que violou não só a lei federal, a Magna Carta, mas a mais fundamental parcela de dignidade de um ser humano: autonomia.

Tem dias que é brigadeiro de colher e carne moída com batatinha, sabor de colo e aconchego.

Tem dias que a inspiração não vem, sobre nada. Tudo de profundo e relevante já foi dito, por alguém que diz melhor que eu o que eu quero dizer. E só cabe compartilhar, curtir, curtir mil vezes, postar dez vezes o texto fantástico que, olha que fantástico, as vezes foi escrito por gente que eu conheço e gosto pessoalmente.

Essa internet é muito boa, no final das contas. Se permite que grupos de ódio se propaguem, garante também que nós possamos denunciar.

Se permite que personagens caricatos à esquerda e à direita se revelem, de forma anônima e invisível e covarde, garante que a gente possa se juntar, dez doze vinte cem, e formar nossos coletivos de amor. Nosso clubinho.

Sabem, mesmo quando a gente acha que não tem ninguém lendo, nem se importando, a gente pode estar sendo aquela garrafa lançada ao mar e encontrada pelo náufrago, à deriva ou nem tanto. As vezes somos todos náufragos. As vezes o mar é terra firme e concreto, e estamos à deriva.

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Ontem eu li um artigo de um blog sobre criação de filhos com apego. E foi logo depois de ter lido um amigo postar aquele quadrinho da Super Nanny.

E como é que a gente fazia antes, quando não tinha tanta “corrente” dizendo como é que devemos ser/estar/parecer? Como a gente criava filho?

A Deborah Leão respondeu lindamente à minha angústia: “Antes era assim: você fazia como a sua mãe. E cada mãe fazia de um jeito, mas a gente não sabia bem disso. Algumas coisas davam mais certo, outras davam mais errado, mas a humanidade está aí criando filho não é de hoje. (…) Mas isso é meu. Vai ser o meu filho. A minha criação. Vai ter hora em que eu vou deixar chorar, vai ter hora em que vou pegar no colo. Vai ter hora em que vou estimular o apego, vai ter hora em que vou ter certeza que o melhor pra ele é algum distanciamento. E vai ter hora em que eu não vou ter certeza de nada. Já não tenho. Faz parte. Não sofre com isso, não, Rê. Já tem angústia de mais na experiência toda, a gente não precisa acrescentar, não.”

E ai eu pensei também numa mensagem que recebi outro dia, eu também náufraga, na qual uma pessoa que eu conheço pouco e admirava quando conheci, à distância dizia que se sentia feliz em saber que havia mais gente que pensava como ela (no caso, eu) e agradecendo por postagens minhas numa rede social (onde eu sou daquelas que postam “demais”) pois a faziam sair da zona de conforto (acho que saímos juntas dessa zona).

E voltando ao começo, eu acredito que esse clube, esse coletivo, assim como uma rede de amor e amizade, as vezes virtual mas sempre real, mora no meu coração porque não propõe uma fórmula única, não propõe sequer uma única fórmula. Se há algo que tentamos ter aqui é a proposta inicial:

“Este é um blog de princípios, os textos são concretude dos pensamentos individuais e revelam especificidades, mas não se afastam de uma reflexão abrangente e coletiva.

Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Sim, estamos falando desexo, mas não só.

Escrevemos por prazer. Aliás, é assim que tentamos viver. Beleza, Gentileza, Leveza, eis as musas.

Não sabemos de tudo. Muitas vezes suspeitamos que não sabemos de nada. Não escrevemos pra convencer ninguém, mas para expressar o que sentimos, pensamos, queremos. Tentamos construir diálogos.”

Jogamos mensagens em garrafas, esperando que um dia elas voltem, com a resposta ou só com um oi e um abraço.

Nos dias em que a gente tiver certezas, não vai ser tão divertido.

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Refestelar

Ele está sentado, meio recostado, no sofá.

