Lapada na rachada?

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Falar abertamente sobre sexo é algo que desejo para todas as pessoas. Não precisa dar detalhes da vida sexual, nem ficar se gabando ou se lamentando, mas acredito que seria bom para todo mundo conseguir falar bastante sobre o assunto, sem receios, preconceitos ou limitações. Isso ajuda até mesmo a identificarmos melhor o que é violência sexual, o que é consentimento, o que é prazer. Por isso, compartilho com vocês minha nova ídola: Monica Moreira Lima, apresentadora do programa Sem Vergonha na TV Guará do Maranhão, que descobri recentemente por meio de uma entrevista na Revista TPM.

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Em seu programa, Monica discute tudo sobre sexo e entrevista pessoas nas ruas. O ponto alto é seu vocabulário direto e espontâneo:

Uma das abordagens recentes de fã foi bem específica. “Um cabra me parou no shopping: ‘Mônica, ligue aqui pra minha mulher, por favor, convence ela a dar o cu pra mim, vai?’. Como é que é, meu compadre? Cu é meritocracia e muita dedicação. Deixe a moça doidinha e tu vai ver ela dizer ‘é hoje que eu quero dar esse cu”.

“Primeiro tire um sarro, no cinema, na balada, para conferir se o cabra é sua pontuação de rola. Feita a checagem, dê uma boa lapada na rachada”.

“Um ‘Eu te amo’ pode ser falso, mas um pau duro é sempre sincero”.

“O melhor pau é o pau cavalheiro. Aquele que levanta para a dama sentar”.

Mônica é jornalista, tem 47 anos e três filhos. A fuleiragem é sua marca registrada. Vítima de violência doméstica no casamento, assume que tem trauma de relacionamentos com homens, mas trabalha para ver as mulheres sentindo-se mais livres para vivenciar sua sexualidade.

Acredito que não se trata apenas de pregar libertinagem e nem dizer que todas as mulheres devem transar bastante. Fazer mais ou menos sexo é indiferente, falar abertamente sobre sexo é o que quebra nossos tabus internos, é o que pode transformar nossas relações de prazer, é o que abre portas para que jovens perguntem e não sintam vergonha. Ao perguntar: você sabe o que é lapada na rachada? Mônica estimula nossos sentidos e nossa forma de vivenciar cotidianamente o sexo. Ou no mínimo nos faz dar boas risadas.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Siririqueira de mão cheia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esses dias, a cantora Pitty reclamou em seu perfil no Twitter sobre uma declaração sua que saiu deturpada em matéria do jornal O Globo. O caso já foi resolvido. Pitty havia comentado sobre masturbação: “Meu corpo me basta! Cheguei a pensar, inclusive, em incluir um momento de masturbação, reforçando o quanto estou me amando sozinha”. Após a repercussão, ela logo recebeu inúmeras mensagens ofensivas na internet, muitas delas dizendo: “Siririqueira”, “Toca uma pra nós” e “Mal amada”.

Ora pois: eu, como boa siririqueira, preciso levantar a mão, chupar os dedos e me manifestar. Quem pratica e mantém o hábito de siriricar sabe que sozinha sim, mal amada nunca! Um ato tão prazeroso que pode começar nas roçadinhas básicas do braço do sofá, passando pelo tão idolatrado chuveirinho íntimo do banheiro, até chegar nas atléticas habilidades em cima da máquina de lavar. A siririca é essencialmente uma prática do cotidiano, da qual podem participar inúmeros objetos presentes ao nosso redor, que pode ser realizada em momento solitário ou em conjunto, em ritmo lento ou rápido dentro do molejo que o dia apetecer.

Entre nós do Biscate há um dito interno que diz: a siririca é a verdadeira sororidade. Porque é por meio da siririca que damos as primeiras mãos em direção a conhecer nosso corpo, nossa fluidez, nossos desejos, nossa intimidade. É a espuma do banho que um dia faz uma cócega diferente. É o líquido que apareceu depois de um beijo na novela. É o frisson de ter cruzado com alguém que soltou faísca. É também, no meu caso, a certeza de que eu e Keanu Reeves fomos feitos um para o outro desde a minha adolescência. Assim como hoje tenho certeza que eu e Chay Suede também deveríamos nos conhecer melhor.

