Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

Lapada na rachada?

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Falar abertamente sobre sexo é algo que desejo para todas as pessoas. Não precisa dar detalhes da vida sexual, nem ficar se gabando ou se lamentando, mas acredito que seria bom para todo mundo conseguir falar bastante sobre o assunto, sem receios, preconceitos ou limitações. Isso ajuda até mesmo a identificarmos melhor o que é violência sexual, o que é consentimento, o que é prazer. Por isso, compartilho com vocês minha nova ídola: Monica Moreira Lima, apresentadora do programa Sem Vergonha na TV Guará do Maranhão, que descobri recentemente por meio de uma entrevista na Revista TPM.

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Em seu programa, Monica discute tudo sobre sexo e entrevista pessoas nas ruas. O ponto alto é seu vocabulário direto e espontâneo:

Uma das abordagens recentes de fã foi bem específica. “Um cabra me parou no shopping: ‘Mônica, ligue aqui pra minha mulher, por favor, convence ela a dar o cu pra mim, vai?’. Como é que é, meu compadre? Cu é meritocracia e muita dedicação. Deixe a moça doidinha e tu vai ver ela dizer ‘é hoje que eu quero dar esse cu”.

“Primeiro tire um sarro, no cinema, na balada, para conferir se o cabra é sua pontuação de rola. Feita a checagem, dê uma boa lapada na rachada”.

“Um ‘Eu te amo’ pode ser falso, mas um pau duro é sempre sincero”.

“O melhor pau é o pau cavalheiro. Aquele que levanta para a dama sentar”.

Mônica é jornalista, tem 47 anos e três filhos. A fuleiragem é sua marca registrada. Vítima de violência doméstica no casamento, assume que tem trauma de relacionamentos com homens, mas trabalha para ver as mulheres sentindo-se mais livres para vivenciar sua sexualidade.

Acredito que não se trata apenas de pregar libertinagem e nem dizer que todas as mulheres devem transar bastante. Fazer mais ou menos sexo é indiferente, falar abertamente sobre sexo é o que quebra nossos tabus internos, é o que pode transformar nossas relações de prazer, é o que abre portas para que jovens perguntem e não sintam vergonha. Ao perguntar: você sabe o que é lapada na rachada? Mônica estimula nossos sentidos e nossa forma de vivenciar cotidianamente o sexo. Ou no mínimo nos faz dar boas risadas.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

As mocinhas que amamos, ou não

Mocinhas de novelas. Amamos e suspiramos e nos identificamos. São as princesas Disney dos adultos, elas que superam as dificuldades e ficam com o príncipe no final, que antes era um sapo. Ok, algumas mocinhas nós odiamos também e preferimos amar as vilãs ( beijo, Carminha). Outras vezes, não amamos ninguém, né, Babilônia?

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Lígia, em Sete Vidas, representa o amor em estado mais latente, aquele amor profundo que acaba por tudo perdoar e que vive do que o amor é feito: esperança (desculpem, tô romântica, mas me vejo nela, e por isso a gente ama as novelas, não?). Mas, Lígia faz aquilo que todos nós, quando apaixonados, fazemos quase sempre: que é ver no ser amado a possiblidade de alguém melhor do que ele é, um embrião de algo espetacular que ele mesmo não vê. Vemos também espelhos, vemos nele nossos sonhos de amor, a pessoa ideal, aquilo que queremos. Daí o impasse da impossibilidade amorosa daquilo que se é para aquilo que se quer. Como por exemplo nessa cena, em que Ligia e Miguel pensam um no outro.

E, invariavelmente, na vida real, o fim do romance. Na novela, não. Miguel vai mudar graças a ajudas externas. Na vida real, a ajuda externa para mudança pode acontecer, se a pessoa quiser, via terapia. Mudar não é obrigação, a não ser que se deseje para si mesmo e não para agradar o outro.

Mas essa tônica de buscar no outro o que ele não é e esperar que ele seja está em todos os outros conflitos amorosos de Sete Vidas. Por isso que a novela encanta tanto. Lícia Manzo busca na vida o material para seus diálogos bem tecidos.

Já a mocinha Regina (interpretada pela atriz Camila Pitanga), de Babilônia, ficou conhecida como um mantra de chatice. Embora lutadora, o telespectador não consegue achar uma identificação possível porque ela é intransigente e mal agradecida. E é muito sofrimento fabricado em cima de sofrimento. Muito drama artificial, muita armação que com um mínimo de tutano seria desmascarada.

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Isso acontecia em Avenida Brasil, por exemplo? Sim, mas ali tinha ritmo e humor, diferenças fundamentais. Ademais, ninguém conseguiu criar empatia suficiente com o sofrimento de Regina. Afinal, ser abandonada no lixão, órfã, era é muito mais impactante.

Sobre o fato de Regina fazer barraco e gritar muito, me lembrei que haviam essas mesmas reclamações sobre a Maria do Carmo de Regina Duarte, em Vale Tudo. Mas, a personagem tinha sempre uma atitude muito positiva diante de tudo, tinha “o sangue de Jesus tem poder”, e criou empatia com o público. Ademais, acho que o tiroteio da audiência fez com que os autores de Babilônia perdessem o prumo da novela, uma pena, porque Camila Pitanga fez trabalhos maravilhosos, como a Bebel de Paraíso Tropical, do mesmo Gilberto Braga, e a Isabel, de Lado a Lado.

