Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

burca-mulher (1)

Pois é. Teve a cena lamentável do Gerald Thomas esta semana, enfiando a mão por baixo da saia de uma constrangidíssima Nicole Bahls. Muita gente já falou disso, embora talvez menos do que eu esperasse. Tem sempre um subtom “assunto de mulher”. Ou será hipersensibilidade minha?

Mas não resisti a comentar o comentário do próprio Gerald, no seu blog, defendendo a “brincadeira”. E é isso que o “artista” tem a dizer, como se pode ver aqui:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!)

Aí, amigo, é “perdeu, playboy”. O melhor que Gerald teria a fazer, o mais honesto, o mais honrado, seria pedir desculpas por, na nossa sociedade hipermachista, fazer brincadeira com a violência sexual que é assunto cotidiano das mulheres. Extremamente cotidiano, como mostra este relato da Adriana Torres, corajosamente levantando o véu sobre histórias que vezes demais são sofridas em silêncio. Do nosso lado. Conosco. Todo dia. Um doloroso relato intitulado, significativamente, “Ser Mulher”.

Não que eu de verdade esperasse desculpas: mas me impressionou a naturalidade com que ele  usa a argumentação mais machistamente clichê, mais canalhamente comum, de culpabilizar a vítima, de bunda quase de fora, de salto alto de “fuck me”.

Uma pessoa usando salto alto de “fuck me” já abdicou, segundo esta lógica, de sua dignidade: esse sapato, essa roupa. Tsk, tsk. Tão oferecida. Tão indecente. Ela tava pedindo. Foi só uma brincadeira, e essa “gentália hipócrita” não entendeu.

Incrível como o argumento é tão igual ao do agressor de todo dia. Mulher pode ser mulher, desde que. Embora. Apesar de. Contudo. Pode ser, com restrições. Com contingências. Os sinhozinhos de engenho entenderiam tão bem a explicação de Gerald. Claro. Ela estava usando saia curta, sapatos de “fuck me”. E tantas vezes é isso: se estivesse de saia comprida. Se não tivesse me olhado desse jeito provocante: olhar de “fuck me”, por suposto. Se seus quadris não rebolassem tanto. Se não tivesse esse decote.

No fundo da minha mente, tem aquele filme fantástico com a Jodie Foster e a Kelly McGillis: “Acusados”. E esse é o nome em português, mas o nome em inglês é “The Accused”. Ambíguo. Porque é essa a história do filme: uma garçonete (Jodie), que bebe demais, que sobe em cima da mesa de um bar, dança provocantemente, e é estuprada por um grupo de frequentadores seus conhecidos. Ela os acusa de estupro, mas o julgamento acaba virando um julgamento dela também: da sua saia, de seus hábitos, do fato de ela subir em cima da mesa, de dançar provocantemente. Acusados? Acusada? Roupas de “fuck me”, dança de “fuck me”. No filme, a advogada brilhantemente interpretada pela Kelly McGillis consegue fazer prevalecer seu ponto de vista: estupro é estupro, e não importa a roupa, o comportamento da vítima.

Accused

O filme é da década de 80, mas parece que pouca coisa mudou desde então.

Nada de novo nesse front, Gerald. Você, que posa de artista transgressor, falou como falaria qualquer machistazinho de plantão por aí, culpando a vítima que “pedia” sua agressão, com seu vestido, com seus sapatos. Tudo tão igual a dantes no quartel de abrantes. Tão tristemente igual. “A vadia tava querendo”. “Ela era biscate.” “A gente bateu nela porque pensou que era puta”. Ou viado. Ou travesti. Tudo tão igual. Nesse mundo machista da porra, você conseguiu ser igual a todo mundo. Tristemente igual a todo mundo.

Nesse mundo machista da porra, onde um “artista transgressor” se sente à vontade para se justificar dizendo que a moça estava “(praticamente) de bunda de fora, salto alto de ‘fuck me’.” E, não sei em vocês, mas em mim ficou ecoando esse termo. Incomodando,  machucando, ressoando: “salto alto de ‘fuck me’”.

SaltoVermelho

Meu cu não é troféu

Dia desses um escritor pulicou em sua coluna semanal por aí que o sexo anal é uma dádiva, que era um presente, que, salvo com as mocinhas mais perversas (e acho que ele inclui as biscates aqui) era algo que acontecia só de vez em quando. O texto, até cheio de boas intenções tal como o inferno, esqueceu um detalhe: o prazer. As mulheres fazem sexo anal, dão o cu, liberam a porta de trás porque sentem prazer, não porque querem premiar o namorado/amante/marido/rolo/amizade colorida/sexo casual.

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Foto do espetáculo Macumba Antropófaga, do Teatro Oficina

Tati Quebra-barraco já tinha dado (ops) o recado há muito tempo: dar o cu é bom. Simples assim. Sexo anal é uma prática sexual como qualquer outra. Salvo o tabu que existe em torno do tal buraco. Sexo é um assunto dos mais tabus nessa sociedade de tradição judaico-cristã em que viemos parar, imagine só falar por aí que dar o cu é gostoso, prazeroso. Pobre Sandy quando declarou que “é possível ter prazer anal”.

