Por uma resistência biscate

Há uma proposta tramitando no Congresso Nacional que quer exigir que todo candidato a cargo público tenha diploma de nível superior.

É exatamente isso que é a revolta do pato, em síntese. Porque quem defende o pato e a ideologia do pato pensa exatamente assim: que sem diploma universitário não há como conferir status de cidadão a alguém.

Não adianta, mesmo, a gente querer dourar a pílula, argumentar que a proposta está desconectada da “voz das ruas” que ecoaram na revolta do pato. Não está.

Assim como não é contraditória nesta lógica a proposta que pretende conferir às igrejas a possibilidade de questionarem diretamente ao poder judiciário a constitucionalidade de alguma lei ou outro dispositivo. Outra questão central na ideologia do pato é a figura de deus como norteador do homem de bem. Sim, um deus que confere caridade ao homem comum, à família, aos ideais. A ideologia do pato não é laica: ela pode não ser católica, evangélica ou judia, mas ela tem deus como elemento central da bondade humana.

Há outras propostas que estão na cesta da ideologia do pato amarelo. Uma, das que destaco com mais louvor, é a de que beneficiários de programas sociais não pudessem votar. Meio que de brincadeira tratamos estas pérolas: não devíamos mais. O voto censitário é uma bandeira, sim, da revolta do pato.

É óbvio ululante, também, que todas estas ideias centrais do pato-logismo não vêm à tona todas de uma só vez. Há, sim, um desconforto dos donatários que às vezes os deixa envergonhados, com pequenos pudores. Mas, Cunha está aí para nos esfregar na bunda, as relativizações no pato-logismo são moeda corrente.

Outra bandeira do pato amarelo é a que quer o exorcismo nas escolas, afastando cada vez mais as aulas de história, geografia, sociologia, antropologia dos currículos escolares. Primeiro, através de medidas que visem delimitar o que pode ou não pode um professor ou professora dizer numa sala de aula. Depois, questionando as verbas de pesquisa para temas que não tem “finalidade prática”. Por fim, a gente muda mesmo o currículo e que se dane.

A revolta do pato é – ao cabo de tudo – a tentação dos donatários de querer se manter em seu imenso condomínio, seguro e protegido. De preferência, de carro para ir na padaria da esquina.

É hora de nos melecarmos, como resistência, desconfio. De gozos, suores, palavrões, abraços, gente pelada, beijo, macumbas, bicicletas, famílias de papai e mamãe, de papai e papai, de mamãe e mamãe, de papai mamãe e de mamãe papai. Hora de nos lambuzarmos de mel, de cervejas geladas, de piada, poesia e cataclismas. Mas, sobretudo, é hora de deixarmos a redoma que nos protege do desconforto de ficar esfregando na cara dos amigos, colegas e conhecidos o que eles estão a cumprir ao apoiar a ideologia do pato.

E que os deuses, e sobretudo as deusas, salvem a psicanálise, a desobediência civil, os ateus e o amor.

O pato, senhouras e senhoures, não é só um plágio e uma fraude. Ele também é um vexame. Um imenso vexame.

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Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

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O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

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