Somos, Todas, Maria!

*Texto que conta com a ajuda de algumas letras bem vindas de Luciana Nepomuceno. 

Nesses dias de luta, e ativismo pelo fim da violência contra a mulher, assistimos, mais uma vez, a repressão do nosso Estado, dito laico, sobre uma mulher. (leia aqui)

Ela se chama Maria. Maria, como muitas. Maria, como nós. Maria que sofre pelo aborto ilegal. Maria que tem seu corpo violado nas tantas esquinas desse país. Maria que pede, e clama, por justiça, e por um Estado que respeite o corpo das mulheres. Que se empenhe em tantas ações não realizadas de proteção e respeito à dignidade feminina. Que garanta, com preceitos e normas laicas, o direito de dispormos sobre o nosso corpo como bem entendermos. Um Estado que não fira à voz e a liberdade das mulheres.

Maria clamou por um Estado Laico. E foi reprimida por pessoas que ainda confundem laicidade e ateísmo. O Estado laico deve garantir e proteger a liberdade religiosa, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere do estado ateu porque este se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Um Estado Laico deve garantir a liberdade religiosa, repete-se e esclarece-se: incluindo aí o direito à descrença. Um Estado Laico não pode e não deve ser pautado por concepções morais religiosas. Que estas rejam decisões individuais é o que o estado deve proteger, mas as mesmas não devem guiar as ações do Estado.

Maria adentrou à Câmara dos Deputados, numa audiência pública (pública? será que isso existe mesmo?) sobre aborto, defendendo seu direito de existir como mulher. De poder reivindicar. E ela reivindicou. Pintada de vermelho, consagrando o sangue de tantas mulheres mortas e violentadas por esse Brasil afora, ela gritou. E gritou, lá dentro da Casa que deveria ser do povo, a voz das Marias. Das Marias que querem poder abortar de forma segura. Das Marias que querem poder transitar com a roupa que quiserem sem serem violentadas por isso. Das Marias que somos nós, vestidas de vermelho todos os dias em que andamos com o nosso corpo cerceado por um Estado repressor. Por um machismo que mata milhares de mulheres das formas mais cruéis e repugnantes, diante do qual a sociedade ainda se cala.

Mas Maria não se calou.

maria

E os doutos deputados expulsaram Maria, com a mesma violência sofrida por todas nós no trânsito cotidiano. Maria foi expulsa pela segurança da Câmara, arrastada pelos corredores com seu sangue pingando pelas leis que não nos representam. Reprimida duramente por existir entre a casta engravatada do poder. Por dizer o que queremos dizer: deixe-nos ser mulher! e viver mulher com o corpo pungente e livre.

Os deputados não aceitaram Maria. Com o mesmo machismo que não nos aceita como mulher. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o Deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), pronunciou: “enquanto havia apenas uma mulher apoiando o tema, a maioria do plenário da comissão se manifestou contra o aborto. Essa representatividade seria, para Feliciano, reflexo da opinião da sociedade sobre o assunto.” (leia aqui)

Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.

Ridiculamente ridícula

Ridiculamente, ridícula. Porque ser biscate é poder ser, também, ridiculamente, livre.

Ridiculamente, ridícula!

Porque hoje eu cansei, cansei assim de escrever para você essas tantas cartas de amor. São ridículas, como disse Fernando Pessoa, todas o são, e eu cansei dos meus rodopios poéticos de amor extravasado. Rio. De mim. Das cartas ridículas, dos sonhos, das expectativas. Não seriam todos ridículos de tão bom? Eu posso ser assim, ridícula, é livre, é bom poder. Rio a brincadeira bonita e a sorte de querer viver, num declarar de janelas. Declaro ao mundo, atrapalhada com minhas flores mortas na mão. Coloquei tanta água que elas murcharam, uma a uma, excesso. Excedo-me, ridiculamente, rindo alto como exceção a mim mesma. Desajeito. Rio a dor sem pressa, o choro rouco, as bebidas e os cigarros das noites vazias, os poemas que não fiz, os convites que recusei, a ressaca, tantas delas. Rio eu todinha, e eu posso. Porque eu me permito, ridiculamente, exceção a mim mesma, galopes no ar e tropeços no chão.

E porque eu fui toda ali, eu fui querendo o impossível, boba eu, querendo suprimir distâncias e medos, querendo morrer ali nos teus braços calmos, na sua placidez profunda de mar. Querendo dizer o que você não diz, ocupar as suas entrelinhas, soluçar o seu soluço de choro nenhum. Porque sua voz embaralhava na minha e nos fios emaranhados das nossas roupas, nas imagens dos nossos espelhos invertidos, e então eu achei que podia. E eu posso, assim, ridícula de querer espalhado no chão, esparramada na tua voz que não vem. Grudada na tela, tão tão ridiculamente grudada a espera das tuas letras, os olhos doendo, rio de poder grudar e chorar quando aperta o peito pelas linhas que não chegam.

Porque eu canso de ser ridícula e aí eu digo nunca mais, nunca mais escrevo, nunca mais vou, não quero mais. Duzentas vezes não quero mais, podendo voltar atrás de todas elas. E eu volto, todas, sem pudor, ridícula. Então eu canso, mesmo, canso tanto da minha rouquidão de garganta seca. Daí descanso, adormeço, sonho de novo que o amor pode ser uma ilha calma no meio das águas, uma terra para me dar impulso. E então eu pulo, sozinha, remo, estiro os músculo e volto, eu sempre volto, exausta, você sabe. Não tem ilha, a ilha é ridiculamente criada por mim, com coqueiros e tudo, sombra e mar verde quente, som de rumba, assim, açucarada. Com todas essas alegorias frágeis do amor, todas elas tão frágeis e tão ridículas e eu coleciono todas, uma a uma, no meu corpo, nas minhas letras, nas minhas falas demoradas, no que me imagino de presente. E uma a uma te mostro, ridiculamente enfeitadas com fita vermelha, te dou os meus presentes para que não abras nunca e deixe-os guardados na árvore de natal que não existe, nem nos sonhos, quem vai querer uma árvore de natal com luzes pisca-pisca? Ridículo, eu sei. Mas eu quero.

