Algumas anotações sobre “Cat Person”

Teve aquele texto na New Yorker, “Cat Person”, que viralizou loucamente e eu – como de hábito – não entendi por quê. E vou tentar comentar sem ter entendido. Bora ver onde consigo chegar.

Vou contar como li o texto, pra começar. Como já li há um tempo, vai ser um resumo bem resumidinho. Uma moça e um cara começam uma historinha, bem de leve. Se encontram uma ou duas vezes e adquirem alguma intimidade por mensagens de texto. Tão comum nos tempos atuais. O cara se afasta em algum momento, a moça manda mensagens e mensagens, o cara reaparece. Conversam, brincam, trocam ideias, piadas. Mandam carinhas pra lá e pra cá. Combinam de sair – vão ao cinema e, em seguida, beber algo. Tudo meio desajeitado: a escolha do filme, a bebida depois.  Na hora ir embora, ela sugere ir pra casa dele. No meio do caminho fica em dúvida, mas aí, já tinha dado a ideia, né. Quando chega na casa dele ela perde o tesão, de repente. Olha pra ele e não tem mais vontade nenhuma de trepar. Só que já estava ali, já tinha concordado. Não se sentia ameaçada, era apenas difícil dizer que não sem motivo, àquela altura. Então, sim. Sexo “por cortesia”, ou por constrangimento. Vão pra cama e tudo o que ela quer é que aquilo acabe. Sem dar nenhum sinal a ele disso. Não diz o que gosta, não mostra o que quer, apenas se deixa levar. Depois, quando acaba, ela vai embora e simplesmente não quer mais contato com o cara. Que, evidentemente, fica sem entender nada.

O texto rodou um monte por aí, assim como os zilhões de textos que se seguiram a ele. Mas é basicamente isso. Uma noite de sexo ruim. Que viralizou.

Não é apenas isso, porém: é também a história de uma relação que existia – tantas mensagens, tantos textos, tantos emojis – e que deixou de existir porque o sexo foi ruim. O cara, aquele com quem ela conversava, se divertia e ria, de quem tinha saudade depois que desaparecia, esse cara deixa de existir de uma hora para outra. Nenhum cuidado lhe é devido, é como se o sexo fosse um “tudo ou nada”.  Como se fosse a prova dos nove. Como se ela ter perdido o tesão e ter trepado com ele mesmo assim justificasse riscar o cara de uma vez da vida, assim.

Eu acho meio esquisito, na real.

Sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim é só sexo ruim. Gente é mais que isso. Claro que uma trepada casual de alguém que se conhece em uma noite pode ficar apenas nisso e não pede explicações: só que não era o caso ali. Não vi ninguém falando disso, embora tenha lido tantos textos sobre esse texto. O ponto de vista dela, o ponto de vista dele. Mas com foco no que seria o ápice da história: o sexo ruim. Ninguém discute muito a relação pré-existente e o que acontece com esta depois. E quando o cara, no final das contas, perde a compostura e manda uma sequência de mensagens grosseiras, é como se tudo fosse justificado: era apenas um “macho” equivocado, que não merecia nenhum respeito ou atenção.

Sei lá. Fiquei sentindo falta de alguma conversa no pós. Ou, pelo menos, de uma mensagem mais simpática. Tipo “não rolou bem, mas a gente pode se falar”. Ou “vamos ficar sem se falar um tempo, depois a gente vê”. Ou … alguma coisa, né?  Nem precisava falar mesmo de novo, era só um jeito de não encerrar assim abruptamente. Achei, mesmo, que a protagonista da história meio que objetificou o cara. E jogou fora sem nenhum cuidado a relação que existia, como se não fosse nada. Como se o fato dela mesma não ter conseguido dizer que não estava mais com tesão fosse justificativa pra simplesmente descartar o cara. O cara inteiro, quero dizer, e não somente o sexo. Porque ele, a pessoa, merecia alguma consideração da parte dela, não? Eu acho que sim.

