Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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Visibilidade lésbica. Porque nós nos recusamos a sermos invisíveis.

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Lésbica, sapata, fancha. Sapatão. Butch. Gobi, para xs baianxs. Somos, não importa o nome, mulheres que amam mulheres. Mulheres cis e trans que se relacionam com mulheres. Mulheres que fazem sexo com mulheres. Somos, assim, sapatonicamente, inteiras em nossas sexualidades e desejos. Femininos. Ou nem tanto. Não importa a classificação que se queira dar, não somos enquadráveis. Somos muitas. De todos os jeitos, cores, trejeitos, números, vestimentas. Amamos. Desejamos. Pulamos nesse mar, para nadar a perder de vista.
Nós existimos. Temos amores, famílias, trabalhos, dores, delícias. Temos corpo, temos rostos, temos história. Andamos pelo mundo, estamos nos bares, nos ônibus, em um lugar bem perto de você. Até dentro da sua casa, mesmo que você não queira ver. E já é hora de não nos escondermos mais. De transitarmos por aí como somos. De amarmos livremente, sem estarmos confinadas em guetos ou armários empoeirados. Porque já basta.
Foto: Coletivo lesbitoca

Foto: Coletivo lesbitoca

Essa é a semana de visibilidade lésbica e o dia 29 de agosto representa uma importante data de luta contra a lesbofobia. Essa data foi criada no 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996, é um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil.

Nessa semana de visibilidade lésbica estamos aqui para pedir respeito, para lutarmos pelos nossos direitos civis, sexuais e de liberdade individual. Nossa Constituição nos garante proteção e a opressão, qualquer opressão, física ou moral, é totalmente ilegal. E nós estamos aqui e resistimos. Nosso amor é resistência. Nosso amor é luta. É tesão. É parceria. É tudo junto. É humano como qualquer outra forma de amor que, como já tanto se cantou: sempre vale a pena.

Guarde seu preconceito no bolso, para ser educada. Não importa a sua crença religiosa, seu recalque, sua mentalidade. Vivemos num Estado de Direito que optou por respeitar os direitos humanos  (graças às deusas) e nos garantir liberdade e direitos plenos para vivermos como somos. Afinal, ninguém paga nossas contas e a moral é problema de cada umx. Moral não confere o direito de ninguém nos julgar ou ofender ou tolher. Beijo no ombro.

Coletivo lesbitoca

Coletivo lesbitoca

E estamos aqui para dizermos que não seremos mais invisíveis. Como afirma o coletivo lesbitoca: não queremos mais viver na invisibilidade. Ou melhor, como bem dizem as meninas lesbitoqueiras, nós nos recusamos a sermos invisíveis. Existimos e exigimos respeito. Essa é a nossa luta e essa é a nossa vida. E não pararemos até que nenhuma mulher mais sofra violência por ser quem é.

Acostumem-se conosco, porque nós não voltaremos, nunca mais, para a invisibilidade. Os armários estão de portas abertas e a gente continuará a existir e a resistir. Pela vida das mulheres, pela liberdade das mulheres, pela sexualidade livre das mulheres. Keep calm and respeita as sapatão!

Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Dos dias que seguem

duas-mulheres-passeiam-pela-praia-de-la-zurriola-em-san-sebastian-na-espanha-1332779034586_956x500Então ela me abraça e eu deito a cabeça macio. Sinto cansaço e deixo o sono cair pelos meus olhos, nessa estranha sensação de pertencimento a outro corpo. Enrosco-me. Cada buraquinho fazendo curva nos meus pelos, o sabor da pele nos meus lábios. Seu sotaque baiano contando-me histórias de mar. Eu balanço.

Deitadas juntas observamos o vazio. A incógnita dos nossos dias. O amor talvez seja isso: uma grande contemplação das incógnitas, em colo macio. Um abraço onde esquecemos das impermanências e pertencemos, um pouquinho, a algum lugar. Deixo-me.

Envoltas nos desafios tantos dos dias que seguem, temos a sorte de nos lembramos a tempo de não nos perdemos. Faço retratos imaginários da boca dela enquanto fala. Uma coleção de retratos que guardo nas retinas. A beleza dos tempos das partilhas. O antes e o hoje. E o porvir que nossas mãos não seguram. Deixamo-nos.

