Puta

Você não me ofende quando me chama de puta. Não me ofende como não me ofenderia se me chamasse de enfermeira (muitas tocam corpos nus com intimidade), como não me ofenderia se me chamasse de massagista (ela também provoca prazer e relaxamento com seu trabalho) e não me ofenderia se me chamasse de bailarina (ela também usa o corpo de forma direta na execução do trabalho), só pra ficar nos exemplos mais óbvios que me vieram à cabeça. Então, você não me ofende se me chamar de mulher de vida fácil, de rameira, meretriz, se chamar pelo nome completo, prostituta.

Não me ofende ser chamada de biscate. Não me ofende se me chamar de puta.

Isso esclarecido, deixa eu dizer que me preocupa que você ache que chamar de puta é ofensivo. Me preocupa você achar que é xingamento. Me preocupa você achar que é pejorativo. Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?

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Me preocupa porque você usar puta como xingamento porque está implícito que mulher que faz sexo e/ou mulher que ganha dinheiro e/ou mulher que decide sobre sua vida e/ou simplesmente ser mulher é uma coisa ruim e que merece ser punida. Que merece o que lhe acontecer. Como, por exemplo, ser atacada. Ser alvo de violência, seja física ou psicológica. Que merece ser estuprada, violentada, espancada e tantas outras violências diárias que as mulheres costumam sofrer apenas porque existem. Apenas por serem.

Porque se existe uma escala para ranquear mulheres entre certas e erradas, direitas e erradas, santas e putas, incríveis ou biscates, essa escala é machista. Sempre. Não tem um mas. E quando a gente usa, mesmo com a melhor das intenções, estamos sendo machistas e validando as manifestações cotidianas de violência. Essa escala, arbitrária e conivente com a violência, sempre será prejudicial para as mulheres, por mais que algumas se esforcem pra jogar o jogo direitinho e não usem roupas curtas, não saiam sozinhas a noite, não bebam, não falem muito, não riam alto, não usem rímel. Uma sucessão de apagamentos que nunca serão o bastante.

A gente insiste: a culpa nunca é da vitima. Em qualquer caso, a culpa pela agressão é do agressor. Mas eu quero ir além. A culpa é do agressor, mas a responsabilidade é nossa. A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. A violência contra a mulher se perpetua, entre outras coisas, com a naturalização do termo puta como xingamento. Há uma avaliação moral implícita, mesmo que a gente não perceba.

Então, a desconstrução dessa escala se faz necessária. E ela passa não pelo apagamento das situações individuais de violência mas, acredito, pela compreensão do contexto em que as situações individuais se inscrevem. Passa, acho eu, pelo reconhecimento de que a “superioridade moral” de apontar o dedo, seja pra vítima, seja pro perpetrador da violência, não explica nem resolve. Passa por entender que o moço que me chama de puta não está sozinho, nem mesmo está restrito ao bando que nos chama de putas. Entender que ele é a regra. Ele é a média. Ele e o moço descolado de esquerda que acha que o funk não é música. Ele e a vozinha que balança a cabeça horrorizada com as mulheres que andam com camisinha na bolsa. Ele e o pessoal que faz mene com o tal quadradinho de 8. Ele e o cara esclarecido que tão rapidamente se dispõe a contestar os métodos da pesquisa sobre assédio (que insistem em chamar de cantada), e ainda mais ligeiro se esquece de refletir sobre o conteúdo. Por mais que se insista na mitificação da violência como uma coisa horrenda cometida por pessoas sem esclarecimento, monstros à parte da sociedade, é preciso que a gente lembre que não é assim. Não é. O estuprador comum, assim como o impetrador de violência doméstica, é a pessoa legal que convive com a gente “de boua” mas que tem incrustado em sua socialização a compreensão de que a mulher é menos. Compreensão essa que aparece, em maior ou menor grau, nas piadinhas cotidianas, nos salários menores, na ausência de divisão de tarefas domésticas.

O que eu quero dizer? Que feminicídio e puta como xingamento (assim como as piadas sexistas) não são fenômenos de uma mesma sociedade à toa (não que um cause o outro, please). E que enquanto a gente não entender que a sociedade somos nós, a luta será sempre mais difícil, lenta e dolorosa. Com baixas acentuadas e constantes do lado das mulheres. Todas putas.

você, que adora paredes.

