As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Profissional

Sempre fui o tipo de profissional impecável em todos os empregos (poucos) que tive, é um dos ensinamentos que minha mãe me passou. Mas, pra mim, existe diferença entre ser uma profissional de respeito e se prender para se adaptar a um perfil “aceitável”. E foi assim que decidi assumir minha orientação sexual entre colegas de trabalho…policia-civil-mulher-370x290
Não é sobre isso que queria falar, mas passa por aí! Tem rolado por aqui, em Juiz de Fora, um vídeo de uma policial civil transando com seu marido e alguns outros homens. O que isso me diz respeito? Nada, na verdade, pra mim, é indiferente o que uma policial faz com o marido e com quem mais quiser fazer no quesito sexo consensual. Desejo que ela apenas, como uma policial, seja justa, não aja de forma preconceituosa com negrxs, não ignore crimes contra mulheres cometidos por motivos machistas e torpes.
O que me assustou foi a reação da maioria das pessoas que ouvi falar sobre o ocorrido. O desrespeito à uma mulher profissional por causa de sua vida privada e sexual. Não considero que o número de parceirxs sexuais de uma policial a faça menos capaz de exercer sua profissão. Sinto-me enojada quando falam de bons modos de advogadas, juizas, promotoras e policiais mulheres. Pelo simples motivo de considerar essa história de bons modos machista e reaça. Liberdade sexual não impede mulheres de ser profissionais excelentes. O que acontece é que em certas profissões o tal “se dar ao respeito” é muito mais hardcore. Já é difícil ser atriz ou vendedora, imagine só profissões onde sua “moral” é quesito para o grupo reaça e machista te considerar “incapaz de dar lição de moral ou exercer sua profissão de forma correta”?
Quem sou eu para apontar dedo para uma policial e falar ” quem é você pra me prender? Você é uma vadia!” Sério mesmo? Que pessoa de cabeça pequena pode pensar isso? A maioria dxs conhecidxs que tenho em meu emprego atual. Cada dia tenho mais certeza que não sou desse mundo! Pessoas que ouvem Valesca Popozuda mas não compreendem o recado que ela quer passar!
Nesse momento agradeço a educação que tive em casa, aprendi que a obrigação de umx profissional é exercer seu trabalho de forma impecável, da porta pra fora é problema seu!

Uma História de Sexo

Sexo, pra mim, é das coisas mais divertidas que a gente pode fazer nessa vida. Simples assim! Sem muita filosofia, sem drama. Nunca fui dessas pessoas que “se guardam”, “se preservam” ou sei lá mais o que. Nunca entendi essa linguagem. Claro que tem aí alguns cuidados básicos que todo mundo tem que tomar pra não se estrepar e isso faz parte da socialização sexual: camisinha e consentimento, pra mim, o par inevitável. Embora eu admita que já deixei a primeira de lado algumas vezes, imprudente que fui.

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Uma das vantagens de se ter uma vida sexual divertida é ter histórias pra contar. Acumulei algumas boas ao longo do tempo. Uma vez me envolvi com um sujeito casado, história sofrida. Apaixonei-me por ele num piscar de olhos (coisa que não é assim muito sábia, mas acontece nas melhores famílias) O cara nem sempre podia estar comigo o que era ocasião para intermináveis discussões e muita, muita frustração. Já sem saber o que fazer diante disso e covarde demais para terminar tudo, um dia disse num rompante: “Então, tá. Você não vem me ver? Então manda alguém no seu lugar porque eu quero transar hoje.” Qual não foi minha surpresa, quando o gajo, de fato, escalou um amigo para substituí-lo. Mandou-me mensagem no celular: “tenho um amigo disponível pra me substituir. Topa?”

Aí você pára e pensa nesse momento:

a)      Vou mandar esse cara se fuder;

b)      Ah, é? Tá achando que eu vou desistir?

Provavelmente tem várias alternativas a esse dilema, mas eu só pensei nessas duas. Eu fiquei meio espumando de ódio e meio curiosa pra saber quem seria esse amigo substituto misterioso. Afinal de contas, eu sou biscate, paciência, fazer o que? Topei pra ver até onde ia esse troço.

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A única coisa que me importava saber era se o amigo também concordava com essa situação. Afinal, já estava eu pensando no meu combo camisinha + consentimento, não saia de casa sem ele. E ele me garantiu que sim. Combinamos então que o amigo me telefonaria.