 

Reinvenção do amor possível

Reinvenção do amor possível. Ou impossível.

Porque uma das raras certezas que eu tenho, nessa vida corredeira, é que tudo está em constante transformação. Nossas pequenas moléculas vibram a todo tempo, e a gente com elas. Movimento de barco, esteio móvel, areia que molda diferentes formas carregada pelos ventos. Ventos improváveis, ventos leves, ventos avassaladores. E sempre tem vento. Somos todos filhos do tempo.

Uma das poucas coisas que sei, dentre tanto que não sei, é que a impermanência é nossa base, uma rota permanente feita de muitas transformações. Quer nos reinventemos ou não, a vida passa como um rio, e as margens mudam com a constante força das águas.

Reinventar-se não é tarefa fácil nesse nosso mundo capitalista que busca ilusórias certezas. Segurança jurídica. Lucro no banco. Investimento em imóvel que cai na bolsa e cai no chão. Guardar. Casar. Contratar. Acumular. Definir. Papel passado. Para sempre sem sustos. Rá rá rá. O susto vem com ou sem certezas. O papel rasga e o novo sempre vem. O inesperado tá na rua. E a gente pode ir. Reinventar-se sempre, e a todo tempo. Porque o susto passa. Dentro do buraco é escuro e a gente não sabe, mas é bom. É, não ter pode ser bom. Liberdade assusta. Mas é amor demais da conta.

Aqui um poeminha escrito a quatro mãos com a minha amiga-irmã-poeta-lindeza Kiara Terra, que divide tantas invenções e reinvenções comigo, rindo madrugada adentro das nossas tantas incompletudes e maluquices de cada dia.

amor

 

Passou de carrossel para montanha russa

Passou de montanha russa para montando cavalo à pelo

Passou de vou dar meus pulos para encontrei o trampolim

Passou de carrinho bate-bate para voando no trapézio

Passou de café requentado no microondas para feijoada com samba

Passou do apego para eu quero um passado agora

Passou de que saudades daqueles dias para Família vende tudo.

E da faxina na madrugada para organizando um álbum de memórias

—-

Passou de expectadora para protagonista,

Passou da mocinha para eu quero ser a vilã do filme

Passou de quem sabe um dia para só se for agora

Passou de só se for agora para quem sabe um dia

Passou de gata escaldada para tibum

E do tibum para barriga ralada no fundo do rio e eu quero de novo

Passou de princesa para mulher do povo

De sexo comedido para eu quero acordar o vizinho

Passou de coração passarinho para um cavalo no peito

Galopando, sem rumo, sem terra, sem rota

Passou do pijama para o vestido vermelho

Passou do chuveiro conta gotas para tomando banho de chuva

E do frio da chuva para eu quero uma toalha felpuda

 —-

Passou de qualquer migalha é lucro para seu muito pra mim é pouco

Passou de sapato reformado no sapateiro para prefiro sentir o mar nos pés

Passou do mais vale um pássaro na mão para revoada completa.

Passou de asa emprestada para me deixa voar agora

Passou de me deixa voar agora para seu colo é delicia

Passou do cafuné para flor no cabelo

Passou de mãe de família para mãe só dos meus filhos

E de mãe só dos meus filhos para eu quero ser mulher

—-

Passou de precisar caber para deixar-se transbordar para além das caixas.

Passou a brilhar no escuro passou a incandescer

Passou de já conheço os passos dessa estrada para amendoim torradinho

Passou do choro escondido para eu soluço no meio da rua

Passou do medo da dor para vem que eu seguro essa

Passou do vem que eu seguro essa para eu não aguento mais

Do eu sei para o eu sou pequena. Me pega no colo?

 —

Passou da loucura contida para a loucura declarada

Passou do deixar ser para o fazer acontecer

Passou do susto para o acolhimento de quem se é

Passou do guarda roupa cheio para não serve mais nada

e do amor certo para a reinvenção do amor possível

ou impossível.

 

 

Das cartas

Porque é tão bom escrever cartas. E tão, tão bom recebe-las. Cartas para amigos, cartas para amores. Cartas. Escritas que vem de dentro contar-se para quem se gosta. Letras que chegam para contar de quem vem. Trocas, intercâmbios de palavras que sentem e expressam o que – até – algumas conversas não podem alcançar.

Temos tantos recursos hoje. Telefone sem custo de interurbano, internet, Skype, chats dos mais diversos. Corpo a corpo – ou quase – bom de se ter com quem os olhos não podem alcançar com frequência. Mas, confesso: eu gosto mesmo das cartas. Do espaço que hoje migrou para os e-mails, mas que eu já vivi com papel e selos e a alegria de receber pelo correio. Onde eu fechava o envelope com cola e olhos vibrantes, e pensava como chegaria do outro lado. O barulho do envelope sendo aberto, o cheiro do papel, as letras tortas escritas à mão. Inesquecíveis.

As cartas não economizam. Elas contam, encantam, choram junto quando a gente lê pelos olhos do outro. Contam-se sem receios de sentir o que se escreve. Poesias de amizades, de amores e de delícias de se ter um ao outro assim, também em palavras.