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

(e como hoje é o dia nacional da poesia, um conto em verso e eros, para te inspirar a escrever você também um poema no corpo de alguém <3 )

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você vem, toca a campainha.
eu abro a porta e te vejo.
te recebo, desejo.
(mas tenho que te dividir com o cachorro, fazendo festa)

então te abraço finalmente,
de saudade. de vontade.
encosto a cabeça no seu peito, baixinha.
encosto meu peito na sua barriga, abusada.
encosto o meu corpo em você: me desfaço.
sou uma kali mas não sei aonde vão meus braços.
um beijo. longo. ou dois. ou mais.
não sei, não estava contando.

respiramos.
quero te mostrar a casa.
quero te mostrar a vista.
(quero que você me pegue de frente para a paulista).
quero que você me encoste no sofá.
quero que você percorra sua mão em mim.
eu encosto, você vem.
e me abre lentamente as pernas.
ou fui eu que abri, não sei.

meu vestido sobe, eu subo.
você sobe sua mão e me encontra.
(sem calcinha, como sempre).

e você me descobre molhada, pulsando.
e eu descubro como é ter suas mãos em mim
se molhando.

eu gemo baixinho.
você me beija. não para.
e gemo de novo. você respira.  me põe
na parede, me vira.
me abraça por trás e me espreme.
você adora paredes.
e eu adoro você me cercando.
adoro te sentir tentando
ultrapassar essa sua calça.

segura com a mão os meus seios,
outra mão nem sei onde está.
é seu corpo meu corpo a sua mão o meu peito
e a parede lá.

estou na ponta do pé e ainda subo.
dar altura em você, me encaixar.
mas eu viro de novo, meus seios
saltam do vestido, não querem esperar.
você mergulha neles, apnéia.
mas sou eu que fico sem ar.

me recomponho.
mas só pra gemer de novo.
seguro sua cabeça com a mão
e com a outra eu te procuro.
e te encontro. pronto e duro.
subo as mãos debaixo da camisa,
o seu peito, a sua barriga.
me deito de pé no seu corpo.
e vou descendo.
descendo.
(e você rouco)
descendo.
respirando você
e descendo.
beijando sua pele
e chegando.
e descendo
até que chego.

abro o zíper com cuidado.
quero olhar pra cima e te ver
mas não posso, não consigo:
eu tenho um objetivo.
te sentir em minhas mãos.
e beijar. te encostar no meu rosto.
e lamber. sentir o teu gosto,
e você. crescendo.
crescendo, e você gostando.
quero gemer mais um pouco,
mas não posso, não consigo:
minha boca está ocupada contigo.

você me para. me puxa.
me põe de volta na parede.
prende minhas mãos no alto.
segura na minha nuca. me beija.
respira na minha boca.
sua calça desce nas suas pernas.
enquanto eu escorro nas minhas.

quero continuar o conto
quero te encontrar num canto
hoje, agora, quando?

quero gozar com você
quero te fazer gozar
como se o tempo parasse.
e vai parar.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste à um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

 

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Sabe a Miss Bumbum e o Cadeirante? Não é da sua conta

Texto escrito com a consultoria/parceria de Patrícia Guedes*, Biscate Convidada

Vou contar um segredo pra vocês: desejo, tesão, amor, sexo, afeto… nada disso é exclusividade de pessoas jovens, magras, sem deficiências, brancas, heterossexuais e cisgêneras. Afeto, sexo, amor, tesão, desejo, tudo isso é humano e tá presente em todos nós de fio a pavio.

Ontem de manhã uma amiga me perguntou se eu estava acompanhando a polêmica sobre o namoro da Miss Bumbum. Eu disse que não e fiquei preparada pra ouvir o relato mais usual sobre as pessoas com preconceito sobre mulheres que “usam o corpo pra subir na vida”, “mulheres que não se dão ao respeito” e outras bobices assim. Mas os preconceitos relatados não eram (apenas) o machismo e conservadorismo nosso de cada dia.

O preconceito da vez é contra as pessoas com deficiência. Nem é novidade, o preconceito em relação a pessoas com deficiência é aquele mesmo de todo dia, mas no todo dia vem meio disfarçado de benevolência e paternalismo.