Meu caso queria acompanhar todo o desenlace da trama, queria participar dos detalhes do encontro. Aí veio o segundo tempo da negociação toda. Eu digo: “Só vai rolar o que eu quiser”. Nem pense que vai ficar controlando meu encontro que nem videogame, isso aqui não é playstation, meu filho. Não vai ter filmagem, não vai ter foto, não vai participar. No máximo, no máximo, te ligo no celular na hora que a coisa esquentar pra você poder ouvir o geme, geme (eu sou boa em sound effects) E assim aconteceu: o amigo substituto era uma graça, pessoa adorável, bom de cama. O sexo foi incrível e acabou rolando mais de uma vez, várias vezes depois. Claro que o tesão do outro só aumentou depois disso. Aliás, a bem da verdade, nós três ficamos bastante excitados com essa história toda. Um dia cheguei a encontrar os dois, um depois no outro, no mesmo motel. (eu já estava popular na recepção do estabelecimento)Não sei o que significou pra eles dois ou pra amizade deles, pouco me importava. Às vezes imagino que entre eles possa ter havido sexo também, nem que fosse só pela fantasia de imaginar como seria o amigo na cama com aquela mulher, eu. Mas, isso eram os meus devaneios. Eles nunca me perguntavam nada, nem me pediam pra comparar. O que teria sido meio ridículo, cá entre nós.

Pra mim, era uma aventura, alguma transgressão minimamente controlada e negociada. E eu me sentia jogando o jogo junto com eles e no controle da situação porque não acontecia absolutamente nada que eu não topasse e mais, eu sentia liberdade pra propor o que eu tivesse vontade. Nunca tivemos um ménage, ninguém nunca chegou a propor isso abertamente. Mas, éramos os três e durou algum tempo. Pra gente mais atirada do que eu, essa história pode até parecer inocente, mas eu estava me sentindo a própria Anais Nin.

O caso acabou tempos depois, o amigo substituto também desapareceu, como tantos outros mais que vieram depois. Essa não é uma história de amor, é uma história de foda. Tem sentimento, claro, porque a vida não tem graça sem esse colorido do afeto, mas não tem happy ending, só end e ponto final. Também não serve como guia pra auto-estima feminina, tem nada a ver com isso. Não me senti “poderosa”, “sedutora”, ou coisa parecida. Era uma brincadeira, e só.  Três adultos que fizeram um acordo e se divertiram até onde deu.

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Uma conversa sobre corpo

Essa experiência começou numa conversa entre a Lu Nepomuceno e eu. Sobre corpo, padrões, formas. E virou isso aqui: uma entrevista a duas vozes. As perguntas a gente fez juntas, eu umas, ela outras; as respostas, separadas. Ela respondeu, eu respondi. Vai assim pra vocês, pra vocês poderem fazer as próprias perguntas, darem as próprias respostas. Que a gente acha que é um assunto  delicado e premente. A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.

1. Como era sua relação com essa questão de gordura/magreza na adolescência? você sentia alguma pressão para ser magra? você era magra?

L: Retrospectivamente eu sei que era magra na adolescência. Porque vejo as fotos. Mas era bunduda, comparando com o resto do corpo. Não me sentia nem magra nem gorda. Eu não tinha (e essa é uma coisa que me acompanha) a sensação de ter um corpo de um determinado modelo. Eu não pensava (e não penso muito) sobre meu corpo. Eu sou meu corpo, eu vivo meu corpo. E era um pouco assim na adolescência, só que sem nomear esse processo como hoje nomeio. Eu não sentia pressão pra ser magra ou mais gorda. Se a pressão existia, nunca dei por ela. Credito isso a uma série de fatores que se entrelaçaram com maior ou menor relevância: eu não via novelas nem tinha acesso a revistas ditas femininas, então não tinha modelos imediatos de beleza, minhas referências eram as atrizes dos filmes de sessão da tarde e, principalmente, corujão, geralmente mulheres da década de 40 a 60, com seios e quadris proeminentes e do tipo voluptuosas. Minha mãe é do tipo dessas atrizes, peitão e quadril, então ficava com a mesma referência. E minha mãe nunca me pareceu vaidosa, no sentido usual. Ela não usa maquiagem, não frequenta academia, essas coisas. E meu pai sempre foi bem apaixonado. Então acho que fiz uma operação mental de que pra ser desejável não precisa reproduzir nenhum destes comportamentos ou que determinado tipo de corpo é mais legal que outro. Além disso, eu estudei dos seis aos dezesseis anos em uma escola em que todas as alunas eram mulheres. Me acostumei com a diversidade do corpo, acho, especialmente porque não havia muito esse lance de “mais bonitas” ou “mais magras”. Depois tive o privilégio de fazer a faculdade de psicologia (e, concomitantemente, análise) e essas questões do corpo se tornaram ainda menos importantes em termos de forma e mais no que tange a existência.

