A Girl é Dele

Por Teresa Font*

Hoje, para algo completamente diferente, venho aqui contar-vos de coração aberto a minha relação <3 secreta-e-quase-quase- amorosa  <3 com um homem mundialmente famoso.

Injusta e birrenta como uma criança mimada, afastei-o  de mim durante anos e afirmei alto e a bom som não ter nada que me interessasse.

Apesar de interessar muito às mulheres. E de interessar muitas mulheres.

Agora,

 1.   Agora chegou a altura de lhe pagar um pouco do muito que me deu. De dizer para todos ouvirem, nesta  hora de fazer  honestamente  as nossas contas ,  que gosto muito dele.

  2. Agora, passados  tantos anos sobre o nosso primeiro e desastroso encontro,  vejo que foram  também  passadas e fintadas  com sucesso as armadilhas do caminho a dois, as negras armadilhas da usura, da rotina, da impaciência, do desamor, que estão bem disfarçadas ao longo do trajecto  à espera de nos apanhar.  E cuja dentada de ferro não é menos dolorosa lá por esse caminho ter sido percorrido, quase toda a vida,  em estradas diferentes.

 3.  Agora,  que o passado está  à  distância ideal para ser visto com olhar certeiro, verifico  terem  sido sempre exaltantes, divertidos, mesmo gloriosos todos os momentos em ‡que as nossas  estradas se encontraram e seguiram juntas, para se separarem  algum tempo depois num “Até à próxima, tem cuidado contigo” saudoso q.b., amoroso q.b. , aliviado outro tanto,  sentimentos que se fundiam numa névoa vagamente melancólica, já dispersa em farrapos quando o ruido do carro estupendaço  a afastar-se deixava de se ouvir.

E sempre que, depois de nos entendermos, – eu! por fim adulta e suportável! – a saudade levezinha me tocava, era sinal de alegre  antecipação, nunca de sofrimento. Era  sinal de “ele vem aí, o patife e aconteça o que acontecer, vai ser animado”.

Há dias, senti a saudade levezinha. O  arrepio de excitação. Olhei à volta em busca de sinais para decifrar e dei de caras com um desconhecido. Teria que ser, mais tarde ou mais cedo. Ambos sabíamos. Nada de lamentos.

Mas! Atenção!

Se o deixei entrar sorrateiramente na minha vida, não é sorrateiramente que quero que saia.

 Ah não!

Vou fazer-lhe uma festa enorme, como ele gosta! 

Com mulheres bonitas e bem vestidas para seduzir, 

                         um vilão para lutar e para vencer,

 

…  e um barman filósofo para conversar nos intervalos.

 

No fim da festa, já madrugada tardia, procuramo-nos  com os olhos e, sem necessidade de palavras, saímos para a larga varanda do Palace.  Ele protege as minhas costas nuas com  o casaco do dinner jacket  e por uns  minutos ficamos de mãos dadas, a ver o Sol nascer.

Há sempre uma larga varanda do Palace  e uma  baía nesta altura, esses pormenores não me preocupam..

 

Depois, provavelmente, desaparece sem que eu dê por isso e sem deixar mais dele que o  tecido negro e sedoso  sobre os meus ombros, do que o vago cheiro  de ‘Grey Flannel’ misturado com o Romeu y Julieta. . Dizer adeus sempre lhe foi difícil mesmo a fingir, quanto mais assim. Mas isso é depois.

 Antes, vou fazer-lhe um discurso. Que curioso acabar por ser aqui, nesta tribuna. E o que ele vai gostar, quando souber que começamos o fim no Biscate Social Clube.

VENHO FALAR-VOS DE BOND. JAMES BOND.

(Sim, esse mesmo. The notorious MI 6 Double-0-Seven agent, with License to Kill)

Teria quinze anos quando, numa noite de férias, assisti ao meu primeiro Bond.  A projecção era má, o som transformava  o arranque dos carros em rugidos insuportáveis e, para dizer a verdade, talvez esteja a inventar estas recordações, porque a única coisa de que me lembro bem  era da mão que segurava a minha. E do dono da mão que segurava a minha.

Ficou-me uma vaga ideia de hotéis luxuosos,  casinos, mónacos, vamps, carros rápidos guiados à beira de ravinas e patetices.

