Sexo sem…

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sexo sem…

Pinto. Pau. Caralho. Pênis. Caráleo. Parte fálica avolumada por entre as pernas. Penetrante, intenso, jocoso, duro. Gostoso. Esperma, jorro, gozo, penetração. Encaixe profundo, remelexo por dentro. Uma boa biscate sabe o gosto bom disso tudo e sabe, sobretudo, desfrutar as boas sensações que podemos experimentar sem pudores e sem medo do universo fálico.

Mas o que quero falar aqui, neste espaço de hoje, é das delícias e possibilidades do sexo sem. Sem o falo. Sem o pau de carne e osso no meio das pernas. Sem a protuberância que é considerada tao relacionada ao homem, macho, que às vezes a gente esquece que tem homem sem pau. Eu quero falar sobre a possibilidade escolhida e, sim, nada temerosa, do sexo sem. E do sexo sem que navega pelo universo feminino, que mora ali entre duas (ou mais) pessoas, geralmente mulheres cis que, juntas, descobrem outros portos para o desejo e o para o prazer.

Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a infeliz e machista frase: “ah, fala sério, o que duas mulheres fazem na cama?”. Ou pior: “ah, duvido que vocês não sintam falta de um pinto, vai! Impossível”. Ou, na versão mais repugnante de todas, a pérola: “ah, essas aí não foram bem comidas!”. Pobres pessoas sem imaginação!

O sexo entre mulheres, apesar de tão comum e tão praticado desde os primórdios da história grega, é tão incompreendido nesse nosso mundo de tabus e moralismos enrustidos. Talvez pelo fato de vivermos numa sociedade machista que não concebe, e não consegue conceber, a possibilidade de felicidade sexual sem um falo, o sexo entre mulheres é assunto velado. É tema camuflado que transita entre a fantasia erótica masculina, as aventuras sexuais de casais entediados (e outros nem tanto), os sustos das carolas sentadas no banco da praça, o receio de pais controladores, o medo masculino de perder a supremacia fálica para dar prazer, a curiosidade de olhos femininos.

Biscatemente, claro, vamos ao que interessa. E partimos direto para o nosso querido e saudoso Rauzito. Raul Seixas, ícone que tanto respeito, cantou e escreveu o famoso “rock das aranhas”. Ele sobe lá no muro do quintal e vê uma transa que “não era normal”. Duas mulheres “botando a aranha pra brigar”. Surpreso e nada delicado, proclama: “vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha”.

Pobre Raul, não entendeu nada. As aranhas não querem sua cobra, meu amigo! Elas estão lá felizes e aquilo que você viu, com espanto e indignação, não era uma briga: era amor, tesão, sexo. Simples assim. E um sexo que não quer, e não precisa, do seu pinto para ter prazer.

Mas não tenha medo Rauzito. Se você olhar com um pouquinho de cuidado, vai perceber que sexo está além, muito além, da penetração pinto-buceta, essa fórmula básica e tão boa de ser desfrutada. Sempre se pode experimentar algo mais, ou andar por outros rumos, para se ter prazer. Mesmo em relações heterossexuais esse encaixe não é requisito ou passaporte da alegria. Nem garantia de nada. Pode-se tudo, sempre. Pode ser bom e pode ser mais, com ou sem pinto. Porque a descoberta do prazer é um território vasto e sem demarcações. Um território sempre a ser reinventado, e redescoberto.

Meu amigo Raul, você e tantos outros masculinos desolados, acalmem-se: vocês não perderam as suas importâncias sexuais, e nem deixarão de serem desejados por outras mulheres. É fácil de entender: mulheres que fazem sexo com mulheres apenas desejam outros territórios e outros sabores, apenas sentem tesão em outros lugares. E elas podem, sim e sempre, serem penetradas por outras mulheres (de vários e inimagináveis jeitos), serem satisfeitas por outras mulheres, serem desejadas por outras mulheres, sem que isso signifique a derrota masculina. Tem espaço para todo mundo. Vamos lá no dicionário, só para um exemplo?

Significado de Orgasmo. s.m. O mais alto grau de satisfação sexual, quando se atinge a plenitude das sensações.

Sim senhores, orgasmo e satisfação sexual acontece de tantos jeitos e não depende de um pinto. Cada um, e cada uma, alcança a plenitude das sensações, ou busca essa plenitude, em lugares diversos e distintos. E que bom. Duas mulheres (ou mais se formos ainda mais criativos) podem se explorar livremente e com possibilidades múltiplas de satisfação. Pernas firmes, encaixes muitos, dedos, línguas, quadris, seios, pele. Combinações diversas e incontáveis. Para mais.

E garanto-lhes, por fim, que elas não são “mal comidas” (muitos antes pelo contrário), ou tem algum tipo de trauma com o masculino (pode ser que a violência de gênero – infelizmente ainda tão usual – tenha deixado marcas fortes, mas estamos aqui em outra janela). Apenas tem outra busca, nem mais nem menos. Essas mulheres apenas descobriram novas possibilidades de gozo e prazer. E tá tão bom ali, mas tão bom, que não cabe mais. Ou quem sabe um dia.

Vocês podem ir para casa cantando outra música. Sempre existirão aranhas para as suas cobras. Agora deixem em paz as que estão brincando com outra aranha no fundo do quintal. Tem lugar para toda troca e todo espaço é pouco para o desejo. Machismo, homofobia e violência é que estão por fora, seu Raul! Essa é a transa que não é normal e que aqui, nesse clube, a gente repudia e deixa de fora. Porque de resto, pode tudo. E tudo é normal quando se trata de ter prazer.

 

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