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Só não pode tratar de sexo. Aí, cumpade, o buraco é mais em baixo (ou, no caso, melhor seria dizer que o buraco é mais em cima ou que nem se admite a existência do buraco). Magina que pessoas com deficiência (seja física, motora, psíquica, cognitiva, whatever) vai ter desejo. Tesão? Não, não, não (quase que a gente escuta o “eca”). O corpo com deficiência é visto como assexuado, defeituoso, impróprio. Aliás, não só o corpo, à pessoa com deficiência é vedado, implicitamente, o desejo. Não só não pode fazer sexo como não pode desejar fazê-lo. Sobre esse assunto, ninguém fala, ninguém sabe, ninguém viu. Talvez nem exista.

Mas qual a história mesmo? Uma moça que namora um moço. E o moço é cadeirante. E uma enxurrada de comentários imbecis. De maneira geral as pessoas destilam preconceito ao julgar que paraplégicos e tetraplégicos (pra ficar mais próximo do tema, mas isso se estende a vários outros tipos de deficiências) não podem ter vida sexual. Não precisamos nem pensar muito pra ver como o senso comum é limitado na sua compreensão de sexualidade, julgando-a a partir do paradigma heterossexual-cis-penetração-pênis-vagina-homem-no-controle. Sério mesmo que ainda se pensa que sem pau não tem o que fazer na cama? (Sexo sem… #ficadica e é só uma das inúmeras) Esse caso é agravado por outro preconceito: ela, por ser miss bumbum, é hipersexualizada e supõe-se que é difícil de ser satisfeita sexualmente. Mais de um comentarista enfatiza que é “sacanagem deixar um mulherão desses só na vontade”.

Não devia, mas ainda me impressiona a facilidade com que as pessoas se sentem no direito de invadir a privacidade alheia, questionar, julgar e rotular a vida sexual do outro. Sério mesmo, que é que a galera tem a ver com o jeito que as pessoas trepam? Não interessa se eles usam mão, língua, acessórios, se tem ereção, se tem ejaculação, se convidam mais alguém pra festa. Cada adulto, com seu desejo e seu gozo.

Mas é preciso reconhecer, se um corpo não desejável passa a demonstrar desejo, temos um problema grande com o qual a sociedade não consegue lidar. E a reação a ele costuma ser bem violenta. Não por acaso costuma haver tanto preconceito no que tange a sexualidade de pessoas gordas (leiam o gorda e sapatão, leiam sim), trans (leiam o transfeminismo, leiam sim), negras (leiam o blogueiras negras, leiam sim). E pessoas com deficiências.

Lembro quando assisti o excelente filme “As Sessões” (que narra, basicamente, a relação entre uma sex surrogate – parceira sexual substituta – e seu cliente – Mark O’Brien, que é deficiente físico) e quantos comentários desconfortáveis surgiram pelas redes sociais. Um monte de gente incomodado por uma pessoa tetraplégica sentir, manifestar e procurar satisfazer seu desejo sexual.

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O filme é muito feliz ao mostrar, com leveza, o desejo do seu protagonista e (não menos relevante) tratar com naturalidade o corpo não padronizado de Helen Hunt (grande parte das cenas da atriz são realizadas despida ou semi despida). Uma grande parte do incômodo que encontrei nos comentaristas do filme é em relação às coisas que considero grande mérito: a) a naturalidade com que o filme nos leva a encarar a busca da relação sexual e do conhecimento do próprio corpo, empreendida pelo moço com deficiência, b) a desglamourização dos corpos, tirando o foco da beleza esteticamente aceitável, c) o sexo como um elemento presente e ativo na vida de toda e qualquer pessoa, manifestado de forma específica segundo sua vivência e subjetividade (seja o protagonista, a parceira sexual substituta, o padre, o marido da parceira sexual substituta, etc), sem moralismos ou julgamentos de caráter.

Supor a incapacidade de alguém de desejar ou ser desejado tem nome: capacitismo. Ao negarmos a sexualidade de alguém, lhe negamos, automaticamente, representatividade política e social, entre outros direitos. A inclusão sexual da diversidade de corpos existentes é, talvez, a mais difícil a ser feita, já que com tabu não se discute. Mas precisamos. Precisamos desconstruir a noção disseminada que pessoas com deficiência não são aptas a decidir sobre suas vidas. Precisamos desconstruir a idéia de que sexo é exclusividade de pessoas que se inserem no padrão que a sociedade avaliza. Precisamos debater a noção de que existem corpos que “não servem” pra o prazer. Precisamos incluir, precisamos visibilizar, precisamos ouvir. Precisamos sair do paradigma da sobrevivência digna para o da existência gozada.