A doença que tomou seu corpo já não nos derruba tanto. Vamos aprendendo a conviver com a pergunta. E assim descemos o rio das correntezas, esse rio da vida que não avisa desvios. Nessa pequenina embarcação não tem espaço para muito. Só as miudezas e generosidades que não carecem embalagens. Existimos nos detalhes. Nos respiros. Nas pequenas e extraordinárias coisas que nos contam.

Temos medo. Mas a nudez da vida também acalenta. Uma certa liberdade atinge-nos quando, de repente, não temos mais chão de afundar os pés. A vida é aqui e agora. Sentimos vertigem. Pulamos. Onda vai, onda vem. Estico a corda. O amor é que me enlaça. E a rede de proteção é o afeto.

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Uma carta de quase vento

gatoAqui os dias estão calmos amiga, você bem sabe o que isso quer dizer. A calmaria faz vento nos meus ouvidos. Meu cavalo canta uma cantiga que ainda não sei decifrar. Ele olha tudo com estranheza e paz na beira da lagoa. As patas molhadas de lama fresca, uma saciedade de barriga cheia e uma ansiedade sobre o que vem depois. O que vem depois da saciedade? Acho que gosto de sentir fome, invento a fome, mesmo quando não cabe mais nada dentro. Tenho que esvaziar. Então vou me esvaziando sem abrir as mãos, tentando fazer vento e tempestade sem mexer nas águas plácidas em que me banho sem pressa, tentando mergulhar sem fazer onda nem desarranjo.

O que vem depois da desse lugar calmo onde nada escapa? Não sei amiga, tenho fracassado em buscar conflitos. Respiro nos exercícios de yoga e acompanho o gato na beira da janela. Deixo ele perigosamente se acomodar no parapeito, ali, no risco, no vão do quase pulo. Ele se derrama tão macio no espaço do quase, namorando a vertigem lá fora.  Observo o gato, os olhos atentos, a paixão de querer ir sem sair do lugar. As horas passam, ele não se mexe, eu corro o risco com ele, eu contemplo o risco. Ele não pula, aqui dentro é quente e ele tem medo. Eu vou lá e o abraço por trás, tiro seu corpo com cuidado, e num consolo suspiramos juntos, de volta a calmaria.

Podia ter machucado, podia ter morte, podia ter nunca mais, podia ser tudo diferente. Tava tão vivo. Mas a gente contempla da janela de novo, aliso seus pelos e ele me lambe, ele é um gato que lambe com vontade de sal. Essa vontade que corre sempre por dentro, essa vontade de mar que a gente tem dentro e que nunca cessa. E essa sede de mar é uma sede pra sempre amiga, é uma sede da gente toda. Olho o gato de novo, é ele que me ensina, é ele que me conta das belezas desse tempo de contemplar e aprender a ficar no quente. De fazer pouca onda e pouco barulho, de deslizar pequena sem grandes alardes. O tempo é de uma paz estranha que me rasga por dentro e eu não sei.

Escuto a Angela Rorô, ela toca de novo e de novo, e eu vou me deixando embriagar pela cena do escândalo, às vezes no quente faz frio, é estranho fazer frio em tanto conforto. “o grande escândalo sou eu, aqui, só”. Vou rompendo as manhãs amiga, vou vivendo essa vida tão certa de que amanhã é mais um dia de chá quente com aquele bolo que parece casa de mãe, aqueles dias que meus conflitos se reinventam e não encontram vazão, não tenho mais explosões para me ferir, não acho mais os fósforos, eu tento, risco faíscas, mas nada amiga, não sai fogo. E que bom que não sai fogo, porque eu já cansei de tanto joelho ralado, eu só preciso aprender. E então eu vou indo, eu vou tentando reinventar, eu tenho que aprender a reinventar. Sempre.

Pequenos Prazeres Biscates: Orais

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates, hoje temos prazeres orais…

#PequenosPrazeres

orais

Boca, língua, dentes. Febres. Calor. Você passeia pelo meu corpo, morde meus lábios, lábios grossos e molhados. Molho-me. Mordo, me mordes, chupo teu pescoço e deslizo pela orelha, labirinto adentro. Labirinto afora.