Literatura também se faz por cartas. Lembro quando li “Cartas a um Jovem Poeta”, do Rilke, livro que acompanhou todas as minhas cabeceiras nos últimos dez anos. Cartas que falavam comigo, em ecos lá no subterrâneo dos sentimentos. E as “Cartas perto do coração”, trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, lindas de doer.  Tantas cartas. Tantas belezas partilhadas.

Aqui deixo um pouco das minhas cartas. Essas trocadas com a amiga-confidente- irmã, escritora e dançarina do inimaginável, Kiara Terra. Começo pelo fim, para fazer mágica e inverter um pouco a ordem da vida.

cartas1

(eu)

Amiga,

Suas letras me chegam em lágrimas nossas. Salgadas. Aqui onde eu cheguei ainda não sei ser eu. Tudo novo, novo espaço, nova pele, nova roupagem. Espaço redimensionado, tudo reduzido das minhas larguezas. Meus espalhamentos de tantos tempos chegaram aqui: na contenção de mim. Espaço pequeno. Tantas despedidas, tantos desapegos. Até de quem já fui. Nada mais serve. Tudo ajustando-se e eu disforme, sem contornos. Tudo em caixas espalhadas pelo chão, muita coisa jogada fora, muita coisa que já foi minha e não me pertence mais. Pouca bagagem, pouco lastro do passado a não ser no brilho que ficou nas retinas. Coração apertado, peito doendo de uma angústia sem rosto. Vento forte, que sopra aos meus ouvidos uma música desconhecida. Vento de mudanças estruturais.

Foi muita água, a gente nadou tanto, tanto, e depois de tanto não reconhecemos onde chegamos. Inexplorado de nós mesmas. Tudo novo. Medo, emoção. Orgulho de ter ido. Dor de ter sentido. Tristeza pelas perdas, e os anseios correndo sem endereço certo. Aqui estou minha querida, e não sei mais de nada. A última crise me conteve, prendeu o cavalo, amarrou meus pés no chão e disse: pare. É preciso pouso. Reconheça-se novamente. Prepare a nova casa. Ela vem amiga, o nosso novo vem.  Estamos perto de ter toalha felpuda. Mas não como a gente esperava. O braço é nosso com a gente mesma. O acalento somos nós assim, tão despidas e tão frágeis diante do susto. Somos nós embaladas por nós mesmas. Ainda tem muito chão e estamos exaustas. Vamos dormir um pouco, vamos nos cobrir desse cobertor rosa-iogurte que aquece e lembra amor. Vamos fazer um ninho provisório para poder continuar e receber o que vem. Estamos juntas, sempre. Para mais!

 (ela: Kiara Terra)

Querida Sil,

Por que tanto. Não desejamos menos do que tudo. Inteiro. Grande como fosse. E caminhamos, corremos, voamos em desarvoro o quanto podíamos, prometemos a nós que seria como andar de bicicleta…pedalar, pedalar ininterruptamente. Sem cair.

Estávamos cansadas e a ladeira era enorme ainda. Era nadar a vida a braçadas, mais e mais, e pedalávamos de olhos fechados. Vida abaixo, vida a cima. Viva vivida toda, como você gosta de dizer minha amiga.

E nos cansamos. Coração saia pela boca. palavra já não saia. O que saia era o coração mesmo, em veia e sangue. Paramos. Sem colo ainda. Nada do mar aberto, nem sinal de toalha felpuda. Ainda estávamos no descabimento. Depois de tudo ainda estávamos ali e nossa casa de agora não nos vestia. Ainda não.

Sonhei com você, te contei. Só não contei que chorávamos juntas. Depois das suas últimas notícias o sonho fez mais sentido. Chorávamos cansadas. Exaustas, tal qual criança de volta de viagem. Tantos dias fora de casa. Tanta gente. Pele alargada por tanto voo e músculos doloridos.

E paradas a gente não se sabe muito. Paradas é o desajeito diante do espelho desconhecido da casa de alguma visita. A visita somos nós em nossas casas novas. Aqui onde cheguei está tudo em ruínas. Do teto ao chão e o cheiro de cimento molhado me avisa que será preciso esperar um tanto antes de. Desvio dos restos da minha casa espalhados pelo chão.

Aqui só se pode andar devagar por que o pó fino das coisas desfeitas tomou tudo. Serão algumas dúzias de dias em bate estaca. Só bem depois no silêncio. Noite, escuridão translúcida, permear tudo. Só depois virá uma tarde calma quente e forte de corpo refeito, para um abraço demorado de encontrar um segredo no outro sem precisar de palavra, nem de coração que escape.

Só quando a maré encher. No ainda de agora acolhidas pelas águas fundas, sentido opaco e imóvel. Tudo tão longe. Rua de carnaval nenhum. Sem rastro anterior. Caminho novo só a gente outra vez. E a gente da gente, casas nossas habitadas inteiras e cheias de frestas transpassadas e acolhidas. Nós. Até desatar.