É talvez esse tabu que impeça que as mulheres explorem seus corpos e se permitam sentir prazer. (E nem pretendo entrar na pauta do quanto é tabu para homens heterossexuais falar sobre seus cus). Sexo anal dói? Claro que dói. Dói quando a mulher não quer e o parceiro insiste, pressiona, chantageia, força e ela acaba cedendo. Dói porque ela não queria. Dói porque não havia desejo ali. E quando não há tesão nem 20 litros de KY resolve. Quando se quer, um cuspezinho resolve qualquer problema.

Foto: Spencer Tunick

Foto: Spencer Tunick

Sexo anal não é prêmio porque meu cu não está para ser conquistado. Se já ousamos gritar que “a porra da buceta é minha”, que tenhamos o prazer de gritar que o cu é nosso também. Que damos, ou não, ele a quem bem entendermos, quando e quantas vezes quisermos. Que não somos “mocinhas perversas” porque gostamos de ser penetradas pelo cu vezes seguidas numa daquelas trepadas ocasionais. Por cus mais livres e menos policiados.

De Sexo Não Pode!

Todos os dias, meu facebook é bombardeado por piadinhas machistas, racistas, que fazem graça da situação financeira e social de pessoas menos favorecidas e homofóbicas. Um amigo meu me mostrou uma quadrinista muito promissora, que fala abertamente sobre sexo. Aí, quando menos se espera, tem uma pessoa, uma pessoinha que decide fazer o que muitas pessoas puritanas fazem reclamar de uma página de quadrinhos, dizendo que ela faz apologia ao erotismo e não é adequada ao facebook. O que não é adequado ao facebook? Sexo? Ofensas, maus tratos, preconceito é adequado, sexo puro e divertido não é? Realmente me indignou ver isso acontecer!

Ótima tirinha falando de como mulher não gosta de homem com dinheiro!

Ótima tirinha falando de como mulher não gosta de homem com dinheiro!

Eu sempre fui da seguinte filosofia: se eu não gosto e não me ofende, eu não leio. Até onde eu sei, sexo não ofende a ninguém (sexo é tudo que é feito com consentimento de ambos os lados). Falar de forma pejorativa de seres humanos por causa de atitudes, orientação sexual, gênero,cor de pele, roupa que usa ou por gostar excessivamente de sexo, isso sim ofende. Esse post de hoje é mais um post de desabafo, um post de pedido de apoio pra Bianca, compartilhamento em massa, comentários nas redes sociais. Se tem puritano que não aguenta a liberdade do outro, vai ter que engolir a liberdade a seco, goela abaixo!!!!!!

Um dia o Tesão fugiu e foi o melhor dia da minha vida!

Um dia o Tesão fugiu e foi o melhor dia da minha vida!

Em um mês em que assisti minhas meninas falarem com voz sobre discriminação durante rodas de conversa, que plantei uma sementinha de mudança na cabecinha dos meus meninos, também nesse mês onde vemos algo tão ruim se transformar em uma comoção geral, esse mês é mês de luta (não que os outros 11 meses do ano não sejam!), é mês de fazer valer nossos direitos, de escolher como, com quem, com quantxs, onde e em qual posição vamos gozar. Sexo é liberdade, gente! Não é só quando é sexo feito de forma forçada, é também quando é sexo proibido, guardado a sete chaves, enrustido, não feito por moralismo! Violência sexual tá em qualquer atitude que nos força a fazer o que não desejamos, pra mais ou pra menos.

Orifício controverso

Ela pedia. Ele negava. Ela queria, ele adiava. Era simples: ela queria que ele comesse seu cu. Ele vivia atormentado pela ideia de que não sabia comer cu. E o que será que ele tinha que toda mulher com quem ele ficava, encasquetava de querer dar-lhe o cu? Não que ele não gostasse de cu, até achava bonito ver alguém enrabar outrem, mas é que não era a sua preferência. E tinha aquela coisa toda de que todo homem “de verdade” deve gostar de comer cu. De mulher, claro. E se ele era homem só podia querer comer um cu. Ora se não…

Ela gostava mesmo. Se estava com um homem na sua cama e ele não tentasse comer seu cu, já ficava cabreira. Pedia, com um tom de ordem: “come meu cu”. Assim, sem nenhuma cerimônia. Gostava e não negava. Gostava e pedia. Prazer maior não havia ao sentir um dedo entrando, depois o segundo…Explodia de tesão quando sabia que era hora do pau entrar no seu cu.

orifício

O sexo entre eles era uma coisa assim…meio que sem palavra pra explicar, sabe? Era dos melhores que ambos já experimentaram. Pena que o cu ainda não tinha entrado na festa. O orifício controverso que ela queria tanto, e que o atormentava tanto. Uma noite, tiveram uma conversa: “se você não comer meu cu, está tudo acabado”. Ele perdeu o prumo, não tinha resposta ali, naquela hora. Pediu um tempo pra pensar e ela que era dada a dar, deu-lhe o tempo: uma semana.