E como dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, temos a Jane Fonda em Amargo Regresso, com seu amante paraplégico, pra não nos deixar cair no moralismo (pode ver aí)

E o que a gente faz com a moça capa-de-revista e o moço cadeirante? Não faz. Deixa que eles façam. Sexualidade e autonomia caminham de mãos dadas. Que entre eles exista (ou não) desejo, tesão, amor, sexo, afeto, apenas: não é da minha conta, não é da sua conta, não é da nossa conta.

patrícia*Patrícia Guedes é arquiteta, feminista, biscate militante e a favor do piriguetismo consciente.

PS. Nosso obrigada à Jussara, com quem conversamos e de quem pescamos umas boas questões.

PS2. Nosso obrigada à Renata Lins que lembrou da Jane Fonda <3

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Espontânea

Guardo em mim com mais carinho
Os quereres sem hora marcada
Os beijos dados de graça
Os amassos-surpresa que me coraram a face

E me ferveram por dentro.

espontânea

 

 

 

 

 

Ah, Querido…
Das minhas lembranças mais gostosas
As mais e mais e mais gostosas
São as do amor não polido
Sem cenário
Sem receitas prontas
Sem melindres
Apenas nossos corpos colados
E nosso prazer

Tens contigo um pedaço de mim
Eu, espontânea
Palavra biscate, em sua própria essência
Sinta-se feliz
Pois este é o meu melhor pedaço.

Quando sexo e o amor se misturam

“Quando a gente faz anal me sinto um com você”

Nosso amor aconteceu da forma mais inusitada: eu odeio chat de bate papo, mas fui incentivada a visitar um, eu queria sexo rápido e ouvi que lá conseguiria! Em meio a tantos homens que mentiam (para que mentir para uma pessoa que você conhecerá e verá apenas uma vez?) idade, se tinham ou não um@ companheir@, lá estava ele! Sim, ele foi totalmente sincero, tanto eu quanto ele queríamos uma coisa de uma vez e só, ele não tinha namorada, era novo e não mentiu sua idade… Além disso, mostrou seu perfil de facebook, negão bonito! Me chamou atenção que tinha um amigo em comum.

Oi, quer teclar

Oi, quer teclar?

Ela: “você mora onde?”
Ele: “são pedro e você?”
Ela: “tb, mas nunca te vi por ali…”

Marcamos de encontrar, depois de muito conversar pelo facebook, ele era direto, nunca disse meias palavras sobre o que nós queríamos! Chegou o dia, ele chegou todo arrumado do centro, com o baixo nas costas. Eu esperei ele deixar o baixo em casa. A conversa ansiosa até o primeiro beijo. Depois do primeiro beijo, eu queria correr para algum lugar onde poderíamos transar! O que nos uniu de primeira foi o tesão, com ele tudo era perfeito! O sexo foi o melhor que já fiz… E, da mesma forma que desde o início o tesão é o mais importante, é nele que sentimos a união e o amor! Não falo de coisas românticas ou de ser “especial” porque eu o amo… Em outros relacionamentos meus, me ligava às pessoas pelo carinho, com ele sou muito mais livre e segura em relação ao sexo, tem coisas que eu só consegui fazer com ele e coisas que ele nunca fez antes de me conhecer, a gente confia muito.
Aí, uma frase que ele fala sobre uma particularidade bem nossa (de uma frequência de quase não fazer anal a fazer quase todas às vezes que transamos) me faz entender o quanto o sexo nos uniu, que meus pensamentos onde eu separava sexo de amor eram tão errados! Nós somos unidos pelo sexo, nosso amor cresceu por causa do tesão.

Me Derrubaram na Net

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

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Volta e meia pipoca na internet alguém que ‘caiu na net’, ou seja, teve momentos íntimos privados expostos para milhões de pessoas. E isso aconteceu de novo nos últimos dias. Eu nem vi o tal vídeo em questão. Por sorte, nenhum/a amigo/a nas redes sociais compartilhou ou fez qualquer crítica à vítima (estão de parabéns s2). Eu só fiquei sabendo o que tinha acontecido de fato quando li o post “Carta à Fran”. E é sempre a mesma coisa que se segue: milhares de compartilhamentos, xingamentos de puta, vadia, imoral etc. E o cara quase sempre passa por garanhão.

