Grêmio, um amor não correspondido

Brasileirão da Biscatagem
Grêmio, Rodrigo Cardia

“Eles” ganharam, de novo… Tem sido uma triste rotina nestes últimos 11 anos: o Grêmio, quando parece que vai ser campeão, nos frustra – desta vez conseguiu nem chegar à decisão do estadual. E os vermelhinhos vão lá e vencem. É dose.

Não sei dizer a partir de que momento me tornei gremista. Foi em algum dia dos anos 80, isso é certo. Vitoriosos anos 1980 e 1990: torcer pelo Grêmio naquela época, salvo alguns anos anômalos (tipo 1991) era garantia de felicidade futebolística, de flautas contra os adversários (“secadores”). Eram tempos em que os colorados eram apelidados de “melancia” toda vez que o Grêmio enfrentava algum time verde: sabem como é, melancia é verde por fora e vermelho por dentro…

Vieram os terríveis anos 2000, e a decadência. Seu primeiro ano foi exceção: Grêmio campeão da Copa do Brasil em 2001, com um futebol encantador. Mas depois, tudo foi tristeza. Em 2003, em pleno ano do centenário, ao invés de brigar por títulos o Grêmio só conseguiu se manter na Série A. E mesmo assim, não abandonei meu time, por mais acostumado que eu estivesse com situações opostas, ou seja, de conquistas. Fui ao estádio, tomei chuva e no grito, igual a 1996, ajudei o Tricolor a ganhar para, ao final, sair abraçando todo mundo que estava por perto. Se antes era uma taça, em 2003 era não ter de brigar por outra taça, a da Série B.

Só que no ano seguinte não teve jeito: a torcida já estava desanimada com a bagunça na qual o clube tinha se transformado, e o Grêmio caiu. Então aconteceu o que foi regra com os grandes clubes que caíram: a torcida abraçou novamente o time, e o Olímpico voltou a ser um caldeirão que amedrontava os adversários. O time de 2005 do Grêmio chorava de tão ruim, só que no Olímpico jogava com bem mais que 11 jogadores. Quanto àquele jogo nos Aflitos contra o Náutico, o que salvou o Grêmio foi alguma coisa que um dia ainda será explicada: era na casa do adversário, com quatro jogadores a menos… Aquele momento fez lembrar as décadas de 1980 e 1990, quando o Grêmio só conseguia nos fazer chorar se fosse de felicidade.

Era o “pontapé inicial” para uma nova era vitoriosa, certo? Afinal, já acontecera do Grêmio cair em 1991 e na sequência ganhar tudo, logo isso se repetiria. Porém, eram outros tempos, outros dirigentes. Em 1993 tínhamos Fábio Koff (campeão da América e do Mundo em 1983) na presidência, e um rival deprimido (apesar de ter ganho a Copa do Brasil em 1992). Já em 2005 o Grêmio tinha Paulo Odone como presidente, que adorou poder repetir ad nauseum o exemplo da Batalha dos Aflitos para se esquivar das críticas a cada mau resultado (como tanto temos visto em 2011 e 2012), e ainda por cima “descobriu” que nosso Olímpico Monumental é “defasado” e por isso precisamos de um novo estádio no “padrão FIFA”; não bastasse isso, o co-irmão garantia participação na Libertadores do ano seguinte para, pasmem, ganhá-la.

Pois é, o Grêmio vem tratando mal sua torcida nos últimos anos. Nosso amor pelo Tricolor há muito tempo não é mais correspondido: não só os resultados não vêm, como ainda o Grêmio vai se mudar para uma “casa nova” que servirá para definitivamente transformá-lo em um clube de elite. Algo que já acontece no Olímpico, é verdade (estão aí os ingressos a R$ 40 em jogos de Gauchão para não me deixarem mentir), mas que na Arena é escancarado pela mensalidade a R$ 92 para assistir ao jogo atrás do gol. Saem o torcedor e a torcedora, entram o consumidor e a consumidora: mais do que para torcer, o objetivo do estádio passa a ser o lucro.

E desse jeito, a todos os que não se enquadram neste padrão de classe média, só restará a alternativa de acompanhar o Grêmio pelo radinho ou pela televisão, em casa ou no buteco (para ao menos poder abraçar todo mundo toda vez que vencermos os jogos). O Tricolor nos despreza, mas nós seguimos amando-o, numa situação que lembra um “pé na bunda” vindo de quem amamos: por mais impossível que seja, acreditamos que ela “abrirá os olhos” e perceberá a bobagem que fez ao mandar passear alguém que tanto a ama. Com apenas uma diferença: chega um momento em que nós “abrimos os olhos” e decidimos parar de sofrer por aquela pessoa; já o time de futebol, este sim é amor eterno.

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Rodrigo Cardia é um portoalegrense gentil, historiador, de esquerda, crítico na vida e no futebol, que odeia calor e não tem intimidade nenhuma com o sol. Curte cinema, coleciona camisas de futebol e, embora de coração partido pelo Grêmio, gosta de uivar para a lua. Você pode acompanhá-lo no seu blog ou pelo twitter @caouivador.

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