Sete dias se completaram. Ele não apareceu; ela entristeceu. Mas ponderou e sabia que não conseguiria seguir daquele jeito. “Sem cu, nada feito”, bradou sozinha no apartamento.

Surpresa sua: ele chegou com uma fome de anteontem. Mãos, bocas, saliva, suor, pau, buceta, peito, bunda, tudo ali e eles desfrutando. Estava tão bom, mas ela teve que perguntar: “vai comer meu cu?” Ele se levantou. Foi até a sala e voltou com sua mochila. De dentro dela tirou um consolo e disse-lhe: “coma você meu cu”.

Andréa e o Poliamor

#LuznasMulheres

O Dia Internacional da Mulher não é um dia para louvar o feminino – seja ele interpretado como esmaltes, maternidades ou comportamento independente. O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta. Um dia que nasceu da luta das mulheres por seus direitos, igualzinho como fazemos hoje. Um dia que marca e lembra o quanto a nossa sociedade e cultura ainda é machista. Um dia que marca e lembra que o combate não é só por direitos, contra a violência ou pelo aborto (embora todas essas bandeiras sejam vitais) mas é, principalmente, uma luta de desconstrução das referências culturais que têm um lugar certo para a mulher e esse lugar é de brinquedo, enfeite, complemento, propriedade. A luta é pela diluição das referências de masculino e feminino em uma igualitária e festiva reordenação da realidade.

Entre as referências cruéis e estigmatizadoras na sociedade atual temos a da mulher negra como a “carne mais barata” seja como mão de obra precária (especialmente para serviços domésticos) seja como mulher boazuda e fácil. Mulher negra, na nossa sociedade, não é “pra casar. Mas hoje, sob os holofotes da Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da MulherAndrea, mulher, negra, que desafia os padrões e tem não um, mas dois maridos. E que vive com eles não uma orgia fetichizada, mas um relacionamento de respeito, companheirismo e, também, desejo. Uma mulher que resiste, luta, ama e goza. 

EU

DSC00572 (2)Andréa, 38 anos casada com o Sérgio há 11 anos e agora com o Fernando há 1 ano. Ultimamente é só disto que as pessoas se lembram, mas antes de tudo isto sou Andréa irmã, filha, sobrinha, cunhada, tia, amiga, inimiga, patroa, vizinha…

NEGRA E POLIAMORISTA

ser uma mulher negra dizer que é difícil??? Sim é, as cobranças para nós são sempre dobradas…é difícil lidar com algo que quando menos esperamos nos toma de assalto. É assim que vejo o preconceito, quando menos se espera ele vem em nosso encalço, quando nos esquecemos que ele existe, ele da a volta na esquina e volta para nos lembrar, que ele esta bem…nos dar lembrança. Vivemos num mundo como se ele não existisse, para muitos é fácil se alienar, se entregar ao descaso, se iludir, mas no fundo todos sabemos que ele esta ai, todo tempo… POLIAMORISTA? a maioria das pessoas nem sabe o que é, preferem dizer que fiquei louca, perdi o juízo, virei biscate, galinha, piranha…e isto sim é complicado, fazer-se entender sem ter rótulos, mas nada é mais complicado que administrar dois amores, duas vidas, organizar a tudo e todos, se dividir querendo se juntar…

poliamor

MULHER

Do meu ponto de vista ser mulher se tornou mais fácil para muitas…e muito difícil para outras. Para a Mulher com M maiúsculo se tornou mais fácil: tomar decisões por si só, trabalhar, ter compromissos consigo, ter e educar filhos, casa, trabalho, família, amor(es),  estudar, ser independente. Enfim é uma lista que não tem fim, rs… Agora para as com m minúsculo se tornou difícil, assumir toda estas responsabilidades não é pra todas, muitas ainda preferem se esconder atrás de uma vida estável, onde alguém decida por ela, é cômodo viver assim (Por que fazer algo se tem alguém que faz isto pra mim?) claro ha seu preço, mas muitas preferem o preço alto da auto anulação em troca de… digamos conforto????

 AMAR

Eu sempre fui uma pessoa digamos…curiosa. Muito curiosa com a vida, casei achando que era a única rota da vida de uma mulher, nascer, crescer, estudar, casar e ter filhos.

Acho que todas nós compramos a ideia do príncipe encantado vindo nos buscar em seu cavalo branco onde montaríamos e iriamos seguindo rumo a eterna felicidade… Andamos, andamos, andamos e uma hora o lombo começa a doer na longa estrada sem fim. É sem fim por que nunca chegamos ao destino final, no caminho vem as indagações… tá demorando muitooo, tá muito longe, muito calor, o príncipe????  continua príncipe, o cavalo branco cada vez mais branco…mas e o final feliz…a eterna felicidade me prometida ainda na infância??? Bom já sabemos o final…saímos da rota…

Descobri nesta longa estrada que ninguém pode me completar totalmente, o totalmente talvez seja uma palavra que não exista nos relacionamentos. Troquei o feliz para sempre pelo companheirismo, a amizade, o amor incondicional, sim vocês não leram errado, o que tenho pelo dois é AMOR INCONDICIONAL (pra quem não sabe pode ir lá buscar no google, tem a definição oficial) não encontrei o final feliz mas aprendi a amar com mais qualidade, mais significado, aprendi que o companheirismo vem antes de qualquer outra frase bonita, o olhar na janela da alma e se debruçar nela, se encantar com os momentos coma leveza da vida.

