Algumas anotações sobre “Cat Person”

Teve aquele texto na New Yorker, “Cat Person”, que viralizou loucamente e eu – como de hábito – não entendi por quê. E vou tentar comentar sem ter entendido. Bora ver onde consigo chegar.

Vou contar como li o texto, pra começar. Como já li há um tempo, vai ser um resumo bem resumidinho. Uma moça e um cara começam uma historinha, bem de leve. Se encontram uma ou duas vezes e adquirem alguma intimidade por mensagens de texto. Tão comum nos tempos atuais. O cara se afasta em algum momento, a moça manda mensagens e mensagens, o cara reaparece. Conversam, brincam, trocam ideias, piadas. Mandam carinhas pra lá e pra cá. Combinam de sair – vão ao cinema e, em seguida, beber algo. Tudo meio desajeitado: a escolha do filme, a bebida depois.  Na hora ir embora, ela sugere ir pra casa dele. No meio do caminho fica em dúvida, mas aí, já tinha dado a ideia, né. Quando chega na casa dele ela perde o tesão, de repente. Olha pra ele e não tem mais vontade nenhuma de trepar. Só que já estava ali, já tinha concordado. Não se sentia ameaçada, era apenas difícil dizer que não sem motivo, àquela altura. Então, sim. Sexo “por cortesia”, ou por constrangimento. Vão pra cama e tudo o que ela quer é que aquilo acabe. Sem dar nenhum sinal a ele disso. Não diz o que gosta, não mostra o que quer, apenas se deixa levar. Depois, quando acaba, ela vai embora e simplesmente não quer mais contato com o cara. Que, evidentemente, fica sem entender nada.

O texto rodou um monte por aí, assim como os zilhões de textos que se seguiram a ele. Mas é basicamente isso. Uma noite de sexo ruim. Que viralizou.

Não é apenas isso, porém: é também a história de uma relação que existia – tantas mensagens, tantos textos, tantos emojis – e que deixou de existir porque o sexo foi ruim. O cara, aquele com quem ela conversava, se divertia e ria, de quem tinha saudade depois que desaparecia, esse cara deixa de existir de uma hora para outra. Nenhum cuidado lhe é devido, é como se o sexo fosse um “tudo ou nada”.  Como se fosse a prova dos nove. Como se ela ter perdido o tesão e ter trepado com ele mesmo assim justificasse riscar o cara de uma vez da vida, assim.

Eu acho meio esquisito, na real.

Sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim. Gente é mais que isso. Claro que uma trepada casual de alguém que se conhece em uma noite pode ficar apenas nisso e não pede explicações: só que não era o caso ali. Não vi ninguém falando disso, embora tenha lido tantos textos sobre esse texto. O ponto de vista dela, o ponto de vista dele. Mas com foco no que seria o ápice da história: o sexo ruim. Ninguém discute muito a relação pré-existente e o que acontece com esta depois. E quando o cara, no final das contas, perde a compostura e manda uma sequência de mensagens grosseiras, é como se tudo fosse justificado: era apenas um “macho” equivocado, que não merecia nenhum respeito ou atenção.

Sei lá. Fiquei sentindo falta de alguma conversa no pós. Ou, pelo menos, de uma mensagem mais simpática. Tipo “não rolou bem, mas a gente pode se falar”. Ou “vamos ficar sem se falar um tempo, depois a gente vê”. Ou … alguma coisa, né?  Nem precisava falar mesmo de novo, era só um jeito de não encerrar assim abruptamente. Achei, mesmo, que a protagonista da história meio que objetificou o cara. E jogou fora sem nenhum cuidado a relação que existia, como se não fosse nada. Como se o fato dela mesma não ter conseguido dizer que não estava mais com tesão fosse justificativa pra simplesmente descartar o cara. O cara inteiro, quero dizer, e não somente o sexo. Porque ele, a pessoa, merecia alguma consideração da parte dela, não? Eu acho que sim.