Tem outra coisa, que é o próprio sexo ruim: certo, ela não disse que não queria. Mas, já que tinha topado, podia talvez colaborar um pouco praquilo ter alguma chance de ser razoável, né? Não me pareceu. A moça simplesmente se deixa fazer e cria fantasias pra conseguir levar o ato até o fim. Não há nenhuma tentativa de interagir com o cara. É como se ele estivesse ali para satisfazê-la. Ou como se o fato dela não querer no começo já destinasse tudo ao fracasso e a desobrigasse de qualquer participação efetiva no processo. Ora, tem tanto sexo que começa mais ou menos e depois melhora, com alguma ajuda dos participantes…

E, na verdade, esse “sexo ruim que define tudo” me parece exatamente o outro lado dos livrinhos de banca para moças, aqueles Sabrina, Bianca, Julia, em que o sexo bom define tudo. O cara pode ser o que for, um canalha, um bruto, mas pega a mulher de jeito e… pronto. Está tudo resolvido. Como se não precisasse de mais que isso. Como se toda a relação encontrasse seu sentido ali. Uma espécie de “e foram felizes para sempre (trepando muito e tendo múltiplos orgasmos cintilantes)”. Tão igual aos contos de fada.

Sexo, ruim ou bom, é apenas sexo. Não precisa ser abismo e não precisa ser paraíso. Além de precisar contar com a participação das duas pessoas envolvidas. Não é algo que está dado antes de acontecer. Se não for bom, não é necessariamente “culpa” de ninguém. É tentativa e erro,  né? E, às vezes, acerto. Há que se ter alguma boa vontade. Alguma generosidade. Alguma atenção com o outro. Se interessar, alguma persistência.

Por aí.

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Cigana

Beija-me os olhos, meu amor. Faz-me adormecer. Meu corpo, saciado de teu corpo, encanta-se no perfume da tua presença. Beija-me as pernas, abertas para a vida que vem. Lambe-me, enquanto desfruto. Meus medos caídos das árvores que plantei no jardim de outrora. Maduros. Mastigo-os no furor da língua. Felpudos, carne entre os dentes. Líquido escorrendo por entre os dedos. Degusto cada pedaço, semente, germino. Estou pronta.

Beija-me a boca. Devagar, por cada sentença não dita. Coloca a língua leve, a me penetrar os lábios. Toma-me. Escorre água pelo meus seios, suor pelas minhas entranhas. Percorre meus pelos, sussurra-me aos ouvidos gemidos trêmulos de nós. Derrama-me. Faz colo nos meus ombros nus. Cola teus quadris nos meus, femininos, textura, gosto. Gosto. Encaixa-me em ti, vermelha, ardendo, presente em cada toque que se faz novelo. Deito-me inteira nas tuas mãos abertas. Contorna meu sexo pungente pela tua saliva. Morde-me. Minhas costas eretas a espera do teu arrepio.

Ecoa, é madrugada, a lua banha nossos corpos estirados de espanto. Despe-me, a alma que guardo nas entrelinhas. Aguça-me a poesia. Desagua teu gozo em mim, e tanto, torpor. Enamora-me, mais, à espreita dos grandes saltos. Salto. Cachoeira, rio cheio, corredeira. Lagoa calma depois da chuva. Mergulho, escuro, profundo, revelação muda de um lugar que ainda vem.

Penetra-me, de novo, cigana. Sou tua.

 A imagem pode conter: nuvem, céu, oceano, atividades ao ar livre, água e natureza

Sexo é a dois [2]

Já escrevi um sobre este temaMas dá sempre vontade de voltar a ele , tais são as demandas, as pressões, as exigências. Ser “bom de cama”, “satisfazer o outro”. Estar pronta para tudo, sentir um prazer intenso, ter múltiplos orgasmos coloridos, querer uma vez e outra e outra…. Tenso o negócio. Quem faz a contagem de pontos? Quantos quesitos serão avaliados? Evolução, enredo, harmonia? Comissão de frente, alegorias e adereços?