R: eu era muito magra, mas isso é algo que vejo também retrospectivamente. Gostava muito de ser magra, mas não me dava conta do quão magra era. Era (sou) muito peituda, e isso me incomodava; naquela época, o bonito era bunda grande/peito pequeno, o modelito da minha mãe, da minha irmã. Eu era basicamente o oposto, e preferiria ser como elas. Minha mãe é muito diferente de mim fisicamente, tem cara de índia, corpo de índia. E eu achava lindo e tinha pena de não ser assim. Olhando fotos hoje, me assusto com o fato de não me dar conta que era tão magra.

2. Você me parece ter uma relação mais livre com o corpo do que quase qualquer pessoa que eu conheço. Isso é natural ou foi fruto de um processo?

L: Como eu comecei a falar antes, nunca foi uma questão pra mim isso de ser magra ou gorda, bonita ou feia, etc. Não diria que é natural, no sentido de inato. Diria que foi um processo que eu não precisei deflagrar conscientemente. Foi mais a forma como eu pude organizar e simbolizar as coisas que me aconteceram e como me aconteceram e como eu agi sobre elas e assim uma coisa leva à outra… Acho que uma coisa importante nessa trajetória de sentir o corpo à vontade (e não só no que se refere a ser gorda, porque como eu disse isso nem era questão pra mim, mais de coisas como se vestir, maquiagem, etc) foi questionar o ridículo, eu lembro de pensar as pessoas importantes pra mim me respeitariam e gostariam de mim independente de como eu me apresentasse e as que não me respeitassem e gostassem usando como critério a forma como me apresento não eram pessoas que eu me interessasse que se tornassem importantes pra mim. Depois generalizei isso pra um monte de coisas, especialmente pros relacionamentos afetivo-sexuais-amorosos (depois relativizei e suavizei, mas, né, as bases já estavam postas).

R: minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras. Mas com relação a sexo, acho que sempre foi. Tinha um modelo bacana em casa, tinha uma família (pais, tios, avós) que gostava de sexo e deixava isso transparecer. Além disso, sempre encarei sexo como uma atividade que se aprende. Tenho muita preocupação com esses discursos que enfatizam uma suposta “centelha mágica”, um “clique” e tal. Pra mim sexo é que nem paladar, se educa, como um gosto; é que nem outra atividade física qualquer, se aprende e se exercita. E quanto mais se exercita, mais se descobre.

3. Hoje em dia, pode-se dizer que você seja “fora do padrão”, em termos de peso. Alguém já te cobrou isso? Como é que você lida com isso na vida?

L: De manhã, quando vou tomar banho, tiro a roupa na frente do espelho de corpo todo, olho e penso: que gostosa! No instante seguinte começa a avaliação: a barriga tá caída, a gordura das costas, olha aí a papada. Como eu lido? Não fico pro instante seguinte ;-)

O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. Acho que existem (ou eu sinto) dois tipos de cobrança/situações. Uma que é estrutural. Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). O outro tipo de cobrança/situação me chega por meio de ações e ditos contraditórios das pessoas que me amam e/ou são próximas. Minha mãe, por exemplo, de vez em quando me pergunta se eu não vou emagrecer, que essa barriga não é saudável e tal. Mas quando vou visitá-la me elogia, me acha linda, serve cerveja e cozinha um monte pra mim. Ou a amiga que vem conversar comigo porque agora estou namorando e preciso (sic) me cuidar mais (me cuidar mais = emagrecer e aparentar mais vaidade como usar batom) pra que o moço não perca o interesse mas que super me admira (e isso não é uma frase irônica, eu sei que ela realmente gosta de mim, me aprecia, me acha sensacional) e deseja ter minha (sic) segurança e autoestima. Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra, mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam. Então, eu rio. Você pergunta como lido com essas cobranças e eu penso isso: eu gargalho. Porque as opções são: emagrecer (não vou), sofrer com isso (não gosto), ou rir e viver (prefiro). Então eu digo pra mamys que a comida tá gostosa, digo pra amiga que não espero do moço interesse eterno e que se o critério dele fosse magreza e maquiagem certamente ele teria se engraçado por outra pessoa e, bom, nunca respondia pros moços, tava ocupada e de boca cheia, hohoho.