Tem outra coisa, que é o próprio sexo ruim: certo, ela não disse que não queria. Mas, já que tinha topado, podia talvez colaborar um pouco praquilo ter alguma chance de ser razoável, né? Não me pareceu. A moça simplesmente se deixa fazer e cria fantasias pra conseguir levar o ato até o fim. Não há nenhuma tentativa de interagir com o cara. É como se ele estivesse ali para satisfazê-la. Ou como se o fato dela não querer no começo já destinasse tudo ao fracasso e a desobrigasse de qualquer participação efetiva no processo. Ora, tem tanto sexo que começa mais ou menos e depois melhora, com alguma ajuda dos participantes…

E, na verdade, esse “sexo ruim que define tudo” me parece exatamente o outro lado dos livrinhos de banca para moças, aqueles Sabrina, Bianca, Julia, em que o sexo bom define tudo. O cara pode ser o que for, um canalha, um bruto, mas pega a mulher de jeito e… pronto. Está tudo resolvido. Como se não precisasse de mais que isso. Como se toda a relação encontrasse seu sentido ali. Uma espécie de “e foram felizes para sempre (trepando muito e tendo múltiplos orgasmos cintilantes)”. Tão igual aos contos de fada.

Sexo, ruim ou bom, é apenas sexo. Não precisa ser abismo e não precisa ser paraíso. Além de precisar contar com a participação das duas pessoas envolvidas. Não é algo que está dado antes de acontecer. Se não for bom, não é necessariamente “culpa” de ninguém. É tentativa e erro,  né? E, às vezes, acerto. Há que se ter alguma boa vontade. Alguma generosidade. Alguma atenção com o outro. Se interessar, alguma persistência.

Por aí.

Resultado de imagem para sabrina bianca julia

Amor e jeitos de

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

Tenho certa pinimba das odes ao amor romântico. Pinimba, assim. Como se fosse uma irritação na pele. Ah, o amor romântico, tão exaltado por profissionais das artes e diletantes dos sentimentos. Aquele dos grandes gestos, das flores, das velas em castiçal, dos incensos (inclusive tenho alergia), das declarações em poesia derramada, das hipérboles. Aquele que todo mundo gostaria de ter. Pois bem, sei lá.

Tem quem navegue em serenatas ao luar e sonhos de valsa.
E se deixe levar pela intensidade exibida, pelos arroubos, pelas brasas.
E, claro, pode ser, tanto pode.

Mas tem também quem aprecie aquele amor que se descobre nas frestas, o improvável, o dos pequenos gestos de delicadeza, o dos silêncios e da quietude acompanhada.

Uma imagem que me vem à mente é aquela cena final de “Notting Hill”, no banco: ela, grávida, deitada no colo dele; ele, lendo um livro. Estando ali, dando uma olhada de vez em quando, sentindo aquele quentinho por dentro. Sabendo que dá pra estar ali sem dizer nada.

Resultado de imagem para notting hill final scene

Tem aquele amor meio áspero também, que aparece na comida feita, na casa limpa, um amor construído pelo esforço, talhado na pedra, de sol a sol.

Amor bonito esse que se mostra no fazer. Que precisa de tempo pra se entender. Que vem de mansinho, aos poucos, e um dia está instalado, sem que ninguém tenha percebido direito como.

Jeitos de amores. Talvez não tão óbvios. Nem por isso menos preciosos.

O cinema, me parece, afetou um tanto a forma de se perceber afetos: confunde-se tantas vezes a embalagem com o conteúdo. Ou, por outra, espera-se sempre uma só embalagem, quando podem ser tantas quanto há jeitos de ser, de chuva ou sol, de riso ou siso. As outras, tantas vezes, não se reconhece. E criam-se faltas de algo que não falta. E dores onde não precisava. Porque não houve rosas. Porque não houve violinos ou exuberantes declarações. Porque a roupa era o macacão de todo dia e não o vestido de baile, o traje de gala, que demonstrasse… o quê? O que é que precisa ser demonstrado pela roupa, pelos violinos, pelas rosas? Por que não pela comida no fogão, pela sacola do mercado, pela faxina na casa? Menos romântico, vão dizer. Sim, é certo; mas não necessariamente menos amoroso. Não menos cuidadoso. Não menos presente. E, algumas vezes, mais sólido, mais duradouro. Resistente aos ventos, às intempéries. Amor, a cada dia.