Siririca eu, siriricas tu, siririca ela, siriricaremos nós todas. Siririca é a resistência da buceta, da vagina, do clitóris, dos grandes e pequenos lábios. Desse corpo cheio de terminações nervosas e desejos. Desse corpo que sabe exatamente como gosta de ser tocado por aquela pessoa que mais o ama. Se toque! Toque para os outros! Faça como Pitty e fale sobre masturbação. É bom para o gozo, a alma e o coração.

Cena do clipe 'Adore' da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

Cena do clipe ‘Adore’ da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Uma negra na capa da Playboy

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Quando era criança, o mês de maio era celebrado como o “mês das pessoas negras”, por causa da assinatura da Lei Áurea. Com o fortalecimento e ampliação do movimento negro, o mês de novembro passou a concentrar as demandas de luta e cada vez se fala menos na “abolição da escravatura”. Esse foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu ao ver que na edição de maio da revista Playboy brasileira, havia uma mulher negra na capa.

Ivi Pizzott é bailarina do “Domingão do Faustão”. A nona negra, em toda a história de quase 40 anos da revista no Brasil, a sair na capa. Meu pai assinou por anos a revista e, em minha memória, só consigo lembrar de Isabel Fillardis, num cenário de dunas.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

As primeiras críticas que vi, falavam que não há nada de novo em ter uma mulher negra sexualizada na capa de uma revista. Não há empoderamento, não há representatividade. É fato que na mídia a mulher negra é ou hiperssexualizada ou invisibilizada, e nos contextos capitalistas o poder dificilmente muda de mão, mas me questionei: nos dias de hoje, essa capa da Playboy pode representar algo?

Se a Playboy existe, num mundo em que corpos femininos são comercializados para o prazer, especialmente masculino, o fato de termos apenas 9 negras num universo de mais de 400 edições da revista é a comprovação que os corpos dessas mulheres não servem nem mesmo para essas revistas, são cruelmente mais descartáveis.

Trago para a reflexão um texto, que considero clássico, de Charô Nunes: Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! A maioria dos elogios feitos as mulheres negras foca em seus atributos físicos opulentos, retirando-lhes humanidade, colocando-as no açougue, exatamente o trabalho de uma revista como a Playboy, que vende corpos femininos. Especialmente tendo uma capa que remete a etnicidade com os acessórios e exibe o cabelo de Ivi como uma grande coroa, temos a referência animalesca com a chamada que diz “solta suas feras”. Uma questão parece ser o espaço social que o racismo nega e que ainda mantem negras e negros acorrentados a representações legitimadas pela branquitude. O mesmo cabelo que na capa da Playboy é destaque e elemento componente da construção do desejo e apelo sexual, em outros é ridicularizado e tratado como abjeto. Não parece ser a mulher negra que decide como seu corpo lhe agrada mas a narrativa, as fotografias, os discursos externos que são feitos sobre esse corpo.

Porém, negras e negros também são pessoas que desejam, também são corpos desejantes, que muitas vezes gostariam de ver mulheres e homens negros lindos, gostosos, sedutores, todo mês em revistas que pudessem ser folheadas com prazer. A expressão da sexualidade acaba por ser mais um espaço a ser conquistado, um espaço em que negras e negros não precisem existir apenas para servir, apenas para ser a bunda do carnaval ou o maior pênis da festa gay.

Então, há essa luta pela liberdade dos corpos. A luta por uma estética que não seja eurocêntrica, exotificada, ridicularizada ou hostilizada. É preciso reconhecer que a objetificação do corpo das mulheres negras ocorre de formas diferentes a da mulher branca, portanto é preciso levar em consideração também outras formas de representação e vivência de sua sexualidade.