R: meu momento mais “no padrão” – uma afirmação disso – foi quando, aos 24 anos, fiz um book com um fotógrafo. Era meio terapêutico, uma maneira de deixar pra trás uma certa sensação de “patinho feio e inteligente” que me acompanhava. Tinha aquela coisa dos seios grandes, de ser “de outro padrão”. Branca, peituda, magra. Quando eram valorizadas as curvilíneas, morenas, de peitos pequenos. Adorei fazer as fotos, posar, achei que ficaram bem bacanas (num sentido meio teatral, já que a maquiagem, as poses, não era eu de verdade); outros acharam também e isso é espelho, é onde a gente se reflete e alimenta autoestima. Mas sempre valorizei muito a “dinâmica” com relação à “estática”: não tenho nenhum apreço pelos ditos belos (na beleza padrão de revista e de TV). Sempre gostei de brilho no olho, de gargalhada, de jeito de ser. Desde criança, eram esses os meninos que me encantavam: os que “sabiam ser”, e não os chamados de bonitos. Aí me encontro com esse olhar generoso que você diz que exercita: gosto de encontrar belezas, e encontro. Na pele, no corpo, mas também e sobretudo no movimento, no andar, no falar, nos gestos de mãos, no inclinar de cabeça, no acender um cigarro, no segurar um copo. Em homens e mulheres. Tenho muita pena dos homens que não admitem achar outros homens bonitos, como se lhes faltasse um pedaço, sabe.

4. Você, como mulher e ativista, reflete sobre essa questão da opressão a corpos, particularmente intensa no caso das mulheres. Queria que você comentasse um pouco isso, inclusive falando do contraponto: a magreza.

L: Eu me inquieto que a publicidade designe determinadas representações para as pessoas gordas. Eu questiono a indústria da moda. Eu me indago sobre os estereótipos reproduzidos em filmes, séries e novelas. Mas a minha questão não é apenas se o padrão atual é opressivo para as mulheres/pessoas gordas. É que exista um padrão ou que existam padrões que escalonem que corpos são mais bonitos, desejáveis, aceitáveis. Os corpos são diversos. São gordos e magros e altos e baixos e jovens e velhos e cada um tem a sua beleza. Não é com a reordenação do que é melhor que se constrói uma sociedade inclusiva e acolhedora, acho eu, mas com a aceitação de que não há melhores, há os corpos que levam a vida que levamos.

Nem sempre o discurso da militância está atento a essas matizes e, algumas vezes, culpabiliza as mulheres magras no lugar de se estar atento à estrutura. Eu acho que não interessa se a mulher é magra por metabolismo, por estilo de vida ou porque se esforça em dietas, cirurgias e diversas intervenções com maior ou menor sofrimento físico ou psíquico. Não interessa se a mulher é mais ou menos refém do discurso da beleza magra. Nós não temos que ser questionadas individualmente, acho. A questão deve ser sempre a busca de uma mudança na cultura. Para que as mulheres, as pessoas, não tenham mais que sofrer pra se enquadrar.

Eu acho que a questão central de opressão dos corpos não é a gordofobia, embora seja essa a manifestação mais evidente e cruel que vemos na convivência social diária. Penso que o que está mais no cerne é o escrutínio e o controle sobre o corpo feminino. O fato de que não questionamos as sucessivas avaliações e julgamentos pelos quais o corpo feminino passa, seja por ser gordo demais, magro demais, malhado demais, velho demais, negro demais, com pelos demais se mantém, acho, intrinsecamente relacionado com a legitimidade de que um saber externo e terceiro decida e opere sobre ele, seja a medicina, a religião, o Estado.

