Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Luz acesa….

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Olhar. Conversa. Riso. Provocações, lábio seco. Molhar os lábios, com a bebida. Olhar. Ah… o olhar…

Sei que não tem manual, que nunca é igual. Mas é assim, as vezes, apesar de ter sempre aquela cousinha diferente, que dá aquele chameguim uma cor e sabor original, diferente, único.

“Vamos embora daqui, agora?”.

“Vamos.”

Sim, vamos. E abraço, toque, retoque, beijo, lábio, chupadas no pescoço, no queixo, pornografias no ouvido e aquele calorão todo. E sobe e desce mão, procura aqui e ali e meu pau bate no teto.

Na sala, enfim. Parece guerra. E tira peça de roupa e beija aqui e ali e mão e não e sim e vai… vai…. esparrama, declama, pensa, molha, sobe, desce, aquece, aquiesce.

“Ah…  apaga a luz, vai?”

“Mas… por que?”

“Eu tô feia. Tô gorda.”

“Ah… eu tenho pau pequeno…”.

Ela ri. Ele ri. O pau sobe ainda mais.

“Apaga, vai… tenho vergonha…”.

“Mas ó… ele tá assim por causa do tudo….”. E, de fato, ele tá bonitão, todo orgulhoso em riste.

Novo riso. Cafuné, afago, dengo, molha, beijo, última peça no chão. E língua e mão e tudo. E encaaaaixa….. Assim, aceso e acesa.

Ar que acaba, morte em festa, gozo todo.

“Adoro tua bunda.”

E ele sai sorrindo, para pegar água. Era outra sede.

Pelados, peladas:  Completamente.

Luz apagada, quase dormindo. E começou tudo de novo…

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Intervalo

intervalo

Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

Ele só está interessado no seu corpo

Por Nkyad Sobakovitch*, Biscate Convidado

Sim, eu só te quero pelo seu corpo. Noites em seu corpo e mais nada. Noites inteiras sem dormir, navegando em seu corpo, naufragando em seu corpo. Noites espaçadas, sim. Intercaladas pelo tempo exausto de dormir, pelo tempo faminto de comer, pelo tempo miserável de trabalhar longe do seu corpo. Que é só pelo que eu te quero.

Sim, só quero seu corpo. Mas nas manhãs também. Para depois das noites do seu corpo, despertar com seu corpo, sob seu corpo, dentro do seu corpo. Manhãs que terão café e torradas e suco e bananas, que alimentem seu corpo para que ele seja meu de novo. Café e torradas e suco e bananas levados na cama, para que você sequer pense em ir e levar seu corpo para longe de mim. Pois o que eu quero é só seu corpo.

Sim, levarei seu corpo ao cinema, para ter seu corpo depois. E ao teatro e a festas e ao shopping e à praia. Levarei seu corpo ao médico, ao dentista, ao hospital se ele precisar. Levarei teu corpo a todos os lugares que ele queira ir, a alguns lugares que ele não queira ir mas precise, levarei seu corpo comigo. Pois é só seu corpo que me interessa.

 Sim, só quero seu corpo, e ficarei em silêncio obsequioso quando você quiser ir trabalhar, ver seus amigos, visitar sua família. Ou irei junto para ter seu corpo perto do meu enquanto você satisfaz essas estranhas vontades de outras gentes. E serei polido, divertido, educado e solícito com essas outras gentes, para que você fique feliz e eu continue tendo o seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, só quero você pelo seu corpo, mas entenderei se você às vezes quiser outro corpo que não é o meu. Esse seu corpo que eu quero, afinal, é seu, e eu esperarei que a cada dia ele volte para mim, tendo feito o que quer que seu corpo faça quando não está comigo. Pois se eu só quero seu corpo, entendo que às vezes você queira outro corpo que não o meu. Claro que vou brigar, emburrar, chorar e me lamentar pelos cantos enquanto seu corpo não estiver aqui, mas entenderei. Porque só quero seu corpo, e quando ele voltar imediatamente esquecerei que ele se foi um dia.

Sim, eu só quero seu corpo e quero ele morando junto ao meu. Para facilitar as noites, favorecer as tardes, aproveitar as manhãs dentro dele. E teremos alguma casa onde seu corpo caiba, com móveis que seu corpo goste, janelas por onde o sol buscará seu corpo e um jardim com flores para enfeitar seu corpo. Que é só o que eu quero.

Sim, quero seu corpo e continuarei querendo seu corpo depois dos inevitáveis filhos, que criarei a contragosto para ter seu corpo, das inevitáveis tragédias, que enfrentarei para depois me consolar no seu corpo, dos inevitáveis anos que envelhecerão nossos corpos. Que serão mais velhos, mais gordos, mais fracos. Mas ainda serão nossos corpos e o seu corpo ainda será só o que eu quero.

Sim, eu ouvirei seus medos, dividirei nossas alegrias e tristezas, verei filmes românticos, assistirei peças experimentais, escutarei música francesa, irei a Paris, ao Cairo e a Roma, me farei amado por seus pais, criarei seus filhos e serei amigo dos seus irmãos ou vice-versa. Serei forte, fraco, gentil, brutal, carinhoso e distante, serei o que você quiser que eu seja, farei o que precisar fazer para ter o seu corpo, todo o seu corpo, o tempo todo.

Porque, você sabe, eu nunca menti, eu só te quero pelo seu corpo.

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Um das críticas mais superestimadas (em geral só) ao moço da outra (e nunca à moça do outro – com essa o mundo é mais cruel), “ele só está interessado no seu corpo”. Porque, né, ele precisa estar interessado no seu intelecto, nas suas emoções profundas, nos seus planos de vida, no seu gato, na sua réplica de Matisse na saleta de chá, na sua coleção de encadernada de Vogue dos anos 50, nos seus livros de filosofia, psicologia, engenharia e culinária.