De unhas e desapegos

As unhas descascadas a lembravam da perecível natureza da vida.
Os tons avermelhados que embelezavam as unhas vaidosas, esvaiam-se em pedacinhos sem cor.  O tempo era implacável. Todo o cuidado e esmero em polir e pintas as unhas, era sempre pouco. O tempo vinha, e apagava as marcas feitas nas pontas de seus dedos. Levava embora a coloração avermelhada em poucos dias, sempre sem avisar a hora da ruptura. Quando percebia, as cascas já haviam caído, mostrando-lhe o branco que roía as unhas.
Desejou, por um momento, que elas ficassem ali, sempre vermelhas, perenes, a acompanhar-lhe a trajetória. Desejou que tudo fosse eterno e colorido sem retoques de tempo. Mas o tempo vinha, com o imprevisível que corre na suas veias.  Vinha e voltava, levava e trazia generosas doses de mudanças. Mudanças para as quais nem sempre estava pronta. Mudanças desavisadas. Ela tentava agarrar-se no que sentia de vivo correr-lhe o peito – na doce ilusão de construir um castelo que não desmoronasse ao sabor dos anos. Doce ilusão de não sentir o abandono da intensidade a esvair-se na poeira dos dias.
Ventava. Ventos improváveis, ventos avassaladores – que dissipavam o que ela sabia certo. Que lhe balançavam o esqueleto, sem cessar diante do grito. Batiam portas e janelas, e a tristeza escondida soprava-lhe melodias aos ouvidos.
O vento era bruto.
Mais uma vez era preciso recomeçar. Retirar o esmalte e cuidar das unhas quebradas. Seguir adiante sem o pedaço que faltava – e que ela sabia que se regeneraria de outra forma. O novo sempre vinha. Novas cores apareciam, e as unhas cresciam. Mas nunca no mesmo tom de outrora. Nunca a mesma unha quebrada. E ela queria tudo. Queria guardar dentro de si todas as cores que não mais lhe coloriam os dedos. Tudo o que já foi e o que ainda será. Sem perder o tom.
O tempo era bruto.
Sentia-se menina tentando segurar a areia da praia nas mãos. Quanto mais segurava, mais a areia fina escapava pelos pequenos dedos. E ela nunca conseguia pegar os mesmos grãos. A areia da sua infância sempre escorria ligeira. E, desde seus primeiros anos, ela já sentia a areia correr passageira – impulsionada pelo vento incessante da maresia. Areia que moldou toda a sua estrutura maleável, conduzida pelos anos. Podia senti-la quente ao fechar os olhos. Podia sentir a angústia de querer parar o tempo ali, naquela praia onde corria livre e solta. Onde derramou as suas primeiras lágrimas pelo que nunca mais é. Pelo amanhã inevitável que vinha lhe mandar crescer e calçar os sapatos. Pelo dia que amanhece sempre diferente do que já foi.
O tempo corria. As últimas mudanças de seus 36 anos choraram as mesmas lágrimas. A mesma dor de menina-mulher de unhas quebradas. O mesmo enterro simbólico do amanhã que já não é mais. As mesmas saudades sentidas a apertar-lhe as vísceras. O mesmo coração que se esconde emotivo pelos sentimentos que desgarra. O desapego forçado do tempo.
E as cascas continuavam a cair.

De Amor e Partidas

De amor e partidas

De amor e partidas

Dessa vez que o amor partiu ela não correu. Era uma mulher com um amor partido, e tão inteiro. Inteiro ao ponto de adentrar-lhe as janelas de si mesma, aquecendo suas tantas incógnitas e vontades de vida. O amor lhe abraçava por dentro.

Dessa vez que ele partiu ela não sentiu vontade de fumar uma carteira de cigarros, um atrás do outro, ligados por brasas ainda acesas. Nem de se perder em outros corpos de forma quase desesperada, a conter-lhe a dor da ausência. Dor que já havia lhe doido fisicamente, como uma mão pesada comprimindo o peito. Nem, ainda, de sair pelas noites em copos cheios e risadas altas, para ensurdecer-lhe o choro que riscava a pele.

Ela acomodou-se. Deitou a cabeça no vazio, aninhando-se na tristeza macia da partida. Abraçou as lembranças e o corpo dela ainda ali, ao lado, misturado ao seu e à vida partilhada na intimidade estranha do amor. Eram íntimas e misteriosas, ligadas pelo sentimento que existia para além do corpo. Sentimento que sobreviveu aos muros intransponíveis da distância e dos tantos obstáculos da vida. Sentimento vasto que mudava a cada encontro, e apontava os dedos desajeitados para um futuro desconhecido. O porvir. Sim, o porvir.

Dessa vez ela acendeu uma vela, e pediu aos Deuses proteção de solidão. Que ela pudesse voltar para si e carregar esse amor nos ossos. Que ela pudesse ficar só na ausência partilhada do amor. Que o silêncio branco dos dias lhe crescesse em harmonia interior. E que ela pudesse suportar a si mesma.

A solidão podia ser doce. Sorriu, de repente, de alegria. Sim, tinha tocado um amor para além de si. Entendeu que isso era um presente. Raro, de cores vivas e perfume de flor. Um segredo.

Escreveu um bilhete rápido para conseguir dormir naquela noite de despedida e aeroporto cheio. Com os olhos marejados e a força das mãos juntas que não queriam desgrudar-se:

“Eu te amo lá de dentro do mar, submersa, em uma dimensão atemporal. Para além de mim. Para semear outras águas, que inundarão amantes muitos. Aventureiros desse mar livre de sentires.”

E assim seguiu navegando pelos seus rios de incontidos. Uma hora elas voltariam juntas para esse mar. Até lá, ou até que, recostava-se no aprendizado de deixar ir, sem fugir para longe do susto. Acolhendo o triste e o bonito, sentindo a si mesma com as pernas bambas e as emoções em pulso de girar a consciência.

Repetia para si mesma baixinho, velando a madrugada que lhe preparava os novos tempos: Deixar ir. Abrir as mãos, ainda em prece, e deixar escorrer pelos dedos o que não se pode reter junto ao corpo. Crescer por dentro em amor. Deixar ser.

Sem saber para onde, seu tempo se expandia em respostas suspensas. Ela deixava-se, acreditando que, logo, ela seria.