Sim. A vida pode ser leve. Amar é algo maravilhoso, agora por o amor no plural é melhor ainda. Definir me desculpem…é impossível…me tornei especialista em sentir apenas…

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Fernando e Sérgio: maridos

 FEMINISMO

Me descobri feminista antes mesmo de saber o que é ser feminista, venho de uma família de mulheres fortes, mulheres que sempre tiveram de lutar pela sua vida, pela vida dos filhos, pelo sustento da casa, pelos direitos humanitários, raciais, de uma família onde em gênero e grau 90% ficaram sozinhas, afinal até a geração passada pouco homens  aceitariam coabitar com uma mulher assim…(INDEPENDENTE) muitas delas nem sabem o que é ser feminista, mas sabem lutar como leoas pelos seus direitos, pelo que acreditam, crescer neste ambiente se torna difícil não se descobrir feminista.

BELEZA

Beleza para mim é algo muito pessoal, nada parecido com o que a mídia nos vende, pra mim a beleza vem de dentro, sei que isto pode até parecer clichê mas eu não vejo as pessoa bonitas, eu as sinto bonitas… Mas vivemos num mundo estereotipado, infelizmente a grande massa humana prefere comprar esta imagem que se é vendável e vendida nas pratelereiras, as pessoas hoje estão muito voltadas para o externo, isto complica e limita todas as outras formas de beleza.

Me considero bonita mais pelo conjunto do que pelo externo, aprendi a me sentir bonita apesar de toda a carga negativa que a sociedade coloca sobre nossos ombros. Infelizmente a sociedade segue o que se é imposto a ela, a grande massa quer ser identificado como igual a todo custo, ser diferente ainda é para poucos, na verdade ainda poucos suportam as cobranças do ser diferente, quando as pessoas entenderem que ter e assumir a sua própria personalidade é mais bacana, dá prazer, traz segurança, teremos mais pessoas saindo da rota da massificação da beleza.

PRECONCEITO E POLIAMORISMO

Simmmm…mas é mostrando respeito que somos respeitados, a tendência de todos que sabem que vivo com dois amores simultaneamente é de levar meu relacionamento para este lado mais sexual, muitos deliram com a idéia simplesmente por sexualizar a situação, dismistificar isto para mim é porta central para tirar os relacionamentos poli da marginalidade…

Tenho um relacionamento normal de homem e mulher com os dois, as pessoas imaginam que vivemos numa orgia diária. O sexo dentro de qualquer relação mulher x homem é importante, .o sexo para mim é algo que faz bem, nos ensina mais sobre nós mesmos, é um momento de nos recolhermos para dentro, e na relação o sexo une, complementa, mas não é a parte centralizadora de nada, tanto que temos ai o swing, para desmistificar muita coisa sobre o sexo no relacionamento.

poliamor

SONHO

Sou uma completa sonhadora. Sonho sim que o poliamor vai ser retirado do armário, que as pessoas vão ter mais coragem de se assumirem e mostrarem para a sociedade que o amor algo tão sublime não tem que ser limitado mas sim ser expandido. E sonho que quando isto acontecer teremos uma sociedade mais feliz, mais satisfeita, menos preconceituosa. O amor faz isto com as pessoas, o amor cura, não imagino que todo mundo venha a ser poliamorista, mas sim que as pessoas tenham o direito de escolher como querem viver suas vidas conjugais ou não e que sejam respeitadas, que a sociedade entenda que o direito de escolha é para todos e é  valido em todas as situações. Sonho que a minha família venha a ser apenas uma de muitasss que virão…

E MAIS…

Gostaria de dizer que o poliamor é um começo da desmistificação de muitos preconceitos, muitas pessoas se escondem, vivem vidas paralelas…onde se gera muito sofrimentos desnecessários…amar mais de uma pessoa é HUMANO…somos feitos para amar e funcionamos melhores quando estamos amando…

Dando Um Empurrãozinho ou Sexo e Rotina

Por Verônica Mambrini*

Sexta-feira, mala pronta pra viajar, só esperando ele chegar para juntar as mochilas no porta-malas e cair na estrada. Será que dá tempo de uma rapidinha? Sem muitas preliminares dessa vez, só a pressa cedendo à urgência. Vai que dá! Então vamos.

Uma amiga tava pedindo dicas numa lista em como fazer a vida sexual andar. Porque ela gosta do esporte, até queria mais, mas chega em casa cansada e sem pique. E o par (felizmente) sempre quer. Proseamos como resolver a parada. Aí lembrei de bolas-fora e outras dentro.

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- Se você chega cansada, nada de embarcar no banho morno e massagem. Para quem está semi-morta, em vez de preliminar, vira um convite pros braços da pessoa errada: Morfeu. Vale mais uma ducha rápida pra acordar do que um banho longo para relaxar.