Sei lá, eu nunca ‘caí na net’, que eu saiba, mas certamente há ‘material’ por aí. Eu não quero viver num mundo onde eu não possa confiar nem em quem eu me relaciono afetivo-sexualmente. Onde eu não possa nem manifestar meus desejos e fantasias com alguém com quem eu divida a cama.

Se alguém ‘vaza’ imagens de um momento íntimo, o único culpado, responsável e criticável por isso é quem vazou. eu não vejo a menor possibilidade de qualquer crítica à outra pessoa (vítima, no caso). Nem mesmo com o intuito de ‘alertar’ como pode existir gente canalha, afinal, a pessoa já percebeu e da pior forma. Ela não precisa de ‘lição’, ela precisa de empatia e apoio.

E essa inversão na forma de como tratam a vítima e quem expõe as imagens é cruel. Se as pessoas tem interesse em fazer com que esse tipo de coisa acabe, não deveriam ‘alertar’ as possíveis vítimas de que existe gente canalha. Alertem aos canalhas que eles é que terão que se explicar e se responsabilizarem pelo o que fizeram. Alertem aos canalhas que eles é quem devem tomar cuidado com o que ‘vazam’. E, sobretudo, critiquem os canalhas, exponham os canalhas, ridicularizem os canalhas.

E, talvez, a gente não precise ficar suprimindo nossas fantasias nem mesmo dentro de nossos relacionamentos. E quem sabe o controle de nossa sexualidade por parte do resto da sociedade perca um de seus tentáculos. E quem sabe a gente ganhe um pouquinho de liberdade.

Além do mais, as pessoas não ‘caem na net’. Elas são empurradas, derrubadas e expostas.

(ps.: isso vale também quando não é um relacionamento. só especifiquei porque grande parte desses casos acontecem justamente com o fim de um relacionamento)

everson*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Você ainda sente?

1Na espera foi quando lembrei. Tua língua luz brincando de fazer-me sombra. Não me escondi.

Com mãos de expectativa abri o chuveiro e as lembranças jorraram. Peguei uma barra de desejo e lentamente, em círculos lentos, antecipei sua língua.

Encarei com audácia o frio na barriga e fiz dos cabelos promessas. O óleo escorrendo como minha pele de encontro à tua mão. Os pelos, assim como algum medo que pudesse restar, retirei cuidadosamente.

3Ensaio.

Então perfumes e cremes para serem cheirados. Calcinha nova e vestido bonito para serem arrancados. Sorrisos ensaiando sedução antiga na frente do espelho.

Saio.

Música demais, vinho demais, conversas demais. Tudo reverbendo sua ausência.

Até que sorrimos o tempo de nossa separação num olhar. Tão simples.

Cerveja e sua boca. Os amigos em comum tocando violão e nós nos afastando do tempo que ficamos distantes. Você me tocando enquanto sussurrava a morte de tanta saudade.

4A noite tinha então poucas luzes e você fazia-me tantos e conhecidos carinhos alegres. Coloquei a calcinha de lado e o desejo estava na minha e na tua boca. Em nós tudo úmido, acre e pulsante.

Finalmente perguntei.

Você ainda sente? Sente? Sente?

Até que nossos gemidos se tornaram novamente certezas.

5E reencontro.

Sexo?

A nossa sociedade adora criticar e torcer o nariz para a vida sexual alheia. Tudo que é “fora do comum” para o povo é doentio, errado e feio. Sofri por muito tempo com esse medo de ser doente e errada, nunca assumi certas preferências minhas no sexo por medo de que meus/minhas parceirxs me olhassem como uma pessoa estranha.

Sim, eu sempre gostei de tapas, beliscões, mordidas, ser puxada pelo cabelo! Hoje em dia, me libertei do medo de ser julgada pelxs parceirxs. Mas demorou muito tempo para eu entender que, durante o sexo, a violência só existe quando não é consentido por um dos lados. Tapas e mordidas podem sim ser parte do sexo, não tenho que me envergonhar de querer ou fazer qualquer coisa durante o sexo, não é necessário que eu finja que não gosto do que gosto para me adaptar a sociedade.