Pelos, cabelos, saliva. Tua língua desenha minhas costas, desce, desce mais, quadris, bunda, adentra. Adentro. Penetra-me com os lábios abertos, sinto-te boca, sinto-te toda. Então me beijas com o gosto que vem de mim,  e eu de ti enlouqueço no furor da língua, exploro o céu da boca, lambida, mergulho. Lambo-te, descubro o gosto que escondes embaixo dos lábios, queixo, seios, dedos, umbigo.

Beijo, beijo de novo, mordida, mordo forte enquanto me lava os braços, língua correnteza,  rio que extravasa os poros, suor meu, suor seu, onda que nos leva, redemoinho.

Prazer de lábios, prazer oral, prazer que bebo com sabor desperto, degusto, deleite. Prazer nosso a ser vivido em cavidades e banhos de mar, esse nosso mar que nos cobre, gozo, desaviso, de novo, vem.

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Das tantas mortes

“…Depois de tanto verbo a pessoa morre. A pessoa morre”.
(Karina Buhr)

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Coragem, para as pequenas mortes. Pequenas mortes que antecedem a grande passagem do ego. Pequenos lutos de grandes mortes. Grandes lutos de pequenas mortes. A gente morre. Depois de tanta vida, depois de tanta aspiração, depois de tanto amor, depois de tanto verbo, depois de tanto gozo, depois de tanta dor, como diz Karina Buhr lá em cima, a pessoa morre.

E a gente morre. Viver é estar permeado de morte, com os olhos assombrados pelo escape do tempo, e de nós mesmos. Morrer assusta, mas é bonito. É fluxo de vida, é vida de rio cheio, é vida que vai e não volta, é vida pulsante de tantos tempos que ainda virão. É possibilidade de reinventar-se, de se deixar ir, de deixar ir o que não podemos segurar com as mãos, de ser nada diante do segredo maior de estar vivo. E de ser tudo que se pode ser neste respiro de tempo presente.

A sinceridade – nua e crua, é que a gente morre. E aceitar a morte é aceitar que somos finitos neste instante em que tudo é. Em que os olhos veem e a gente existe. Em que a gente já não é mais, e nunca mais poderá ser.

E tem tanta gente tentando (em vão) segurar a areia que escorre incontida para o outro lado da ampulheta. Tentando se segurar nas certezas expiradas, que já evaporam no ar. Tentando se proteger com bens e seguranças materiais, cercar-se da materialidade e do conforto possível diante da sensação nada segura de estar vivo.

E de nada adianta tanta concretude, não conseguimos conter o tempo. A gente morre. E é melhor morrer vivendo, seguir nadando na correnteza, do que morrer cercado de concretos armados e vazios de ar viciado. De vazios de tudo que podíamos ser, e não fomos. De tudo que não experimentamos, dos vastos mares que não nadamos dentro de nós mesmos. E dentro do mundo, do outro, dos outros, das matas e das florestas verdes ou cinzas. E de tudo não seremos ali, no morto-vivo que não morre e não vive. Que está pela metade se costurando com linha que não junta os pedaços desconexos. Tem tanta vida lá fora. Vida que só tocamos quando paramos de nos proteger do fluxo de ser. E de ser qualquer coisa, qualquer coisa que surge quando paramos de nos proteger das nossas inevitáveis mortes.

E enquanto escrevo digo isso a mim mesma, aos meus próprios medos e inseguranças de vida e morte, bradando aos ventos que me levem.

É verdade: viver dói. Nascer dói, e morrer pode ser alívio. Tem dor, e na dor tem matéria prima do que somos feitos. Tem gozo que antecede a felicidade de estar vivo. Felicidade que não precisa de nada a não ser o pulso. Que se sabe fluída e sempre presente nos intervalos das marés. Que sabe da dor da impermanência. E da beleza das ondas que levam e trazem substâncias vitais. E a gente se refaz ali na beira do mar, que lambe nossa pernas e apaga as marcas na areia. Que molda novos e impossíveis desenhos. Até o último respiro de olhos abertos.