R: achei muito pertinente isso aí que você falou. Embora o problema da “gordofobia” seja, também, um problema prático: as pessoas não cabem. Nas roupas, nos assentos, nas passagens. Como se esse mundo não fosse feito para elas – o que, evidentemente, gera outras dores. Mas a magreza considerada excessiva também pode ser foco de muita reprovação e de muita sensação de inadequação. Assim como a busca dessa magreza vista como beleza e perfeição pode levar à doença, na forma do binômio bulimia/anorexia. Identifico-me com isso também, já fiz dieta (quando já era bem magra, mas não via isso) e cheguei a pesar 49 kg para 1 metro e 68. Só me dei conta de que estava indo além do razoável porque quase desmaiei na aula de canto. O resto das pessoas, em volta, me aplaudia. E isso também me assusta retrospectivamente. Ontem ouvi no rádio um comentário sobre “pneus” da Fernanda Lima: um horror, a invasão, o direito que as pessoas se arvoram de ficar falando mal do corpo das mulheres ( e ela tem corpo, basicamente, de modelo), porque são gordas, magras, idosas demais para usar biquínis…. isso sai tão espontaneamente, é tão naturalizado… como se fosse uma espécie de obrigação das mulheres. Como se fosse reprovável não cultivar e manter certo padrão de beleza, sendo mulher.

5. Como você se posiciona em relação às diversas inciativas de busca de emagrecimento, tais como dietas e cirurgias plásticas?

R: Já escrevi sobre isso (no texto “A Mulher em Bancas”): acho isso tudo uma prisão do cacete. E que fique claro: não é uma reprovação – mais uma – à mulher que acha que deve corresponder ao padrão x ou y e para isso faz o que considera necessário, mas sobre a sociedade que as empurra para esse padrão cada vez mais estreito. Estava lendo estes dias, por exemplo, sobre a onda de rinoplastias no Irã: de onde vem isso? Os narizes lá tendem a ser naturalmente aduncos, mas o padrão estético ocidental é diverso. No universo do cinema, as mulheres são cada vez mais iguais. E isso me entristece, porque a isso corresponde também um estreitamento do nosso sentido de beleza: quanto menos diversas as belezas possíveis socialmente, menos aguçados estarão nossos sentidos para percebê-las. Há, por assim dizer, um certo embotamento social da percepção do belo. Que ocupa um espaço cada vez mais estreito. Por mais que a gente (eu, você) se revolte contra isso na prática, construindo nosso próprio sentido de beleza, é uma luta inglória. Dá uma passada numa banca de jornais e olha só as capas de revistas femininas: uma mesmice só. Tristeza. E ao mesmo tempo, a certeza de que a gente tem que ir adiante. E questionar, e mostrar outras possibilidades, e fotografar, filmar, exibir, discutir. Ampliar. As redes permitem isso. Vamos aproveitar.

L: Concordo inteiramente com você, não se trata de avaliar e condenar as mulheres individualmente, eu penso no sofrimento silencioso sedimentado diária e imperceptivelmente que nos conduz a esse olhar critico sobre nós mesmas e as exigências que construímos a partir daí. Sinto que as iniciativas individuais são a forma como cada uma consegue lidar com sua história, com as demandas sociais, com os padrões. E devem ser respeitadas ao mesmo tempo em que não se pode deixar a peteca cair no questionamento do porque, na reflexão sobre o cenário em que essas ações se tornam necessárias.

6. Como você entende a questão corpo magro X saúde X corpo gordo?

R: A questão da saúde, pra mim, já é uma questão. Quer dizer, essa obrigação de ser saudável (ainda antes de falar do gordo x magro) já é uma coisa questionável. Por quê? Nem sempre foi assim. Se eu escolho beber, ou comer aquilo de que gosto, ou ser sedentária e viver com meus amigos nos botecos da vida, por que isso seria pior do que a vida daquele que escolhe ir à academia todo dia, só comer tal ou qual coisa, ser moderado, não fumar…? Um “sim” – à vida saudável – tem sempre um “não” embutido – às atitudes consideradas não-saudáveis. Que podem ser as que me dão prazer, as que me trazem conforto. Pode ser o que eu tenha vontade de fazer. Eu ou qualquer um. Ninguém deveria ter o direito de se meter na vida dos outros como se metem, dizendo “você devia malhar mais”, “devia comer mais verduras” e tal.
Tem aí uma reprovação meio moral que me dá agonia. E olha que comigo isso não acontece; apesar de hoje eu estar um monte de quilos acima da magreza original, não tem ninguém me dizendo que eu devia isso ou aquilo. Mas vejo acontecer, muito. E aí tem esse outro ponto: as pessoas consideram, a priori, que magro é igual a saudável, gordo é igual a doente. E não adianta a pessoa gorda argumentar com resultados de exames, com dados concretos: é um a priori muito estabelecido, se você é gordo, algo de errado deve haver com você. A contrapartida é que se você é magro, nem sempre identificam a tempo quando há algo de errado com você, como em tantos casos de anorexia não-identificada.