E tem o vai-e-vem das ondas: um que começa daquele jeito, de mansinho, a cada punhado de sal, um dia pode encher barragem e transbordar em arroubos, assim, sem mais nem menos. O outro, aquele dos grandes feitos, das conquistas de territórios, dos tapetes de rosas, em algum momento pode amansar, qual fera domada, pode aquietar e deitar-se ao pé da lareira, no tapete, ronronando. Vá você desenrolar.

A moral? Não tem, né. Não tem moral. Tá tudo valendo. Qualquer maneira e tal. Só que é sempre bom ficar atento, saber escutar, saber perceber, saber acolher as formas de amar que são aquelas, que são outras. As que se exibem e batem no peito, as que não se deixam perceber à primeira vista. As que atravessam mares e conquistam ilhas em seu nome, as que talvez nem se declarem. E, no entanto, estão ali. Na sombra. Ao seu lado. À espera de, quem sabe, talvez.

O eu que eu não fui

O eu que eu não fui é uma entidade que me acompanha. Uma sombra fugidia. Quase uma lembrança. Alguma melancolia. Um breve piscar de olhos. Que de repente, pronto, passou.

Mas está ali e segue estando, esse eu que eu não fui. Que teria estudado – claro – letras. Teria pegado o ônibus por quatro anos para o fundão, ou, quem sabe, aprendido a dirigir.

Letras, para fazer pós-graduação em linguística. Lembrar do amigo Saussure, aquele da “lettre de De Saussure à sa femme” em que eu tinha achado tanta graça, vista em um museu perto de casa, quando eu nem sabia quem era De Saussure. Antes de ler o tratado dele como se fosse romance e receber olhares esquisitos dos mais-velhos em volta.

O eu que eu não fui iria morar fora, é certo. Morar fora de novo, reencontrar-se com a forasteira que mora dentro de mim e do eu que eu sou. Fora – na Europa, em Paris, provavelmente. Em um quartinho daqueles lá no alto, com montes de escada até chegar lá em cima. Em Paris, os cafés. A beira do Sena. Os livros usados. As praças e os parques. A rua. O cheiro de castanhas quentes no inverno. As crêpes. O eu que eu não fui teria gostado de morar em Paris, embora a saudade do Brasil não fosse embora nunca.

paris-cafeE, depois da pós, teria se demorado por lá, teria, quem sabe, conseguido dar aulas em uma universidade. O eu que eu não fui seria muito dedicada à carreira.

O eu que eu não fui não teria casado, não teria tido filhos: não exatamente por decisão, mas porque namorar é trabalhoso e difícil, estudar ocupa tempo, ter filhos…. Não teria acontecido, apenas.

Uma ponta de tristeza, talvez, mas rapidamente afastada: afinal, haveria amigos, viagens tantas, um trabalho cansativo mas recompensador. Os alunos, os colegas. Uma vida cheia de cores e de gentes. Uma vida gostosa, essa do eu que eu não fui.

Às vezes, a sensação do eu que eu não fui é tão forte que me pergunto o que estaria acontecendo agora com ela, que imagino que ela deve estar vivendo de verdade essa vida que eu não vivi em alguma realidade paralela.
A garganta aperta um pouco, mas sorrio de leve.

A eu que eu sou é tão diferente desta que eu tinha certeza que ia ser.
E nem fui.

O Estado e a vida das mulheres

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Postei isso achando graça. Poliamor e sensualidade subversiva? Tá lindo! Anarcos de grande inteligência? Cheguem mais. Mas fiz a ressalva: não seguirei a recomendação sobre a descriminalização do aborto. Esta defendo todo dia. Com tristeza, com tenacidade. Há tanto tempo que a gente já poderia ter conseguido isso. Portugal, país católico, descriminalizou o aborto por referendo em 2007. Lá, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a décima semana, independente do motivo.  Desde então, os resultados são notáveis: de 2012 até 2016, nenhuma mulher morreu em decorrência de aborto. O número de abortos também caiu, como se pode ver neste texto aqui.