Acho que se fala muito de performance. Se fala pouco de escuta. Escuta do corpo, escuta do outro. Da dança que é o sexo a dois: ajeitos, encaixes, tentativa e erro. Acertos também, como não. Deixar-se ir sem pensar demais na chegada, aproveitando o processo. Exploração. Curiosidade. Abertura para o novo, para o outro: o outro que é outro e que é sempre diferente.

Adianta quase nada seguir regras estabelecidas, usar técnicas aprendidas: pra cada pessoa um ritmo, um gosto, um toque. Claro que a prática ajuda: mas com “prática” quero dizer experiência de escuta, de flexibilidade, de aceitação do que vier. Quanto mais prática, menos regras, acho. Mais possibilidade de perceber nuances e sutilezas. Murmúrios e delicadezas. A escuta do outro: não a mecânica – que é necessária, e seria até bom entender disso melhor -, mas aquela ali, do momento. A escuta sutil. A reação a cada ação.

E algo que acho que talvez seja o mais difícil de tudo: o soltar-se. “Solta o corpo e vai”, como no carnaval. Um desapego da pose, da máscara de todo dia, da compostura. Sexo é sem compostura. Deixar-se perceber assim não é evidente. Pode até dar um frio na barriga, uma sensação de desproteção. Sexo é mergulho também.

(Não, gente, não é amor: amor é outra coisa. Não precisa ter amor, sempre bom frisar. Mas respeito pelo outro, pelo desejo do outro, pelo corpo do outro. Confiança na entrega. Aquela, ali, daquele momento).

E assim dá pra vagar, sem muitas respostas, com vontades de saber mais. De conhecer mais. Aquela pessoa que está ali, naquela hora, com você. Aquele cabelo, aquele olho, aquela boca, aquela mão, aquele corpo inteiro que tem consistência e forma, que tem seu próprio jeito de ser-com-você. Na cama. Ou “na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”.

Ah, só mais uma coisa, que já disse no outro texto, mas acho que vale repetir: leveza. A leveza de saber que não precisa ser incrível todas as vezes. Nem sempre o encaixe, o ritmo, o gosto vão ser aqueles que tirarão você do chão. E daí? Daí nada, ora. Pode ser apenas o.k, ou até nem ser bom de fato; dessa vez não foi, quem sabe na próxima? Até mesmo com aquela pessoa, se houver interesse e vontade: de repente não foi da primeira, mas se conhecendo mais, dizendo dos gostos e vontades… sabe-se lá. Vai que.

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PS. Também no Biscate: Boa de Cama e Tem Sempre que Gozar?

Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Meio Dia

Por Xênia Melo, Biscate Convidado

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Muitas coisas me passam pela cabeça. Volta e meia durante o dia me pego refletindo, quando estou a fazer algo do cotidiano, sei lá, escovando os dentes ou respondendo um email, penso quem serão as pessoas a fazer sexo naquele momento? A contingência da vida nos leva a crer que os casais transam à noite. Antes de deitar, depois que os filhos dormem, depois da janta, quando os corpos já cansados da jornada diária resolvem se aproximar, o pé gelado que teima em não aquecer nesses dias de frio. Juntam os casais os corpos à noite. Qual idade tem esses corpos? Gosto de pensar sobre repartir o ordinário da vida, e isso inclui o sexo, inclusive aquele sem muito movimento e emoção, mas que encaixa, até quando a paixão já não é mais tão combustível e dá espaço aos lençóis que há um tempo não aquecem mais. Tem os casais as mais variadas idades, os que acabaram se de conhecer e aqueles que dividem décadas juntos. Quem serão as pessoas que trepam nesse exato momento em que escrevo, em que você lê, será hoje dia de semana?

