Orgasmo: é à brinca ou é à vera?

Por Renata Lins e Sílvia Sales*

Acho que não é nem novidade, quando se fala de orgasmo, começar lembrando a ótima cena do filme “Harry e Sally” (1989), quando, numa lanchonete de beira de estrada, Harry diz a Sally que nenhuma mulher nunca fingiu com ele. E ela desafia: “Como é que sabe?” “Porque sei”. Ela olha, dá um sorriso de lado. Ele insiste, e ela parece que desiste da discussão. A cena continua com Sally dando uma mordida em seu sanduíche e começando a gemer. Devagar, primeiro. Depois mais profundamente. Respirando forte. Balança a cabeça, mais forte, enquanto geme ainda. Sacode, estremece, bate na mesa, diz: “assim, assim”, e continua sob o olhar incrédulo de Harry até o clímax, com um gemido maior, a respiração ofegante se normalizando… para finalmente olhar para Harry, triunfante. A cena termina com uma senhora na mesa vizinha dizendo ao garçom: “eu quero o mesmo que ela está comendo”.

O cinema inteiro vinha abaixo nesta cena. Risos, risos. Risadas de homens, com uma ponta de dúvida ou, quem sabe, generoso desapego autocrítico. Risadas cúmplices de mulheres: quem nunca?

Quem nunca? Essa é a incômoda questão tratada no texto de Silvia Pilz, “Mentiras Sinceras”. Tratada, acho, com bastante honestidade. A autora não pretende dar lições, ensinar regras, repreender as mulheres. Ela conta a história. “Mulheres aprendem a simular orgasmos antes mesmo de aprender a gozar”. Eu diria que está sendo otimista no “antes mesmo”: acredito que muitas vezes o “antes mesmo” vire para sempre — vire “em vez de”. Ou, pelo menos, dure muito tempo.

Porque, né, aí é que mora o busílis: quem ensina a mulher a gozar? Onde se aprende os meandros do prazer feminino, recôndito, encapuzado, recolhido em dobras abafadas por tantos pudores e pelos? A mãe? Claro que não. Mãe não é pra isso. As amigas, as irmãs mais velhas, as primas? Bom, uma coisa ou outra pode ser. Mas acredito que no geral, pra valer, você esteja por sua conta. “You’re on your own”, como dizem os gringos. Seu prazer é seu e ninguém vai te ensinar esse caminho. É da sua conta e de sua responsabilidade.

E aqui você me para: não faltou mencionar o outro? O parceiro? Pois é. Não entrou na história ainda o parceiro. Porque nessa hora, o homem muitas vezes está mais perdido do que cego em tiroteio. O homem brasileiro, digo. Importante especificar agora. O homem brasileiro, país latino, onde para o hetero ser 100% macho ainda é uma questão 24 horas por dia. Onde sempre foi fundamental comer a mulher, matar a cobra e mostrar o pau — e, hoje em dia, fazê-la desmaiar de prazer.

Só que a ele também não ensinam como se faz.

Talvez se ensine menos ainda: porque nas revistas femininas, apesar de tantas vezes o foco estar no “como tornar-se uma deusa do sexo e proporcionar uma experiência super-mega-hiperclimática ao seu homem”, (tão aí as “Sextas de Nova” da Srta.Bia que não me deixam mentir), há de vez em quando um texto que fala de prazer feminino. Como. Onde. O quê. Um que ensina vibradores. Outro que mostra toques aqui ou ali. Pouca coisa ainda. Mas tem.

E os homens? Quem diz a eles como dar prazer às mulheres? Só as próprias mulheres mesmo. A experiência. A prática. A paciência. A humildade, até porque gozar no sexo a dois se aprende junto e a cada vez.  Mas na primeira, nas primeiras, e às vezes até nas nem-tão- primeiras-assim, há aquele pânico atávico nos homens. O de não dar conta. O de não conseguir. E, muitas vezes, as mulheres fingem. Fingem pra acabar logo. Fingem pra não deixar o cara mal. Fingem porque é melhor deixar pra outro dia, porque tiveram prazer no sexo mas estão cansadas e sabem que o gozo feminino precisa ser cuidado, cultivado, e que ali não vai rolar. Fingem por educação, porque pegaram o cara na noite e a partir de certo momento viram que não ia dar em nada mesmo. Fingem por generosidade e preocupação com o outro. Fingem porque estão de saco cheio e na verdade nem estavam tão a fim daquilo naquele dia.