Portugal legalizou o aborto tarde – na França, a legalização ocorreu em 1975, há mais de 40 anos. Na Inglaterra, Escócia e País de Gales, antes ainda,  em 1967.

Mas o primeiro país em que se legalizou o aborto foi a União Soviética, em 1920. Segundo a wikipedia, “[p]ela lei soviética, os abortos seriam gratuitos e sem restrições para qualquer mulher que estivesse em seu primeiro trimestre de gravidez.”

Possibilidade de interrupção da gravidez. E, com isso, preservação da vida das mulheres. Da dignidade das mulheres. Dos direitos iguais das mulheres.

Parece evidente, para mim, como já disse em outro texto, que a outra ponta desta questão consiste no apoio do Estado à criação dos filhos, com creches e escolas gratuitas integrais e de qualidade, com saúde pública universal, com a possibilidade de flexibilização de horários no trabalho para mães e pais. Estas duas pontas não se opõem, mas se complementam no reforço aos direitos das mulheres. De ter filhos, quando querem tê-los; de não tê-los, quando não for o caso.

De novo, a URSS foi pioneira e implementou uma política de construção de creches públicas: “De 14 creches com número de vagas desconhecido, antes de 1917, a Rússia passou a ter mais de 365 mil vagas em 1932 nas cidades” (aqui). Com foco no direito das mulheres, aborto legalizado e creches públicas passavam a constituir partes integrantes da política de Estado para as mulheres.

Um século depois, o Brasil ainda patina e retrocede: a ofensiva religiosa e reacionária busca destruir até o direito já adquirido de abortar em caso de estupro, anencefalia do feto ou de risco de vida para a gestante. Todos os outros casos são considerados “crimes contra a vida”.

O que já era um direito limitadíssimo, que não atendia às mulheres, periga se transformar em direito nenhum, já que a PEC 181, que originalmente tratava da extensão do direito à licença-maternidade para mães de prematuros, foi alterada de forma a incluir no texto os termos “dignidade da pessoa humana desde a concepção” e “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“. Ou seja, como no famigerado “Estatuto do Nascituro”, busca-se, através de uma gambiarra, igualar os direitos de um feto em formação aos direitos da mulher viva que o carrega em seu ventre. Um escândalo, um absurdo, algo que faz da mulher grávida uma incubadora sem vida própria e autônoma.

Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo.  

Sobre homens “bananas”

Ou sobre machismo arraigado, tão arraigado que é naturalizado. Pelos próprios homens, para os próprios homens. Machismo, veste estreita, óculos de grau através dos quais são identificados homens “bananas”. Curiosamente, o mesmo termo, duas vezes.

Em dois tempos, comentados nos textos linkados abaixo:

“Um último toque sobre os homens do filme: Pedro Bial chamou-os de “bananas”. E, não, não me pareceram bananas. São homens apenas. Tantos desses por aí. Gente fina, queridos por muita gente. Por que será que ele os chamou de bananas? Porque não batem na mesa, não gritam, não impõem sua vontade? Será? Achei significativo o epíteto. A percepção dele. O machismo mora nos detalhes, tantas vezes.”

https://primeirafonte.tumblr.com/…/piscadelas-como-nossos-p…

“Ele [Nilson Xavier] menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? “

http://biscatesocialclub.com.br/…/novela-sete-vidas-lugar-…/

Não à toa, eu reparei e registrei nos dois casos. Depois é que fui ver que usam o mesmo termo desqualificante. Há tempos que isso gira na minha cabeça – essa camisa-de-força do “ser homem” no Brasil. Hétero, no mais das vezes, mas não somente. E, em qualquer caso, nunca, nunca “bananas”. O termo tão vago e abrangente é usado tantas vezes para falar de homens delicados. De homens abertamente sensíveis. Homens cujos olhos enchem de lágrimas ao contar uma história que os toca. Homens que cuidam das crias, que botam no colo, que aconchegam, que acolhem o choro. Que se deixam envolver e levar por certas emoções ditas “femininas”. Homens yin. Que se deixam ver frágeis. Que não entram na carcaça rígida e limitada que lhes é reservada pelo senso comum.