Tenho pra mim que os amantes se encontram ao meio dia, não sei se li isso em algum lugar, ou se é habitado pela ideia de que os encontros acontecem nos intervalos possíveis do dia, sem mudar a rotina da vida própria. Quantos amantes haveriam hoje na cidade? Onde e como fazem pra se ver? Há quanto tempo desfrutam dessa relação? Me interessa o corpo das outras pessoas, me interessa o que fazem deles. Se estão a se permitir violar costumes, se apenas vivem platonicamente suas paixões, se empurram esse desejo para algo distante.

Era meio dia, e você me esperava fumando um cigarro, eu estava sem comer, mas minha fome era de você, eu sinto o gosto salgado do seu corpo já cansado na minha boca, era disso que tinha fome, de um corpo sem banho que já fez muita coisa pela manhã. Era assim que você aparecia, já sem graça, pedindo desculpas por estar suado. Eu queria na verdade era que você me comesse em público ali mesmo, havia perto uma praça. O dia estava lindo, fazia sol, sua jaqueta era suficiente a evitar que as formigas da grama nos atingissem, não era necessário tirar toda nossa roupa, abaixamos as calças, e você metia em mim sem esperar muito qualquer umidade dos nossos corpos, foi na pressa e seco, ardia, mas havia urgência e receio de que fossemos pegos, debaixo das árvores e do dia que insistia em brilhar. Você gozou, eu não, às vezes me assustava e me excitava a forma bruta que me tratava em alguns momentos. Rapidamente levantou e fechou as calças, me alcançou a mão para levantar. Eu ainda processava a rapidez daquela transa e o ardor do meu corpo. Mas não, isso tudo foi na minha cabeça enquanto esperava você terminar o cigarro e subirmos. Não estamos dispostos a arriscar e perder nossos segredos. De toda forma não tínhamos muito tempo, decidi abrir mão do almoço para que você me comesse, nossa fome era outra.

Na porta você já tirava a minha roupa, mal consegui trancá-la, sequer chegamos no quarto, eu nua, você ainda não, me coloca na mesa e metia ali mesmo, com urgência, sem um único beijo. Eu me assusto com sua pressa, sequer perguntou se eu estava bem, você tinha fome e desejo por mim. Isso me excitava. Minhas pernas doem e amortecem por conta da pressão contra a mesa. Peço para irmos para cama, você me carrega montada no seu pau, me aperta com força contra a parede e continua a meter em pé, profundamente. Me sinto pequena e impotente perto de você, parece contraditório mas eu gosto, gosto de estar à deriva,  gosto que você saiba que sou vulnerável quando estou contigo. Gosto que você decida sobre o sexo, que me surpreenda. Você não precisa de muito, sua presença é o suficiente para que me deixe molhada e excitada, ainda que eu consiga ter atenção a uma infinidade de coisas outras. Quando estamos perto o tesão é sempre presente, e isso é bom. A parede está gelada, e seu corpo ainda vestido é incapaz de me aquecer. Digo que tenho frio e você me carrega para o quarto, me joga na cama sem muito cuidado, e me chupa com a habilidade de quem há muito faz isso. Meu corpo já não mais sente frio, está consumido pelo tesão que de certa forma não sei traduzir. Você não parece nem um pouco interessado em tirar sua roupa, fico pensando se esconde alguma cicatriz, se será só pressa ou distração por estar tão concentrado no meu corpo. Volta a me comer e ergue minhas pernas contra meu peito, vai tão profundamente que sequer consigo gemer, você me ocupa de tal forma que mal consigo respirar. Olha pro seu pau entrando em mim, seu quadril se movimenta com tanta destreza que me chama atenção. Me pergunto como você me sente, se a mim você parece tão grande e delicioso, qual sentimento te ocorre? qual o desejo que minha vagina te provoca? E o meu corpo? Só agora você faz contato visual comigo, já muito suado, sinto seu rosto pingar sobre o meu, sorri, de certa forma envergonhado. Acho excitante isso, o quanto consegue ter consciência corporal mas ao mesmo tempo carregar uma timidez singular. Toca o despertador, parece que o tempo está a nos dar uma rasteira, há ainda muito desejo pra um tempo que já se exauriu. Você apenas fecha seu zíper, me beija o rosto, se despede. Pergunto se não me acompanha num cigarro, pega o que havia acabado de acender, dá um trago, diz que está atrasado para um compromisso. Me beija a boca, diz tchau e deseja uma boa tarde, eu sorrio.  Levanto, como a comida requentada da geladeira, tomo um banho, canto sozinha uma musica desafinada no chuveiro. Penso na cidade e nos amantes que habitam sobre ela.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Mortas vivas