L: eu responderia assim, do jeitinho que você respondeu. Que não há nenhuma garantia a priori de que o corpo magro é saudável e o corpo gordo não, que essa equação é sustentada pelo preconceito. E, para além, que nenhum discurso seja estético, médico, moral ou religioso externo deveria pautar e moldar os corpos e suas vivências acriticamente. Incluindo o paradigma da saúde como meta e da juventude como momento a se preservar e perpetuar o máximo possível.  Me preocupa a forma como o discurso estético se entrelaçou ao discurso médico e o poder que o discurso médico tem sobre o corpo, especialmente o corpo feminino (como bem se percebe em relação a questão do parto). Fico pensando se não caminhamos, em algum grau, pra uma certa patologização do viver contraditoriamente sustentada pela busca ativa da vida mais “corretamente” vivida. Uma coisa que eu costumo repetir é que eu levo a vida do corpo que levo e levo o corpo da vida que levo. Não acho que é modelo pra todo mundo, mas conforta e acolhe.

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

você, que adora paredes.

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

(e como hoje é o dia nacional da poesia, um conto em verso e eros, para te inspirar a escrever você também um poema no corpo de alguém <3 )

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você vem, toca a campainha.
eu abro a porta e te vejo.
te recebo, desejo.
(mas tenho que te dividir com o cachorro, fazendo festa)

então te abraço finalmente,
de saudade. de vontade.
encosto a cabeça no seu peito, baixinha.
encosto meu peito na sua barriga, abusada.
encosto o meu corpo em você: me desfaço.
sou uma kali mas não sei aonde vão meus braços.
um beijo. longo. ou dois. ou mais.
não sei, não estava contando.

respiramos.
quero te mostrar a casa.
quero te mostrar a vista.
(quero que você me pegue de frente para a paulista).
quero que você me encoste no sofá.
quero que você percorra sua mão em mim.
eu encosto, você vem.
e me abre lentamente as pernas.
ou fui eu que abri, não sei.

meu vestido sobe, eu subo.
você sobe sua mão e me encontra.
(sem calcinha, como sempre).

e você me descobre molhada, pulsando.
e eu descubro como é ter suas mãos em mim
se molhando.

eu gemo baixinho.
você me beija. não para.
e gemo de novo. você respira.  me põe
na parede, me vira.
me abraça por trás e me espreme.
você adora paredes.
e eu adoro você me cercando.
adoro te sentir tentando
ultrapassar essa sua calça.

segura com a mão os meus seios,
outra mão nem sei onde está.
é seu corpo meu corpo a sua mão o meu peito
e a parede lá.

estou na ponta do pé e ainda subo.
dar altura em você, me encaixar.
mas eu viro de novo, meus seios
saltam do vestido, não querem esperar.
você mergulha neles, apnéia.
mas sou eu que fico sem ar.

me recomponho.
mas só pra gemer de novo.
seguro sua cabeça com a mão
e com a outra eu te procuro.
e te encontro. pronto e duro.
subo as mãos debaixo da camisa,
o seu peito, a sua barriga.
me deito de pé no seu corpo.
e vou descendo.
descendo.
(e você rouco)
descendo.
respirando você
e descendo.
beijando sua pele
e chegando.
e descendo
até que chego.

abro o zíper com cuidado.
quero olhar pra cima e te ver
mas não posso, não consigo:
eu tenho um objetivo.
te sentir em minhas mãos.
e beijar. te encostar no meu rosto.
e lamber. sentir o teu gosto,
e você. crescendo.
crescendo, e você gostando.
quero gemer mais um pouco,
mas não posso, não consigo:
minha boca está ocupada contigo.

você me para. me puxa.
me põe de volta na parede.
prende minhas mãos no alto.
segura na minha nuca. me beija.
respira na minha boca.
sua calça desce nas suas pernas.
enquanto eu escorro nas minhas.

quero continuar o conto
quero te encontrar num canto
hoje, agora, quando?

quero gozar com você
quero te fazer gozar
como se o tempo parasse.
e vai parar.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste à um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

 

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

Texto escrito com a consultoria/parceria de Patrícia Guedes*, Biscate Convidada

Vou contar um segredo pra vocês: desejo, tesão, amor, sexo, afeto… nada disso é exclusividade de pessoas jovens, magras, sem deficiências, brancas, heterossexuais e cisgêneras. Afeto, sexo, amor, tesão, desejo, tudo isso é humano e tá presente em todos nós de fio a pavio.