- Pensar em sexo já é parte do próprio sexo. Excitação, além de ser um processo físico, é um processo mental. Então me arrisco a dizer que esse é um dos poucos casos em que a correlação entre mentalizar e acontecer é direta e comprovável. Isso ajuda também a resolver o problema de descompasso entre um que chega zonzo e com a cabeça na lua e o outro que já está em ponto de bala. Ter e partilhar ideias no caminho do trabalho pra casa, mensagens sexys, uma pequena provocação, o assunto pulando safadamente no meio de uma conversa sobre qualquer outra coisa, tudo isso pode colaborar com o clima desejável.

- Se o querer sexo existe, mas falta pique de começar, por que não pegar no tranco? Começar mesmo sem estar louca de vontade pode ser suficiente para noite com final feliz, num relacionamento bacana. Se ambos gostam, a tendência é o prazer da relação começar a falar por si só, soterrando a preguiça, o desânimo e outros bloqueios. Indispensável que o ambos estejam tranquilos com a possibilidade de não pegar no tranco, se a tentativa não vingar. (por favor, pegar no tranco não é submeter-se à violência, mas dar aquele empurrãozinho, seja com imaginação, seja com carícias, pra desejo sexual comparecer)

- Simplificar é bom. Numa sociedade em que tudo tem que ser espetacular, inesquecível e performático, o sexo não escapa dessa sina. E com isso perdemos os pequenos prazeres de uma rapidinha inesperada, da falta de expectativas. Não ter pretensão nenhuma é uma delícia.

- Eu particularmente acho importante reservar um certo tempo para sexo na vida. Em outras palavras, priorizar. É muito fácil colocar uma pilha de outras coisas, sejam tarefas ou lazer, e acabar deixando passar eternamente. Claro que não é ter o sexo como uma obrigação a marcar com checklist, mas como algo que faz parte da rotina, prioritário e se nunca sobra tempo pra ele, pode ser sinal de alarme.

Claro que isso não é um guia salva-pátria. Não são nem exatamente dicas, mas muito mais uma perspectiva. Nem que eu quisesse saberia fazer um manual, pessoas são tão diferentes. Mas espero sinceramente que ajude a biscatagem a esquentar com mais ânimo os lençóis e os travesseiros (conjugais ou não).

vevê* Verônica Mabrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

Dos Latifúndios Emocionais

Não, não é fidelidade sexual. Não apenas, não desse jeito. Esse texto não pretende trazer letras cruas sobre relações extraconjugais, sexo fora das “mono-relações”, “traição”, nada que se refira ao termo. Até porque, não é isso, não só isso. É algo mais. Embora o tema das famosas “traições” caiba aqui, não é ele que eu quero que seja meu foco. Nossa querida Renata Lins já escreveu, para mim, o texto sobre o tema aqui no nosso clube, texto maravilhoso que vale a leitura e a reflexão, sempre. E, a partir dele, convido-os, leitores biscates, a irmos em frente. Tirem os sapatos, as roupas apertadas, o medo de estar nu, o nó no peito, a tensão, o ciúme, o medo da perda, o medo da liberdade do outro e de si próprio. Pelo menos um pouco. Um descanso. E engatemos a primeira. Adelante!

- corta –

Rainer Maria Rilke, em seus últimos escritos condensados em um livro chamado “O testamento”, anota em seus diários algo rico, que escreve depois de pensar e pensar e se revirar sobre o amor e a solidão:

“E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida. Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah,…, resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim. Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

- corta –

Rilke, corajosamente, nos conta um segredo: não podemos escapar de nós mesmos. O caminho individual é uma rica e poderosa jornada. É dentro da gente que temos o abrigo mais precioso, mais confortável e mais acolhedor, um útero que nos gera para o mundo, e para que possamos nos dar ao outro. O outro, o parceiro, a parceira, o namorado, a mulher, a companheira, quem anda junto da gente. Afetivamente, sexualmente, tenha o nome que tiver. Eu te encontro verdadeiramente se posso amar quem eu sou. Se posso ser confortavelmente eu mesmo, se você pode me libertar para eu respirar meu ar, para que eu possa inflar meu peito de meus anseios e minhas vontades. Se eu posso, eu posso ser ao seu lado. Senão, a gente patina em mares gelados de gelo fino, correndo o risco de sermos submergidos nos fundos escuros.

Só poderei amar se dentro do amor eu encontrar a mim mesma. E isso não é egoísmo, ou egocentrismo, pelo contrário. É a nossa jornada. Ego rima mais com ciúme, com possessão, com querer o outro só para si – interpretando-se esse querer em sua forma mais ampla, que vai muito, mas muito além do querer sexual. Porque amor, amor soma. Amor não é abrir mão, não é negar ou abdicar o que trazemos na nossa bagagem, nas nossas vontades, nos nossos silêncios. Amar é verbo expansivo – já me disse uma sábia amiga. Amor é impulso que nos leva além, que nos abre horizontes, que nos dá caminhos vastos e cheios de colheitas fartas. Que nos leva a nós mesmos, nós mesmos divididos nos olhos do outro, nós mesmos compartilhando levezas e transcendências, nós mesmos dividindo a mágica de estar junto, sentindo o calor do outro, conhecendo outro universo, transitando por um deserto de conhecimentos recíprocos.