Ao lado, a cachorra, refestelada. Adoro essa palavra.

(re.fes.te.lar -se)

v.

1. Sentar-se ou estender-se comodamente: Refestelou -se no sofá.

2. Entregar-se a algo que deleita, que dá prazer: Chegou a Paris e logo se refestelou no melhor hotel.

[F.: re – + festa + –elar. Hom./Par.: refestelo (1ap.s.)/ refestelo /ê / (sm.). Ant. ger.: refastelar-se.]

Eu estou aqui, no note, escrevendo um post.

Um lombo marina na geladeira.

Uma taça com água, sobre a mesa.

Na varanda, a gata dorme, em posições variadas de fofura.

É uma tarde cinza, daquelas em que não chove mas não faz calor. Começo de outono e começo de férias. Férias a dois. Férias de nós dois, juntos o dia todo, todo dia. Rotina de já quem vive junto, dorme e acorda, junto.

Ele lê, eu rearranjo os móveis, troco as fotos dos porta-retratos, coloco minha vida e nossa vida sobre a estante. Junto dos livros de receita, os livros de dieta e os livros de Direito.

Férias.

Tempo de refestelar.

Deitar languidamente no sofá, empurrar a cachorra para o chão, e me aconchegar ao lado dele. E estar lá.

Entregar-me ao que me deleita. As mãos grandes, o sorriso de covinhas, o jeito calado, os ombros largos que me sustentam e equilibram.

Com ele eu me permito ser louca e séria. Me permito ser todas.

Com ele, eu me sinto uma boa menina… such a good girl…

 

É claro que nem sempre é assim. E nem tem que ser. Mas hoje. Hoje é. Agora. É.

Ideologia…

A Denise Arcoverde publicou o link para o texto do Xico Sá, de hoje, na minha TL do Facebook: Você deixa de transar por gramática ou ideologia?.

Pergunta o Xico: “Você ficaria –não estamos falando em casamento!- com quem defende a tese do “bandido bom é bandido morto” e aplaude o neopelourinho escroto que anda rolando por ai?”.

E aí a xará responde: “pois então. eu não respondi à pergunta, pq essa do pelourinho não vale, né? É só retórica. Mas e um mezzo-reaça? Um liberal que acredita no esforço pessoal etc.?
Aí fica mais difícil dizer que não de cara. Eu pensaria.”

Pois é.

Eu pensaria. Mas possivelmente, não ficaria. Ou sim?

As questões que a questão levanta são maiores que permite essa vã filosofia.

Alguém pode ter o discurso lindo, perfeito, que combina com o seu. E os dois se completam e completam as frases um do outro, mas na convivência diária, na hora de colocar o lixo para fora e a comida na panela, os opostos se revelam, as divergências se tornam arestas intransponíveis, abismos. E não há respeito, não .

E alguém pode ter o discurso todo errado, seja na gramática ou na ideologia (errado de não bater com o seu, não sejamos arrogantes de nos achar sempre certos, isso também é brochante -ou broxante?), mas no dia a dia, comendo um quilo de sal, trocando os botijões de gás, provando do dormir e acordar, é aquele alguém que nos equilibra. Não completa, não a armadilha da alma gêmea, mas a certeza de que se é amor, vale a pena esforçar para “dar certo”. Não a todo custo, não para ser para sempre, mas enquanto durar.

E nesses dias, quando as redes sociais andam esgarçadas e ao mesmo tempo agastadas, fica mais fácil ou mais difícil separar o mezzo reaça, na linha do que a Renata Lins definiu, do feminista progressista fake.

Hora de dar uma pausa, respirar, e ver o que realmente você quer, naquele momento.

E no resto de sua vida.

Sem dicotomia entre o discurso e a atitude, sabendo que o discurso permeia a atitude, mas lembrando que a atitude, bem, ela confirma ou desmente o discurso…

Ideologia… Cazuza

 

 

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