Senão ele não vale a pena, pois vai apenas te usar para sexo e te abandonar na beira da estrada deserta dos one-night-stands. Ou pior, Deus me perdoe, você vai usá-lo para sexo e depois abandoná-lo na esquina escura dos casos rápidos.

Como se sexo casual não fosse sexo, ainda que casual, se alguém ainda acredita no acaso. E como se a Terceira Lei do Newton Biscate não se aplicasse sempre: “A toda trepada corresponde uma trepada de igual intensidade no corpo contrário”.

E além disso, como ele vai conhecer seu Matisse avec Earl Grey, saber de seu plano de visitar Cimmeria, adivinhar que Wittgenstein seu gato é um rematado canalha, entender do seu medo de cair da cama em trens, ler sua tese de doutorado, se agora é seu corpo que ele quer, e é o corpo dele que você quer, e esses corpos não se encontrarem porque “não tem futuro”?

Deixa eu te dizer, nada tem futuro. Porque tem aquela curiosa propriedade do futuro, sua inexistência. Aliás, existe lá um futuro, mas ele tem só um ou dois tons de cinza: decadência e entropia, entropia e decadência.

Esse futuro do qual a gente fala é só uma construção mental que tem lá umas serventias. Serve para a gente não atravessar a rua quando vem um carro, porque no futuro, daqui uns 7 segundos, ele vai estar justamente onde a gente quer passar. Serve para a gente não gastar todo o nosso dinheiro em livros, porque sabemos que no futuro, semana que vem, temos que pagar as contas de luz, água, telefone. Serve para a gente ir fazer faculdade disso ou daquilo, porque achamos que no futuro, daqui uns anos, seremos felizes fazendo isso ou aquilo. Mas nada garante que o carro não vai nos atropelar na calçada, que aqueles livros não teriam sido essenciais para a gente conseguir entrar naquela faculdade, que daqui a dez anos não seremos os cirurgiões plásticos ou CEOs mais infelizes da face da Terra.

E o futuro dos corpos nunca é assim fácil de ver. O que parece só corpo pode ser só corpo mesmo e se o sexo foi bom, para que reclamar? Pior, porque não ir, gozar e voltar? E quem sabe para onde vão esses corpos, quem pode dizer?

Porque além do Newton Biscate tem também a Mecânica Quântica Biscate: o resultado da colisão de dois corpos é sempre imprevisível. Ou devia ser – se você sabe tudo do outro, entende tudo do outro, prevê tudo do outro, pode acreditar, alguma coisa você não sabe, não entende, não está vendo e não vai prever. Porque os corpos são coisas vivas, quentes, úmidas e muito, muito pouco confiáveis. Dificilmente você sabe para onde vai o corpo do outro. Admita, você mal sabe para onde vai o seu corpo.

E o desejo de um corpo posto no outro, e o desejo do outro posto no um, causam entrelaçamentos complexos, impossíveis de medir à distância. Podem durar dez minutos, dez horas, dez dias ou dez anos, esses enlaces. Mas você só vai saber a duração se for lá medir e aí vai ser tarde demais para saber a velocidade da colisão, e mais tarde demais ainda para evitar o impacto.

E é assim que que as pessoas acabam atropeladas por uma paixão que nem viram da onde vinha, estiradas nuas numa cama estranha, exaustas, perdidas, quebradas, extasiadas, confusas, em pânico. Porque era só um beijo…

corpo

*Nkyad Sobakovitch, poeta russo exilado em São Paulo, amante fiel da vodka com ou sem suco de laranja, amante infiel das mulheres com ou sem vodka. Seu poema épico “São Paulo é a Sibéria da Alma” foi recebido pela crítica paulistana com a mesma indiferença gélida que acolhe toda poesia naquela cidade sem amor.

Desejos, deseja.

O certo é que o máximo seria um “bom dia”. Com alguma sorte conversaríamos sobre o tempo, o sol, a chuva, o inverno. Mas o fato, ah, o fato, era que bastava isso para me molhar, para me fazer sacolejar pernas, sorrir, pensar em luxúrias múltiplas, em pé, deitados, na cama, no chão, no chão da sala, no chão de terra, no lavabo de alguma festa, no escuro de alguma rua, lua, possibilidade, motel barato de quem vai a pé.

 desejos

O que ninguém tem o direito de tentar normatizar é isso. Isso, o desejo. Ele é meio que febre, ela é rouca, também, porque grita alto. É ele e é ela. E como diriam Paula e Bebeto, qualquer forma vale. A maior conquista política da humanidade será está, a de deixarem de normatizarem, regulamentarem, esquadrinharem desejos. Essencialmente os de carne. E osso. Um rebolado mais forte, uma raiz de cabelo preta num cabelo louro, um umbigo a mostra, uma tatuagem de tornozelo, um seio vesgo, uma saudade, uma barba por fazer, uma barba feita, uma vagina depilada, outra peluda, muito, muito peluda. Um pau torto, uma pinta na bunda, uma declaração de amor evidentemente suspeita, uma forma de beijar, um doce e, quem sabe, só aquele jeito de beber água mesmo.

Os muito românticos, mesmo o que se dizem libertários, gostam de afirmar que o sexo é a melhor cousa do mundo. E aí inventam redenções, romances de final feliz, trepadas de cinema.  A melhor cousa do mundo é o desejo. Porque é nele que temos o cheiro, o perfume, o gosto, a forma, o conteúdo todo que nos faz gozar melecas. O desejo, este sim, é o que precede e nele, nele não há parques sem árvores. Se pode morrer de desejos, mas não se pode viver sem eles. Simples e simples assim.

