Por que criminalizar o aborto e quem o auxilia?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

O Aborto é uma imbecilidade burocrático-patriarcal. E eu poderia passar a noite inteira em claro reconstruindo argumentos (porque eles já existem aos montes) pra justificar a liberação irrestrita da prática da interrupção da gravidez, poderia usar os mais secos e “capitalistas” de questão de saúde pública, diminuição da pressão carcerária, etc. Além disso, muitos dos bons argumentos a favor do aborto serão trazidos na nossa Quinzena #AbortoSemHipocrisia

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Garota com um Feto (2005) by Paula Rego

Essa quinzena tomou fôlego com as notícias, recém divulgadas do crescente número de crimilização de pessoas que prestaram apoio a mulheres que buscaram o aborto (veja aqui). E é sobre isso que me debruço nesse post inicial. E não, não vou escrever um tratado jurídico pra explicar a situação. Basta saber que nossa legislação permite, sim, criminalizar quem presta qualquer auxílio à mulher que faz aborto – e, sim, é qualquer auxílio mesmo, desde indicar o remédio abortivo, comprá-lo, levar à clínica, pagar o médico clandestino, tudo isso é participação no crime.

Agora, sendo sensatos no assunto (ou tentando, pelo menos). A nossa sociedade é prolífica em demonstrar que historicamente nossa liberdade sobre o próprio corpo é quase nula. Quando se trata de mulheres (cis ou trans*) essa autonomia sobre o próprio corpo é menor ainda e isso não é uma mera questão legal… isso é cultural, algo incutido na nossa formação e que reprime qualquer atitude que tomamos em relação ao nosso corpo, desde a masturbação, exposição do corpo nu, passando pelo sexo, até o aborto.

O legado da nossa sociedade é de opressão ao corpo e de oprimir o corpo do outro. Agora, imagine o quão difícil não é tomar o ato de liberdade desse contexto cultural e decidir fazer o que é considerado “crime” por essa mesma sociedade. Agora, imagine fazer isso sozinho. É não só cruel, como irresponsável. A prática do aborto requer assistência! A mulher que, não importa o motivo, resolve dispor do próprio corpo e se submeter a esse procedimento médico precisa de auxílio: moral, financeiro, afetivo, profissional. E o que o nosso Direito Penal Arcaico faz? Isso mesmo, criminaliza que quer que esteja disposto a dar suporte a esse mulher, seja ela consciente-empoderada, inconsequente-vítima do contexto social, seja ela simplesmente o que tem que ser uma mulher que aborta: alguém que decidiu dispor do próprio corpo.

Hoje, nosso sistema político e jurídico transforma a questão do aborto em uma questão de coragem, de clandestinidade e de resistência. Mulheres Livres e seus “Camaradas”, seus auxiliadores, se põem no lugar de uma guerrilha a ser combatida de forma abrupta e truculenta. Se tornam, mais que criminosos por um sistema injusto e arcaico, vítimas de um estado que os deviam acolher e dar assistência. E é muita infelicidade para uma sociedade não conseguir entender e chegar a este estágio de civilidade, porque é isso… nos falta civilidade, compreender a dor e as questões do próximo e, sobretudo, apoiá-los nesses momentos. Contudo, nós e nosso Estado irascível preferimos criminalizar vítima e quem quer que a auxilie…

Não nos basta reconhecer que estamos passos atrás, nosso problema é, depois disso, pedir para sermos cimentados nesse lugar atrás.

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Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Essa tal Democracia: o que é e para que(m) serve???

“A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”

(Aldous Huxley)

democracia

Estou com 24 anos de idade. Três desses anos, dedicados à militância e ao ativismo nas ruas e na internet em defesa de bandeiras que acredito (igualdade entre gêneros, combate à homofobia e ao racismo e democratização da comunicação, por exemplo). E é com perplexidade que afirmo: jamais imaginei que presenciaria, em pleno ano de 2013, eventos como as manifestações que ocorreram em nosso país.

Para elucidar a reflexão que pretendo propor, farei um breve resumo do que vivenciei e senti, particularmente, em 17 de junho, dia do 5º grande ato contra o aumento das tarifas do transporte público na cidade de São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre. O desenrolar dos fatos, as mobilizações em nível nacional e a repercussão no mundo, creio eu, muitxs de vocês já sabem.

Assim como boa parte das pessoas do meu convívio, fiquei profundamente indignada com a truculência da Polícia Militar ao reprimir as manifestações. Eu não pude comparecer aos outros quatro atos porque era final de semestre na faculdade e tinha muitas coisas para terminar. No entanto, a causa que o MPL defende me representava ( e representa) demais para que eu deixasse de apoiar. Me organizei e fui para o Largo da Batata, acompanhada do meu namorado e de mais alguns amigos.