E não adianta se esconder do mar, porque a gente morre. Porque viver é mutabilidade. Caem as unhas, os dentes, os cabelos mudam, a pele enruga, as nossas células gritam e a gente muda por dentro. As sensações mudam, os desejos mudam, a gente morre e renasce em diferentes instâncias de nós mesmos. Até que um dia a gente se desfaz em poeira cósmica e beija as estrelas. Desculpem-me mais uma vez: de nada adianta nosso ego. Ele vira poeira.

E nesse nosso falso mundo de seguranças jurídicas e investimentos no que dá lucro, de pequenezas materiais e mesquinharias aos montes, só me resta rasgar os rótulos e tentar dissipar o medo. E que a gente seja. E viva com sede, biscateando impossíveis desejos e vivências, até a última gota.

Flor de Inverno

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Teus medos passeiam pelos percursos do meu corpo

Deslizam suaves através dos pelos que me vestem

Fazem eco nos poros, sussurro aos ouvidos

Gemido, gozo, flor de inverno

 

Amor despido

No ombro onde deitas

No peito que repousas

Na coragem que te brilha quando choras

E quando no escuro te procuro

E nossos olhos mergulham em mar aberto

 

Calmaria, revolução,

Silêncio branco de nuvens que desenham o céu

Galopes tremidos no chão onde repousa o futuro

No porvir onde deitamos,

Sentimos

A embriaguez dos nossos passos largos

A delicadeza do possível

O tempo manso que nos acaricia o cabelo

 

Aqui, presente

Verbo que se faz vivo

Extravasado da vida partilhada que brota vermelha

Colorindo a terra rachada do cerrado

Entre ossos e saliva

Desejo bruto

Trampolim

Nós.

Dos extermínios

Dos extermínios

Dos extermínios

Pátria amada

O que oferece a teus filhos, sofridos

Dignidade ou jazigos?”*

Pois então. Vivemos num Estado Democrático e Social de Direito. Um Estado que garante, já no seu primeiro artigo constitucional, incisos II e III, respectivamente, a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Dignidade, esse conceito amplo, que tentamos diariamente alocar para dentro do Direito. De que tentamos nos apropriar para agir e lutar diante das atrocidades que vemos todos os dias estampadas em jornais, revistas, mídias sociais e nas ruas deste país. É, esse mesmo país.

De quem é essa dignidade? Quem é essa “pessoa humana” que tem direito à dignidade? E mais, quem tem direito à vida? Essas perguntas ecoam diante do extermínio que assistimos, cotidianamente, da população negra e pobre. (Sem contar o feminicídio e as mortes de homossexuais por homofobia).

Abre parênteses = “Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Fecha parênteses.

Não, não somos. Não temos todos o mesmo direito à vida e à liberdade. A essa famosa dignidade. Pelo contrário. Esses direitos, na prática, são relativos e pertencentes a uma minoria branca e abonada. Para a maioria sobra assistir, em mornas rebeldias, o extermínio consentido e declarado do “resto” da sociedade.

“Vamos às atividades do dia:

Lavar os corpos, contar os corpos,

E sorrir,

A essa morna rebeldia…”*

Essa semana foi a vez da Cláudia. Mulher, negra, pobre, executada cruelmente pela polícia carioca (aqui). Cláudia foi comprar pão, num dia como outro qualquer. E nesse trajeto foi baleada erroneamente pela Polícia. Para se livrar do “corpo estendido no chão”, a polícia arrastou Cláudia, ainda viva, com seu corpo batendo fora da viatura em movimento. Como um saco, um objeto que não serve mais, um dejeto que não merece sequer um lugar para ser depositado.

Essa cena hedionda me fez chorar tanto. Essa mesma cena hedionda que é cotidiana nas favelas e em tantas comunidades periféricas. Tantas mortes protagonizadas pela Polícia que deveria, em tese, garantir exatamente a segurança de todos nós, cidadãos brasileiros, independente de etnia, condição social, gênero, sexualidade ou cor da pele.  É o Estado exterminando gente que não interessa para a elite. Gente que atrapalha porque ameaça a segurança das posses e propriedades capitalistas e higienistas. Das tradições cristãs desse Estado machista e homofóbico.