E quem sabe desejos, masturbando ideias, desenhando quadros, construindo roteiros: um pornô com história! Lá vamos nós imaginar as cenas que serão vividas em algum lugar nosso mesmo. Quem sabe até entre aquelas curvas todas, daquele corpo todo. Me arranha. Só mais uma vez.

“Bom dia.”

O rebuceteio exala sexo

E O Rebu começou quente, edição cinematográfica, cortes rápidos, fotografia caprichada (cargo de Walter Carvalho, responsável por Madame Satã e Lavoura Arcaica, entre outros).  É remake de uma novela de Bráulio Pedroso, considerada inovadora em sua época pela narrativa em três tempos já que tudo se passa numa noite, o crime acontecido numa festa, no dia seguinte a esse crime e na sua investigação, o que leva a fatos passados.

O título é uma referência à expressão criada por Ibrahim Sued, famoso colunista social, para “rebuceteio”, que significa aglomerado de mulheres bonitas ou confusão.  Por exemplo, esse blog é um rebuceteio. :-)

foto: GShow

Angela, personagem de Patricia Pillar

A estética de O Rebu me lembra muito Walter Hugo Khoury, cineasta brasileiro que gostava de sexo nas classes altas. Tudo muito sacana e muito chique, claro, pobre sacana nunca é chique, é no máximo engraçado. A série respira sexo. Até agora não sei quem pega quem, acho que todo mundo pega todo mundo, na verdade. Patrícia Pillar está linda, divina, um olhar matador, inclusive acho que ela está também querendo me pegar toda vez que ela olha pra tela da tevê. A mulher está exalando sensualidade.

foto: GShow

Duda (Sophie Charlotte) dança para Antonio Gonzalez (Michel Noher) durante a festa

Tem gente que tem dúvidas sobre a relação de Patrícia e de Sophie Charlotte que faz sua filha adotiva na série. Olha, não é a gente que tá maldando a coisa, é a série que tá exalando sensualidade pelos pixels da tevê. Juro. Acho que é só carinho de mãe e filha mesmo (ou não, sei lá, todo mundo nesse jogo aí guarda mil segredos loucos, não boto nem meu mindinho no fogo).

Jesuíta Barbosa, um dos garotos sex appeal do momento está na série, é gato, e ótimo ator, e essa semana nos brindou com uma linda cena de ménage com ninguém menos que Camila Morgado que faz uma socialite muito doida e inconsequente.

O sexo na série não é reprimido, as mulheres são sexualmente livres (como todas nós deveríamos ser, né?), mas acho que isso se deve ao ambiente social da série, a classe média alta. O único momento mais repressor veio da policial, interpretada por Dira Paes, membro da classe média baixa, como deixou clara a ambientação da cena da casa da personagem. Também não há por parte do público reclamação quanto ao conteúdo sexual explícito da série nem ao comportamento de homem, e em especial, das mulheres mas acho que devido a baixa audiência e ao horário da série (depois das 23 horas).

O fato é que um sexo livre e bacana na tevê parece ser ainda um privilégio da elite branca numa estética bem glamourizada.  Quanto ao resto da série perdeu um pouco de ritmo, vamos ver se com as investigações engrenando as coisas fiquem tão boas quanto a trilha sonora.

As mulheres gostam de sexo. Parem de dizer que nós usamos anticoncepcionais por “motivos de saúde”

Texto de Jéssica Valenti. Daqui.
Tradução de Paulo Candido

Quando 99% da população feminina usa anticoncepcionais, é muito triste ver que nós não podemos simplesmente dizer que nós os usamos por causa do sexo. E que nós gostamos de sexo – gostamos muito.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST
 Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde - é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

Para os conservadores, contracepção não é um problema de saúde – é sobre sexo, seu medo do sexo e o pânico causado por mulheres fazendo sexo que não gere bebês.

theguardian.com, Tuesday 8 July 2014 12.30 BST

Mulheres gostam de sexo. Algumas mulheres que gostam de sexo não querem ficar grávidas, então elas recorrem a métodos de controle de natalidade. Eu sei que essas não são frases muito originais ou reveladoras, mas por alguma razão incrivelmente irritante, a imprensa e seus colunistas ainda perdem um longo tempo discutindo fatos tão banais da vida: sexo existe e contracepção muitas vezes faz parte do sexo.

Os conservadores não vão admitir seu medo visceral do sexo por prazer, então a máquina midiática de Washington está fazendo o serviço sujo por eles. Mas se esse é nosso debate de verão, bem, será que nós podemos pelo menos tentar achar uma razão para toda essa estupidez?

Quando Sandra Fluke deu seu famoso depoimento sobre a cobertura de contracepção pelos planos de saúde na Câmara dos Deputados americana, toda a primeira parte de sua fala se concentrou em uma amiga que precisava tomar anticoncepcionais para tratar a síndrome do ovário policístico. Semana passada, após a decisão da Suprema Corte no caso Hobby Lobby, a revista Elle publicou um artigo intitulado “Dez razões médicas pelas quais uma mulher pode precisar de anticoncepcionais”. E então o National Journal publicou um artigo, que circulou por todas as redes sociais, declarando que o que “ninguém está vendo”, no debate sobre a decisão da Corte, é que todas as mulheres precisam tomar anticoncepcionais por razões médicas. “Mesmo se essas mulheres nunca fizerem sexo em toda a sua vida, elas precisam tomar anticoncepcionais”, escreveu a repórter Lucia Graves. Seu texto continua:

“Essas mulheres dependem da pílula para regular seus hormônios e por uma série de outras razões, da diminuição da dor até redução do risco de câncer. Estes motivos médicos nada tem a ver com sexo ou prevenção de gravidez.”