Era de encher os olhos. Um mar de gente. A Avenida Faria Lima completamente tomada pelos manifestantes. A multidão era tão grande, que quem ali estava ficava entorpecido. Eu mesma, confesso: me deslumbrei. Quase não tinha polícia. Tudo bem pacífico, como as emissoras TV adoram reforçar em seus noticiários. Acompanhamos o grupo que fez o trajeto Berrini-Ponte Estaiada ( previamente “desocupado” para a manifestação) e após a dispersão, voltamos para casa. E soube depois que o pessoal do MPL seguiu para a Avenida Paulista e que um pequeno grupo foi rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Achei estranho isso, somado a um nacionalismo vazio que estava começando a dar as caras ali. Mas aquilo ainda não tinha sido o suficiente para tirar meu sono ou confundir a minha cabeça.

Como a revogação do aumento ainda não tinha acontecido, o 6º ato foi convocado para o dia seguinte, 18 de junho. E lá fui eu novamente, com namorado, amiga da facul e duas conhecidas, na Praça da Sé. Mas o clima estava mais pesado do que no dia anterior. Era muito ufanismo, nacionalismo exacerbado, pessoas bradando contra a corrupção ou a PEC 37 ( que já caiu antes mesmo de eu formular minha opinião a respeito), gente pedindo impeachment para a Dilma, galera contra a Coca-Cola Zero ou defendendo a volta do regime militar. Mas nada, absolutamente nada relacionado à tarifa. Tava mais para uma final de Copa do Mundo. E os manifestantes que carregavam bandeiras de partidos já estavam sendo rechaçados. Voltei para casa triste, confusa e com a sensação de ter feito papel de idiota por ter “endossado” pautas que não tinham foco. Ou até tinham, só que divergiam demais do que sempre acreditei.

Após a revogação do aumento em São Paulo, os atos continuaram e eu soube através de amigos, das redes sociais e de alguns blogs que tudo o que eu tinha visto no dia do 6º ato se intensificou de tal modo, que muita gente ( eu inclusa) temia que um golpe de estado pudesse ser articulado (porque o golpe midiático já estava em andamento, tendo em vista a forma “mágica” como a mídia tradicional passou a achar manifestções populares fofas, e a chamada massa de manobra ficando cada vez mais em evidência). E foi aí que confundi minhas bielas e parei de dormir direito à noite.

Hoje estou mais calma, mas não menos confusa. E tal confusão despertou em mim a necessidade de parar um pouco para pensar. Ainda que existam oportunistas de toda espécie tentando se apropriar e cooptar uma luta legítima para promover o caos em nome de interesses que não contemplam o povo, tenho consciência de que a maioria das pessoas que “acordaram” agora nunca tinha ido para a rua antes. Que a educação propositalmente defasada que receberam,  reforçada por (mais uma vez ela) uma mídia poderosa fez com que elas acreditassem que: política não se discute, que político é tudo igual e que nenhum partido deve ser capaz de representá-las.

periferiaPor isso, penso que meu papel, assim como o de quem se considera politizadx, esclarecidx e bem informadx seja, a partir deste momento, o de fazer um trabalho de formiguinha: tentar, aos poucos, conscientizar as pessoas de que vivemos em uma democracia sim, mas que só será plena quando um negro for tratado da mesma forma que um branco em qualquer lugar que vá; quando homens e mulheres tiverem EFETIVAMENTE direitos iguais; quando gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais puderem viver livres de preconceitos; quando aprendermos a diferenciar liberdade de expessão de liberdade de ofensa; quando o pessoal que mora lá na periferia conseguir usufruir da mobilidade urbana e do próprio espaço público da mesma forma que quem tem carro; que reforma política se faz nas urnas, de preferência lembrando bem quem foi que ajudamos a eleger… Etc. (muitas eteceteras aí)

Eu mesma, sou bisca aprendente.

A Babi Lopes tem um excelente texto falando sobre isso. A Maíra Kubik também.

 

As bisca pira no Clint

Por Niara de Oliveira

Nos últimos tempos sempre que chega 31 de maio me revolto com o tempo. Clint Eastwood está completando hoje 82 anos e sempre penso que o tempo deveria ter parado para ele, ao menos fisicamente deveria ter parado lá pelos seus 50 anos até como uma reverência. Contudo, é inegável que o mesmo perverso tempo lhe fez muito bem. Não é uma regra que o tempo faça as pessoas evoluírem e evoluir não quer obrigatoriamente dizer que seja bom, mas no caso dele… Clint foi do ator machão dos westerns e policiais ao diretor genial, criativo e muito, muito sensível. Já promovi até uma semana especial para ele noutro blog quando dos seus oitenta anos. Segundo os atores já dirigidos por ele, Clint comanda o set de filmagem sem levantar a voz, é educado, sutil e de uma gentileza ímpar.