HomensBananas2

Talvez porque tenha tido a sorte de conviver desde cedo com esses homens não-convencionais é que esse tema me é tão caro. Talvez também porque eu seja mãe de dois meninos: como protegê-los? Como deixá-los ser o que são e não permitir que o mundo os encerre na armadura que limita e separa os homens-homens dos outros? Desses que, tantas vezes, são chamados de “bananas”? Uma pergunta sempre presente. Uma atenção, um cuidado necessário e permanente. E uma briga com o mundo, claro. Com o que o mundo ao redor espera.

Meus filhos, os filhos dos amigos. Os meninos todos em volta. Os que estão mais longe. Meninos. Todo dia aprendendo como é difícil ser menino. As cores que não pode, as roupas que não pode, os gestos que não pode pra “ser menino”.

HomensBananas3

Pausa para reflexão…. porque alguns hão de dizer que estou falando de questões relativas a ser hétero. Mas nem. Isso é prévio. Como já comentei em outro canto,

Sexualidade? Orientação sexual? Isso é outro assunto, não? Que tem a ver com quem lhe causa frisson, arrepios, que tem a ver com quem você quer na sua cama e no seu corpo. Isso a gente só vai sabendo ao longo, à medida em que vai crescendo e os desejos vão brotando. Aqui, não é disso que se fala: é anterior. É do lugar do “ser menino-macho”, independente do que virá mais adiante. E, mais adiante, você poderá inclusive descobrir que, apesar de corresponder ao estereótipo do menino-menino, gosta mesmo é de meninos. Não é verdade?”

E vice-versa. Os homens fora desse padrão de masculinidade podem perfeitamente ser hétero: muitas vezes, são. E aí…. Fica esse incômodo pairando. Algo no ar, algo leve, mas persistente. E, sem saber o que dizer a esse respeito, sobre esses homens que não são conformes ao que se espera de um homem-homem, e no entanto namoram, casam, ficam com mulheres, alguns vaticinam: bananas.

Pronto. Categorizaram, qualificaram, desqualificaram: podem dormir tranquilos. Eles, os potentes, os másculos, os energéticos. Eles, tão distintos daqueles que desafiam -tantas vezes sem nem mesmo fazer de propósito – as convenções estabelecidas da masculinidade dominante. Dos que são doces, macios, suaves, frágeis, sensíveis… em uma palavra: bananas.

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

carreira2

A voz solta no papel

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
C.D.A.

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de cantar. Cantar é parte da vida, é trilha dos momentos, é forma de contar a história. Em outro canto, já contei como decorava discos de Chico Buarque e ensinava à família, para fazer parte do nosso repertório de viagens: cantar é também político.
A voz foi algo que fui aprendendo que era um “a mais”: algo de que os outros gostavam, algo que dava pra modular e usar a favor – para seduzir, claro, como não, mas também para (me) acalmar. Como comecei a dar aula muito cedo e era extremamente tímida: usava a técnica de prestar atenção na minha própria voz, que me tranquilizava. Voz-companheira e amiga, a minha.

Mas sempre tive problemas de rouquidão. Ao primeiro excesso de praia, ao menor sereno, à mais branda noitada em boteco… pronto, ficava rouca por dias. Quando não afônica de vez.

A voz: minha fortaleza, minha fragilidade.
Outra dor de garganta também sempre me acompanhou: a dor das palavras não-ditas. Que sempre foram muitas. Como se, ao prender na garganta, eu inconscientemente me machucasse.

Aí que me dei conta de uma coisa curiosa: desde que comecei a escrever regularmente, no Chopinho (que aliás foi presente por uma querida fonoaudióloga, gracias Cacá!), nas redes sociais, aqui mesmo neste Biscate, e agora mais recentemente no Primeira Fonte da Esther e da Fal, minha rouquidão quase sumiu. Como se, ao escrever as palavras que me entalavam, eu tirasse o peso da garganta e a liberasse. Libertar as palavras, libertar a garganta.

