Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

753c501c-95e2-46fa-b847-2e70e85a859a.jpg_resized_

Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

1310147961769_f

Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Fodidos

separação

Porquejánãoestádandocertoentrenóseeuachomelhor… ele falava rápido, meio sem fôlego, emendando palavras. Pra que eu não argumentasse, talvez. Pra convencer. Alguém. Eu. Ele mesmo. Nosso público imaginário. Eu lembro Verissimo. Quase rio. Temos sempre uma platéia por dentro. Dentro. Vazio.

Depoisdetantosanosjuntosprecisodescobrirmaiscoisassobremim… ele ainda fala. Eu aceno. Menos concordando do que incentivando que ele continue. Ele gagueja, na poltrona baixa, meio inclinado pra  frente, as mãos como em uma prece. Eu, retinha na cadeira da mesa de jantar. O ângulo de 45 graus lembrava uma sala de terapia. Ah, os pequenos hábitos. Ao Verissimo na minha cabeça se juntam Pedro Cardoso e Debora Bloch e colocam um meio sorriso na minha boca. Eu interrompo: nunca assistimos Veja essa Canção juntos. Ele me olha, confuso. Nãoqueromaistempo, ele diz, eu meneio, não era isso, eu não acompanho direito o que ele diz, ele não adivinha o que eu penso.

Ascoisasentrenósnãosãomaisasmesmas… entre nós. Entre lençóis. Entre. Venha. Penetre. Eu sempre fui capaz de pensar em sexo a partir das coisas mais corriqueiras. Ele fala, eu vejo os lábios, a ponta da língua e começo a sentir o bom e velho fogo na periquita. Fico úmida. Meladinha, era como diziam no tempo em que ele não passava tempo se despedindo de mim mas me fodendo.

Éclaroqueeuaindagostodevocêesperoqueagentepossaseramigo. Claro, eu digo e me levantando devagar, um passo, outro, ele levanta a cabeça, pode continuar falando, ele continua, amigosvamosseramigos, eu levanto a saia e tiro a calcinha. Oquevocêstáfazendo… um passo, outro passo, pernas abertas, me lambe. Encosto o corpo no rosto dele, ele inspira fundo meu cheiro de tesão. Ele ajoelha. Eu puxo os cabelos da nuca. Ele sopra. Ele sempre sopra, antes. Praafastaralabareda, ele dizia. Ele diz. Ainda diz. E sopra. E deixa a língua passear. Enche a boca de saliva. Molha. Lambe. Vai, vem, o nariz faz cócega, não é cócega depois dos 15, eu lembro, eu gargalho. Ele afasta a cabeça e diz: depoisdos15. Eu ainda escuto. Ele ainda adivinha. Uma mão, firme, na minha bunda. Tábua de salvação. A outra, vadia por baixo da blusa. Puxa o mamilo. Esfrega. A língua depois dos lábios grandes e pequenos, provoca o clitoris. Firme. Leve. Firme, firme, firme, leve. E deixa e vai brincar de esconder na fresta. Entra sem pedir licença, visita de muito tempo tem intimidades. Um gemido. É meu. Bom. Bom mesmo. Essa facilidade, que pena perder essa facilidade. O pensamento vagueia um pouco, até sentir aquele dedo médio explorando a entrada do cu. Sinto o vazio na hora que ele para de lamber e cospe nos próprios dedos. Aqui e ali e em todo buraco. Findo o vazio. Em todo buraco. Ao mesmo tempo. A perna fraqueja. Bambeio pra frente, ele enfia mais fundo. A língua. Mais. Mais. O dedo. A língua. O outro dedo. Os dedos. O gozo. Morno. Deslizo. O joelho bate no chão frio. A gente nunca comprou um tapete. Agentecompra, ele diz enquanto desabotoa a calça. Eu penso em responder: não mais, mas encho a boca com o pau duro. Faço um vácuo com a boca, ele suspira. Ritmo. Vou e venho, vou e venho, língua, lábios cobrindo os dentes. Estico o braço e enfio meu dedo na sua boca. Ele lambe, um de cada vez. Agora é o meu dedo molhado no cu dele enquanto chupo, firme, gosto como o pau pulsa na minha boca. Sinto o gosto salgado do momento de parar de chupar.

posiçao normal

Deito de lado, ele deita atrás, tão fácil, ensaiado, quase. A camisinha? Eu digo, ele diz, ele escuta, eu adivinho, a gente ri. A gente trepa rindo. A camisinha. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa até quase esquecer da gente, de tudo, do dito e do que ainda faltava dizer. Quase. A gente goza. Eu, uma, duas, eu gozo no plural. Ele goza. E eu, ainda. Denovo? Não? Simsimsimgozanaminhamãodenovo.

Uma coisa que sempre gostei: o jeito como o pau dele desliza, relutante, pra fora da minha buceta. Pra fora. Saindo. Você foi saindo de mim, devagar e pra sempre, eu canto baixinho. Ele enterra a cabeça no meu pescoço e chora. Não estou desafinando tanto assim, eu penso em brincar, mas calo. Ele chora, uma mão entre as minhas pernas, a outra no meu ombro. Ele escorre no meu pescoço em lágrimas mornas. Eu escorro o prazer passado entre as coxas. Eunãoseise. Sabe. Silêncio. Ainda lembro de dizer: Se você fosse o amor da minha vida e eu fosse o amor da sua vida, a galinha tinha dois pescoços. Ele ri. Verissimo é nossa Paris.