E há inúmeras perguntas que acompanham: o protagonismo individual de Ivi Pizzott pode significar ganhos dentro da teia capitalista, que vislumbra um poder também individual? Porque posar nua, ver-se nua numa revista famosa, traz novas formas de se olhar. Talvez seja também o sentimento que carrega a passista nua da escola de samba, que tem no momento do desfile o seu auge individual. Coletivamente, para as mulheres negras não há mudanças, mas individualmente pode haver significados diversos? E caso sim, como acolhermos e legitimarmos os desejos e ações individuais sem perder de vista os compromissos coletivos de transformação da realidade?

É uma capa da Playboy, mas é bom que até isso seja o catalisador de novas perguntas sobre o protagonismo das mulheres negras.

+Sobre o assunto:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Patrulhas da sexualidade… Alheias

Tem uma coisa que me incomoda… Incomoda muito! A tal da patrulha… “Olha, fulano tá namorando demais, cada dia com uma!”. “Olha, siclana trocou de namorado ontem e agora tá pegando aquela menina”. “ME-NI-NA, você viu! Beltrano saiu do armário… beijou não sei quem no carnaval, eu vi! Até que enfim!!!”.

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Registro Rupestre de um Beijo – Piauí-Brasil

E o problema da patrulha não é só, em alguns casos, a superexposição da sexualidade alheia. Sexualidade é igual marca de nascença, expõe quem quer. Tem gente que tem orgulho, tem gente que tem receio e tem gente que acha complicado. Acima de tudo, é foro íntimo e é da vontade de cada um usufruí-la para além de qualquer patrulha (sim! qualquer patrulha! de movimentos pela ou contra a liberdade).

Pra ser chato, eu meio que tenho uma teoria baseada em nada mais nada menos que minha mera observação sobre a situação: A patrulha da sexualidade alheia revela uma insatisfação com a própria sexualidade. Pois é… Me desculpem os psicólogos de plantão (e os que têm rotina também), mas é isso… Não to dizendo que o fato de um “heterossexual” se incomodar com “homossexuais” revele que ele seja um potencial “homossexual enrustido, ou que uma pessoa “pudica” que se incomode muito a “lascívia” de outras pessoas seja alguém “que não trepe”.

Pode até ser que isso seja verdadeiro. No entanto, o que quero dizer é que a preocupação e o incômodo sobre as formas como os outros exercem as próprias sexualidades (seja heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual ou qualquer outra forma de designação) é um indício de uma incapacidade, ainda que momentânea, da pessoa se satisfazer plenamente a própria sexualidade e, em específico, sentir prazer com essa sexualidade. E não há nada pior que, ainda que exercendo a própria sexualidade, a gente não goze!

Em princípio, isso não é problema nenhum… Todo mundo já passou ou vai passar por algum momento de insatisfação sexual e de exercício “precário” da própria sexualidade. O problema é quando essa insuficiência de gozo se transfere do mero incômodo com as sexualidades alheias e parte para uma patrulha dos hábitos e das ações das sexualidade alheias. E, pior, parta para iniciativas de cerceamento das sexualidades alheias! O que é inconcebível.

Daí vem a minha implicância, porque patrulha/policiamento já nunca é bom, quando é da nossa sexualidade, então, é terrível! Por um simples motivo: a sexualidade é a prerrogativa mais íntima que nós temos e seu exercício livre é o maior sinônimo de nossa satisfação como humanos e em sociedade… É como a gente sente prazer, é o jeito que a gente goza… É isso…

Como comprar seu vibrador ou divertindo-se num sábado à noite

Você já tem um vibrador? Já pensou em ter? Se não pensou, deveria. Garanto que é um brinquedo muito útil, melhor ainda que seu celular. Juro. E até mais barato.

Primeiramente precisamos deixar claro dois pontos: o vibrador não é competidor ou  substituto de um homem, é só uma outra forma de ter prazer, junto com a masturbação. Se você não se masturba, deveria, porque quem não se toca não conhece seu próprio prazer e não saberá também guiar o parceiro até lá. Os rapazes não nascem com mapas sobre nosso prazer, nem nós sobre os deles, aprendemos mutuamente a cada relação, pois as pessoas são diferentes, reagem de formas diferentes a toques, beijos, palavras.