Libertemo-nos para viver o amor. Sim, por mais paradoxal que possa parecer aos mais conservadores, é preciso amar muito para respeitar a liberdade do outro. É preciso amar verdadeiramente para deixar o outro ser quem ele é, sem que tentemos moldá-lo ao sabor das nossas expectativas, do nosso ciúme, das nossas necessidades de proteção, dos nossos medos. E, puxa, quantos medos! Como cantou Tom Zé: com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Até porque, acreditem, nada disso é amor. Limpemos o terreno, com arado de abrir portas: amor não é negatividade, não é despejar no outro as nossas necessidades. Isso tem outros nomes. Amor é soma. Não é o meu, ou o seu: é o nosso. E o nosso é esse vasto território que ninguém sabe como é, em que a gente caminha sem rede de proteção embaixo, em que a gente compreende o não saber e se solta para o que vier, ao sabor do destino vasto e grande do céu. É onde a gente se solta para o outro, venha ele como vier, e seja ele como for.

Eu te aceito. E tu me aceitas como sou, sem qualquer molde ou plano de linhas traçadas? Tu me aceitas para o que for, comigo mesma cheia de mim? Tu me aceitas para o amor que não é seu, nem meu, e que não tem roteiro com final traçado?

Soltemos o corpo, a mente, o coração. Amor não é posse. Não é compreensão (Como já disse a Clarice: “eu pensava que somando as compreensões, eu amava. Não sabia é que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”). Amor é incógnita de letras vibrantes, arco colorido e poderoso que nos joga exatamente para aquele ponto sem seta, sem rota ou passos com rastreamento de satélite: o ponto da descoberta. E que, por ser descoberta, não o sabemos. Nós o sentimos, cada qual como for, duas individualidades comungando o que está por vir, assim, para o que for. E com a gente cheio da gente mesmo.

Biscates avante, rumo à reforma agrária de nossos corações tão latifundiários!

Virtualidades

- Existem paralelos entre o virtual e o real, eu faço. E estava pensando hoje que o que tem acontecido é como quando você vai pra cama com alguém um dia. E vai ficando, vai ficando porque é bom… Enfim, em qualquer um dos casos, no real ou no virtual é uma sorte.

- Não creio em sorte, creio em encontro.

- Tem diferença?

- Encontro é bom.

- Sorte também.

- É.

- Então enquanto for bom, ótimo.

- Enquanto ótimo, melhor.

- Ainda.

- Na mesa de sinuca ou em qualquer outro lugar.

- Assim seja. Falando nisso tava pensando no meu texto pro biscate…

- E aí?

- Não sei bem o que escrever. Alguma dica? Eu te disse ontem, estou com crise criativa

- Quem sabe sobre sinuca, cores, texturas…

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Porque eu sou inconstante e má e vez por outra acho engraçado brincar de não sei. E porque letras não conseguiriam mesmo contar tudo o que nos aconteceu, inventamos nós dois dias desses. Desde então despejo meus disparates tão particulares só para te irritar. E gargalho enquanto imagino isso ocorrendo nesta imensa rede em que os afetos podem ou não ser reais.

Talvez enquanto conversamos, as responsabilidades e a realidade esmaeçam, suspiro tentando entender.

Mesmo assim das minhas responsabilidades eu sei. Acabo por decidir dançar um rock da ysmália e não falar nunca mais contigo, descalça no piso frio para não pirar de vez. De camisola vermelha ainda. E sem calcinha.

Eu canto do outro cara que te contei. E pra você também que é mais um, é qualquer outro, é o que eu quiser inventar. Como ele, como aquele e como tantos.

Histórias demais.

As suas responsabilidades eu apenas vislumbro e nem quero saber muito, porque foi você mesmo que me disse que não importava mais. Foi você que me convenceu que não existia. E essa é daquelas verdades tristes que dá vontade de chorar escondido, porque é.

Como toda vez que nos apaixonamos.

Então eu peço minha escova de dente de volta sabendo que você vai ser educado o suficiente para não me chamar de filha da puta, mesmo que sejas daqueles caras que curte um som pesado e banca o rebelde, numa cidade tão distante da minha.

Mas até isso também pode ser uma mentira, assim como o que eu escrevo e penso e sinto agora.

Temos que manter nossa fama para continuarmos acreditando em nós mesmos, decido mais um pouco. É isso, eu posso me desapaixonar em cinco minutos. Também podemos trepar numa mesa de sinuca amanhã ou nenhum dos dois chegar mesmo a existir. Um no outro.

A questão é que não deveria importar. Você me renderia um ou dois posts, três ou quatro citações e seguiríamos com nossas vidas, cada qual no seu quadrado como naquela musiquinha imbecil. Talvez, vez ou outra disséssemos um oi em caixinhas e eu apenas risse do fato de você não me achar legal.

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E isso seria lindo, apesar de. Ou talvez por causa.

Mas é que tenho precisado te tocar.

Além de mim.

Meu Nome é Sexo, Muito Prazer!