Eu concordo com Graves, a ligação entre os anticoncepcionais e a saúde da mulher não deve ser ignorada – e é importante que a discussão pública, depois da decisão Hobby Lobby, esteja olhando para além da vergonhosa decisão da Corte em favor do “defensores da liberdade” anti-sexo.

Mas é muito deprimente que, no verão de 2014, quando 99% das mulheres usa a pílula, nós não possamos apenas dizer que a maioria das mulheres usa a pílula por causa do sexo. E que nós gostamos – gostamos muito – de sexo.

Eu posso também prometer o seguinte para vocês: concentrar-se nas razão não relacionadas a orgasmos pelas quais as mulheres usam anticoncepcionais não vai fazer com que os conservadores magicamente mudem de idéia sobre esse assunto. Não importa quantos artigos sejam publicados, implorando aos leitores para que pensem sobre os inúmeros problemas de saúde da mulher, as organizações conservadoras tem suas cabeças enfiadas no esgoto por anos, e elas gostam dela lá.

Olhando para as entidades que apoiaram o Hobby Lobby com pareceres de “amicus curiae”, por exemplo, dá pra se ter uma idéia muito clara sobre as preocupações dos conservadores, e a saúde não é uma delas:

O Independent Women Forum enviou à Corte um parecer, argumentando as mulheres já tem acesso irrestrito a métodos anticoncepcionais através do programa Planned Parenthood (o qual, ironicamente, o IWF acha que deveria ter seu orçamento cortado) – e este é apenas o último de longa lista de argumentos deste grupo sobre como o sexo está de alguma forma destruindo as mulheres. A Catholic Medical Association escreveu um parecer argumentando (erroneamente) que os métodos anticoncepcionais causam abortos, mas um memorando de 2011 desta mesma organização esclarece melhor sua posição, ao afirmar que “o uso generalizado de anticoncepcionais contribui para a promiscuidade sexual” (como Bill Maher brincou uma vez, “É como dizer que se você vacinar uma criança contra o tétano, ela vai querer ficar enfiando pregos enferrujados no pé”). O Eagle Forum e o Beverly LaHaye Institute também enviaram pareceres apoiando o Hobby Lobby; eles também ridicularizaram a idéia de contracepção e de mulheres fazendo sexo. E quando mulheres jornalistas cobriram a decisão da Corte Suprema, não foi uma coincidência que a maioria de nós tenha sido chamada de vadias e putas nas redes sociais e em vários outros lugares. Para os conservadores, anticoncepcionais não são uma questão de saúde; são uma questão de sexo, do seu medo do sexo, e do pânico causado pela idéia de mulheres fazendo sexo que não seja para ter filhos. Quanto mais nós ignorarmos essa verdade – ou nos concentrarmos nas razões “válidas” pelas quais as mulheres precisam de anticoncepcionais – mais nós mulheres estaremos fornecendo munição, e abandonando o terreno moral, para a direita.

Os liberais concedem o mesmo terreno quando eles constroem seus argumento a favor do aborto usando os exemplos mais extremos: estupro, incesto e saúde. Sim, as mulheres precisam de abortos por essas razões – mas elas também precisam de abortos quando elas simplesmente não se sentem preparadas para serem mães. E isso é bom também.

Também é bom – maravilhoso, na verdade! – que as mulheres usem métodos de controle de natalidade para poderem transar sem engravidar. Ainda mais maravilhoso: funciona. O surgimento dos anticoncepcionais foi talvez a mais importante descoberta de todos os tempos para a liberação feminina. Nós podemos usá-los. E não só para regular nossa menstruação – mas para fazer um sexo quente, suado, fantástico, divertido e sem qualquer fim de procriação. Isso não nos torna “vadias”; nos torna humanas.

 

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prado*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

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* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

Profissional

Sempre fui o tipo de profissional impecável em todos os empregos (poucos) que tive, é um dos ensinamentos que minha mãe me passou. Mas, pra mim, existe diferença entre ser uma profissional de respeito e se prender para se adaptar a um perfil “aceitável”. E foi assim que decidi assumir minha orientação sexual entre colegas de trabalho…policia-civil-mulher-370x290
Não é sobre isso que queria falar, mas passa por aí! Tem rolado por aqui, em Juiz de Fora, um vídeo de uma policial civil transando com seu marido e alguns outros homens. O que isso me diz respeito? Nada, na verdade, pra mim, é indiferente o que uma policial faz com o marido e com quem mais quiser fazer no quesito sexo consensual. Desejo que ela apenas, como uma policial, seja justa, não aja de forma preconceituosa com negrxs, não ignore crimes contra mulheres cometidos por motivos machistas e torpes.
O que me assustou foi a reação da maioria das pessoas que ouvi falar sobre o ocorrido. O desrespeito à uma mulher profissional por causa de sua vida privada e sexual. Não considero que o número de parceirxs sexuais de uma policial a faça menos capaz de exercer sua profissão. Sinto-me enojada quando falam de bons modos de advogadas, juizas, promotoras e policiais mulheres. Pelo simples motivo de considerar essa história de bons modos machista e reaça. Liberdade sexual não impede mulheres de ser profissionais excelentes. O que acontece é que em certas profissões o tal “se dar ao respeito” é muito mais hardcore. Já é difícil ser atriz ou vendedora, imagine só profissões onde sua “moral” é quesito para o grupo reaça e machista te considerar “incapaz de dar lição de moral ou exercer sua profissão de forma correta”?
Quem sou eu para apontar dedo para uma policial e falar ” quem é você pra me prender? Você é uma vadia!” Sério mesmo? Que pessoa de cabeça pequena pode pensar isso? A maioria dxs conhecidxs que tenho em meu emprego atual. Cada dia tenho mais certeza que não sou desse mundo! Pessoas que ouvem Valesca Popozuda mas não compreendem o recado que ela quer passar!
Nesse momento agradeço a educação que tive em casa, aprendi que a obrigação de umx profissional é exercer seu trabalho de forma impecável, da porta pra fora é problema seu!