Mas voltemos ao vibrador. Ele é uma forma deliciosa de você tanto se conhecer como se divertir sozinha ou  com o parceiro, sim, muitos caras gostam de observar ou usar o vibrador com você e até existem modelos de vibrador feitos pra serem usados em conjunto. Vem comigo nessa viagem. Cada tremida é um flash! As dicas são baseadas na minha experiência pessoal, ok?

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1 – Em primeiro lugar ao comprar não indico os feitos de vinil, fuja deles! são os mais baratos, mas duros de doer, literalmente doer. foi o meu primeiro, logo parti pro segundo. prefira os de gel ou de silicone (o melhor, mais higiênico e fácil de limpar), tem uns coloridos bem legais…

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2 – Muito grande? muito grosso? No artificial pode doer ou no mínimo incomodar. O velho e bom tamanho comercial acho mais indicado(15 cm) pois vibradores, por mais macios que sejam (soft skin), são mais duros que pênis e muito grandes ou grossos incomodam. É claro que tudo depende do uso, se será só estimulação do clitóris, penetração anal ou vaginal. Mas nesse tamanho permite usos mais versáteis. O grande é difícil para penetração, principalmente anal.

3 – Para as mais avançadinhas para penetração anal indico os mais largos na base. existem inclusive modelos específicos para a prática, os pra homens são curvadinhos pra alcançar a próstata e os de iniciantes são mais finos.

4 – Vai um gelzinho aí? Pessoalmente nada melhor que o KY da Jhonsons mesmo, sou afeita a alergias e nunca tive problemas com ele, mas já usei o Olla também. Vibradores repito, não são pele, então se for pra penetração, principalmente anal ( tem quem curte, e isso não é crítica só um comentário), use o gel. Para vaginal vai depender do seu grau de lubrificação, bem como para o estímulo do clitóris.

5 – Indico usar camisinha no vibrador para penetração. torna mais fácil, mais confortável, evita possíveis alergias (sim acontece viu? já que é borracha mais dura), melhor de limpar e principalmente com isso aumenta a vida útil do brinquedinho. Tive um que estragou de tanto lavar (ops), entrou água na bateria. Enfim, camisinha sempre. Até no vibrador.

6 – Os  vibradores com estímulo clitoriano são os melhores! Como o rabbit igual ao do Charlotte no Sex & The City (lembram que ela quase viciou??) mas não precisa começar com eles porque são bem caros. Se puder comprar lá fora , acho uma boa , porque é a metade do preço. Uma amiga me trouxe um rabbit na mala morrendo de vergonha de ser pega na alfândega.

7 – Há vibradores feitos pra usar mesmo a dois: o We-vibe (maravilhoso, mas também dá pra usar sozinha, mas ó… melhores orgasmos da vida!), o anel peniano vibratório ( achei chato de limpar, gruda nos pêlos e estragou rápido, mas não é muito caro)  e o pênis duplos para as meninas <3.

8 – Por último: você tem vergonha de ir a sex shop do bairro? Dá pra comprar pela internet em um monte de sites e eles entregam em pacote fechado, papel pardo e tal e não dá pro porteiro saber o que é #dica. Mas também pode ir à loja tranquila com as amigas, em geral ao pessoal é bem treinado para deixar a cliente bem a vontade, falam de vibrador como se fosse de pizza, novela, etc. E as lojas costumam ter promoções bacanas cursos de pompoar (indico muito), de strip tease e outros.

Essa coisas não são para você agradar o parceiro que isso aqui não é a dicas de nuóva. Essas dicas são pra você agradar a si mesma e gozar muito porque gozar é tudo de bom na vida. Sozinha ou acompanhada.