Foto da linda série "Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

Foto da linda série “Geliefden – Timeless Love”, feito em 2004 pela fotógrafa Marrie Bot (http://www.marriebot.com/)

E eu não me permito morrer em vida.

Achando que ser igual é normal.

Ser chata é a regra.

Ser medíocre é opção.

E ser diferente é loucura.

Estou velha, mas viva. Diva. Viva vovó !

O que querem é que a gente vire poste sem luz. Que sirva pro xixi dos cachorros que precisam continuar a demarcar território, mas deixe de satisfazer qualquer  outra função. Deixe de subir no palco da vida e brilhar. Pare de aprender. Chega de procurar !

Como se já não bastasse  o antigamente atrelar a menopausa ao final de vida.

A morte.

Secou.

E portanto está proibida de qualquer outra manifestação sexual e corporal que não seja a depressão, os calores e as mudanças de humor. Ficar velha e decrépita. No way. Acabou. Mudou mesmo.

Claro está  que o ser humano busca sempre a procriação e biologicamente a mulher após a menopausa perde essa capacidade através de seu momento hormonal. Graças!! Delicia!

Prazer não tem nada a ver com fisiologicamente a manutenção da espécie.

Velha não está morta num caixão. Como suas células te dizem, o seu prazer começa na cabeça, que está pouco se lixando pros seus números. Depende de como você a alimenta. Acrescentando dados, cores, vontades, curiosidades.

Não encontrei nenhuma relação com essa subserviência determinada culturalmente ao meu corpo e a minha idade.

Na hora do êxtase, foda-se o número  que você carrega. Você é só uma fêmea. Selvagem. Afinal o corpo é burro e te vê com 30 anos quando você já tem o dobro.

Não tenho tatuagem de data de validade no meu corpo.

Então, vale o  fuk fuk. E gritar no auge. E sentir o calor subindo quando uma boca te chupa com eficiência. E se saber totalmente preenchida pelas sensações que o seu corpo não deixou de sentir.

Crocheteio, tricoteio e cozinho com prazer mas adoro comer um belo espécime também . Fantasiar é o meu carteado. E, no chá das 5, falar do que eu descubro é muito mais prazeroso que falar da atriz de novela garotona e durinha que “consegue” pegar todos !

Até eu, Onofre!

Quero ver ter toda essa bagagem que a minha casca carrega e se jogar na pista.

Bem fazemos os que deixamos o corpo saciado, cansado, suado e a adrenalina a mil.

E ainda damos motivo pras conversas dos mortos vivos em todos os velórios.

Captura de Tela 2016-08-15 às 14.06.36Isabel Dias é uma administradora de 50 e tantos anos que vivia numa cidade do interior até descobrir que seu marido, com quem era casada há 32 anos, tinha outros relacionamentos. Divorciou-se, mudou-se para São Paulo e começou uma jornada de auto-descoberta, narrando num blog (trintaedois.com) sua redescoberta sexual. Os textos foram editados no livro “32 – Um Homem Para Cada Ano Que Passei Com Você”. Após a publicação, ela segue dando palestras e se comunicando com mulheres de todas as idades que passam por situações semelhantes.