Uma História de Sexo

Sexo, pra mim, é das coisas mais divertidas que a gente pode fazer nessa vida. Simples assim! Sem muita filosofia, sem drama. Nunca fui dessas pessoas que “se guardam”, “se preservam” ou sei lá mais o que. Nunca entendi essa linguagem. Claro que tem aí alguns cuidados básicos que todo mundo tem que tomar pra não se estrepar e isso faz parte da socialização sexual: camisinha e consentimento, pra mim, o par inevitável. Embora eu admita que já deixei a primeira de lado algumas vezes, imprudente que fui.

AUTORE

Uma das vantagens de se ter uma vida sexual divertida é ter histórias pra contar. Acumulei algumas boas ao longo do tempo. Uma vez me envolvi com um sujeito casado, história sofrida. Apaixonei-me por ele num piscar de olhos (coisa que não é assim muito sábia, mas acontece nas melhores famílias) O cara nem sempre podia estar comigo o que era ocasião para intermináveis discussões e muita, muita frustração. Já sem saber o que fazer diante disso e covarde demais para terminar tudo, um dia disse num rompante: “Então, tá. Você não vem me ver? Então manda alguém no seu lugar porque eu quero transar hoje.” Qual não foi minha surpresa, quando o gajo, de fato, escalou um amigo para substituí-lo. Mandou-me mensagem no celular: “tenho um amigo disponível pra me substituir. Topa?”

Aí você pára e pensa nesse momento:

a)      Vou mandar esse cara se fuder;

b)      Ah, é? Tá achando que eu vou desistir?

Provavelmente tem várias alternativas a esse dilema, mas eu só pensei nessas duas. Eu fiquei meio espumando de ódio e meio curiosa pra saber quem seria esse amigo substituto misterioso. Afinal de contas, eu sou biscate, paciência, fazer o que? Topei pra ver até onde ia esse troço.

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A única coisa que me importava saber era se o amigo também concordava com essa situação. Afinal, já estava eu pensando no meu combo camisinha + consentimento, não saia de casa sem ele. E ele me garantiu que sim. Combinamos então que o amigo me telefonaria.

Meu caso queria acompanhar todo o desenlace da trama, queria participar dos detalhes do encontro. Aí veio o segundo tempo da negociação toda. Eu digo: “Só vai rolar o que eu quiser”. Nem pense que vai ficar controlando meu encontro que nem videogame, isso aqui não é playstation, meu filho. Não vai ter filmagem, não vai ter foto, não vai participar. No máximo, no máximo, te ligo no celular na hora que a coisa esquentar pra você poder ouvir o geme, geme (eu sou boa em sound effects) E assim aconteceu: o amigo substituto era uma graça, pessoa adorável, bom de cama. O sexo foi incrível e acabou rolando mais de uma vez, várias vezes depois. Claro que o tesão do outro só aumentou depois disso. Aliás, a bem da verdade, nós três ficamos bastante excitados com essa história toda. Um dia cheguei a encontrar os dois, um depois no outro, no mesmo motel. (eu já estava popular na recepção do estabelecimento)Não sei o que significou pra eles dois ou pra amizade deles, pouco me importava. Às vezes imagino que entre eles possa ter havido sexo também, nem que fosse só pela fantasia de imaginar como seria o amigo na cama com aquela mulher, eu. Mas, isso eram os meus devaneios. Eles nunca me perguntavam nada, nem me pediam pra comparar. O que teria sido meio ridículo, cá entre nós.

Pra mim, era uma aventura, alguma transgressão minimamente controlada e negociada. E eu me sentia jogando o jogo junto com eles e no controle da situação porque não acontecia absolutamente nada que eu não topasse e mais, eu sentia liberdade pra propor o que eu tivesse vontade. Nunca tivemos um ménage, ninguém nunca chegou a propor isso abertamente. Mas, éramos os três e durou algum tempo. Pra gente mais atirada do que eu, essa história pode até parecer inocente, mas eu estava me sentindo a própria Anais Nin.

O caso acabou tempos depois, o amigo substituto também desapareceu, como tantos outros mais que vieram depois. Essa não é uma história de amor, é uma história de foda. Tem sentimento, claro, porque a vida não tem graça sem esse colorido do afeto, mas não tem happy ending, só end e ponto final. Também não serve como guia pra auto-estima feminina, tem nada a ver com isso. Não me senti “poderosa”, “sedutora”, ou coisa parecida. Era uma brincadeira, e só.  Três adultos que fizeram um acordo e se divertiram até onde deu.

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Uma conversa sobre corpo

Essa experiência começou numa conversa entre a Lu Nepomuceno e eu. Sobre corpo, padrões, formas. E virou isso aqui: uma entrevista a duas vozes. As perguntas a gente fez juntas, eu umas, ela outras; as respostas, separadas. Ela respondeu, eu respondi. Vai assim pra vocês, pra vocês poderem fazer as próprias perguntas, darem as próprias respostas. Que a gente acha que é um assunto  delicado e premente. A gente optou por não botar imagens: aqui, o que conta são as palavras, os relatos, a imagem que a gente tinha da gente mesma.