E pra quem não se animou a se tocar com esse post, a Rosana deixa um recado…

Biscate Caminhão

#LuznasMulheres

Você já ouviu falar de estupro corretivo? Já teve sua sexualidade posta em questão como sendo uma fase? Já ouviu dizer que sua orientação sexual depende apenas de um “homem te pegar de jeito”? Já correu risco de ser vítima de violência ou ser expulsx de algum lugar por estar de mãos dadas ou trocar beijos com a pessoa de quem você gosta? Já viu o movimento que deveria lhe representar invisibilizar sua luta (20 homenageados e nenhuma mulher, seja cis ou trans)? Já sofreu, solitariamente, achando que “tem alguma coisa errada com você porque não é igual a todo mundo” simplesmente porque a sociedade tem um discurso equivocado de normalidade e escamoteia a diversidade? E, principalmente, já teve sua narrativa, sua história, sua vida simplificada em negativas porque é tudo que as pessoas hetero – mesmo as bem intencionadas que nem esta que escreve agora – acham que tem pra dizer sobre você? Se você não é lésbica, talvez nada disso tenha sido um problema pra você.

Hoje, sob os holofotes na Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher, se dando (uia) a ver e conhecer, Tati. Porque é uma bisca lésbica de luta. Mas é muito mais. Enjoy.

Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo

Biscate Caminhão “Biscate caminhão, Tati, 25 anos, @tatiols. Brega, punk, funk, rock, MPB… Toco violão, aparo as unhas, faço pequenas reformas, trabalho com eventos, fui jubilada da UFMG em 2010 no curso de filosofia e sou militante com causa. Não uso salto porque agarra no pedal do caminhão. Já palestrei na ALEM – Associação Lésbica de Minas Gerais sobre sexo seguro entre mulheres que se relacionam sexualmente com mulheres.

cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

“Ser mulher está muito além do gênero, da sexualidade, do corpo. Ser mulher é muito mais que poder gerar ou usar salto. Definir a mulher nada mais é que engaiolar, podar. Não permitir que sejamos tudo o que podemos/queremos ser. Meu ser mulher é ser de luta, ser de movimento, de não levar pra casa desaforo, de não se calar.”

levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

[as principais dificuldades que encontro no cotidiano pela minha condição de mulher são] “Assédio, preconceito, piadinhas, violência, agressão, agressividade, julgamentos. Não só por ser mulher, mas por ser mulher-lésbica, mulher que não parece mulher, mulher interrogação… Sou muitas vezes “confundida” com homem por não encaixar no molde do ser mulher socialmente aceito. Quando tirei minha camisa na marcha das vadias fui julgada inclusive por algumas pessoas que dentro de um movimento de empoderamento do próprio corpo, fiscalizavam o cu e as estrias alheias… Não tenho corpo dentro das normas aceitáveis, vim com defeitos de fábrica e sem possibilidade de devolução. Sou gorda, feliz, safada, biscate e vadia.”

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qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar

Limites? Somente os definidos pelxs pessoas que participam ativamente (ou não) do ato. O resto extrapola qualquer limitação. Eu não posso mandar meu tesão não se direcionar pra umx ou outrx pessoa por que elx tem pinto, buceta, gosta de cachorros ou não limpa os pés antes de entrar em casa. Afetividades tenho muitas, e só se limitam por serem afetos.

 Oh! Baby, você não precisa de um salão de beleza, há menos beleza num salão de beleza, a sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão

“Ai bela morena, morena bela, o que te fez tão formosa és mais linda que a rosa pedurada na janela.” O belo vem de dentro. Vem das sensações que se tem. Vem dos humores… Eu? Como diria Stéphany: Eu sou lindá, absoluta… Tive problemas, como (arrisco dizer) todas as mulheres. Não quis ter peitos, quis aumentar, quero não ter de novo. Sou gorda, já fiz coisas que não gostava pra perder peso, passei por bulimia, tomei remédios e remédios em nome da boa saúde-forma, e nesses processos todos descobri coisas que gostava e levo comigo e deixei muitas coisas pra traz. Pessoas também. Posso não ser o que a mídia prega de beleza, mas me garanto na hora de sentir prazer. Hahaha. Padrões são esfregados nas nossas caras sem parar, tem dias que ligo, tem dias que não. Mas faço o que posso pra mudar pelo menos a forma como quem me rodeia me recebe.”