Como também no começo: às vezes, a gente finge quando a gente ainda está aprendendo o caminho do orgasmo: uma forma de deixar o homem tranquilo, enquanto a gente se dá um tempo para conhecer melhor o próprio corpo, os ritmos, jeitos e intensidades de toque.

O problema é que enquanto a gente finge, eles continuam não sabendo. Continuam — os que se interessam, claro — achando que estão no caminho certo. Que é aquilo mesmo. Lembrem: ninguém mostrou ou ensinou a eles. Corpo de mulher continua sendo mistério, território inexplorado, em pleno século XXI. No Brasil do século XXI. E não é porque tantas vezes se dizem donos, não é porque se vangloriam de terem derrubado tal ou qual fêmea, não é porque posam de garanhões que eles necessariamente têm a tranquilidade ou a segurança de reconhecer que precisam aprender. De pedir ajuda. De tentar escutar o corpo das mulheres. De aceitar que sexo é caminho, é trajetória, é parceria. E às vezes eles até querem: só não sabem como. E, se a gente continuar fingindo, eles vão achar que tá bom assim.

Então, quem sabe, talvez seja melhor parar com o faz-de conta, com o fingimento que perpetua a ignorância masculina e a mediocridade das trepadas.  Vamos mostrar a eles como, onde, quando. Toques, jeitos, gostos, posições. E pra mostrar, é claro, a gente tem que aprender. Se aprender, se conhecer. Se tocar. Encontrar o caminho do gozo. Para, então, conduzir, inclinar. E ensinar. Porque do prazer da gente, a gente é que sabe. Do prazer da gente, a gente é que é dona. Quando a gente topa ir pra cama ou rede ou escada ou pro banho ou balcão da cozinha, a gente tem, sim, a expectativa do prazer ou do gozo – então, porque não ir atrás? Aos homens sempre coube o papel de ser o “bom de cama”. O que não pode “falhar” nunca, e com a obrigação de levar a mulher à lua. Muita pressão pra pouco resultado. Bobagem, né?

Vamos nos permitir passear sem pressa ou ânsia por esse caminho de descoberta. Abrindo o jogo, com tranquilidade. E se não rolar dessa vez, há diálogos ou alternativas para apimentar a brincadeira. Para mais gargalhadas. Até porque às vezes, a gente pensa com as nossas saias: orgasmo é, também, um pouco aquela campainha da escola que toca avisando que terminou o recreio. É bom? Claro que sim, mas, poxa, antes tem tanta coisa que ajuda esse bom a ficar ótimo. Preliminares, que não são só preliminares: já fazem parte do todo. E, paradoxalmente: tudo pode ser bom se não precisar dar certo. Se a gente se permitir estar presentes, testar, dizer, reclamar (é, às vezes reclamar também, porque não?). Experimentar, desse, de outro jeito. Ensaiar tempos, movimentos, toques, intensidades. Com muita presença, sem fazer de conta. Vamos brincar de sexo, que brincar é o que há de mais sério. Brincar e se divertir pelo caminho do orgasmo à vera. Vai que dá.

E, como lembra o lindo Caetano…

Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama….

Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?

Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar”

.

*Renata Lins é uma carioca tranquila e bem humorada, economista e tradutora, que já esteve exilada, socialista e de uma sensibilidade ímpar, apaixonada por livros, filmes e música e que, acima de coisas, gosta de pessoas. Saiba mais dela no seu blog Chopinho Feminino ou a acompanhe no tuíter @repimlins.

* Sílvia Sales é jornalista, botafoguense, generosa e expansiva que  não tem papas na língua e nem amarras, não gosta de meias verdades, papo-meia-boca ou vida-mais-ou-menos. Uma paraense pai d’égua na luta desde sempre, bordando na areia,  bebendo do rio. Feliz. Uma pessoa como as outras, que você pode conhecer melhor no  Facebook ou seguir no Twitter @silviarsales.

Das noites. Dos botecos. Das cantadas.

Por Sílvia Sales*, nossa Biscate Convidada

Sou uma biscate da noite, da madrugada lunar, da ventania. Não é pra menos. Nascida às 23 horas de uma quinta-feira, antessala da tão esperada sexta, de mistérios, de (re)encontros, do porvir. Isso talvez, acho – toda trabalhada no fetiche pisciano – deu um empurrãozinho para esse encantamento pelos dias escuros, pelas noites claras de lua e estrelas. Há gentes. Burburinhos. Delícias do anoitecer. E, de boteco em boteco, lá vamos nós.