Cláudia é mais uma mulher exterminada pela polícia. Mais uma negra. Mais uma vítima do nosso pretenso Estado de Direito. Mais um corpo jogado fora pelos nossos “donos do poder”, que são os únicos nesse país que podem bater no peito e fazer valer seus direitos de cidadania, vida, segurança e dignidade.

E andam ressaltando pelas notícias internet afora que Cláudia era mãe de 4 filhos, casada, e cuidava de mais 4 sobrinhos. Uma mulher de “respeito”. Uma mulher “correta”. Preocupa-me esse argumento porque não importa se Cláudia era mãe, auxiliar de enfermagem, prostituta, traficante, dona de loja, se tinha ou não filhos, se dava pra todo mundo, dançava até o chão no baile funk ou era casada. Cláudia era um ser humano que merecia respeito. Não porque era casada ou tinha filhos. Mas porque era uma cidadã deste país, que deveria zelar pela sua integridade e dignidade.

É, vivemos em uma sociedade que executa seus cidadãos pobres e negros, bem como suas mulheres, sob o manto de um Estado Democrático e Social de Direito. Já é hora de destruirmos esse véu, de desnudarmos a realidade, e de fazermos valer esse Estado que no papel é de todos.

Vamos ao Criolo?

*Versos da música Lion Man, do Criolo

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Liberdade e beleza não tem idade

Pois parece que, na nossa sociedade marcada por consumismos vazios e padrões de beleza engessados, existe um limite, uma validade imposta à mulher pelos anos que correm no calendário. A beleza plastificada é quase um imperativo para as mulheres mais velhas, uma máscara para esconder o tempo e vedar as rugas e marcas da idade. Nada contra as plásticas, cada um decide como quer envelhecer. Mas é o padrão, e o julgamento, que me incomodam. E o quanto são normativos, e condicionam comportamentos. A beleza rotulada em peles lisas, em falsas perfeições, em estampas de revistas cheias de photoshop. Padrões inalcançáveis, a pirâmide sempre intangível do consumo. E o olhar social, esse perverso, que tolhe as mulheres tanto pela sua condição feminina, quanto pela idade.

Já perdi as contas de quantas vezes escutei a seguinte frase: “nossa, sério que você tem 37 anos? Não parece, está tão bem, bonita, para a sua idade”. Ou ainda: “Nossa, você tem tanta energia, gosta tanto de festa na sua idade né?”. Eu apenas sorrio, distante, e penso nos tantos equívocos que estas frases contém. Como se a mulher fosse chegando aos 40, beirando os 50, 50 e tantos, anos adentro, e não pudesse mais ser considerada bonita, desejável, ter um corpo gostoso, ter vontade de sexo, vontade de vida. Como se a mulher tivesse um prazo de validade para estar no mundo, solta em seus pensamentos e em suas construções de liberdade.

 Se, em qualquer idade, a mulher é tolhida pelos julgamentos morais que afrontam sua liberdade, alongam a sua saia, sobem seu decote, e enquadram as que fogem dessas normas em categorias como “vadia” e “biscate”, a mulher mais velha sofre um fardo maior, por estar fora do “tempo” de ousar qualquer coisa. Uma mulher que não segue convenções sociais machistas, que descasou ou não casou nunca, que trepa com quem quer, como quer e a hora que quer, que sai como quer sair, que dança, que bebe, que descabela os outros e a si própria, não pode –  nem é concebível nessa hipocrisia social que vivemos – que ela tenha mais de 40. Tá certo, não é concebível nunca, mas as mulheres até os 30 ainda podem ser “perdoadas”, ou minimamente compreendidas por algumas almas menos conservadoras, por estarem experimentando. “Ah, a juventude”, dizem por aí. Ela vai se “regenerar”, arrumar um marido, ainda vai ter filhos e se comportar, afinal, a maturidade traz essas coisas.

Mas eis que você não se enquadra. A maturidade só te traz mais liberdade para querer ser quem você é, para viver sem padrões engessados de certo e errado, para trepar mais, para querer mais, para estar mais confortável e bancar suas escolhas fora da curva do socialmente aceito. Eis que você já destruiu a casa, e não quer mais nada parecido. Ou quer uma casa sem paredes, nem porta nem nada. Ou uma casa só. Ou uma casa com quem quer que seja. Quer viver livre, quer sair, ver o mundo, gozar, e tudo que puder abraçar com as mãos e braços cheios de vida. Isso tudo com o corpo marcado pelo tempo, com o rosto banhado por aquelas rugas que já viram tanto, os cabelos coloridos ou brancos enfeitados de flores. E eles que estão bonitos de dar gosto, e cheios de tesão pela frente.