Outro dia, perguntei ao meu namorado se ele me achava estranha por gostar de sexo mais bruto. Ele sorriu de forma carinhosa, como sempre, e disse que eu tenho todo o direito de gostar do que eu quiser na hora do sexo. Acredito que, muito antes disso, eu criei a confiança de ser livre na hora do sexo com ele, graças a isso, eu sempre falei tudo o que queria, até o que me assustava falar com outrxs antes dele. Mas, em um dia, bateu a insegurança, sou estranha? Devo me preocupar com isso? Acredito que não, mas a razão nem sempre prevalece. Mesmo que, aos olhos do meu namorado, eu fosse “estranha”, não é da conta de ninguém o que você faz na hora do sexo, desde que seja tudo com consentimento dxs participantes, nada é feio ou ruim.

Enquanto não conseguirmos nos desfazer de nossas “amarras conceituais” e nossos preconceitos com relação ao sexo, não há como se sentir plenx com ele. É clichê dizer isso, parece até frase feita, mas é como me sinto. Como Biscate, eu sambo na cara da sociedade de forma bem escrachada e bem escancarada! E grito aos quatro ventos, feliz e realizada, que estou me livrando de minhas inseguranças e vivendo o sexo da forma que eu quero e mereço!

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De dois e de muitos

Imagine uma cena: você está num quarto com mais cinco pessoas de ambos os gêneros. Estão todos nus. Você, além de nua, está amarrada, vendada, e já sofreu todo tipo de sevícia – só das melhores, claro. Já gozou, já gritou, já apanhou.

Então você sente um calor se aproximando, uma pele se encostando, um cheiro. E você sabe. Conhece. Ali, no meio da suruba, no meio dos gemidos, das secreções, das vozes, você de repente está em casa. E o nome disso é amor.

Começou tudo bem antes, claro. Se for dizer exatamente, foi logo quando nos conhecemos. Antes que qualquer coisa acontecesse, ainda naquele processo saboroso de ir descobrindo o outro, conversamos sobre o desejo de viver um relacionamento mais aberto. Que não tivesse exclusividade sexual, que permitisse experimentar, viver, brincar. Que se levasse menos a sério.

(E ouso até supor que essa conversa foi fundamental no processo de encantamento. Mas divago, divago.)

Veio o apaixonamento, o encontro dos corpos, o frio na barriga – mas antes do status oficial, veio o combinado: seja o que for, será leve. Saíramos, ambos, de relacionamentos difíceis e cheios de possessividade. Estávamos cansados. Queríamos viver nosso desejo com liberdade.

Apesar disso, o namoro foi bem dentro do convencional. O sexo era bom, muito bom, cada dia melhor, como só a intimidade pode proporcionar. Acho a intimidade muito mais importante que o amor, no que se refere ao sexo. Nesse caso específico, além da intimidade o amor também crescia, com parceria, bom humor e leveza, até virar decisão: bora morar junto? Bora compartilhar a vida?

Porque era mais fácil, decidimos aproveitar e assinar uns papéis. E assim, casamos.

Com pouco mais de um ano de casamento, já falávamos em trazer outras pessoas para a nossa cama. Queríamos experimentar. Fazíamos listas das pessoas com quem gostaríamos de transar, preferencialmente outros casais. E não demorou até que surgisse a oportunidade, e logo com os primeiros da nossa lista, um casal de outra cidade.

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Foi sensacional. Depois que rolou, o que sentíamos era uma cumplicidade enorme, algo que não conseguíamos definir. Era meio onírico, era uma fantasia realizada, abria um mundo novo para nós. Criamos um relacionamento com o outro casal, nos encontrávamos esporadicamente, eu e a moça nos aproximamos bastante.

O que trouxe também alguns problemas. Testou nossos limites, os limites do nosso relacionamento, da nossa confiança, da nossa liberdade. Eu, especialmente, que sou mais possessiva e um pouco competitiva, sofri. Tinha pesadelos com medo de que ele fosse embora, com medo de que toda aquela liberdade tivesse preço.

Mas pra quem é desses, a curiosidade biscate não cessa. A vontade continuava. E assim aprendi a lidar com o risco calculado, que fui descobrindo cada vez menor, à medida que novas experiências e novas pessoas surgiam, e o nosso amor crescia cada vez mais. Transar com outras pessoas era uma experiência nossa.