Esta curta experiência afastou-o de mim durante anos. Na época eu era uma snob, armada em intelectual, li os  “ Buddenbrook nas férias porque era  levezinho, achava “The razor’s edge” do Maugham má literatura ligth – ainda acho… – e cinema era Visconti, De Sica, Fellini, Rossellini, Renoir, Bergman, Wilder, Lean , Huston , Kazan , embora aqueles rapazes Coppola, Scorsese,  Cimino, Allen e etcs  prometessem.

“bando do 007”, constituído por aspirantes a playboys, pelos  analfabetos que então acolhiam os dois neurónios que conversam actualmente na cabeça das louras e por dez sumidades tão mas tão sofisticadas  que até podiam ver o Joselito, quanto mais o Bond, não me interessava mais do que ele.

Não é que me  limitasse  a não ver filmes ‘do 007’. Eu  desprezava quem via filmes ‘do 007’.

Parte da minha vida de adulta coincidiu com uma crise dele  (sempre negou que tivesse sido de meia-idade, o querido…).

 A personalidade andou-lhe por mãos erradas, entregue a troca, baldrocas e desacertos.

 E o  tempo corria.

Quando tornei a passar pela bilheteira de um cinema com o  Bond, James Bond na mira, foi  em resposta a um insistente  pedido. Levava comigo muita resignação e um entusiasmado filho de dez anos.

Não digo que me tenha apaixonado de caixão à cova. Não. Mas fiquei naquele estado em que passamos a vida a olhar para o telemóvel.

O actor que deu vida ao meu Bond é Pierce Brosnan. Tornado entretanto um ícone, o agente Double-0-Seven, with   licence to kill, começou a ser discutido às claras e os seus filmes vistos, revistos e analisados. Os especialistas e os puristas juram por Sean Connery. Percebo e reconheço o mérito. Mas uma coisa é razão e outra é coração.

 Brosnan manteve a personagem no limite do ridículo, sem nunca a deixar passar a linha. Dava três piruetas, escorregava por uma  encosta gelada  na Russia , with love, e aterrava  na borda de um porta –aviões. A primeira coisa que víamos a seguir era o par de Church’s’ impecavelmente  engraxados. A câmara subia pelo fato custom-made, Jermyn Street  a tempo de o mostrar, sem uma madeixa desalinhada, a dar uma olhadela ao Omega  Seemaster. Exactamente quando o barco salvador aparecia em campo.

 Todo o tempo o Bond de Pierce  piscava o olho ao espectador, sem nunca atraiçoar a sua gente.

Os filmes, adaptados dos famosos romances de Ian Fleming, não só são muito bem escritos, como estão suportados por uma pesquisa histórica, politica, económica e social de alta qualidade. Terminada a a guerra- fria, caído muro de Berlim, aberta a  “cortina –de-ferro” para lá da qual tudo se imaginava e, por fim,  desmembrado  o bloco soviético, o conflito das  histórias, até então centrado na luta entre os dois blocos, URSS e USA e nos seus aliados, deslocou-se para temas diferentes,. Há quem tenha falhado o desafio, mas no caso os temas tornaram-se mais interessantes e universais. Nos quatro filmes a que assisti,  o  terrorismo, o petróleo e todas as manobras associadas à sua posse e/ou controlo, a existência e possível utilização de armas de destruição maciça em ditaduras com governos voláteis,– fala-se da bomba atómica e da tecnologia de cisão do átomo. para ser clara –  e o poder emergente da world wide web e dos seus detentores inspiraram os plots.  O curioso é que o fazem bastante antes  destes assuntos serem acessíveis à maior parte da população.

Devo confessar que há em James  um aspecto que me surpreendeu muito. É particularmente interessante referi-lo neste local.

Ao contrário da opinião corrente, James Bond não é um mulherengo nem um D. Juan.

É  um homem que gosta de mulheres. Que gosta muito de mulheres.  Não é um abusador, não é  um agressor. Não é violento no contexto de uma relação  amorosa.

É um sedutor, mas a sua conduta  nunca é cruel, nunca humilha ou diminui as mulheres. Nunca as rotula. Bond não é o tenente Franz Mahler , de Senso, falso herói, falso apaixonado, fraco e cruel por oportunidade, que tortura a Contessa Serpieri  quase até à loucura. Seja por vingança imatura, seja por maldade , a atutude releva sempre da falta de caracter. Nem é   le lieutenant  Armand de la Verne , de  Les Grands Manoeuvres, com as suas apostas, o seu desprezo pour les femmes, as piadas de caserna e  as descrições  pormenorizadas, para divertimento dos amigos, das  suas conquistas amorosas.

