Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

vitrola-moderna

Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

Das bagagens

despedida

As malas maiores já foram despachadas, mas ela ainda parece desengonçada: uma bolsa grande no ombro, o casaco no braço quase arrastando no chão, uma vida de equívocos e esbarrões no jeito que gesticula, sem som, enquanto se perde nos olhos dele ali, um pouco à direita do portão de embarque. Ele, em longas, discretas e adequadas mangas azuis, os olhos ainda mais brilhantes que sempre.

O silêncio que costuraram feito colcha de retalho ao longo dos anos agora os aquece e abriga. Desacostumados de carinhos públicos, ele hesita um momento antes de afagar o rosto que lhe sorri, triste, mas sorri. Ela inclina a cabeça, como aprendeu nos romances de banca lidos na adolescência e deixa a dor futura repousar naquela mão. Aquela mão que a coube toda, que a soube toda, que reinventou seu corpo ao percorrê-lo todo, tantas vezes que ela desaprendeu o tempo.

Ele limpa a garganta e ela sabe as palavras, as promessas, o eterno, o pra sempre, o depois, um negócio em uma rua qualquer, um outro lugar, eles tão outros, o casal que ensaiaram ser. Ela sabe o sentir em cada intervalo entre as frases a serem ditas, antecipa as cores deste horizonte, seria a narrativa do acordar em pernas entrelaçadas, a cumplicidade simples do café com torrada, as miudezas do dia sussurradas antes do sono. Ela sabe o desejo, a viagem, a mudança. Planos. Ela sabe, ela quase. Mas. Ela também sabe que é preciso descerrar os olhos. Ela também sabe que é preciso se afastar da mão. Ela também sabe que é preciso não ouvir. Saber é sua dolorida alegria. Ela sabe, mas teima e fica mais um minuto naquele eterno.

É o som que ele repete de limpar a garganta antes do falar – e que a obrigaria a dizer que não acredita, que não pode, que não conseguiria ser essa ela nesse outro lugar com esse outro ele – que a impele ao movimento. Há coisas que não podem ser ditas e coisas que não devem ser ditas. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sabe onde localizar as que eles quase enunciam. Seu rosto se afasta da mão dele, lenta como um navio pesado em manobras de partida.

Ela chora. Lágrimas pesadas de sal e memórias. Para disfarçar o choro, para impedir o dito, ela beija. No seu sem jeito de sempre deixa casaco e bolsa escorregarem enquanto molha a boca dele com sua, o sal virando sol, a língua luz aquecendo o dentro, o entre, o tanto. Sem nenhuma palavra, sem nenhuma promessa, sem nenhum eterno ela recolhe bolsa, casaco, futuros e parte. Um passo de cada vez, ela embarca antes em si mesma e tenta lembrar o ser sozinha.

Com infinito cuidado pra não tropeçar, sussurra pra si mesma Leminski: um homem com uma dor é muito mais elegante. A si mesma enganando, conta os passos até ultrapassar o portão de embarque e não poder mais ser vista, nem ela, nem sua bolsa enorme, nem a ponta do casaco que arrasta no chão sem deixar rastro.

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