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Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

“VAMOS FALAR DE COISA BOA! Sexo! Ah! Sexo é muito bom, sexo é delicioso. Quando penso em sexo eu salivo! Roçar a língua? Nas línguas, na nuca, no pescoço, na buceta, no cu… Gosto muito da língua pra sentir xs pessoas. Banho de gato mesmo, sabe? Além de a língua ter um toque suave, ela transmite muitas sensações pra mim… Tem coisa melhor? Mas o sexo na minha vida tem dois momentos mais definidos, quero-o-tempo-todo-não-pára-não-pára-não-pára-não, e o “pode ser só carinho hoje?”. Eu respeito meu corpo, meu tesão e minhas vontades. Se a vontade é se divertir sozinhx, okay, vamos lá! 5 horas direto de self-love. Mas se não, não quero nada, nem carinho, bom, já fiquei 11 meses sem trepar…

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 Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim

“Sonho meu, sonho meu… Minha vida acadêmica inexistente hoje me entristece… Quero estudar, poder ter meu canto, essas coisas que quase-todo-mundo-quer… Perdi minha mãe no novembro passado, então as coisas deram uma chacoalhada bem grande… Agora, coletivamente, quero paz. Não essa paz registrada em cartório que a mídia vende. Quero poder ir e vir sem medo de sofrer por ser mulher/pobre/negra/índia/lésbica/trans/ET. Quero não ter medo de não conseguir emprego porque meu chefe pode ser misógino/racista/homofóbico. Quero não ter de me esconder pra nada. As vezes escuto algumas pessoas falando que tá tudo lindo, a gente pode casar em vários lugares do mundo, as pessoas não matam mais por homofobia/etc, a gente reclama demais… Eu penso, cara! Vive na pele de algum grupo marginalizado pra você ter idéia do que mudou de fato!”

Eu apenas queria que você soubesse… que: “Eu sou uma pessoa legal. Uma pessoa muito muito boa. Daquelas que passa por cima de si pra fazer alguma coisa pros outros, e eu demorei mas entendi que a primeira pessoa que eu tenho que agradar sou eu mesmx. Só que se colocar no lugar do outro, entender o porque de escolhas ou ações não significa concordar, mas facilita na hora de dialogar, e diálogo é o mais importante de tudo. Sempre.”

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas?

“Eu dou (e muitOPA) bandeira o tempo todo. Mas que me defina, não. Já “sofri” gordofobia no meio feminista/gay, homofobia no meio feminista acadêmico, misoginia no meio libertário e uma lista maior se considerar os meios -comuns-. Eu sou de luta, sou de grito e vejo como brecha ou falha ou falta a falta de comunicação entre espaços que defendem a mesma causa. Ou que sofrem pelas mãos da mesma força. Não consigo lidar com o fato que grupos que sofrem com machismo e patriarcado não consigam se unir por qualquer motivo, já que juntos talvez a luta fosse mais leve. Solução? Pessoas são difíceis de lidar, pessoas competem entre si. E esse é o ponto, não quero saber quem sofre mais por causa da sociedade, quero saber o que posso fazer pra que todos possamos não sofrer.”

biscate é uma mulher livre pra fazer o que bem entender, com quem escolher, e onde bem quiser

 

tati5Eu sou biscate caminhão (apelido afetuosamente dado por Renata Delegata Lima). Ser biscate é ser exatamente o que se é sem se preocupar com normas de ser. Liberdade necessária, não? 😉

 

 

Quando fazer sexo?

A resposta é tão simples: sempre que você quiser!

Mas como explicar isso para adolescentes? Complicado? Pra mim sempre foi simples entender que sexo é a melhor coisa do mundo, que deve ser feito com quem você quiser, desde que exista responsabilidade de usar camisinha e ir a@ médic@. Mas será que estou certa em falar isso pra adolescentes de 12, 13 ou 14 anos de idade?