Essa beleza não normativa, esse comportamento não padronizado por uma mulher de quem espera-se, no mínimo, exemplo e disciplina, incomodam ainda mais o apontar de dedos. Ela está, duplamente, afrontando a nossa sociedade conservadora por ser quem é. Porque envelhecer deve ser conformar-se, ainda mais, aos padrões vigentes.

Aí, bom, chegam os 60, 70, 80, quem sabe, e uma mulher, nessa fase da vida, deve se conter ao quadrado da “terceira idade”, onde só se espera que ela vá fazer tricô e cuidar dos netos, esperando vagarosa a morte que ninguém quer ver. Ou dançando em bailes da terceira idade, onde podem ensaiar passos e, quem sabe, dar as mãos e um selinho tímido em alguém do mesmo quadrado. Mas eis que a vó faz sexo, e quer é mais. Eis que a avó é desejada e é gostosa e quer é trepar noite adentro. Pode, não pode? Mas é claro que pode. É só tirar as lentes da mediocridade moralista que tolhe as mulheres e corta suas possibilidades de sentir prazer.

Ademais, as mulheres mais velhas expõem o que a gente não gostaria de ver: que somos perecíveis. Que não somos imortais em nossas belezas padronizadas. Que o padrão é falho. Que a vida é breve. E que a idade vem, com ou sem plástica, com ou sem maquiagem. E, nesse momento, nossa inserção social como mulheres desejáveis e sexualmente ativas, está destinada a mornidão dos sonhos, à fantasia de um dia, ao olhar triste para o que se foi.

Mas, calma! Não, não é por aí. O sexo não tem idade, não tem limite, e a beleza é mutável como a vida. Não tem prazo de validade, só termina quando formos de vez dessa existência, para quem sabe onde. Ou para lugar algum. Sempre é tempo de viver e se deliciar em possibilidades de prazer e desfrute da vida. E nóis, aqui da biscatagi, continuaremos gritando e biscateando idade adentro, sambando na cara da hipocrisia, e nos assumindo livres para sermos o que quisermos ser.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Hilda Hist, diva, maravilhosa, até o fim dos dias.

Dos encontros biscate

#EncontrosBiscate #2anosBiscateSC

Luciana, Cláudia e Renata Lima

Luciana, Cláudia e Renata Lima

Dos encontros biscate. Porque nosso clube é feito de encontros. Encontros que se fizeram pelas redes virtuais, unindo pessoas com os mesmos ideais feministas e militantes da liberdade, da diversidade sexual, da vida aberta para as diferentes formas de ter, e viver, com prazer. Com vontade. Com peito estufado para se comprar brigas em prol da biscatagi, e do respeito a qualquer forma de se gozar a sexualidade.

Cláudia, Lis, Luciana e Augusto

Cláudia, Lis, Luciana e Augusto

Raquel e Luciana

Raquel e Luciana

Luciana e Renata Lins

Luciana e Renata Lins

E assim nos encontramos. Demos as mãos para formar esse clube que já tem dois anos, e não para de crescer em amor. Fomos caminhando pelo Brasil, enlaçando as almas-biscate. Do Maranhão ao Rio de Janeiro, passando pela Nordeste da Paraíba e Ceará, chegando ao Espírito Santo, Minas, Brasília, São Paulo. Até irmos parar no além-mar, para onde nossa bisca-borboleta-graúna voou recentemente.

Lis e Cláudia

Lis e Cláudia

Luciana e Niara

Luciana e Niara

Augusto e Silvia

Augusto e Silvia

Renata Lima e Luciana

Renata Lima e Luciana

E como a gente tem corpo e gosta de se pegar (ops) encontrar ao vivo e a cores, a gente faz acontecer encontros reais, presentes, de abraços, beijos, bebidas, comemorações, risadas e alegrias bem biscates, sentadxs na mesa do bar, em parques e piqueniques, na praia, nas praças, na rua e juntinhxs em casa, compartilhando madrugadas, comidas, indagações sobre a vida e amor farto espalhado no ar. A gente gosta de se apertar, amassar, beliscar, morder e….o que mais vier da gente junto.