Do muito

la-solitude-

Foi, sim, foi muito. Muito mais do que se podia prever, muito mais do que podíamos imaginar. Muito mais do que as palavras podem tecer. Tecido fino de cores invisíveis, manto que nos cobriu em um espaço inventado de tanta materialidade. Nosso, submerso, escondido. E tão declarado. Nada precisou ser, porque tudo era. Estava tudo ali, foi só abrir a porta, foi só entrar por aquela porta grande de luzes opacas, adentrar o espaço iluminado por velas inventadas e músicas de ouvir com a alma. Um espaço sem tempo, um tempo que se abriu em tempos passados e tempos futuros, que parou o relógio e nos contou segredos de permanência fluída, de existências tantas e possíveis, de reinvenções e possibilidades. Tempo contingência onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente.

A porta grande se abriu e a chave era nossa. Minha e sua. Era nossa e estava tudo lá, como se sempre tivesse existido a pele nua em contato uma com a outra, as falas mansas, os risos, as coincidências, as identidades, as diferenças, a força. Sim, a força. Desejo vulcão. Mansidão de mares profundos. Claridade de revelações. Sentidos aguçados para o que vem de dentro. Comunhão. Quente e frio. Doce, salgado, pimenta, açúcar, vinho nos lábios. Choros e risos. Nós duas ali, nuas e inteiras em nossos espelhos invertidos. Foi muito, e ainda mais.

A despedida se fez em silêncio duro, em uma morte brutal para quem acabou de nascer. E nascer assim, com tanta vida. Com tanta luz. Com tanta beleza. Com tanto presente florido e cheiro de mato. Com tanta vontade e espaço para crescer. E para ser qualquer coisa: vento, perfume, roupas coloridas, abrigo, casa, poeira, árvore com fruta madura, rio cheio. Só não podia ser assim: corpo morto. Não, não podia. Era muito.

Onde se guarda o desejo que não se vive? Em que porão a gente coloca a vontade que arde por dentro? Qual o baú que tem tampa grande o suficiente para abafar a intensidade de um encontro? Com que racionalidade se enterra o sentimento?

De novo calço as minhas botas e me nutro de coragem. Sim, a vida tem vida própria. E é preciso saber ouvi-la com a voz que vem de dentro. Porque essa vida pulsa e tem caminhos vastos. Tem escolhas e conformidades. Tem revoluções e resignações. Tem agigantamentos e pequenezas. Tem muito, e tanto. E tem a gente lá, no meio disso tudo, remando, se equilibrando na canoa, tentando controlar o fluxo das águas, tentando não afogar, achando meios de se nos mantermos vivos e despertos. Tentando vestir a coragem de poder, sim, ser feliz. Felicidade de inteirezas e de vontades saciadas. Poder ser feliz nas marolas e nos improváveis. Aprendendo que, por vezes, é preciso colocar o salva vidas primeiro na gente para poder salvar o outro. Aprendendo que, vez em quando, a gente afoga mas não perde o ar. E nem a vontade de ir adiante no meio das águas revoltas. Porque ali tem movimento. E a vida é feita das impermanências e transformações dessas águas. E se cair em chuva, eu quero que me banhe. Eu quero lamber a chuva de pingos grossos.

É também porque não adianta,é preciso preencher-se de si mesmo. É preciso aceitar as contradições, os acasos, os erros, os desacertos, as mudanças, o nosso parco controle. Ir deixando a bagagem pelo caminho, ir transformando o que temos em coisas novas e mais leves de carregar. Ir colocando dentro o que temos fora. Beber um mar fértil que alimenta. Menos, e mais. E sempre.

Extravasamentos

Extravasamentos, assim, como correntes quebradas. Eu fiquei buscando um modo de extravasar aquela intensidade, aquela intensidade que queimava desde a semana passada, aquela intensidade que surgiu de algum lugar da memória do corpo, eu busquei sem trégua e com algum pesar, eu busquei.

E nessa busca eu fui assim, devagarinho, acostumando-me com as minhas novas roupas, com aquele novo jeito que eu não sabia que tinha, com a velha nova face desconhecida, eu fui. Fui direta e profunda, sem medo de mergulhar, fui seguindo as pistas que aquela noite me deixara assim, sem mais, junto com a ausência vazia do dia corrido que se seguiu a tudo aquilo, eu fui.

Não era você, não era só você, era eu no meio de tudo aquilo, era eu assim despida depois de tanto tempo de dor, era eu assim enfrentando os novos tempos de estar à flor da pele sem escudos, era eu sem saber dosar mais nada, era eu no meio da correnteza de mim mesma. Sim, também teve você, a gente dançou junto, teve você mas não foi só isso, foi algum destempero de estar assim: latente, sem controle de racionalidade, pessoa de lembranças de outras pessoas cravadas no peito e sem porto de chegada, pessoa de anos de acúmulo, pessoa assim latejada.

Depois de tanto tempo construindo barreiras e muros intransponíveis, arquitetando proteções para conter as águas, as minhas águas sempre tão fartas de sentires, eu quebrei tudo, simplesmente, quebrei sem olhar para trás, joguei tudo fora, todo o amontoado de proteções, joguei tudo de uma vez só, e tudo se perdeu para nunca mais. E que frio percorria a espinha. Era muita vida, era muita água, e eu a nadar no meio da correnteza sem bóia nem nada, sem barco, sem esteio, sem uma mísera máscara, nada. Era eu e toda aquela vida.

Aí teve você, aquele encontro bom, teve você e eu no meio daquelas águas revoltas. Teve você e eu sem saber mais nada. Eu não soube mesmo, não soube dizer ou explicar, e eu não queria palavras concatenadas, eu só queria sentir. E eu senti. Senti a mim mesma, senti o feminino sem reservas, senti a veia pulsando por algo mais, senti seu corpo tão quente e tão branco junto ao meu, senti seu sorriso tímido e tão pulsante, senti tudo de uma só vez e eu não soube.