Sei que, por falar isso, sou a professora gente fina, moderninha e amiga, que muit@s pais e mães se sentem incomodad@s com esse tipo de informação e não gostam de adult@s que falam sobre isso com su@s filh@s. Mas queria explicar a@s minh@s alun@s que o corpo precisa ser respeitado de outras formas que não são o famoso “se dar ao respeito” que muit@s adult@s falam. Respeitar seu corpo e o corpo de terceir@s é fazer só o que deseja e com quem deseja, se dar o direito de esperar seu tempo e o tempo d@ outr@ para fazer sexo, na idade, no momento e com quem você desejar. Acho tão saudável @ adolescente que decide isso “cedo” (de acordo com outr@s adult@s) quanto @ adolescente que decide isso “tarde” (de acordo com algum@s amig@s que já começaram sua vida sexual). O corpo é seu, não é namorad@ pressionando, amig@s que já fizeram sexo e te consideram atrasad@ por ser virgem, nem familiares que acham que você tá nov@ demais pra fazer sexo e muito menos religiões que decidem por você o seu momento!

Acho que tod@ adolescente deve saber que, enquanto houver dúvida, não é momento de fazer sexo. E muitas das dúvidas podem ser resolvidas com a conversa com uma pessoa que possa te ajudar a se entender. As vezes é uma insegurança com o seu corpo, medo de engravidar, dúvida sobre como usar preservativos. Se todas essas dúvidas estão esclarecidas mas, mesmo assim, você ainda tem medo de fazer sexo, é porque não é o momento. Quando for acontecer, será natural, não será feito num momento de medo e insegurança.

Falar de sexo com adolescentes é complexo, é difícil saber até que ponto eles desejam saber sobre, mas acho que toda dúvida deve ser esclarecida sempre que aparecer no grupo, sem medo de estar passando dos limites. Fazer sexo é maravilhoso, seja com @ namorad@, com um@ ficante, na adolescência, na idade adulta, antes e depois do casamento. Desde que seja quando queremos, como queremos e com quem queremos. Porque falaria diferente a@s minh@s alun@s adolescentes?

É de menino? É de menina?

A convivência no trabalho tem me mostrado que minha luta de biscate não só é justa como é necessária! Passo cada dia por um novo obstáculo, nessa semana meu obstáculo é a orientação sexual de alun@s, muito nov@s até pra que possamos considerar que seja certo qualquer direcionamento de sua sexualidade como algo definitivo.

Só meninos gostam de brincar de carrinhos????

Um simples beijo entre duas crianças, que são primas e do mesmo sexo, pode criar um desconforto familiar, mas será que um beijo não é apenas uma demonstração de afeto, de duas pessoas muito unidas? Será que se for realmente o início de uma orientação homossexual de ambas as crianças é realmente um problema?

O que é ser mulher? O que é ser homem? O que demonstra uma orientação homo, hetero ou bissexual numa criança? Eu não sei direito, não olho e nunca olharei pra crianças rotulando-as, seja um menino que brinca de boneca, uma menina que só sabe jogar futebol. Nada pode ser motivo de rotulação em momento algum da vida, muito menos na infância, onde testamos tudo, queremos e devemos vivenciar tudo. Minhas crianças em questão tem 5 e 6 anos de idade, vejo duas crianças muito carinhosas, amorosas, que me obedecem e tratam a tod@s com carinho, sempre sorrindo. É só essa a análise que posso fazer dessas crianças e, pra mim, é a melhor análise possível. O único rótulo que posso colocar nessas duas pessoinhas é o rótulo de crinhos@s.

Como lidar com as implicâncias d@s demais alun@s graças a preferência de brinquedos? Não sei ainda, tenho conversado muito, mas tirar preconceitos enraizados por ouvir de todo mundo as mesmas frases é muito difícil. Eu mato um leão dentro da sala de aula todos os dias, tentando equilibrar essa situação sem magoar nenhum dos lados. Amo minhas crianças, até as que implicam, e tento sempre mostrar um exemplo diferente do exemplo familiar e do mundo pra tudo, inclusive quando se trata do preconceito.

Bonecas são brinquedos só para meninas???