1. Como era sua relação com essa questão de gordura/magreza na adolescência? você sentia alguma pressão para ser magra? você era magra?

L: Retrospectivamente eu sei que era magra na adolescência. Porque vejo as fotos. Mas era bunduda, comparando com o resto do corpo. Não me sentia nem magra nem gorda. Eu não tinha (e essa é uma coisa que me acompanha) a sensação de ter um corpo de um determinado modelo. Eu não pensava (e não penso muito) sobre meu corpo. Eu sou meu corpo, eu vivo meu corpo. E era um pouco assim na adolescência, só que sem nomear esse processo como hoje nomeio. Eu não sentia pressão pra ser magra ou mais gorda. Se a pressão existia, nunca dei por ela. Credito isso a uma série de fatores que se entrelaçaram com maior ou menor relevância: eu não via novelas nem tinha acesso a revistas ditas femininas, então não tinha modelos imediatos de beleza, minhas referências eram as atrizes dos filmes de sessão da tarde e, principalmente, corujão, geralmente mulheres da década de 40 a 60, com seios e quadris proeminentes e do tipo voluptuosas. Minha mãe é do tipo dessas atrizes, peitão e quadril, então ficava com a mesma referência. E minha mãe nunca me pareceu vaidosa, no sentido usual. Ela não usa maquiagem, não frequenta academia, essas coisas. E meu pai sempre foi bem apaixonado. Então acho que fiz uma operação mental de que pra ser desejável não precisa reproduzir nenhum destes comportamentos ou que determinado tipo de corpo é mais legal que outro. Além disso, eu estudei dos seis aos dezesseis anos em uma escola em que todas as alunas eram mulheres. Me acostumei com a diversidade do corpo, acho, especialmente porque não havia muito esse lance de “mais bonitas” ou “mais magras”. Depois tive o privilégio de fazer a faculdade de psicologia (e, concomitantemente, análise) e essas questões do corpo se tornaram ainda menos importantes em termos de forma e mais no que tange a existência.

R: eu era muito magra, mas isso é algo que vejo também retrospectivamente. Gostava muito de ser magra, mas não me dava conta do quão magra era. Era (sou) muito peituda, e isso me incomodava; naquela época, o bonito era bunda grande/peito pequeno, o modelito da minha mãe, da minha irmã. Eu era basicamente o oposto, e preferiria ser como elas. Minha mãe é muito diferente de mim fisicamente, tem cara de índia, corpo de índia. E eu achava lindo e tinha pena de não ser assim. Olhando fotos hoje, me assusto com o fato de não me dar conta que era tão magra.

2. Você me parece ter uma relação mais livre com o corpo do que quase qualquer pessoa que eu conheço. Isso é natural ou foi fruto de um processo?

L: Como eu comecei a falar antes, nunca foi uma questão pra mim isso de ser magra ou gorda, bonita ou feia, etc. Não diria que é natural, no sentido de inato. Diria que foi um processo que eu não precisei deflagrar conscientemente. Foi mais a forma como eu pude organizar e simbolizar as coisas que me aconteceram e como me aconteceram e como eu agi sobre elas e assim uma coisa leva à outra… Acho que uma coisa importante nessa trajetória de sentir o corpo à vontade (e não só no que se refere a ser gorda, porque como eu disse isso nem era questão pra mim, mais de coisas como se vestir, maquiagem, etc) foi questionar o ridículo, eu lembro de pensar as pessoas importantes pra mim me respeitariam e gostariam de mim independente de como eu me apresentasse e as que não me respeitassem e gostassem usando como critério a forma como me apresento não eram pessoas que eu me interessasse que se tornassem importantes pra mim. Depois generalizei isso pra um monte de coisas, especialmente pros relacionamentos afetivo-sexuais-amorosos (depois relativizei e suavizei, mas, né, as bases já estavam postas).

R: minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras. Mas com relação a sexo, acho que sempre foi. Tinha um modelo bacana em casa, tinha uma família (pais, tios, avós) que gostava de sexo e deixava isso transparecer. Além disso, sempre encarei sexo como uma atividade que se aprende. Tenho muita preocupação com esses discursos que enfatizam uma suposta “centelha mágica”, um “clique” e tal. Pra mim sexo é que nem paladar, se educa, como um gosto; é que nem outra atividade física qualquer, se aprende e se exercita. E quanto mais se exercita, mais se descobre.

3. Hoje em dia, pode-se dizer que você seja “fora do padrão”, em termos de peso. Alguém já te cobrou isso? Como é que você lida com isso na vida?

L: De manhã, quando vou tomar banho, tiro a roupa na frente do espelho de corpo todo, olho e penso: que gostosa! No instante seguinte começa a avaliação: a barriga tá caída, a gordura das costas, olha aí a papada. Como eu lido? Não fico pro instante seguinte ;-)