Por Everson Fernandes*, biscate convidado

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Uma vez, numa discussão, ouvi um argumento de que na hora do sexo era o corpo quem mandava. Como se o corpo sentisse a necessidade de prazer por si só. Que tudo acontecia porque era o corpo pedindo. Isso inclui subjugar mulheres, segundo o argumentador. Ele também rejeitou meu argumento de que a moral exercia algum tipo de interferência nas práticas sexuais.  Dessa forma, rejeitou que o machismo também está presente na hora do sexo. E tratávamos estritamente do sexo heterossexual, mas isso também afeta as relações sexuais entre dois homens, mais especificamente homens gays.

É um tanto comum ouvir mulheres heterossexuais reclamarem de relações sexuais que não tenham sido prazerosas, que muitos homens limitam-se apenas ao prazer próprio. Não é à toa que muitas mulheres com vida sexual ativa não alcancem o orgasmo, e isso pode ser motivado por vários fatores. Entre eles, a falta de cumplicidade no sexo e a retribuição do gozo. É preciso considerar que esse tipo de comportamento também é fruto de uma sociedade machista, que trata a mulher como objeto de prazer.

Ao homem é pré-definido o papel de representação da virilidade, masculinidade e, de certa forma, negação do que seria tratado como qualidade essencialmente feminina: demonstrar afeto. E, nessa relação de mulher objeto  e homem viril, o prazer no sexo não é necessariamente uma preocupação que ele considere. A educação voltada às crianças expressa um jogo de poder, onde o homem é dominante, penetrador; e a mulher, dominada e submissa, é penetrada.

E é meio óbvio – para alguns, pra outros nem tanto – afirmar isso, mas gays também são homens. E também foram submetidos a uma educação que os colocam numa posição de dominação. Uns assimilam mais, outros menos. E, numa relação homossexual entre dois homens, ocorre uma espécie de  projeção da educação que submete as mulheres ao papel de objeto, e essa projeção é transferida ao homem que é penetrado.

E na junção de uma moral machista e reprodução de comportamentos heteronormativos num relacionamento homo, que verificamos o penetrante como alguém não interessado em compartilhar prazer, mas apenas sentir. Essa reprodução pode se dar de maneiras mais explícitas ou mais sutis e quase imperceptíveis. Dessa forma, no casal homo, há o homem que se coloca em posição de provedor, como líder da relação,  e o que se coloca de maneira mais passiva.

Eu não sei dizer se isso ocorre em maior ou menor frequência, mas posso afirmar que ocorre. Quando digo que o machismo também está presente numa relação sexual entre dois homens e que ele traz problemas que dificultam uma relação mais saudável, refiro-me ao fato de que muitos homens gays que exercem um papel de penetrante se recusam a praticar alguns atos antes e durante a transa. Há uma falsa ideia de que todos os gays são bem resolvidos sexualmente – e de fato muitos são -  que não corresponde com a realidade.

Não é incomum que o penetrante (e eu evito falar em “ativo” e “passivo”, apesar de não gostar também dos termos que escolhi) se recuse ou não manifeste vontade de praticar sexo oral ou impeça que o parceiro faça carícias na região anal. E há quem diga que é questão de preferência sexual, mas essa preferência também está baseada em preceitos morais, não é algo isolado ou inato. A interação durante o sexo também funciona de uma forma que o penetrante considere que o ato de penetrar por si só é prazeroso para ambos. E muitas vezes não é.

É claro que isso não é regra. Que há muitos casais que não se familiarizam com nada disso, que vivem uma vida sexual saudável e prazerosa para ambos. No entanto, são comportamentos que existem. Independente de serem majoritários ou não. A questão aqui não se pretende que seja moral, que o sexo só seja praticado com afetividade. A questão é a seguinte: sexo, seja casual ou não, deveria ser prazeroso aos envolvidos. Jogando as palavras na mesa, eu diria que a putaria e o romance não precisam ser excludentes.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Discurso Biscate

Por Iara Paiva*, Biscate Convidada

Segunda vez em pouco tempo que vejo prima minha fazendo discurso moralista lá no Facebook. E agora foi uma das novinhas. Então me sinto intimidada a fazer discurso-biscate. Gente, vamos viver mais a nossa sexualidade e nos preocuparmos menos com a sexualidade das coleguinhas? Tem gente que anda de roupa curta e decotada? Tem, e é uma coisa linda. Tem gente que “se oferece” pros homens? Tem, é a maneira dessa pessoa que essa pessoa encontra prazer. Tem gente que fica com um cara a cada dia? Tem, e não há mal nenhum nisso. Nenhum.

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Tenho especial horror ao discurso “os caras abusam e não querem compromisso e isso desvaloriza as mulheres”. Tem gente que quer compromisso? Tem. Tem gente que quer só transar pra se divertir porque sexo é bom e é divertido? Tem. Homens e mulheres. E não deveria haver uma escala de valores moralista que considera a primeira atitude nobre e a segunda desprezível. E cada vez que uma mulher se preocupa em criticar a sexualidade de outras mulheres tá reforçando um discurso machista que insiste em nos classificar como “santas” ou “putas”. O famoso dividir para conquistar.