Estou preocupada, mas sei que preciso pensar com a cabeça, não com coração, refletir muito bem em como lidar com tudo isso. Preciso ensinar sem magoar e não deixar que ninguém magoe ninguém. A minha profissão é deliciosa, mas sei que tenho minhas dificuldades e que a profissão tem suas dificuldades e que preciso trabalhar pra conseguir acertar ao máximo. Não conseguirei acertar sempre, mas preciso tentar ser a melhor que eu posso ser!

Põe Devagar

Por Barbara Manoela Bijos Maués*, nossa Biscate Convidada

Como em uma ode ao amor, a frase que dá nome a esse post foi cantada em uníssono, em uma música do Rádio Taxi, sucesso nos anos 80.

Na minha opinião, essa é uma das melhores traduções poéticas de uma noite perfeita: ir direto ao assunto, sem mais delongas, com todo o carinho que uma boa noite de sexo merece.

Meu marido sofreu um acidente em Alter do Chão, interior do Pará, no fim do ano passado, e ficou tetraplégico. A recuperação dele está indo bem, mas é tudo muito, muito lento. E como fica o sexo, vocês estão se perguntando?

A gente vai descobrir, juntos. Porque maridon voltou a ser um adolescente, nas palavras do fisiatra. Um corpo novo, um pau novo e, pra minha alegria, acessórios novos!

Segundo o médico, se a gente não frequentava sex shop, agora é a hora. Para que a vida sexual de um casal onde o homem ficou tetraplégico continue sendo emocionante, excitante e divertida, é preciso inovar, abusar dos dildos, dos cremes, dos vibradores penianos e até do Viagra!

Outra dica importante foi a de estimular os outros sentidos: olfato, audição, paladar. Eu já estou pesquisando receitinhas afrodisíacas, pra criar jantares românticos, à luz de velas e musica do Marvin Gaye.

Cremes perfumados, meia luz, strip-tease. É, sinto que terei muito o que melhorar no quesito performance, se quiser manter a chama do tesão acesa no meu casamento.

Em qual posição?

Isso é outra coisa que teremos que descobrir. Segundo uma amiga nova, casada com um tetra, a melhor de todas é a mulher por cima – uma das minhas preferidas! Ainda segundo ela, a qualidade do orgasmo melhora infinitamente. Uma das razões é que o cara fica mais sensível, demora mais para gozar e mais: o toque de um tetra no corpo da mulher é completamente diferente.

Eu estou louca pra saber como é esse novo homem, essas novas sensações e novas trepadas.  Aliás, confesso que quero muito estrear a cama do centro de reabilitação, durante a segunda internação dele. O fisiatra, muito sutilmente, deu a entender que o sexo dentro do hospital não só é liberado como é permitido. Ui!

Prometo contar tudo pra vocês, nos próximos posts. Aguardem!

.

*Barbara Manoela Bijos Maués é uma carioca morando em São Paulo, trabalha com gestão cultural, amigona, intensa e criativa, feminista e gateira. Para defini-la em duas palavras: amor pululante! Você pode acompanhá-la de perto no Facebook ou pelo twitter @barbaramanuela.

A boa violência

Shibari, do theobscura.org

Era uma vez outra biscate – que já contei tantas histórias de biscates nessas sextas-feiras, não? – e ponto.
Essa biscate era antenada. Ligada. Pós-modernizada. Defendia o direito biscate aqui e ali. Falava de liberdade, falava de opressão. Reivindicava. Suava. Biscate que dava.

Tinha um segredo.

Não dizia a ninguém, tinha medo.

Essa biscate, tão feminista, fantasiava submissa. De quatro, amarrada, couro e correntes, apanhava. Xingava, gritava e gozava de dor.
A biscate gostava era de violência. Difícil assumir. Apontavam-lhe dedos, discursavam nos mais diversos palanques: sobre a fantasia, a pornografia, a dominação.

Até que assumiu. Assumiu e, como biscate que era, bancou.

Pois qual não foi a surpresa das outras – feministas mas tão, tão moralistas – descobrindo que a violência podia sim, ser liberdade. Biscatagem da mais pura, autêntica: bastava que ela dissesse “sim – faço porque quero”.

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