Elevador, de novo

Leia o post Elevador da Lis Lemos, aqui

Reparou no moço sentado esperando o elevador. Era o mesmo. Era o mesmo? Olhou primeiro no espelho do hall, as mesmas havaianas indignas, uma saia indiana mais sambada que a Sapucaí, camisetinha branca e os grampos de sempre. Seis. Tirou o olho do arrependimento no espelho e confirmou: era ele. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Talvez um pouco mais curto que no encontro passado. Talvez. De novo ao telefone, de novo um recado ambíguo: estou chegando. Em casa? Uma visita? Não, não era vizinho, quase um ano lá, muita falta de sorte se não cruzasse mais vezes com ele – cruzasse, rá, pensa bobagem, ri alto, ele levanta a cabeça, atento, ela queria desviar o olhar, acaba mergulhando no dele, que bonitos que são, escuros, sombrados por olheiras.

Oi. Pra ele sai tão fácil. Porque ela foi rir? E agora, o que responder. Repetir o oi? Comentar o tempo? Que droga de cidade na linha do Equador onde o tempo nem serve de conversa fiada. Ele insiste: já nos vimos no elevador, não? É preciso desengasgar a timidez ou serão 21 andares de mico. Levanta a cabeça, acena, sorri, sim, nos conhecemos aqui. Ele estende a mão. Aquela mão enorme que notou desde a primeira vez. O elevador chega. E agora? Elevador, mão, elevador, mão, isso, aperta, morna, gostosa, áspera, o elevador fecha a porta, sobe, ele ri: perdemos. Não solta a mão. Opa. Faz um carinho na palma, como era mesmo que sua avó dizia? Pedindo um beijo. Bonita, sua mão. A voz faz cócegas no ouvido. Gostosa. Sente a pele arrepiando e o mamilo enrijecendo. Camiseta branca sem sutiã. Que idéia, que idéia. Obrigada e levanta os olhos que não encontram os dele, dessa vez, atentos que estão aos mamilos enrijecidos. Ela esquenta mais, aperta a mão dele sem notar. Nota. Puxa a mão, baixa a vista e encontra a calça de moletom dele, marcada.

Respira fundo, impressão, impressão. Ele ainda está falando mas ela não escuta, ocupada com o sangue quente, a palma suada, a perna mole, o tesão. O elevador que chega, vazio. Ele faz um gesto, ela entra na frente, ele encosta a mão nas suas costas, gentil, ela lembra: a câmera está quebrada, porque ela está pensando nisso agora, para de repente no meio do elevador, ele esbarra, as portas se fecham, nenhum dos dois se afasta. Ela sente a respiração morna dele em seu pescoço, sente o roçar do pênis pressionando a calça de moletom e sua surrada saia indiana. Tenho que fazer alguma coisa, tenho que fazer alguma coisa. Um andar, outro.

elevador

Estende a mão pra trás. Aperta o botão do seu andar. Meio de costas, volta a mão no pescoço dele. Deixa escorregar, peito, barriga, pau. Afaga. Puxa enquanto dá dois passos em direção ao fundo do elevador. Ele segue, as mãos já embaixo da camiseta branca sem sutiã. Ele beija o pescoço, o ombro, a barba macia acentuando a carícia. Puxa os bicos dos peitos, dá um peteleco. Ela espalma as mãos na parede do elevador e esfrega a bunda com força no quadril dele que já deixou uma das mãos encontrar o caminho e passar fácil pela saia e pelo elástico frouxo da calcinha. Sente o dedo, firme, roçando o clitóris. Quarto, quinto, se o elevador parar em algum andar? Respira, respira, ela tenta lembrar mas arfa enquanto ele continua, ritmado, a massagear e estimular. Ela sente a calcinha encharcando, a outra mão dele deixou os seios e aperta a sua bunda, os dedos firmes marcando seu rabo, explorando a fenda, insistindo, empurrando, ela se empina mais, ele mergulha o indicador na buceta encharcada e começa a enfiar, gentil e firme, no cu. Que andar, que andar, ela não sabe, ela sente os dedos na buceta, no cu, no clitóris, por todo lado, quantas mãos enormes ele tem? O pênis se esfregando no lado da coxa, a boca aberta sugando o ombro, ela arfa, ela goza, ela goza, ela goza. Ela geme, as pernas trêmulas. Ela sente o vazio. Os dedos se afastando lentamente. A porta do elevador abrindo. Ele se encosta em um dos lados, mantendo o elevador no seu andar enquanto ela arruma as roupas e tenta se segurar em pé sem o apoio das paredes do elevador. Olha pra ele que chupa, com ar satisfeito, os dedos.