Augusto, Lis e Luciana

Augusto, Lis e Luciana

Niara e Luciana

Niara e Luciana

Iara Ávila, Augusto, Silvia e Babi

Iara Ávila, Augusto, Silvia e Babi

Cláudia, Luciana e Augusto

Cláudia, Luciana e Augusto

Porque a gente tem saudade do rabo um do outro. Fizemos até tour pelo Brasil: tour Biscate saudade do seu rabo.  Porque somos desses. E a nossa próxima parada será no Rio de Janeiro, em fevereiro, nos aguardem e venham conosco nessa caravana biscate de mais e mais gente e mais e mais tesão de vida!

Raquel em Brasília pelas lentes de Silvia

Raquel em Brasília pelas lentes de Silvia

Silvia, Augusto, Iara Ávila

Silvia, Augusto, Iara Ávila

Silvia e Raquel

Silvia e Raquel

Somos, Todas, Maria!

*Texto que conta com a ajuda de algumas letras bem vindas de Luciana Nepomuceno. 

Nesses dias de luta, e ativismo pelo fim da violência contra a mulher, assistimos, mais uma vez, a repressão do nosso Estado, dito laico, sobre uma mulher. (leia aqui)

Ela se chama Maria. Maria, como muitas. Maria, como nós. Maria que sofre pelo aborto ilegal. Maria que tem seu corpo violado nas tantas esquinas desse país. Maria que pede, e clama, por justiça, e por um Estado que respeite o corpo das mulheres. Que se empenhe em tantas ações não realizadas de proteção e respeito à dignidade feminina. Que garanta, com preceitos e normas laicas, o direito de dispormos sobre o nosso corpo como bem entendermos. Um Estado que não fira à voz e a liberdade das mulheres.

Maria clamou por um Estado Laico. E foi reprimida por pessoas que ainda confundem laicidade e ateísmo. O Estado laico deve garantir e proteger a liberdade religiosa, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere do estado ateu porque este se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Um Estado Laico deve garantir a liberdade religiosa, repete-se e esclarece-se: incluindo aí o direito à descrença. Um Estado Laico não pode e não deve ser pautado por concepções morais religiosas. Que estas rejam decisões individuais é o que o estado deve proteger, mas as mesmas não devem guiar as ações do Estado.

Maria adentrou à Câmara dos Deputados, numa audiência pública (pública? será que isso existe mesmo?) sobre aborto, defendendo seu direito de existir como mulher. De poder reivindicar. E ela reivindicou. Pintada de vermelho, consagrando o sangue de tantas mulheres mortas e violentadas por esse Brasil afora, ela gritou. E gritou, lá dentro da Casa que deveria ser do povo, a voz das Marias. Das Marias que querem poder abortar de forma segura. Das Marias que querem poder transitar com a roupa que quiserem sem serem violentadas por isso. Das Marias que somos nós, vestidas de vermelho todos os dias em que andamos com o nosso corpo cerceado por um Estado repressor. Por um machismo que mata milhares de mulheres das formas mais cruéis e repugnantes, diante do qual a sociedade ainda se cala.

Mas Maria não se calou.

maria

E os doutos deputados expulsaram Maria, com a mesma violência sofrida por todas nós no trânsito cotidiano. Maria foi expulsa pela segurança da Câmara, arrastada pelos corredores com seu sangue pingando pelas leis que não nos representam. Reprimida duramente por existir entre a casta engravatada do poder. Por dizer o que queremos dizer: deixe-nos ser mulher! e viver mulher com o corpo pungente e livre.

Os deputados não aceitaram Maria. Com o mesmo machismo que não nos aceita como mulher. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o Deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), pronunciou: “enquanto havia apenas uma mulher apoiando o tema, a maioria do plenário da comissão se manifestou contra o aborto. Essa representatividade seria, para Feliciano, reflexo da opinião da sociedade sobre o assunto.” (leia aqui)

Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.

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