É hora de separar e estamos fodidos.

Assombros e escombros

porque toda separação
é uma coragem

Talvez você não saiba nunca, porque fui eu quem quis. Fui eu que andei, fui eu que rompi, fui eu que tomei a iniciativa de irmos para qualquer canto além do nosso – esse nosso canto por tanto anos protegido das tempestades lá de fora. Esse canto inventado que tanto nos abrigou, escondido embaixo da sombra da árvore que cresceu enquanto dormíamos. A árvore que cresceu em silêncio e cobriu a casa, que invadiu o teto e deixou suas folhas espalhadas pelos nossos cômodos apertados, por entre roupas e tapetes amarrotados com pêlos de cachorro e barulhos de criança.

E foi assim de repente que tudo ruiu, foi de repente e durou tanto. Foi naquele dia, naquele instante, naquele ano em que não mais chegou a primavera e a gente viveu um outono sem fim. O longo outono não fazia inverno, não havia frio gelado e depois primavera, não havia mais ciclo de flor. O outono era cinza e a gente dormia tanto, eram tantos sonhos e realidades, tantos pesadelos de vida e morte, tantas metades desconjuntadas. Noites imensas que não se faziam dias.

Eu fechava os olhos e no escuro procurava os seus pés junto aos meus, que me beijavam macios. Eles estavam lá, quase inertes, e respondiam ao meu medo. Eles também tremiam. E eu desejava com ardor um acordar que não vinha, um acordar de cores vibrantes e frutas maduras. Mas não tinha primavera, nem sequer inverno. Não havia cheiro de flor nem vento nem jardim colorido. A vida não renascia, não passava o tempo gestado, não havia proximidade de parto possível. Era seco e doía, doía, comprimindo o coração por entre as paredes de uma passagem que não se abria.

Foi então que o meu despertador que tocou. Sim, ele sempre toca, com aquela música que você tanto conhece. E eu sempre alerta aos toques de despertar. Era sempre eu que lhe tirava da cama com beijos corridos, resistindo ao seu abraço que me convidava para afundar a cabeça nos lençóis e perder a hora. Mas eu acordei, eu tinha que levantar, as rachaduras cresciam nas paredes e pingavam água armazenada, estava úmido e faziam-se fungos doentes. Verde musgo que entrava pelo nariz e alcançava o corpo dormente, que subia numa tontura circular que asfixiava e sussurrava aos meus ouvidos: acorde.

Acordada de pé e desperta eu morria, olhando a vida que amanhecia com a dor de não caber mais em lugar algum. Com a claridade quase insuportável aos meus olhos tanto tempo incapazes de ver. E foi então que eu vi. A árvore havia crescido torta, e agora eu enxergava a sua postura envergada, consumida pela força dos ventos. Ela balançava de um lado para o outro, suplicando para ir ao chão e descansar para nunca mais.

Parei em frente à árvore, carcaça da beleza que se esvaia no tempo martelado de poeira. Fraca, com os galhos magros, ela me olhava com olhos pedintes, chorando sua seiva já escassa. Eu nunca dantes tinha ouvido a língua das árvores, a língua direta e inebriante das árvores. Abracei seu tronco áspero e, emocionada, entendi o seu suplício. Ela queria ir. Era hora de deixar o que não se podia mais sustentar.

E eu tive que ajudá-la a ir, fui eu que cortei seus galhos e arranquei as poucas raízes que ainda se agarravam ao solo. Sim, foram as minhas unhas que ficaram cobertas de barro vermelho, fui eu que chorei a dor de cortá-la com as minhas próprias mãos assombradas diante da morte. Fui eu que juntei os pedaços e caminhei pelos escombros, fui eu que destrocei e me perdi no meio de tantos pedaços disformes. Foram as minhas pernas lascadas de farpas de pingaram sangue, foi assim, fui eu que usei o machado e eu não sabia.

E sem saber eu carreguei a dor como um fardo pesado, um fardo tão meu e tão nosso, um fardo que eu haveria de carregar para o resto dos dias. Fui eu que matei árvore, sim, fui eu que cortei a nossa árvore em meio ao sangue e as lágrimas de seiva. E fui eu que tive que te dar a notícia da morte, fui eu que te contei e ouvi seu choro surdo de tristeza. Fui eu que segurei seu corpo cambaleante e te abracei no vazio, desejando que não houvesse mais morte nem fim nem nada que te fizesse sentir aquela dor grave alastrada por dentro.

Mas havia a morte, grande e volumosa como fato consumado. E era preciso força para velar o corpo morto, para fazer o rito de passagem. Era preciso seguir em frente sem a sombra da árvore, sem o canto escondido, sem o que era de nós enquanto dormíamos. Sem tudo que já havia sido e não mais poderia ser.

Juntos derrubamos os muros e acendemos a fogueira, queimamos tudo em pó e tudo se foi, tudo que era. A gente mergulhou no desconhecido, sim, vertiginosamente, cada qual cumprindo a sua coragem. Sobrou apenas o pó cinza e o horizonte aberto que se seguiu a tudo aquilo, o pó mágico que guardamos para os novos tempos, fértil de amor desabrigado.

E foi amor tudo que sobrou, um amor grande e tão nosso, pronto para ser espalhado em busca de novas primaveras. E que se façam flores, renascidas, vivas, coloridas.

Até que.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...