Da próxima vez me dá um beijo? Ele diz. Ela sorri, marota, e pensa, zoando a si mesma: não ando dando essas liberdades pra qualquer um. Ele pisca, desconcertado com a gargalhada livre que ela dá. Ela fica na ponta do pé, morde a orelha onde balança o brinco e sussurra. Da próxima vez eu dou… o beijo. Sai sem esquecer de rebolar e sem olhar pra trás enquanto o elevador fecha, suave, a porta. Vermelha, satisfeita, vê confirmada sua hipótese: sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

Trilha Sonora Para…

musica-sexoMúsica pro vuco-vuco, pro rala e rola, pra vem minha nega, pra pode vir quente que eu estou fervendo, quem tem? Essa foi a pergunta que fizemos pras leitoras e leitores do nosso clubinho e que rendeu uma lista incrível.

Tem aquelas músicas que só de ouvir dá aquele comichão por dentro, né? Trilha sonora pro roça-coxa, pro esfrega-sfrega, pro roça-roça, pra chamegar. Música que ajuda no arrepio da pele, no umedecer e esquentar das partes.

Algumas vezes é uma canção que lembra um alguém ou um encontro específico. Outras invocam a imaginação, provocam os desejos adormecidos e aí… ah, não tem jeito. Tem música que lembra sexo, simula sexo, dá vontade de fazer sexo.

A gente pensa em striptease, devagarzinho tirar a roupa e chutar os pudores? Pois tem Joe Cocker pra apimentar a brincadeira….

 

Ah, o lance é o comecinho, acender o fogo, preliminar divertida, sexy, sensual? Toca Rihanna:

 

Prefere algo menos pop, AC/DC cai como uma luva:

E nós não fugimos do clichê, nós abraçamos o clichê, colocamos o clchê na roda e o celebramos. Ainda mais essas que parecem perfeitas na composição de qualquer cenário… Mesmo quem não sabe francês, já imagina o que Serge Gainsbourg e Jane Birkin estavam fazendo aqui:

 

E pra mostrar como o clichê pode ser uma delícia, chega mais com Bruce Springsteen

 

E a música brasileira também dá (opa) sua contribuição para engrossar o caldo das musiquinhas que pedem pele na pele, língua na pele, língua na língua e volúpias mil. Como não pensar em Cavalgada, de Roberto Carlos, na voz maravilhosa da rainha Bethânia?

 

Ainda com Bethânia, é só tocar que acende tudo, que deixa tudo morno e pronto, hein:

E se alguém está pensando que só tem coisa antiga nessa vibe, olha aí, somos um clube antenado com as novidades musicais e coroamos essa playlist biscate com essa delícia chamada Johnny Hooker:

 

Não vai tirar a roupa hoje a noite, não tem namorado, flerte, encontro inesperado, tinder dando sopa? Faz mal não, pense numa sanfona, pense em Gonzaga, pense em forró, pense em Alceu. Só o clipe já vai provocando uma quentura bem biscate..

 

Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

McSorleys

Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

Além do que se pode ver

Nós temos cinco sentidos. Aprendi na escola, cantando uma musiquinha com coreografia sobre nariz, boca, etc. Claro que não lembro mais da musiquinha e muito menos da coreografia. Sei dos sentidos. Cinco. Mas vivemos em uma era da imagem e, a reboque, o domínio da visão. Uma vez passei uns meses sem nenhum espelho (nem no banheiro, nem na bolsa, nenhunzinho mesmo) e as pessoas ficavam muito impressionadas. Como eu conseguia viver sem me ver?