Eu estava mergulhada e assim eu fui quando a semana seguiu, assim eu te procurei quando nada fazia sentido, assim eu te escrevi só para extravasar o muito que queimava a pele. Queimou e eu segui, eu enfrentei o fogo, e foi tão bom. Foi bom andar tão cheia de vida, foi bom olhar para mim só e despida, foi bom.

Tudo vem acontecendo muito rápido nesses tempos de 2013, faz apenas uma semana e já faz tanto tempo. Foram tantos cigarros, tantos copos cheios e vazios, tanta gente que passou por mim e eu andei. Andei até chegar a meses, percorri até fazerem-se anos e eu ainda estou aqui de pé e tão viva. E tudo tão bom apesar do fogo que ainda arde, apesar de não saber o que fazer com tanta vida, é tudo tão livre e tão bom.

Alguns confetes coloridos me enfeitaram a face, e sucederam-se mais tantas coisas sem voz e sem quaisquer explicações que eu vou me acostumando a andar assim e não saber, apenas deixar-me guiar pelos sentidos que assolam a racionalidade. Agora eu já não me perco tanto, a minha velha nova face me é mais familiar, eu equilibro um pouco o destempero, eu estou firme.

O tempo brinca de ser grande quando corre tão pequeno pelos dias, e eu estou aqui tão repleta de gente e tão repleta de mim, tão fluída nesse meio do caminho embolado e intenso. Intensa assim eu sigo com mais coragem, com mais vontade, com mais vida e te falo que está tudo bem, está tudo cheio e ainda restam muitos cigarros com sabor de amor pelo desconhecido.

Deu ruim

* texto especial para minha querida irmã de todas as horas, Luciana Baptista

 

Esses dias estive em Santos, transitando pelos meus laços familiares. Regresso que abriga, casca de ovo, gestações.

Coisas bonitas que a gente sente quando volta para o lugar de onde veio.

Lá estava eu nos percursos dos meus avessos, quando Luciana me diz, no meio de suas intermináveis e fascinantes histórias: “ih, deu ruim!”

“Deu ruim Lú?” Risos, cervejas, e mais risos. “É, deu ruim”.

 – Luciana, Luciana Baptista, melhor amiga desde sempre. Passamos juntas os treze, os quinze, os vinte. Trinta e dois. Quase quarenta. Montamos comunidades e baladas inacreditáveis. Vivemos alegrias e desafios aos montes, aventuras, histórias partilhadas que nunca tem fim. Irmãs de alma e festa. De dor e de ruim. Pau pra toda obra –

“Deu ruim”, contava a Lú. Simples e reto. Direto. Porque tem coisas que dão ruim. Simples assim.

A gente tenta e tenta e tenta. A gente chora, se descabela, vai até o fundo do poço e a verdade é uma só, uma frasezinha curta com um soco no nariz: deu ruim.

É, é simples. Tem plantas que não vingam. Tem projetos que não vão pra frente. Tem amores que não se transformam e não andam. Tem finais que não são felizes, e tudo bem. Porque, é fato, tem vezes que não dá para ser diferente. Tem coisas que tem seu ciclo assim, meio curto, ou curto-longo que dá nó e curto-circuito. Que nascem fadadas ao insucesso, e sua função é exatamente essa: fazer a gente acolher o que dá ruim. Às vezes a gente não tem mais nada pra aprender ali a não ser olhar e aceitar: é, deu. e deu ruim. O que foi bom no caminho, o sonho, a vontade, a tentativa, a paixão, o esforço, o gosto…acabou dando ruim. Gosto ocre, vômito, labirinto, perdição de espinhos. Lá na encruzilhada deu ruim pra cacete. Deu, e deu.

Porque dá, às vezes dá. Faz parte da vida. Todo sucesso tem um bocado de insucesso. Toda tentativa tem uma porção de erro. Para tantas coisas que desabrocham, outras tantas murcham e se despedaçam, jogando suas cores no vento e nos contando que tá bem ruim. E quando tá ruim assim a gente enterra, a gente faz a passagem, a gente dá em erro e segue adiante. O que dá ruim nem sempre tá no nosso controle e nas nossas mãos. Tem muita vontade genuína de dar certo que não encontra caminho. Tem muito caminho que não cresce. Às vezes é coisa de solo. Às vezes é falta de sorte. Às vezes é tudo isso, e nada disso.

E não, não é resignação não meu povo, porque resignar-se não é do nosso vocabulário. É questão de constatar e aprender com o que não vai. É querer enterrar e ser feliz em outras paragens, onde dá.  É saber perder e dar em ruim.

Diante do quadro, claro, a gente chora e se joga na lama. Nada na poça, se chafurda, olhos borrados de preto, cachaça na mão e Maysa no karaokê. Dignidade nenhuma diante da dor do desacerto. Deu ruim. Biscatemente, a gente vai. E desce mais uma dose porque depois da Maysa vem sempre a Maria Bethânia cantando Vanzolini: “Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”!

 

Dos Latifúndios Emocionais

Não, não é fidelidade sexual. Não apenas, não desse jeito. Esse texto não pretende trazer letras cruas sobre relações extraconjugais, sexo fora das “mono-relações”, “traição”, nada que se refira ao termo. Até porque, não é isso, não só isso. É algo mais. Embora o tema das famosas “traições” caiba aqui, não é ele que eu quero que seja meu foco. Nossa querida Renata Lins já escreveu, para mim, o texto sobre o tema aqui no nosso clube, texto maravilhoso que vale a leitura e a reflexão, sempre. E, a partir dele, convido-os, leitores biscates, a irmos em frente. Tirem os sapatos, as roupas apertadas, o medo de estar nu, o nó no peito, a tensão, o ciúme, o medo da perda, o medo da liberdade do outro e de si próprio. Pelo menos um pouco. Um descanso. E engatemos a primeira. Adelante!