De se pensar que o público de hoje, muito mais conservador, rejeita uma personagem lutadora da favela e amava a prostituta Bebel.

Outro ponto é que a falta de identificação do telespectador com Regina não passa só pela chatice da personagem, mas possivelmente pelo fato de, além de barraqueira, ser antes de tudo negra e favelada, fato que nem Nina e nem Maria do Carmo eram. E o racismo pode se pronunciar nisso também: na dificuldade de se identificar com uma heroína negra.

De minha parte, torço para Babilônia se apague rápido das nossas memórias e Sete Vidas, ao contrário, siga como exemplo, e Lícia Manzo chegue em breve ao horário das 9, porque ela merece.

Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

Cresci sendo noveleira. Madrinha assistia a todas as novelas do dia, e eu junto. A TV formou parte do meu ser, e digo que foi mais para o bem que para o mal. Lembro até hoje de Gabriela catando aquela pipa trepada no telhado: eu devia ter uns 6 anos.

Amo quando tem novela boa pra ver. Mas tudo ok quando uma novela é ruim, porque continua tendo outras em algum lugar. A novela ruim da vez, e olha que prometia ser ótima, é Babilônia. A novela delícia é Sete Vidas. No meio, de recheio a conferir, temos I Love Paraisópolis (Isso ficando só nas da Globo. Porque tem as da Record também).

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Mas queria falar é da minha paixão: Sete Vidas, aka Sete Filhos de Amyr Klink. Ao assistir a novela, me lembrei primeiramente de uma fala de Nora Ephron nos extras do DVD de Harry & Sally. Era mais ou menos isso: a comédia romântica cristã tem o conflito baseado no externo – alguém ou algo que impede o casal de ficar junto. Já na comédia romântica judaica, o que impede o casal de ficar junto são as neuroses de cada um deles. Daí que não temos mais vilões bolando mirabolantes planos do Cebolinha para sabotar o amor dos pombinhos. Basta uma palavra errada, um atraso, um esquecimento, enfim, a vida como ela é, e está estabelecido o conflito, os rompimentos, o vai e vem. E é disso que é feita Sete Vidas.

Aliás, Sete Vidas me lembra mesmo Harry & Sally, um dos meus filmes favoritos. É uma novela de muitos diálogos, não longos e intermináveis, mas dinâmicos e variados. No twitter é chamada de “novela da DR”. Mas, novamente, a novela usa a matéria-prima da vida: conversas. Conversa sobre nós mesmos, dúvidas, medos, possibilidades. O que fazemos todo dia no bar, no inbox, no whatsapp.

Sete Vidas é uma novela de gente analisada. Não basta uma das mais encantadoras personagens ser uma terapeuta em conflito: as boas pessoas dali, aquelas com quem a gente se identifica, são capazes de analisarem si mesmas, seus sentimentos, os dos outros, voltarem atrás, se perdoarem, perdoarem o outro, mudarem, terem empatia. Não é isso que faz de uma pessoa uma pessoa boa? Um ser bacana? Ser alguém sempre em reconstrução?

Uma das pessoas mais bacanas é a Esther, personagem da Regina Duarte, lésbica, viúva e mãe dos gêmeos gerados pela doação de Miguel.  A capacidade de analisar a si mesmo nos faz sermos pessoas maduras e capazes de rir de nós mesmos, e isso é algo que Esther faz com maestria e leveza.

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A novela tem  quase que só personagens brancas e de classe média ou alta, na sua maioria, coisa que incomodou bastante no início da novela: mas a falta de diversidade racial e social foi amenizada com a chegada da Esther e sua amizade com a empregada da filho, Graça, e o filho desta, Carlito. O núcleo gerou cenas de ótimo conteúdo sobre discriminação social e racial, sem a cara de textão ou propaganda do MEC – ao contrário do que acontece frequentemente com a personagem de Fernanda Montenegro em Babilônia.

Por último, acho que a novela coloca como mocinha, não Júlia, nos seus 20 e poucos anos e seu amor por Pedro (larga dele fica com o Felipe!), e sim uma personagem que é mais próxima da telespectadora:  Lígia  e seus quarenta e algo e seu amor pelo arredio Miguel, aquele que foge até do laço do cadarço do sapato, ao que parece.  Lígia é uma mulher madura, que ama com todo o coração, mas tem carreira, filho, mãe chata, irmã, amiga que pisa na bola mas que é gente e ama e por aí vai.  É classe média, tá fechando as conta no final do mês, de boas. Mas, novela tem que sonhar ao menos um pouco, né?

E é assim que me dou conta que que ao menos que a trama seja muito dinâmica, bem dirigida, os atores bem escalados, estejam bem no papel, a trama bem amarrada, como Cheias de Charme e Avenida Brasil, não tenho mais saco praquela coisa muito fantasia de vilão maluco sabotando tudo com planos mirabolantes. Torço por mais novelas humanas com pés no chão e que, na próxima incluam mais negros, negras e suburbanos, enfim, diversidade.

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(todo mundo madurinho e analisado agora?)

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

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Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

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