Há controvérsias, eu sei. Ele é do partido republicano nos EUA desde 1951, já foi até prefeito de Carmel-by-the-Sea, Califórnia (1986-1988) e diz coisas como “vivemos numa geração meio mariquinha” ao mesmo tempo que defende o casamento homossexual. Mesmo assim acho impossível não suspirar diante de seus personagens durões como o homem sem nome da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone ou do inspetor Harry Callahan na série de filmes Dirty Harry. Tá, eu prefiro suspirar com o fotógrafo Robert Kincaid de As Pontes de Madison e mesmo tendo preferências me derreto com o Clint na pele de qualquer personagem. Tenho pelo menos uma dúzia de fetiches com ele.

Se fosse escolher um único filme para apresentar Clint a quem não o conhece, arrancaria os cabelos. Não faço ideia. São tantos filmes em que ele atuando ou dirigindo ou os dois se apresenta em toda sua genialidade, estilo e sex appeal… Vou tentar indicar três: Por Um Punhado de DólaresAs Pontes de Madison e Invictus.

Ah, e, claro, daria um dedo (ou até uma mão inteira) para poder entrevistá-lo e ver aquele sorriso de perto e descobrir o quanto de verde tem naqueles olhos azuis… Quem nunca?

Ah, sim, usei apenas as fotos de quando acho que o tempo deveria ter parado para ele… Talvez nem todas as biscas pirem no Clint, mas eu quase molho a calcinha. ♥, Clint!

O rótulo para além dos rótulos

Pois é, os rótulos.

Em algum momento a gente percebe que o mundo está cheio deles, em cada embalagem, produto, ou ser humano que passa por entre os olhos. “Olha, lá vai um carro da marca do comercial do jogador de futebol!”, “Ah, nem te conto, fulana é marxista, ciclano é de direita, fulano é gay, ciclana é uma vaca”. Simplificações do nosso mundo de consumos diretos e rápidos, de nossa sociedade que nunca para, e não quer se aprofundar nas individualidades. Nomes curtos que fogem das complexidades, objetividades que não definem nada, e reduzem o bonito do ser humano em partículas desconexas. Pessoas marcadas em breves título de outdoor, colocadas no carrinho em compras rápidas de supermercado.

Olha-se uma pessoa, dá-se um rótulo e parece que nada mais cabe. A pessoa não ama, não sofre, não goza, não fica doente, não é um ser humano com dores e delícias e desafios existenciais, com delicadezas e belezas, com vida-vivida para além de qualquer coisa que a delimite. Ele é gay, e pronto. Ela é uma vadia, não merece mais do que duas frases e exclamações sobre suas roupas e modos sexuais.

O julgamento social tem juízes rígidos, sentenças curtas e penas severas. E as penas são coercitivas, espinhos que machucam as costas, que pesam nos ombros e nos afastam, com pesar, do bonito que se pode construir junto, das riquezas que estão escondidas dentro de cada um de nós. Porque lá dentro, acredite, não tem gay, não tem vadia, não tem loira burra, não tem nerd, não tem nada a não ser essências e pensares, vontades e questionamentos, anseios, vibrações, tesão, medos, humanidades e quereres livres que se amarram ao possível.

Mas a gente vai além, porque, oras, porque já basta! Assumimos um rótulo: somos biscates. Sim, pode chamar, porque nós somos. Vadias também pode, aceitamos variações. Marchamos com as vadias, aqui ou lá, vestimos nossa liberdade de sermos mulheres de desejos declarados, sem subterfúgios, estufamos o peito e gritamos para quem quiser ouvir: BIS-CA-TE!

E que orgulho de ser biscate, que orgulho de poder assumir, de poder transgredir e extravasar. Porque com o rótulo queremos exatamente o não-rótulo, queremos respeito pelas nossas diversidades e vivências sexuais, queremos a desconstrução, o gozo livre, queremos poder ser o que quisermos ser, sem penas ou juízes arbitrários.

Vestimos o rótulo exatamente porque, um dia, acreditamos no fim dele, e de todos eles. Vestir o rótulo é prosseguir na batalha. Sim, a gente acredita. Acreditamos que um dia toda mulher poderá vestir o que quiser, poderá trepar com quem quiser, dispor do seu corpo como quiser, comer o que quiser, mostrar o que quiser, sem ser violentada ou reprimida por isso. Acreditamos que somos, todas, umas belas biscates. Como somos todos gays, héteros, negros, brancos, índios, macumbeiros, profanos e sagrados, encantados, vagabundos e batalhadores. É, nós queremos viver num mundo onde se possa ser qualquer coisa. Onde se possa ser nada, e tudo ao mesmo tempo agora.

Biscates…avante!


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