Música para ouvir, para dançar. Lembranças. Saudades doídas. Saudades boas. Saudades. Conversas ao pé do ouvido. Chopinhos. Risadas, entre um gole e outro. Escrachos. Reencontros e mais gentes, novas. Amantes, decerto, da soberana lua de Jorge, da noite de alegria.

Aí você vai dizer: Vixe! Esse papo seu tá qualquer coisa, você já está pra lá de Marrakesh. Bebeu? Escrevendo do boteco? Quase, porque hoje é quarta-feira, e para biscate não há dia marcado na folhinha para abraçar a noite, seguir rumo ao botequim, deliciar-se. O papo direto e reto? Biscate que curte sozinha a noite, um barzinho, um banquinho, um violão, uma breja estalando no gelo. Ou que curte um brega-corta pulsos sugerido pela Suzana; ou um brega-sambão lembrado pela Renata; ou um brega- Cult, como alardeia o Marcelo; ou um brega-retrô proposto pelo Pádua. Simplesmente apaixonada por uma meia-noite inteira.

Agora, vida de biscate sozinha pelaí nas noites tem seus percalços. Enfrentamentos. Nem tudo são flores. Ainda esbarramos em situações absolutamente bizarras, para não dizer deploráveis. Um chega junto patético, tosco, com cheiro insuportável de machismo no ar. Cantadas indesejáveis. Brucutus.

Amiga bisca, pergunto eu: Donde está escrito que nós não devemos sentar sozinhas à mesa do bar ou ajeitar-se no balcão? Melhor lugar não há. E entornar a breja sem incômodos e inconveniências? Em lugar algum, pois não? Bingo! E, se houvesse, a ordem expressa era transgredir. Por obviedades.

Mas o macho-que-se-acha-fodão ainda insiste (em sonhos de punhetas mal gozadas, por supuesto), que mulher sozinha no boteco está louca para dar pra ele, está caçando um sexo selvagem na madruga que cai e, quase sempre, crê piamente que só ele é capaz de proporcionar todos os prazeres do mundo e das fantasias da night. Rá rá rá rá. Sim, podemos desejar, querer e fazer muito, muito, muito mais. Sozinhas, inclusive. Até aqui, OK? Adelante.

Mas, querida amiga bisca, o desacompanhamento no boteco não dá o direito ao amigo macho de fazer a abordagem eu-sou-eu-e-boi-não-lambe. Nonsense. Peralá, mais devagar com o andor que a santa revida a qualquer tentativa de brucutulidades. Alguém devolve: mas ele tem o direito de “cantar”.

Calma aí. Há “cantorias” e “cantorias”. E você decide se quer, e se gosta. Agora, o que não pode é cantador achar que o “sozinha” no balcão do boteco, e já na terceira breja, significa necessariamente sinal verde para o abraço por trás, para o aconchego ou disponibilidade para o sexo. Porque, né, aí é o machismo “cantando” em alto decibéis. Violência e poluição sonora. E passar a mão na tua bunda assim, sem você querer, sem você pedir, sem você permitir? Por que? Porque você vadia sozinha pelo bar? Menos, põe muitão menos nisso.

A cantada arrebatadora tem que ter “quereres” dos dois lados. Mão de via dupla (mãos). Vontades. De ambos. Cumplicidade. Como se caetanear, tem que mexer alguma coisa dentro doida. Se conjuminar, aí deixa sentar. Noite. Enrosco de pernas por debaixo da mesa, cochichos lindamente convidativos, lambidinhas no ouvido, gemidos no alvoroço, beijo de borrar batom. Aí sim… Leva contigo. Recomendo. Levo comigo e digo em estado de quase gozo: Muito prazer, meu nome é Silvia. Acho que a noite ajuda a gente se ver.

PS: Esse post foi parido após um bate-papo na madrugada (claro,óbvio, sempre, e salve, salve!) com a bisca-mor-cucadospampas-satolepete-sociadessabagaça, a jornalista Niara de Oliveira. Experiências de biscate no boteco a ouvir as mais absurdas e, também, deliciosas cantadas. Porque eu, sozinha.

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* Sílvia Sales é jornalista, botafoguense, generosa e expansiva que  não tem papas na língua e nem amarras, não gosta de meias verdades, papo-meia-boca ou vida-mais-ou-menos. Uma paraense pai d’égua na luta desde sempre, bordando na areia,  bebendo do rio. Feliz. Uma pessoa como as outras, que você pode conhecer melhor no  Facebook ou seguir no Twitter @silviarsales.

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