Remédio Menos Amargo

Por Bárbara Guimarães*, Biscate Convidada

Esse texto é dedicado a você, que volta e meia se manifesta atacando o uso de antidepressivos e ansiolíticos. Sim, concordo que na sociedade atual há um excesso em seu uso. Sim, sei que há uma grande diferença entre tristeza e depressão.

Mas te peço um favor. Antes de expressar esse ataque, pense no outro. Nas pessoas que realmente precisam desses remédios… e em como elas se sentem diante das suas críticas – mesmo que não sejam dirigidas a elas.

Eu sou uma dessas pessoas. Fui uma criança “triste” e cheia de medos. Filha de pais adeptos da medicina natural, da homeopatia, da terapia. E do pensamento “É preciso enfrentar e suportar as nossas dores”. Então, com 11 anos lá estava eu em minha primeira terapia, que deveria me ensinar a lidar com elas. Não adiantou. Aos 15, outra tentativa, psicanálise. Aos 17, mais uma, junguiana… e por aí afora. E médicos homeopatas, prescrevendo sempre os mesmos remédios. Que também não adiantavam. E antroposofia, yoga, acupuntura… Nada. Mas eu tinha de aprender a enfrentar as minhas dores, né?

Aos 27 anos finalmente desisti da luta inglória. E procurei um médico, pedi para tomar um antidepressivo. Ele me respondeu que não precisava pedir; meu quadro de depressão era muito claro. A dúvida foi só na escolha do remédio.

E então senti alívio, conforto? Infelizmente não. Porque acima da melhora que o remédio trouxe havia uma grande culpa em tomá-lo, gerada pelo preconceito com esse tipo de medicamento. Preconceito que vivi em casa, com meus pais, ou com primos, ou vindo de amigos, ou da sociedade… Mas como? Remédio é para quem tem problemas sérios, físicos! Você? Imagina, você não precisa, só está triste, vai passar…

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Você tem ideia do peso que é lidar com isso? Sentir esse preconceito, esse olhar que te diz que você é desequilibrada ou que te julga uma fraca, apenas porque está tomando uma medicação da qual realmente precisa? Pergunto: se fosse um epiléptico, alguém contestaria a necessidade de remédios? Alguém abaixa a voz e assume um tom de segredo escandalizado para falar que um conhecido está tomando aspirina? Não, né? Mas quando o assunto são estabilizadores de humor, parece que todos se sentem no direito de julgar e condenar, de resolver o que o outro deve ou não fazer, e, mais grave, de contestar o diagnóstico médico, por mais sério e competente que seja o profissional.

Ah, mas o remédio mascara sintomas, dizem. Opa, que maravilha. Se os sintomas são intensos a ponto de prejudicar a qualidade de vida de uma pessoa, quero mais é que eles sejam “mascarados”. Ou, para ser mais exata: amenizados.

Penso que há vários fatores nesse preconceito. Um é essa mentalidade (um tanto cristã, não?) do “é preciso enfrentar a Dor”. Há que suportar, há que sofrer. Sofrimento dignifica. Inclua-me fora dessa. Sim, sei que experiências dolorosas podem ensinar coisas, ajudar a amadurecer, trazer autoconhecimento. E acredito que é completamente normal haver um período de tristeza, de luto, depois delas. Mas uma dor “perpétua” só traz isso mesmo: dor. E gera uma dificuldade em viver de forma plena, manter bons relacionamentos, amar, sentir prazer nas pequenas e nas grandes felicidades. Imaginem-se usando constantemente óculos de lentes cinzentas e turvas. É mais ou menos isso.

Outro fator dessa reação contra os remédios, admitamos, é um certo corporativismo. É claro que psicólogos e psicanalistas serão contra seu uso (na maior parte dos casos). Por um lado, é o que aprendem na faculdade. Deve-se buscar outros caminhos, a “cura” é um processo longo, doloroso e necessário de enfrentamento e descobertas, o remédio é apenas um paliativo. E por outro, talvez eles pensem que se todos usarem medicamentos seus consultórios podem esvaziar um bocado – pois, de certa forma, eles vivem da dor alheia.

Acho essa parte uma grande besteira. Nunca deixei a terapia de lado nas épocas em que tive de recorrer a remédios. Pelo contrário. Se não estava fazendo, buscava uma assim que saía do psiquiatra com a receita. Porque sei que as fases em que tomei remédio foram as em que a terapia mais rendeu e se aprofundou. Com as lentes nubladas deixadas de lado torna-se bem mais fácil ver a realidade, lidar com as questões, com os problemas… e com as dores.