Vamos parar com isso e viver a vida de maneira livre sem ficar apontando para as vidas alheias?

Grata,

Iara, porraloca-feliz-libertária

616012_313606915413516_2027975164_o*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

Não posso ficar nem mais um minuto

Gosto dos homens. Eles me divertem e espero mesmo que eles também se divirtam comigo, porque de outro jeito que graça tem, não é?

Mas enfim, neste mundo tão louquinho, bichinho, escolher ser livre faz você ter um olhar digamos, um pouco mais crítico e irônico, mesmo não querendo recorrer a generalizações, acerca de certos comportamentos quase que padronizados entre os homens, esse gênero que anda tão confuso, assim como nós, em como se comportar num mundo onde se destroem discursos com a rapidez de um clique e em que novos relacionamentos são oficializados e comemorados pelo facebook.

Então, nesse emaranhado de tantas histórias e novas formas de se relacionar, você se depara com esse cara: o homem Jaçanã. Ele é meio fora de moda, mas você é uma vadia e como tal curte um samba e tal e coisa e coisa e tal, além do lance vintage do “eu não tô fazendo nada nem você também”.

Pronto. Danou-se.

Vá em frente, o homem Jaçanã desperta a mesma emoção que sentimos com discos de vinil, vá por mim, eu te entendo. Só que amiga, não se iluda e Freud já nos contou faz tempo. Ele não pode perder esse trem que sai agora as onze horas, porque senão só amanhã de manhã.

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E óbvio, quem vai amanhecer ao lado de alguém que não se pode “levar a sério”? O homem Jaçanã é que não.

O homem Jaçanã é fruto de uma cultura que diz que sexo e sexo, compromisso é compromisso e que não se pode enxergar mais nada além destes extremos. E o sono dos homens justos é sagrado, mulher! Além disso, tem outra coisa… a mãe não dorme enquanto ele não chegar, e ai de você, biscate na vida… como lutar contra essa entidade que pariu seu “sonho de consumo”, um macho para chamar de seu? Pois é, eu que faz tempo morro é de rir, sugiro que você diga a ele como chegar na estação do tal trem ou sugira fazer uma papinha pro tal cara antes dele se mandar.

São apenas sugestões, óbvio, cada mulher tem seu jeito de lidar com esse tipo de cara. Mas entenda o óbvio. Não é culpa sua. Não foi a sua calcinha, nem o jeito que você fez gemeu, nem mesmo porque ele se assustou com você.

O homem Jaçanã não quer uma mulher, ele quer um arquétipo. Então conselho de amiga, não fique se perguntando se fez algo de errado ou como “segurá-lo” em sua cama até o amanhecer “da próxima vez”. Pergunte-se, isso sim, se você quer uma próxima vez com um cara que prefere beber com os amigos (sério que você caiu nessa história de mãe?) a ficar transando com você.

Ou, ainda pior, um cara que não teve sequer vontade de te chamar para acompanhá-lo na cachaça. Isso é imperdoável, carxs amigxs, acreditem em mim. Não tem relativismo nem meditação que me faça perdoar e transcender um troço desses.

Ah… o homem Jaçanã é das antigas, lembre disso, e como tal ele não vai sair sem antes um “eu te ligo” de brinde.

Vá (novamente) por mim (ou não)… nessas horas seguem mais dicas: diga educadamente não, por favor, obrigado ou seja grossa e diga ligue não, fofolete ou apenas gargalhe. Alto. Pois é baby, se divirta, você e ele merecem. Todos nós merecemos.

Inclusive nos divertir com afeto, porque é isso que o homem Jaçanã não entende, que entre uma coisa e outra, entre tempo e espaço, entre aqui e agora, a ponte é o afeto. Em qualquer posição.

E quando falo de homem, falo de você também mulher, de mim. Que tem que ir embora porque não pode mostrar vontade de ficar, porque no jogo de caça e caçador quem é mais insistente em não se entregar ganha. Triste assim.

Vivemos num mundo em que o melhor é sempre o adiante, o dia seguinte, a próxima etapa: rolo, namoro, noivado, casamento, filhos (ufa! ufa! ufa!). Então porque se “desgastar” demonstrando carinho, olheiras, cara amassada, você em verdade e luz do sol com quem não dá nem para pensar em sugerir um “relacionamento sério” nas redes sociais?

Então, lembrando que pelo menos o homem Jaçanã reconhece que tem sua própria casa (ui, Freud, beijo e me liga!)… é assim…

“Quais, quais, quais, quais, quais, quais,
Quaiscalingudum
Quaiscalingudum
Quaiscalingudum”

Entre o Preto e o Branco

Por Mestre Addam*, Biscate Convidado

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri relativamente mais cedo que a maioria das pessoas que conheço. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

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fotografia: Alexandre Medeiros; modelo: Jessica Luz

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

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2012-12-07 08-50-00.895*Mestre Addam (mestreaddam@gmail.com) é Marcelo Leite, carioca, defensor da liberdade de expressão, da livre relação e da biscatagem em geral. Escreve ainda como Troll, no Palácio Elétrico e surta em doses homeopáticas pelo twitter @addammgl

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