Escrever, para aliviar a dor.

Cantar, para deixar a alma mais leve.

E, justamente esta semana, a Luciana-Borboleta me lembrou um livro que foi tão eu, durante tanto tempo: “Les Mots Pour Le Dire”, da Marie Cardinal (o nome em português é: “Palavras Por Dizer”. Minha tradução seria: “Palavras para dizê-lo”. Ou, vá lá, “Palavras para dizer”).

O livro conta a história de uma análise. A análise da autora. Os anos em que ela foi ao consultório de um psicanalista, deitou-se no divã, e desfiou sua história. E como isso fez diferença em sua vida. Mas também em seu corpo. De novo, como se, ao lançar as palavras ao mundo naquele consultório, ela aliviasse seu corpo da própria dor de existir.
Palavras. Como mágica. Como encantamento. Palavras que curam, apenas por serem ditas.

 

palavras1 palavras2

Uma rosa flutuante


“Dou muito” é percebido como “isso é muito importante pra mim”, quando a questão é apenas “tenho facilidade de dar muito”.

Essa fala aí, desse jeito mesmo, faz parte de conversa com amiga. E eu nem tava falando de mim. Nem tava falando de dar, assim, fisicamente. Era uma conversa sobre outra pessoa – vamos chamá-la de Rosa: uma pessoa querida, generosa, afetiva. Naturalmente assim. Aí ela se apaixona e – aparentemente – entrega tudo: coração, corpo, cabeça. Faz poesia, declaração pública, leva pro parque de diversão, pra passear em Paris ou em Bangu, tanto faz, tudo é uma festa mesmo. Ela é a festa. E enche os olhos de quem vê.

De quem recebe, por suposto. A pessoa fica se sentindo a pessoa mais maravilhosa do universo. A mais querida, a mais amada. A mais.

Aí um dia,  Rosa acorda e pensa “tá meio tédio por aqui”. Pouco movimento, tudo em volta com certo ar de déjà-vu. Poucos terrenos inexplorados. Ou peles. Gemidos já conhecidos.

Levanta, vai tomar banho, faz a mochila e vai. Sem olhar pra trás. Explorar novos universos, viver novas aventuras. Porque dessa matéria-vida ela é feita: intensa, generosa, amorosa e… leve. Escorregadia. Flutuante. Bolha de sabão. Arco-íris. Riacho cristalino.

E a pessoa que se imaginava amada, querida para-todo-o-sempre, cai de alto, em geral. Não entende nada. Terá sido algo que fez? Algo que deixou de fazer? O que terá acontecido? Por que uma mudança tão brusca, se ontem mesmo….?

Pois é. Só que não há explicação. Não há o que entender. Apenas acabou. Porque o que encantava Rosa não era você, ou sequer o relacionamento. Era o novo, a novidade, a aventura, as surpresas, a exploração. Acabou isso? Acabou. Rosa vai. Você fica.

Reescrevendo a história, catando cacos, colando pedaços. Se desfazendo em lágrimas, se enfurecendo. Não há nada a fazer, Rosa foi. Pode até ficar com pena, ela não é insensível: mas aquilo não a toca mais, já está olhando ao longe, na direção do horizonte. Tanto a andar ainda. Tantos caminhos, tantas peles macias, cachos de cabelo, tantas bocas úmidas. Tantos sexos. A vida chama. Ela vai.

Mochila nas costas, vai.

rosanaareia

Sobre cantadas erradas

Random dude at the faculty cafeteria. Must be engineering faculty, telling from his books:
–Wow, you sure eat a lot for such a small woman.
–Wow, you sure talk a lot for such a stupid guy.
Wrong pick-up line, honey. On a very wrong day too.
(Asli Berktay, no facebook)

[Um cara qualquer na lanchonete da faculdade. Deve ser da engenharia, pelos livros dele.
– Caramba, pra uma moça tão pequena, você realmente come bastante.
– Caramba, pra um cara tão mané, você realmente fala bastante.
Cantada errada, querido. E num dia particularmente ruim.]

cantadaserradas2

Essa aí é uma de tantas. Cantadas erradas. Invasivas. Sem-noção. E num sentido específico: de onde o cara tirou que ele, sem nunca ter visto a moça, poderia dar palpite sobre quanto ela comia? O que será que ele pensou? Que seria visto como um elogio por ela ser magra? Que seria engraçadinho? É apenas invasivo e irritante.