Agora, só para deixar uma coisa bem clara: você acha mesmo que um antidepressivo faz alguém feliz instantaneamente e durante todo o seu uso? Que ele cria um estado artificial de alegria idiotizada? Bom, sinto decepcionar, mas não é assim. Tudo segue. Dias bons, dias ruins. Alegrias e tristezas, risos e choros. O remédio apenas ajuda a enfrentar o dia a dia. É como se conseguisse equilibrar um pouco o estado de espírito, afastar a “nuvem negra” gerada por uma disfunção química. Mas não é a droga da felicidade perpétua. Isso não existe.

Remédios. O tão louvado ou criticado mundo maravilhoso e artificial das “drogas da felicidade”. Mas dificilmente se fala sobre as reações horríveis que podem acontecer cada vez que eles começam a entrar no seu organismo, como enjoos, agravamento dos sintomas – da depressão, da ansiedade, do pânico etc –, inapetência, vertigens… Sobre os ajustes e trocas de medicação que muitas vezes são necessários, e geram flutuações de humor ou novas reações. Sobre a baixa na libido. (Ou pior… eu, que sempre gostei de sexo e já conheço muito bem os caminhos do meu prazer, cheguei a passar por três meses de anorgasmia, até trocar de remédio.) Sobre alterações no funcionamento do intestino ou na sensibilidade do fígado. Tudo isso pode acontecer, sim, e muito mais. Agora, você acha mesmo que alguém aguenta isso sem realmente precisar?

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Entenda, por favor, que quem chega ao ponto de ir a um médico em busca de antidepressivos está precisando, e muito, de apoio, de carinho, de amigos. Não de julgamentos. Não de “você não precisa disso”, “você pode aguentar sozinho” ou de “você está fugindo dos seus problemas”. Antes de julgar, pare e reflita. E que só atire a primeira pedra quem passou por crises de pânico por anos, achando que vai morrer, se sentindo terrivelmente mal por 10, 20, 30 minutos… e depois ficando arrasada por semanas, com medo da próxima crise – o medo do medo. Atire a primeira pedra se você sabe o que é dormir mais de 12 horas e acordar chorando, querendo que o mundo acabe para não ter de se levantar. Atire a primeira pedra se você já passou várias vezes pela experiência horrível de desejar que seus pais morram logo para que você possa se matar sem lhes causar sofrimento. Atire a primeira pedra se sabe o que é perder um quilo por dia (ou sair correndo para um pronto-socorro) porque o desespero que sente é tão grande que se torna físico. Atire a primeira pedra se aos 40 anos de idade você já teve de engolir o orgulho, a enorme vergonha, e ligar para sua mãe aos prantos, pedindo socorro porque não consegue mais nem se alimentar. Atire a primeira pedra se sabe o sofrimento, a sensação de fracasso que é perceber que vai ter de voltar aos remédios, depois de ter conseguido passar anos sem eles. E por aí vai, porque cada pessoa é única, portanto tem seus próprios sintomas de depressão, ansiedade etc.

Insisto… Você por acaso sabe o que acontece na cabeça do outro? Sabe se aquela amiga, “nossa, que chata, nunca quer sair”, está em casa chorando sozinha, ou se ela não sai por conta de algum medo irracional? Sabe o que ela realmente pensa? Ou pior, sabe o que ela esconde para não sofrer julgamentos ou não ser rotulada como “aquela pessoa negativa de quem é melhor se afastar”? Sabe das condenações e censuras que ela ouve quando finalmente resolve se abrir e conta a alguém que pensa em se matar? Ou lembra daquele conhecido que “de repente” se matou e ninguém entende porque, ele parecia bem… Pois é, não estava. Estava escondendo uma dor maior do que podia suportar.

Alguns meses atrás tive uma longa conversa com uma amiga, cuja filha de 15 anos vinha tendo constantes crises de pânico. A situação se tornava cada vez mais delicada, ela foi se isolando, não podia mais ficar sozinha, a terapia não estava dando conta. Mãe naturalista, contra remédios. Eu não quis dar palpite, quanto mais porque se tratava de uma adolescente, mas fiquei pensando nos meus 15 anos… e em como poderia ter sido melhor se eu houvesse tomado remédios nessa época, e crescido com menos medo. Dois meses depois os pais acabaram aceitando a ideia dos remédios, que o médico receitou em uma dosagem bem baixinha. E foi lindo ver essa mocinha sair do casulo, ir para as manifestações, levantar a cabeça, sorrir. Só pude ficar feliz demais por ela, e pela decisão dos pais.

Acredite, às vezes não é possível aguentar a dor sem auxílio químico. E entre pular pela janela e tomar remédios, eu sei qual a minha opção. E também sei que ela seria muito mais fácil se não implicasse ter de enfrentar tanto preconceito e tantos julgamentos.

bolhas1*Bárbara Guimarães é mulher multifacetada, às vezes maremoto, às vezes águas acolhedoras. Temperamento artístico e inquieto. Alma que se alimenta de música. Em uma busca eterna, tentando achar um caminho entre fomes, medos, luz, escuro, racionalizações e emoções.

 

 

 

 

 

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