– corta –

Rainer Maria Rilke, em seus últimos escritos condensados em um livro chamado “O testamento”, anota em seus diários algo rico, que escreve depois de pensar e pensar e se revirar sobre o amor e a solidão:

“E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida. Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah,…, resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim. Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

– corta –

Rilke, corajosamente, nos conta um segredo: não podemos escapar de nós mesmos. O caminho individual é uma rica e poderosa jornada. É dentro da gente que temos o abrigo mais precioso, mais confortável e mais acolhedor, um útero que nos gera para o mundo, e para que possamos nos dar ao outro. O outro, o parceiro, a parceira, o namorado, a mulher, a companheira, quem anda junto da gente. Afetivamente, sexualmente, tenha o nome que tiver. Eu te encontro verdadeiramente se posso amar quem eu sou. Se posso ser confortavelmente eu mesmo, se você pode me libertar para eu respirar meu ar, para que eu possa inflar meu peito de meus anseios e minhas vontades. Se eu posso, eu posso ser ao seu lado. Senão, a gente patina em mares gelados de gelo fino, correndo o risco de sermos submergidos nos fundos escuros.

Só poderei amar se dentro do amor eu encontrar a mim mesma. E isso não é egoísmo, ou egocentrismo, pelo contrário. É a nossa jornada. Ego rima mais com ciúme, com possessão, com querer o outro só para si – interpretando-se esse querer em sua forma mais ampla, que vai muito, mas muito além do querer sexual. Porque amor, amor soma. Amor não é abrir mão, não é negar ou abdicar o que trazemos na nossa bagagem, nas nossas vontades, nos nossos silêncios. Amar é verbo expansivo – já me disse uma sábia amiga. Amor é impulso que nos leva além, que nos abre horizontes, que nos dá caminhos vastos e cheios de colheitas fartas. Que nos leva a nós mesmos, nós mesmos divididos nos olhos do outro, nós mesmos compartilhando levezas e transcendências, nós mesmos dividindo a mágica de estar junto, sentindo o calor do outro, conhecendo outro universo, transitando por um deserto de conhecimentos recíprocos.

Libertemo-nos para viver o amor. Sim, por mais paradoxal que possa parecer aos mais conservadores, é preciso amar muito para respeitar a liberdade do outro. É preciso amar verdadeiramente para deixar o outro ser quem ele é, sem que tentemos moldá-lo ao sabor das nossas expectativas, do nosso ciúme, das nossas necessidades de proteção, dos nossos medos. E, puxa, quantos medos! Como cantou Tom Zé: com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Até porque, acreditem, nada disso é amor. Limpemos o terreno, com arado de abrir portas: amor não é negatividade, não é despejar no outro as nossas necessidades. Isso tem outros nomes. Amor é soma. Não é o meu, ou o seu: é o nosso. E o nosso é esse vasto território que ninguém sabe como é, em que a gente caminha sem rede de proteção embaixo, em que a gente compreende o não saber e se solta para o que vier, ao sabor do destino vasto e grande do céu. É onde a gente se solta para o outro, venha ele como vier, e seja ele como for.

Eu te aceito. E tu me aceitas como sou, sem qualquer molde ou plano de linhas traçadas? Tu me aceitas para o que for, comigo mesma cheia de mim? Tu me aceitas para o amor que não é seu, nem meu, e que não tem roteiro com final traçado?

Soltemos o corpo, a mente, o coração. Amor não é posse. Não é compreensão (Como já disse a Clarice: “eu pensava que somando as compreensões, eu amava. Não sabia é que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”). Amor é incógnita de letras vibrantes, arco colorido e poderoso que nos joga exatamente para aquele ponto sem seta, sem rota ou passos com rastreamento de satélite: o ponto da descoberta. E que, por ser descoberta, não o sabemos. Nós o sentimos, cada qual como for, duas individualidades comungando o que está por vir, assim, para o que for. E com a gente cheio da gente mesmo.

Biscates avante, rumo à reforma agrária de nossos corações tão latifundiários!

Uma biscate de fé

 

Fé.

Fé em qualquer coisa. Em si mesmo, no outro, na poesia, na tarde que cai em nuvens negras, na chuva, no dia que termina e nunca mais amanhece o mesmo, na continuidade, nos ciclos, nas incógnitas.

Fé na vida.

Essa vida que desponta nova com o novo ano. Fé nas tantas possibilidades de recomeços. Fé na gente que nunca amanhece o mesmo, nos mergulhos de quem vai até o fundo para nascer de novo. Fé nessa gente que ri e tem vontade de alegria, nos nossos olhos pequenos diante das perguntas sem resposta, nos seus olhos que me miram a alma e me inspiram ser quem eu ainda não sou.

Fé em qualquer coisa que não tem nome, em tudo aquilo que eu ainda não sei, em tantas verdades partilhadas. Fé em verdade nenhuma de coisa nenhuma. Fé até nos tantos erros cometidos, que fazem a gente ser humano e querer mais, e querer mais e melhor.

2013 é número novo e é preciso fé. Fé de que existe gozo no fim do túnel, de que existe felicidade no fim do gozo, de que existe algo além de nossas mãos dadas e de nossos corpos unidos, de que é possível renovar-se sempre a cada dia. Fé de que existe união, e de que a esperança é verde e está reluzindo no nosso jardim. Fé na próxima ninhada, nos pés descalços sentindo a grama molhada, no carinho impensado, nos beijos roubados, nos porres sem motivo, na gente embriagada de vontade de vida.