Aí vem a questão: como abordar gente que você não conhece? Acho que se dar conta de que você não conhece é um bom começo. Mesmo que você tenha se encantado com a pessoa à primeira vista: a pessoa não necessariamente se encantou com você – e, sem querer desanimar, a probabilidade maior é de que não tenha acontecido. Assim, se você quer começar algo (uma conversa informal, sem consequências, ou quem sabe uma “amizade ou algo mais”), a dica é: é devagar, é devagar, é devagar é devagar devagarinho…..

Mesmo comentários francamente elogiosos sobre olhos, cabelos ou corpo podem ser percebidos como invasivos. Sim, caro leitor, é isso mesmo: o argumento “eu só estou elogiando” não é argumento. Não se sai comentando por aí dos detalhes físicos de gente que não se conhece. Se você fosse mulher, me arrisco a dizer que isso lhe seria evidente. É prerrogativa puramente masculina sair comentando o rosto e o corpo de mulheres desconhecidas e achar que está tudo bem. As mulheres sabem perfeitamente que desconhecidos, ora, são desconhecidos.

Veja, não estou dizendo que não se deve seduzir desconhecidos e desconhecidas, que não se deve tentar fazer contato, chamar a atenção. A questão aqui é o “como”. Caso você pretenda ser bem-sucedido e não apenas irritante.

O segundo ponto é: tentou e a pessoa não correspondeu? Deixe passar. Deixe pra lá. Não era uma boa hora, não deu certo, não rolou sabe-se lá por quê. Faz parte, né. A segunda tentativa já é um exagero e uma invasão em si.

cantadaserradas1

Ah, os filmes “românticos” mostram histórias assim o tempo todo? Pois é. Mostram mesmo. Danem-se os filmes “românticos”, que ensinam homens a serem irritantes, invasivos e insistentes.
Danem-se.
Era bom que a gente começasse a aprender de novo a não ultrapassar certas barreiras. A da boa educação, por exemplo.

Sei, é difícil, é contrário ao que seu pai diz, ao que o seu tio diz, ao que o seu irmão mais velho diz. Afinal, sociedade machista tá aí pra isso mesmo: pra perpetuar esse tipo de abordagem.

Mas a gente não ia mudar a sociedade? Tá, a sociedade inteira é difícil, é obra pra muito tempo e muita gente. Mas… pelo menos no nosso cantinho?

O “homem que é homem” e uma comemoração

bowiestardust

David Bowie


Ando com dificuldade de compartilhar certas coisas, muito por conta de certos termos generalizantes.Não quero dizer “todos os homens”, porque não são. Não quero dizer “epidemia” de violência contra a mulher, porque não é doença, não é vírus que se pega no ar.

Tenho certo pé atrás com essa questão de que é “cultura”, porque a gente vê dia sim outro também o funk, por exemplo, ser criminalizado por conta dessa questão, e não acho que seja por aí.

Lembro também que a nossa sociedade em que os horrores contra a mulher são comuns é violentíssima também com os homens, justamente no processo de tornarem-se homens. O famigerado “homem que é homem”. Por isso gostei muito de um comentário de amigo, que dizia “temos é que acabar com os homens”. Acredito que seja meio por aí. Não é inerente, não é intrínseco, não é natural: ninguém nasce “homem que é homem”. Torna-se, à base de porrada.

Vi recentemente um documentário muito interessante que se chama “The Mask You Live In” – “A Máscara Em Que Você Vive” – , sobre exatamente isso: a construção do homem a partir da infância. Muito à base da porrada, mas não só. Também à base da desqualificação, da chacota, das ironias, de tudo o que você descobre que é “coisa de mulherzinha”. Cores, gostos, jeitos, trejeitos. Nada disso pode, se você for ser um “homem que é homem”. Se quiser ter o respeito do seu pai, e tantas vezes da sua mãe também.