Ontem de manhã uma amiga me perguntou se eu estava acompanhando a polêmica sobre o namoro da Miss Bumbum. Eu disse que não e fiquei preparada pra ouvir o relato mais usual sobre as pessoas com preconceito sobre mulheres que “usam o corpo pra subir na vida”, “mulheres que não se dão ao respeito” e outras bobices assim. Mas os preconceitos relatados não eram (apenas) o machismo e conservadorismo nosso de cada dia.

O preconceito da vez é contra as pessoas com deficiência. Nem é novidade, o preconceito em relação a pessoas com deficiência é aquele mesmo de todo dia, mas no todo dia vem meio disfarçado de benevolência e paternalismo.

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Só não pode tratar de sexo. Aí, cumpade, o buraco é mais em baixo (ou, no caso, melhor seria dizer que o buraco é mais em cima ou que nem se admite a existência do buraco). Magina que pessoas com deficiência (seja física, motora, psíquica, cognitiva, whatever) vai ter desejo. Tesão? Não, não, não (quase que a gente escuta o “eca”). O corpo com deficiência é visto como assexuado, defeituoso, impróprio. Aliás, não só o corpo, à pessoa com deficiência é vedado, implicitamente, o desejo. Não só não pode fazer sexo como não pode desejar fazê-lo. Sobre esse assunto, ninguém fala, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez nem exista.

Mas qual a história mesmo? Uma moça que namora um moço. E o moço é cadeirante. E uma enxurrada de comentários imbecis. De maneira geral as pessoas destilam preconceito ao julgar que paraplégicos e tetraplégicos (pra ficar mais próximo do tema, mas isso se estende a vários outros tipos de deficiências) não podem ter vida sexual. Não precisamos nem pensar muito pra ver como o senso comum é limitado na sua compreensão de sexualidade, julgando-a a partir do paradigma heterossexual-cis-penetração-pênis-vagina-homem-no-controle. Sério mesmo que ainda se pensa que sem pau não tem o que fazer na cama? (Sexo sem… #ficadica e é só uma das inúmeras) Esse caso é agravado por outro preconceito: ela, por ser miss bumbum, é hipersexualizada e supõe-se que é difícil de ser satisfeita sexualmente. Mais de um comentarista enfatiza que é “sacanagem deixar um mulherão desses só na vontade”.

Não devia, mas ainda me impressiona a facilidade com que as pessoas se sentem no direito de invadir a privacidade alheia, questionar, julgar e rotular a vida sexual do outro. Sério mesmo, que é que a galera tem a ver com o jeito que as pessoas trepam? Não interessa se eles usam mão, língua, acessórios, se tem ereção, se tem ejaculação, se convidam mais alguém pra festa. Cada adulto, com seu desejo e seu gozo.

Mas é preciso reconhecer, se um corpo não desejável passa a demonstrar desejo, temos um problema grande com o qual a sociedade não consegue lidar. E a reação a ele costuma ser bem violenta. Não por acaso costuma haver tanto preconceito no que tange a sexualidade de pessoas gordas (leiam o gorda e sapatão, leiam sim), trans (leiam o transfeminismo, leiam sim), negras (leiam o blogueiras negras, leiam sim). E pessoas com deficiências.

Lembro quando assisti o excelente filme “As Sessões” (que narra, basicamente, a relação entre uma sex surrogate – parceira sexual substituta – e seu cliente – Mark O’Brien, que é deficiente físico) e quantos comentários desconfortáveis surgiram pelas redes sociais. Um monte de gente incomodado por uma pessoa tetraplégica sentir, manifestar e procurar satisfazer seu desejo sexual.

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O filme é muito feliz ao mostrar, com leveza, o desejo do seu protagonista e (não menos relevante) tratar com naturalidade o corpo não padronizado de Helen Hunt (grande parte das cenas da atriz são realizadas despida ou semi despida). Uma grande parte do incômodo que encontrei nos comentaristas do filme é em relação às coisas que considero grande mérito: a) a naturalidade com que o filme nos leva a encarar a busca da relação sexual e do conhecimento do próprio corpo, empreendida pelo moço com deficiência, b) a desglamourização dos corpos, tirando o foco da beleza esteticamente aceitável, c) o sexo como um elemento presente e ativo na vida de toda e qualquer pessoa, manifestado de forma específica segundo sua vivência e subjetividade (seja o protagonista, a parceira sexual substituta, o padre, o marido da parceira sexual substituta, etc), sem moralismos ou julgamentos de caráter.