O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. Acho que existem (ou eu sinto) dois tipos de cobrança/situações. Uma que é estrutural. Não precisa ninguém dizer que eu estou errada em ser gorda: a poltrona do avião diz, as marcas de roupas que não produzem acima de determinados números dizem, os personagens de filmes e novelas que sempre se definem pelo corpo dizem (gordo é repulsivo, meio bobo, às vezes é engraçado, mas nunca sexy ou inteligente de fato), as matérias parciais nas revistas e na televisão sobre dieta, estilo de vida, etc relacionando peso com valores morais e comportamentais dizem(pessoas gordas são preguiçosas, não tem autoestima, precisam de uma mudança de vida). O outro tipo de cobrança/situação me chega por meio de ações e ditos contraditórios das pessoas que me amam e/ou são próximas. Minha mãe, por exemplo, de vez em quando me pergunta se eu não vou emagrecer, que essa barriga não é saudável e tal. Mas quando vou visitá-la me elogia, me acha linda, serve cerveja e cozinha um monte pra mim. Ou a amiga que vem conversar comigo porque agora estou namorando e preciso (sic) me cuidar mais (me cuidar mais = emagrecer e aparentar mais vaidade como usar batom) pra que o moço não perca o interesse mas que super me admira (e isso não é uma frase irônica, eu sei que ela realmente gosta de mim, me aprecia, me acha sensacional) e deseja ter minha (sic) segurança e autoestima. Ou ainda como moços por aí que já me perguntaram se eu não vou emagrecer ou se eu não me acharia mais bonita mais magra, mas sempre quiseram rala e rola e na hora do rola e rala é nos “excessos” que eles se empolgam. Então, eu rio. Você pergunta como lido com essas cobranças e eu penso isso: eu gargalho. Porque as opções são: emagrecer (não vou), sofrer com isso (não gosto), ou rir e viver (prefiro). Então eu digo pra mamys que a comida tá gostosa, digo pra amiga que não espero do moço interesse eterno e que se o critério dele fosse magreza e maquiagem certamente ele teria se engraçado por outra pessoa e, bom, nunca respondia pros moços, tava ocupada e de boca cheia, hohoho.

R: meu momento mais “no padrão” – uma afirmação disso – foi quando, aos 24 anos, fiz um book com um fotógrafo. Era meio terapêutico, uma maneira de deixar pra trás uma certa sensação de “patinho feio e inteligente” que me acompanhava. Tinha aquela coisa dos seios grandes, de ser “de outro padrão”. Branca, peituda, magra. Quando eram valorizadas as curvilíneas, morenas, de peitos pequenos. Adorei fazer as fotos, posar, achei que ficaram bem bacanas (num sentido meio teatral, já que a maquiagem, as poses, não era eu de verdade); outros acharam também e isso é espelho, é onde a gente se reflete e alimenta autoestima. Mas sempre valorizei muito a “dinâmica” com relação à “estática”: não tenho nenhum apreço pelos ditos belos (na beleza padrão de revista e de TV). Sempre gostei de brilho no olho, de gargalhada, de jeito de ser. Desde criança, eram esses os meninos que me encantavam: os que “sabiam ser”, e não os chamados de bonitos. Aí me encontro com esse olhar generoso que você diz que exercita: gosto de encontrar belezas, e encontro. Na pele, no corpo, mas também e sobretudo no movimento, no andar, no falar, nos gestos de mãos, no inclinar de cabeça, no acender um cigarro, no segurar um copo. Em homens e mulheres. Tenho muita pena dos homens que não admitem achar outros homens bonitos, como se lhes faltasse um pedaço, sabe.

4. Você, como mulher e ativista, reflete sobre essa questão da opressão a corpos, particularmente intensa no caso das mulheres. Queria que você comentasse um pouco isso, inclusive falando do contraponto: a magreza.

L: Eu me inquieto que a publicidade designe determinadas representações para as pessoas gordas. Eu questiono a indústria da moda. Eu me indago sobre os estereótipos reproduzidos em filmes, séries e novelas. Mas a minha questão não é apenas se o padrão atual é opressivo para as mulheres/pessoas gordas. É que exista um padrão ou que existam padrões que escalonem que corpos são mais bonitos, desejáveis, aceitáveis. Os corpos são diversos. São gordos e magros e altos e baixos e jovens e velhos e cada um tem a sua beleza. Não é com a reordenação do que é melhor que se constrói uma sociedade inclusiva e acolhedora, acho eu, mas com a aceitação de que não há melhores, há os corpos que levam a vida que levamos.

Nem sempre o discurso da militância está atento a essas matizes e, algumas vezes, culpabiliza as mulheres magras no lugar de se estar atento à estrutura. Eu acho que não interessa se a mulher é magra por metabolismo, por estilo de vida ou porque se esforça em dietas, cirurgias e diversas intervenções com maior ou menor sofrimento físico ou psíquico. Não interessa se a mulher é mais ou menos refém do discurso da beleza magra. Nós não temos que ser questionadas individualmente, acho. A questão deve ser sempre a busca de uma mudança na cultura. Para que as mulheres, as pessoas, não tenham mais que sofrer pra se enquadrar.

Eu acho que a questão central de opressão dos corpos não é a gordofobia, embora seja essa a manifestação mais evidente e cruel que vemos na convivência social diária. Penso que o que está mais no cerne é o escrutínio e o controle sobre o corpo feminino. O fato de que não questionamos as sucessivas avaliações e julgamentos pelos quais o corpo feminino passa, seja por ser gordo demais, magro demais, malhado demais, velho demais, negro demais, com pelos demais se mantém, acho, intrinsecamente relacionado com a legitimidade de que um saber externo e terceiro decida e opere sobre ele, seja a medicina, a religião, o Estado.

