Conversas difíceis: AIDS.

Por Bia Cardoso*, Biscate Convidada.

Falamos muito sobre sexo nesse espaço. Porém, as vezes é preciso ter conversas difíceis que envolvem sexo, uma delas é sobre doenças sexualmente transmissíveis, mais especificamente a AIDS. Hoje, primeiro de dezembro é Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, uma das mais perversas doenças que já vimos, porque ataca diretamente algo prazeroso, o sexo.

Por mais que existam campanhas e que falemos sobre a importância do sexo seguro, sabemos que não é fácil praticá-lo. A maioria das pessoas ainda não incorporou produtos de prevenção como a camisinha no jogo lúdico sexual. Nas produções culturais como filmes, livros e músicas, dificilmente vemos descrições de atos sexuais em que o sexo seguro é explicitado. Além disso, desde o surgimento do coquetel anti-HIV e de sua distribuição pelo Ministério da Saúde, há essa impressão falsa de que a epidemia foi controlada e os jovens mostram cada vez menos receio do vírus que foi tão temido nos anos 80 e 90.

A cada hora, cerca de 10 pessoas são infectadas com HIV na América Latina. O Brasil é responsável por quase metade dos casos. E pelo menos um terço dessas novas infecções ocorrem em jovens entre 15 e 24 anos, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres representam mais da metade das pessoas infectadas pelo vírus HIV no mundo inteiro. De todas as mortes causadas pela AIDS no Brasil até 2012, 28,4% ocorreram entre mulheres, de acordo com o Boletim Epidemiológico Aids HIV/Aids 2013. O documento também aponta que a única faixa etária em que o número de casos de aids é maior entre as mulheres é de 13 a 19 anos. A população com mais de 60 anos é uma das faixas etárias em que a ocorrência de casos de Aids mais cresceu na última década — 32% entre 2013 e 2014.

São dados preocupantes. Especialmente num mundo machista em que muitas mulheres não conseguem impor o uso da camisinha a seus parceiros, em que muitas mulheres não se sentem seguras para conversar abertamente sobre sexo, em que muitas mulheres nem imaginam que possam estar expostas ao vírus porque o parceiro não se responsabilizou ao fazer sexo com outras pessoas.

Não existe mais grupo de risco para AIDS. Porém, as campanhas sobre sexo seguro concentram-se muito no período do carnaval ou são as únicas que envolvem prostitutas, estigmatizando-as ainda mais. Como afirma Amara Moira:

As políticas públicas de prevenção estão se cagando pra saúde da profissional do sexo: se nos dão camisinha e gel de graça e insistem pra que os usemos é apenas por medo de que a gente transmita DSTs pro pai de família e, consequentemente, pra sua esposa fiel. Porque sabem que não haverá como discutir a questão do preservativo de forma mais ampla com essas esposas, com esses maridos — o machismo não permitiria. Se sumíssimos todas nós, profissionais do sexo, sem levar junto esses veneráveis representantes da família Doriana, o Estado não derramaria uma lágrima.

A AIDS está presente no cotidiano de muitas pessoas, mas isso não pode virar um estigma. Lutemos para que a informação e o sexo seguro sejam incorporados as práticas sexuais, que o nosso desejo também seja descobrir novas formas de se divertir com segurança.

direitos hiv

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foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

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