Aí entra uma explicação sobre algo que todo casal com relacionamentos não estritamente monogâmicos acaba descobrindo: os limites precisam ser negociados e claros. Não dá pra confiar no não dito, no presumido, nem ignorar o que o outro está sentindo. O mínimo incômodo tem que ser motivo para parar tudo.

Foi assim, prestando atenção, que descobrimos o que estávamos buscando. Nós não queríamos um relacionamento aberto. Não queríamos estar, cada um, separadamente, com outras pessoas. Queríamos estar juntos – e também com outras pessoas. Ainda que eventualmente um dos dois não estivesse no clima, ou cansasse, e deixasse o outro lá pra se divertir, a experiência era fundamentalmente nossa, como casal.

Por termos entendido isso, a vivência nos aproximou e nos fez crescer. Libertou de algumas amarras que a monogamia tradicional causa: não gasto tempo me preocupando se ele estará interessado em outras mulheres, ou flertando com alguém. Falamos livremente disso, aliás, falamos das pessoas que nos interessam, continuamos criando nossas listas, e eventualmente transando com outras pessoas, quando dá vontade. Cada vez com menos restrições, não fazemos mais questão de casais. Qualquer pessoa que nos interesse pode eventualmente vir parar na nossa cama.

“Quem, aquela? Será que ela topa?” “Acho que topa, olha como ela está te olhando.” “É, ela já disse que tinha vontade de ficar com a gente.” Chegamos perto, sentamos perto. Ele me beija com vontade, vejo que ela está curiosa. Vamos conversando, trocando olhares. Propomos. Dali, vamos para casa. A dupla é afinada.

Nosso casamento não é prisão, não nos restringe. Expande. Permite. Amplia. Mas dá trabalho, porque nada é dado. Tudo precisa ser pensado e negociado, até a sedução desses outros que incorporamos. Seduzir como um time é aprendizado. Cada um na sua hora de avançar, sussurrando os próximos passos, decidindo como proceder. Trabalhando juntos para o prazer comum.

Mas houve um efeito colateral curioso, que percebi naquela experiência lá do começo do post (que aconteceu  de verdade, e foi deliciosa): o sexo com as outras pessoas, por si só, ficou um pouco menos interessante. Porque se as outras pessoas têm o mistério, a novidade, o inusitado, eu e ele temos a intimidade, a prática um no outro, a vivência conjunta. Cada nova pessoa traz aprendizado, não só de si, mas de nós. E o sexo melhora, e o amor se aprofunda.

Então ali, no meio da orgia, no meio do gozo, eu entendi: minha casa é ele. E as visitas são bem vindas.

muitos

 

Fome

1Quero te comer, gostoso. Sussurro rouca e biscate tentando dizer dessa fome tanta. Antecipo-me satisfeita ao cheirar sua pele, que é meu petisco, manjar, prato feito, ambrósia, banquete.

Passando a língua por lábios até me perder nos seus tantos gostos. Porque o tempero na dobra do seu pescoço é um, diferente daquele do beijo no seu peito antes de dormirmos misturando pernas. Receita que aprendi pra te comer melhor, lobo mau.

Quero te comer sem saber se doce ou amargo, ou sabendo bem, mas inventando desculpas para experimentar o que de repente pode despertar outros apetites. Uma vez mais. Mais um pouquinho. Assim é gostoso também, pergunto e respondo rindo de mostrar os dentes.

2 (2)Ainda tenho fome se faço tudo igual. Nesses dias bebo café devagar enquanto abro armários e invento com o que tem um dia para chamarmos de nosso. Depois vou plantar hortelã, manjericão, pimenta. Belezas de cozinhar em fogo brando o que renasce das cinzas.

Desejo.

Quero te devorar agora mesmo. E sinto frio, calor, loucura de sem jeito bem no pé da barriga. Te comer, gostoso. Quero. Anuncio uma fome lenta e que me encharca o vestido. Gostoso! Grito de fome apressada, gemendo alto meu gozo no seu ouvido.

3De repente já é noite. E novamente. O poeta canta de matar a sede na saliva enquanto nua e tranquilamente caminho até a geladeira para encher nossas taças de mais vinho. E brindarmos juntos, meu pão. Minha Comida.

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