Supor a incapacidade de alguém de desejar ou ser desejado tem nome: capacitismo. Ao negarmos a sexualidade de alguém, lhe negamos, automaticamente, representatividade política e social, entre outros direitos. A inclusão sexual da diversidade de corpos existentes é, talvez, a mais difícil a ser feita, já que com tabu não se discute. Mas precisamos. Precisamos desconstruir a noção disseminada que pessoas com deficiência não são aptas a decidir sobre suas vidas. Precisamos desconstruir a idéia de que sexo é exclusividade de pessoas que se inserem no padrão que a sociedade avaliza. Precisamos debater a noção de que existem corpos que “não servem” pra o prazer. Precisamos incluir, precisamos visibilizar, precisamos ouvir. Precisamos sair do paradigma da sobrevivência digna para o da existência gozada.

E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, temos a Jane Fonda em Amargo Regresso, com seu amante paraplégico, pra não nos deixar cair no moralismo (pode ver aí)

E o que a gente faz com a moça capa-de-revista e o moço cadeirante? Não faz. Deixa que eles façam. Sexualidade e autonomia caminham de mãos dadas. Que entre eles exista (ou não) desejo, tesão, amor, sexo, afeto, apenas: não é da minha conta, não é da sua conta, não é da nossa conta.

patrícia*Patrícia Guedes é arquiteta, feminista, biscate militante e a favor do piriguetismo consciente.

PS. Nosso obrigada à Jussara, com quem conversamos e de quem pescamos umas boas questões.

PS2. Nosso obrigada à Renata Lins que lembrou da Jane Fonda <3

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Espontânea

Guardo em mim com mais carinho
Os quereres sem hora marcada
Os beijos dados de graça
Os amassos-surpresa que me coraram a face

E me ferveram por dentro.

espontânea

 

 

 

 

 

Ah, Querido…
Das minhas lembranças mais gostosas
As mais e mais e mais gostosas
São as do amor não polido
Sem cenário
Sem receitas prontas
Sem melindres
Apenas nossos corpos colados
E nosso prazer

Tens contigo um pedaço de mim
Eu, espontânea
Palavra biscate, em sua própria essência
Sinta-se feliz
Pois este é o meu melhor pedaço.

Quando sexo e o amor se misturam

“Quando a gente faz anal me sinto um com você”

Nosso amor aconteceu da forma mais inusitada: eu odeio chat de bate papo, mas fui incentivada a visitar um, eu queria sexo rápido e ouvi que lá conseguiria! Em meio a tantos homens que mentiam (para que mentir para uma pessoa que você conhecerá e verá apenas uma vez?) idade, se tinham ou não um@ companheir@, lá estava ele! Sim, ele foi totalmente sincero, tanto eu quanto ele queríamos uma coisa de uma vez e só, ele não tinha namorada, era novo e não mentiu sua idade… Além disso, mostrou seu perfil de facebook, negão bonito! Me chamou atenção que tinha um amigo em comum.

Oi, quer teclar

Oi, quer teclar?

Ela: “você mora onde?”
Ele: “são pedro e você?”
Ela: “tb, mas nunca te vi por ali…”

Marcamos de encontrar, depois de muito conversar pelo facebook, ele era direto, nunca disse meias palavras sobre o que nós queríamos! Chegou o dia, ele chegou todo arrumado do centro, com o baixo nas costas. Eu esperei ele deixar o baixo em casa. A conversa ansiosa até o primeiro beijo. Depois do primeiro beijo, eu queria correr para algum lugar onde poderíamos transar! O que nos uniu de primeira foi o tesão, com ele tudo era perfeito! O sexo foi o melhor que já fiz… E, da mesma forma que desde o início o tesão é o mais importante, é nele que sentimos a união e o amor! Não falo de coisas românticas ou de ser “especial” porque eu o amo… Em outros relacionamentos meus, me ligava às pessoas pelo carinho, com ele sou muito mais livre e segura em relação ao sexo, tem coisas que eu só consegui fazer com ele e coisas que ele nunca fez antes de me conhecer, a gente confia muito.
Aí, uma frase que ele fala sobre uma particularidade bem nossa (de uma frequência de quase não fazer anal a fazer quase todas às vezes que transamos) me faz entender o quanto o sexo nos uniu, que meus pensamentos onde eu separava sexo de amor eram tão errados! Nós somos unidos pelo sexo, nosso amor cresceu por causa do tesão.

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