Ser visto faz parte da construção de nossa subjetividade. É importante. Estrutura. Conseguir se ver também é mais que uma metáfora poderosa. Mas ficar limitado ao que pode ser visto costuma imobilizar. Essa situação se agrava, a meu ver, para as mulheres, a quem se imputa o lugar de enfeite, a demanda de beleza e perfeição estética.

Grande parte das mulheres cresce e vive insatisfeita com seu próprio corpo. Não porque ele lhe prive de alguma experiência específica, mas porque ele nunca parece bom e belo o bastante.  Aprende-se a espreitar com lupa as supostas imperfeições: olha lá a celulite; menina, engravidei agora o peito vai ficar cheio de estrias; gente e essa barriga? essa papada?; não posso mais acenar que balança tudo; olha só estou com cara de velha; alguém sabe um creme pra esconder olheiras? Eu poderia continuar indefinidamente, o corpo feminino parece inesgotável na sua capacidade de estar errado, isso porque nem cheguei em coisas como cor das axilas e plástica na vagina.

E é cada vez mais acessível a fixação desses supostos erros. Bem à mão estão cada vez mais máquinas que nos permitem captar e reproduzir imagens e espaços para cristalizar essas imagens. Filmadoras, máquinas fotográficas, câmeras nos celulares, televisão, youtube, outdoor, favorecendo o escrutínio público e a insatisfação particular.

Como resposta a esse desassossego sobre como nosso corpo (a)parece o que surge é a possibilidade de escamoteamento: sutiãs com enchimento, bundas complementares, cremes que disfarçam, cirurgias plásticas, photoshop. Dicas para tirar fotografias: deixa o braço longe do corpo pra afinar, tira foto de cima pra baixo (ou é de baixo pra cima?) pra não evidenciar o queixo, inclina o tronco não sei pra onde, estica a perna sei lá em que direção.

Eu não estou imune a isso e não é com superioridade que escrevo esse texto. Mas por uma série de fatores que nem vale a pena tentar re-conhecer, eu aprendi algumas coisas sobre meu corpo e a relação com ele que me fazem  bem e decidi partilhar.

Meu convite é pra gente de vez em quando fechar os olhos. Literalmente. Não é um convite do tipo “seja seu próprio padrão de beleza” ou “ame seu corpo” nem nada assim. Sei bem demais que viver é relacional. Que a estrutura garante que quem não se enquadra fique à margem. Que não haja roupa nas lojas, cadeiras nos aviões ou catracas que não constranjam. Que os empregos, os romances, os passeios, tudo pareça um pouquinho mais distante e difícil quando o que vêem de nós é algo que não se submete nem se limita ao que foi definido como aceitável.

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Meu convite é um pequeno convite à subversão. Tomar um banho se ensaboando lentamente, longe do espelho, deixando as mãos descobrirem curvas, veredas, permitindo-se sentir o prazer do toque. Cheirar o próprio pulso, o sovaco, a calcinha. Lamber os dedos. Sentir o gosto do próprio suor. Deitar nua na cama e rolar pra lá e pra cá. Sussurrar seu próprio nome muitas e muitas vezes e usufruir da sua própria voz. Gemer. Gente, gemer é ótimo. Massagear o pé. Comprar um daqueles ganchinhos e coçar suas costas. Passar o dia sem calcinha nem sutiã. Dançar pelada, deixar tudo balançar. Usar os outros sentidos e aprender sobre nós mesmos além do que aparentamos.

Meu convite é que a gente se permita ser conhecida também em braile. Que a gente se permita ser ouvida, lambida, tocada, esfregada, cheirada. Que com esse corpo que é sentido, não só visto, só então, com esse corpo fresco, redescoberto pelos outros sentidos, encostar no outro, esfregar-se no outro, entregar-se pro outro, pros sentidos do outro. E aí, quando estivermos em espelhos, vitrines, fotografias, possamos perceber o corpo não apenas no que ele falha, mas no que ele oferece e proporciona. Em todos os sentidos.

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

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O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

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O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

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