Que tudo que foi ruim fique lá atrás, e que o que for ruim venha para ser grandeza. Que as tempestades fortes deixem a terra úmida para próximas e profícuas colheitas. Maçãs vermelhas. Apetites fartos. Sexo aos galopes. Risos largos. Renovações.

Axé!

Que seja doce.

Para você, M. Hoje e sempre.

Seu cheiro ainda está aqui. Em mim. Fico sentindo ele no ar, nos meus dedos, lambendo e lembrando o seu rosto triste, dos seus olhos verdes brilhando lágrimas e me olhando com amor e incompreensão. Meu corpo ainda está mole e adulado pelos sentidos do nosso sexo, das suas mãos me apertando forte, do meu gozo intenso grudada em você, do seu gosto de ressaca e dor, do seu prazer fresco, do seu interior úmido, do seu sorriso que me fascina, do tesão que me brota quando você me toca assim, e sempre.

(Sentada na varanda converso com você em silêncio, fumando aquele cigarro que você odeia e devorando desesperadamente o Caio Fernando Abreu – que me oferece frases de cachaça para amortecer os lábios).

Esse meu caminho das palavras faz-se escrita vez em quando. É meu confessionário, e aqui lhe chego mais uma vez para me confessar um pouco, e mais, no meio desse turbilhão de coisas que nos assola. Paixão de astros. Paixão de pele. Amor. Dor, desencontro, sexo, discussão, conversa, risada, diversão. Mais um bocado de amor louco e desvariado. Amor baleia azul, amor correnteza, amor acelerado, amor latente, amor desavisado, amor pedrada, amor gigante, amor muralha, amor trepadeira, amor ipê. Vício. Abismo. Certeza, casa e contas, bebedeiras, fluxos, madrugadas e manhãs de dois em um. Cheiro inebriante, delírios, vontades que nunca passam. Somos nós assim, intenso e revirado, em busca do prazer, do tudo-que-pode e do tudo-que-é inteiro. Somos nós na travessia.

Eu já lhe falei tanto hoje, e ontem no nosso encontro desamparado. Mas eu quero sempre enfeitar os dizeres e as falas que lhe chegam pensando em arrancar-lhe sorrisos e suspiros. De lhe fazer carícias com todas as vírgulas, de lhe excitar crescente na medida em que seus olhos passam as frases. Pensando em mostrar e declarar ainda mais esse meu amor já tão declamado, e sorrir de orgulho desse nosso relacionamento ridiculamente lindo e único.

E eu chego aqui hoje com a sensação de tempestade e lagoa fresca depois da chuva. Com sensações que nunca experimentei, com vontades novas de descobrir com você o mundo. Como diz o Caio: “Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro”. E é isso. O que me resta, depois da tempestade forte que nos assolou e nos derrubou as paredes, é cada dia mais essencial e verdadeiro. E é por isso que eu estou aqui, com as mãos enlaçadas às suas.

Mesmo com tudo ainda revirado dentro e fora da gente, eu consigo mirar e sentir a lagoa com suas águas plácidas e frescas de mansidão. Lagoa calma depois da chuva forte. Sentidos aguçados. Paz de dias felizes. Nossas mãos dadas e nossos pés fincados na terra. Mergulho conjunto de arrepiar a pele e deixar a gente toda desperta por dentro. E eu estou aqui, pronta para o novo mergulho.

É, eu sei que a ferida ainda dói. Que dói muito pensar no que foi, e que é inevitável a desconfiança do que ainda é. Dói e a gente vira bicho ferido. Arrisco, protegido e pronto para correr, para fugir, ou para lutar. Para não se deixar morrer. O Caio nos conta: “Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva” . Uma ferida que talvez sempre doa nos dias de chuva. Mas é aqui que eu quero aprender. É aqui mesmo na dor dessa ferida que quero ir além com você. Eu tento, e eu consigo, acredita em mim, uma hora eu consigo.

Às vezes parece que tudo vai se perder para sempre. É verdade. Mas a gente fica, eu e você e as nossas fragilidades. Porque, é fato: “O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade”. Eu também sou frágil e eu também preciso. Eu também não quero mais eu sou. Eu sou sim, a gente é, quando a gente ama a gente é pequeno e grande ao mesmo tempo, a gente tem medo e fala besteira, a gente magoa, a gente enlouquece, a gente tem raiva e tremedeira, a gente tem olheira de sono não dormido, a gente é tão humano que até dói de tanta humanidade. A gente é fraco, a gente é pouco, mas a gente é extraordinário, daquele extraordinário feito das coisas mais simples e mágicas que a vida pode nos oferecer. Amor é sorte e não é processo pouco. Às vezes é até violento. Amar é quase como nascer de novo para tanta coisa dentro da gente. Eu estou nascida de novo.

Lá vem o Caio mais uma vez e me diz: “Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso ás vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez'”. E tudo que mais quero é que passe, que chegue o verão, que sempre tenha sol e sombra e vento forte e que a gente se arrepie a cada pingo d’água caído do céu, a cada nuvem cinza desenhando espaços imaginários, a cada manhã de domingo, a cada suspiro, a cada xícara quente de café compartilhado depois da noite de sexo.

Eu quero a felicidade desvairada. A gente pode. A gente consegue. Tá duro, a gente tá cansada, eu sei, tá tudo dolorido, o estômago revirado, os olhos nublados. Mas solta os braços e flui, vem para mim sem medo. Que eu estou inteira para flutuarmos junto. Não dá para não esperar nada de uma relação. Viver sem expectativas não é humano. De novo o Caio: “Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos – emoções”. Eu vou esperar o melhor. E viver para o melhor.

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