O rótulo para além dos rótulos

Pois é, os rótulos.

Em algum momento a gente percebe que o mundo está cheio deles, em cada embalagem, produto, ou ser humano que passa por entre os olhos. “Olha, lá vai um carro da marca do comercial do jogador de futebol!”, “Ah, nem te conto, fulana é marxista, ciclano é de direita, fulano é gay, ciclana é uma vaca”. Simplificações do nosso mundo de consumos diretos e rápidos, de nossa sociedade que nunca para, e não quer se aprofundar nas individualidades. Nomes curtos que fogem das complexidades, objetividades que não definem nada, e reduzem o bonito do ser humano em partículas desconexas. Pessoas marcadas em breves título de outdoor, colocadas no carrinho em compras rápidas de supermercado.

Olha-se uma pessoa, dá-se um rótulo e parece que nada mais cabe. A pessoa não ama, não sofre, não goza, não fica doente, não é um ser humano com dores e delícias e desafios existenciais, com delicadezas e belezas, com vida-vivida para além de qualquer coisa que a delimite. Ele é gay, e pronto. Ela é uma vadia, não merece mais do que duas frases e exclamações sobre suas roupas e modos sexuais.

O julgamento social tem juízes rígidos, sentenças curtas e penas severas. E as penas são coercitivas, espinhos que machucam as costas, que pesam nos ombros e nos afastam, com pesar, do bonito que se pode construir junto, das riquezas que estão escondidas dentro de cada um de nós. Porque lá dentro, acredite, não tem gay, não tem vadia, não tem loira burra, não tem nerd, não tem nada a não ser essências e pensares, vontades e questionamentos, anseios, vibrações, tesão, medos, humanidades e quereres livres que se amarram ao possível.

Mas a gente vai além, porque, oras, porque já basta! Assumimos um rótulo: somos biscates. Sim, pode chamar, porque nós somos. Vadias também pode, aceitamos variações. Marchamos com as vadias, aqui ou lá, vestimos nossa liberdade de sermos mulheres de desejos declarados, sem subterfúgios, estufamos o peito e gritamos para quem quiser ouvir: BIS-CA-TE!

E que orgulho de ser biscate, que orgulho de poder assumir, de poder transgredir e extravasar. Porque com o rótulo queremos exatamente o não-rótulo, queremos respeito pelas nossas diversidades e vivências sexuais, queremos a desconstrução, o gozo livre, queremos poder ser o que quisermos ser, sem penas ou juízes arbitrários.

Vestimos o rótulo exatamente porque, um dia, acreditamos no fim dele, e de todos eles. Vestir o rótulo é prosseguir na batalha. Sim, a gente acredita. Acreditamos que um dia toda mulher poderá vestir o que quiser, poderá trepar com quem quiser, dispor do seu corpo como quiser, comer o que quiser, mostrar o que quiser, sem ser violentada ou reprimida por isso. Acreditamos que somos, todas, umas belas biscates. Como somos todos gays, héteros, negros, brancos, índios, macumbeiros, profanos e sagrados, encantados, vagabundos e batalhadores. É, nós queremos viver num mundo onde se possa ser qualquer coisa. Onde se possa ser nada, e tudo ao mesmo tempo agora.

Biscates…avante!


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