Das sobrevivências

a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu

Porque tem a dor.

Junto com quem mergulha, junto com o gozo, no fundo do copo, a dor. Por vezes corpulenta, densa, gelo sólido para lamber aos poucos. Por vezes fluída, cachaça que se toma num gole só.

Inebriante. Abre os poros e toma conta de tudo por dentro.

Dói, imobiliza, e a gente chora. Choro biscate é um choro aos rebentos: soluços vistos e vergonha nenhuma. Quando dói a gente grita. Um grito lá do fundo da garganta, sentido no fígado, no estômago, no coração aos pedaços. Um grito de alma.

Porque o revés do amor é a dor. O revés da busca da liberdade, a incompreensão. O revés da intensidade, a depressão. O revés da alegria nossa de sorrisos largos, o choro desesperado, sem rumo e sem descanso. O revés é nosso e a gente o recebe. Ele faz parte da busca.

 A gente busca, e a gente sobrevive. A bisca Raquel Stanick já me disse, no desconsolo de uma noite longa de lágrimas: nós somos sobreviventes. As biscates são sobreviventes.

É minha amiga, a gente segue sobrevivendo. Porque se há de seguir e acreditar que a luz do sol aparece por entre as nuvens. Aquela luz que a gente já viu tanto, que já nos cegou de claridades, que já nos aqueceu e nos nutriu para ir além.

Porque a gente quer o além. Biscate quer o além de si mesmo, refletido nos olhos dos outros. Quer o que está por trás. Os avessos bonitos de doer a vista. A gente inteiro cheio da gente mesmo. O amor para além dos falseamentos. O sexo para além do gozo. Ou como disse Clarice: o extraordinário tão simples de ser encontrado nas coisas comuns.

 Mas quem se busca, e busca algo mais que os protocolos e padrões engessados, os “sins” do altar dos noivos, o comprometimento de conta conjunta, as certezas do mundo concreto, já sabe que tem a dor. Quem vê para além do que a vista alcança tem dor de cabeça, por vezes, e cansaço de pernas estiradas. Quem busca o grande salto já sabe que tem que colher os espinhos das pequenezas e das tristezas dos lagos rasos. A gente se machuca, com a ingenuidade incansável de acreditar.

 Biscate tem ingenuidade, acreditem, ingenuidade de acreditar que a felicidade funda existe, de que é possível somar, de que alegria verdadeira é verdade. A gente já esteve lá, a gente já provou, a gente já viu, tá lá e é possível tangenciar um mundo livre para se ser feliz. Feliz e contingente, onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente. Feliz com as escolhas que vem do fundo do coração. Feliz com as aberturas, com os finitos, com o humanamente rico de possibilidades. Feliz e comprometido com o bem estar maior de se estar vivo.

 Mas enquanto isso a gente também chora e sente dor. Uma dor tão funda que às vezes a gente não respira. Um soluço continuado que parece que a gente não tem teto.

A dor é nossa e a gente chora. Forma rios e se afoga neles, para depois subir ainda mais dispostos a ir em frente. Porque quem quer muito, tem tudo muito. E eu quero o muito, a vida latente, sem roupas apertadas. Eu quero a nudez. Nadar na praia sem roupa e sem medo das ondas grandes e das submersões nos fundos gelados.

Vamos em frente?

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