R: achei muito pertinente isso aí que você falou. Embora o problema da “gordofobia” seja, também, um problema prático: as pessoas não cabem. Nas roupas, nos assentos, nas passagens. Como se esse mundo não fosse feito para elas – o que, evidentemente, gera outras dores. Mas a magreza considerada excessiva também pode ser foco de muita reprovação e de muita sensação de inadequação. Assim como a busca dessa magreza vista como beleza e perfeição pode levar à doença, na forma do binômio bulimia/anorexia. Identifico-me com isso também, já fiz dieta (quando já era bem magra, mas não via isso) e cheguei a pesar 49 kg para 1 metro e 68. Só me dei conta de que estava indo além do razoável porque quase desmaiei na aula de canto. O resto das pessoas, em volta, me aplaudia. E isso também me assusta retrospectivamente. Ontem ouvi no rádio um comentário sobre “pneus” da Fernanda Lima: um horror, a invasão, o direito que as pessoas se arvoram de ficar falando mal do corpo das mulheres ( e ela tem corpo, basicamente, de modelo), porque são gordas, magras, idosas demais para usar biquínis…. isso sai tão espontaneamente, é tão naturalizado… como se fosse uma espécie de obrigação das mulheres. Como se fosse reprovável não cultivar e manter certo padrão de beleza, sendo mulher.

5. Como você se posiciona em relação às diversas inciativas de busca de emagrecimento, tais como dietas e cirurgias plásticas?

R: Já escrevi sobre isso (no texto “A Mulher em Bancas”): acho isso tudo uma prisão do cacete. E que fique claro: não é uma reprovação – mais uma – à mulher que acha que deve corresponder ao padrão x ou y e para isso faz o que considera necessário, mas sobre a sociedade que as empurra para esse padrão cada vez mais estreito. Estava lendo estes dias, por exemplo, sobre a onda de rinoplastias no Irã: de onde vem isso? Os narizes lá tendem a ser naturalmente aduncos, mas o padrão estético ocidental é diverso. No universo do cinema, as mulheres são cada vez mais iguais. E isso me entristece, porque a isso corresponde também um estreitamento do nosso sentido de beleza: quanto menos diversas as belezas possíveis socialmente, menos aguçados estarão nossos sentidos para percebê-las. Há, por assim dizer, um certo embotamento social da percepção do belo. Que ocupa um espaço cada vez mais estreito. Por mais que a gente (eu, você) se revolte contra isso na prática, construindo nosso próprio sentido de beleza, é uma luta inglória. Dá uma passada numa banca de jornais e olha só as capas de revistas femininas: uma mesmice só. Tristeza. E ao mesmo tempo, a certeza de que a gente tem que ir adiante. E questionar, e mostrar outras possibilidades, e fotografar, filmar, exibir, discutir. Ampliar. As redes permitem isso. Vamos aproveitar.

L: Concordo inteiramente com você, não se trata de avaliar e condenar as mulheres individualmente, eu penso no sofrimento silencioso sedimentado diária e imperceptivelmente que nos conduz a esse olhar critico sobre nós mesmas e as exigências que construímos a partir daí. Sinto que as iniciativas individuais são a forma como cada uma consegue lidar com sua história, com as demandas sociais, com os padrões. E devem ser respeitadas ao mesmo tempo em que não se pode deixar a peteca cair no questionamento do porque, na reflexão sobre o cenário em que essas ações se tornam necessárias.

6. Como você entende a questão corpo magro X saúde X corpo gordo?

R: A questão da saúde, pra mim, já é uma questão. Quer dizer, essa obrigação de ser saudável (ainda antes de falar do gordo x magro) já é uma coisa questionável. Por quê? Nem sempre foi assim. Se eu escolho beber, ou comer aquilo de que gosto, ou ser sedentária e viver com meus amigos nos botecos da vida, por que isso seria pior do que a vida daquele que escolhe ir à academia todo dia, só comer tal ou qual coisa, ser moderado, não fumar…? Um “sim” – à vida saudável – tem sempre um “não” embutido – às atitudes consideradas não-saudáveis. Que podem ser as que me dão prazer, as que me trazem conforto. Pode ser o que eu tenha vontade de fazer. Eu ou qualquer um. Ninguém deveria ter o direito de se meter na vida dos outros como se metem, dizendo “você devia malhar mais”, “devia comer mais verduras” e tal.
Tem aí uma reprovação meio moral que me dá agonia. E olha que comigo isso não acontece; apesar de hoje eu estar um monte de quilos acima da magreza original, não tem ninguém me dizendo que eu devia isso ou aquilo. Mas vejo acontecer, muito. E aí tem esse outro ponto: as pessoas consideram, a priori, que magro é igual a saudável, gordo é igual a doente. E não adianta a pessoa gorda argumentar com resultados de exames, com dados concretos: é um a priori muito estabelecido, se você é gordo, algo de errado deve haver com você. A contrapartida é que se você é magro, nem sempre identificam a tempo quando há algo de errado com você, como em tantos casos de anorexia não-identificada.

L: eu responderia assim, do jeitinho que você respondeu. Que não há nenhuma garantia a priori de que o corpo magro é saudável e o corpo gordo não, que essa equação é sustentada pelo preconceito. E, para além, que nenhum discurso seja estético, médico, moral ou religioso externo deveria pautar e moldar os corpos e suas vivências acriticamente. Incluindo o paradigma da saúde como meta e da juventude como momento a se preservar e perpetuar o máximo possível.  Me preocupa a forma como o discurso estético se entrelaçou ao discurso médico e o poder que o discurso médico tem sobre o corpo, especialmente o corpo feminino (como bem se percebe em relação a questão do parto). Fico pensando se não caminhamos, em algum grau, pra uma certa patologização do viver contraditoriamente sustentada pela busca ativa da vida mais “corretamente” vivida. Uma coisa que eu costumo repetir é que eu levo a vida do corpo que levo e levo o corpo da vida que levo. Não acho que é modelo pra todo mundo, mas conforta e acolhe.

Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

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