Dor, sofrimento, caixinhas.

E uma longa estrada a percorrer se a gente quiser desmontar isso, feita de muitos passos. A cada dia. Golpe a golpe, verso a verso, como dizia o poeta.

“Se a gente quiser” não: a gente há de querer. Porque é preciso, é inevitável, é premente. Não dá pra viver com essa máscara mais. Não dá pra aceitar o “homem que é homem”, esse aí a quem ensinam a não chorar, a não ser frágil, a não mostrar medo, insegurança, tristeza.

Coitado do “homem que é homem”.

Longo, longo trajeto. Ainda mais numa sociedade tão entranhadamente machista como é a nossa, em que dizer “coisa de viado” ainda faz tanto parte do dia-a-dia.

Então, há que se aplaudir cada um dos pequenos passos. E por isso aproveito para  comemorar aqui a iniciativa do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, abolindo os uniformes definidos por gênero. Um passo pequeno? Uma festa. Meninos, meninas: calças, saias. Do jeito que quiserem. Usar saia não te faz mais ou menos menino, como usar calça não te faz mais ou menos menina. O que é ser menino? O que é ser menina? O que te define?

Um pequeno passo. Uma fresta. Um espaço aberto. Viva.

saia-pedro-ii

A galera do Pedro II, antes de ser permitido.

Já que o mar não tá pra peixe….

Hoje é dia de falar de centauros, de ninfas, de cavalos alados, de pessoas com os pés virados para trás que protegem a floresta, de meninos de uma perna só de gorro vermelho que fazem travessuras por aí…. é dia de falar de deuses ciumentos, de deuses amorosos, de deuses que cuidam das suas próprias vidas, de deuses que não querem nem saber da gente ou que nos assistem se divertindo como se fôssemos sua novela.

Dia de chapeleiros loucos, de frascos com líquidos que fazem crescer, que fazem diminuir, de gente que se afoga nas próprias lágrimas, de lagartas azuis com narguilés, de coelhos apressados, de rainhas de copas, de rosas brancas pintadas de vermelho.

De rainha das neves, de monstrinhos que quebram espelho de ver distorcido, de pássaros falantes, da menina ladra que ajuda outra menina em busca do seu melhor amigo raptado pela rainha das neves. É dia de trenós e de lapões.

De princesas da ervilha, de ratinhos falantes, de abóboras que viram carruagens, de cavalos que viram cocheiros, de sapatinhos de camurça que passam a ser de cristal por conta de um revisor distraído, de quixotes contra moinhos de vento, de sanchos e suas panças, de tabernas, de odres de vinho, de estalajadeiros, de Aldonza que era Dulcinéia.

De fantasminhas que tinham medo de gente, da menina Maribel com os olhos cor do céu e os cabelos cor de mel, do tio Gerúndio, de pastéis de vento, de rios derramados pelos olhos, de piratas da perna de pau.

De tia Nastácia e seus bolinhos, da Emília que ela fez, do Visconde que ela fez também, das histórias contadas por Dona Benta, de Narizinho, Pedrinho, de viagem ao céu, de viagem à Grécia antiga, de viagens.

É dia de fuga pra fantasia, é dia de morar na fantasia, é dia de criar uma nova realidade inventada, de se mudar de mala e cuia pra essa nova realidade, de fazer ninho, de dormir na nuvem como um cobertor, de escorregar nos anéis de saturno, de fazer guirlandas de estrelas e dançar como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se só houvesse a dança, as guirlandas, as estrelas.

Hoje é sexta-feira, dia de respiro, de Oxalá e de cabelo ao vento e a semana que vem a gente não sabe o que trará. Vamos fugir desse lugar, beibe. Uma banda de maçã, outra banda de reggae. Os desenhos da Mariana Massarani que nos acolhem.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, seu rei mandou dizer que contasse mais quatro.

ilustração daqui.

Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

o-pequeno-principe-raposa

Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

JaneEyre

Jane Eyre e o Sr.Rochester

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...