Incapaz de qualquer destas atitudes, não me parece que Bond proceda como procede por respeito, devoção, reverencia. Ou educação. Mesmo que as possua. A verdade é que,  sem fazer alarde do facto, the M.I.6’s  Double –O-Seven considera as mulheres como suas iguais.

James seduz, elogia e, mesmo nos casos, como Monneypenny, em que ambos sabem   colaborar num jogo que nunca vais passar disso mesmo,  James nunca desiste. Mas sempre que o  vilão do filme revela ser uma vilã, tem direito ao mesmo número de frases cínicas, murros e balas que os seus companheiros. Por outro lado, quando é uma aliada, James confia nela e se for uma especialista na matéria em questão, entrega-lhe as decisões. A própria competição que por vezes surge nessas s situações, podia aparecer igualmente numa relação masculina.

No trabalho, as pessoas que lhe estão mais próximas são M, a sua chefe e Miss Moneypenny, a secretária.  É tratado pelas duas com um afecto levemente exasperado. E mantém com Moneypenny  o já referido  jogo permanente de pretensa sedução/hostilidade. Às quais ela responde, sendo a única personagem cujas réplicas, por vezes, suplantam as dele.

Por M sente amizade e consideração. Mas é mais do que isso.  Sendo um outsider, ele é o herdeiro  no romance e na  ficção quer do lonesome cow-boy quer do private-eye,.

James  Bond antagoniza ‘os maus’ , contra quem trabalha , mas também  desconfia  dos ‘bons, ao a serviço de quem   é suposto trabalhar. O seu caracter faz com que desafie permanentemente o status quo.

Esta atitude tem-lhe criado não poucos problemas. Mas M, a fabulosa Judy Dench, é tão capaz de lhe dar ordens e de  o aconselhar, como de fazer com que acate as primeiras e  e aceite os segundos.

Quase sempre…

A razão do seu  ascendente sobre o insubmisso Bond, não é  M  ser mulher, como não o seria se fosse homem. Ou  ser  o superior hierárquico de James.  A razão é ser M praticamente a única pessoa, no seio do sistema fechado e algo paranóico para o qual trabalha,  que James Bond  genuinamente respeita, além de a estimar profundamente.  Estima e respeito esses, de resto, recíprocos.

Os cenários de luxo, as histórias bem contadas, o ritmo acelerado, contribuem para que o filme prenda o espectador. Mas  e falo por mim, o melhor de tudo  são os brilhantes diálogos.

Os habituais “ the name is Bond, James Bond”, o Martini, Kina Lillet não esquecer,  “shaken, not stirred” que aguardamos e nos tranquilizam, são só imagens de marca.

 Ver uma “fita do 007” é assistir a uma espécie de Óscar Wilde meets Winston Churchill com ritmo dos Marx  Brothers.  É  ver passar uma saraivada de replicas aguçadas, limpas de excesso e  cheias de sentido de humor. Seja qual for a situação, mesmo com um pé nas costas e uma arma encostada à cabeça, Bond não se fica. E o que  eu gosto disso nele!

Em “The World is Not Enough”,  impõe a sua companhia à principal personagem feminina, a bela e milionária  Elektra King, quando esta pretende visitar a gruta do Azerbaijão que foi durante séculos o templo sagrado da família da mãe, descendente dos primeiros Azeri. Por coincidência, a gruta está encostada ao longo  pipeline que é a mais importante  estrada de petróleo do mundo, a ligação preciosa entre  o Oriente e o Ocidente, guardada por  exércitos ao longo de todo o comprimento. E da qual Elektra é  agora a única proprietária. Só então os espectadores percebem  que  aquela  jovem mulher com sotaque de Belgravia, an english rose,  mas europeia da ponta dos Louboutins à Aquascutum displicentemente pousada nos ombros, é na verdade uma mestiça, uma privilegiada a quem Oriente, Ocidente, pais amantes  e incríveis somas de dinheiro deram tudo o que de melhor existe sobre a Terra.

Farta da discussão, Elektra acaba por ceder,  mas observa, irónica: – I hope you know how to ski, then.

Ao que James responde: –  I came prepared for a cold reception.

Tau!

A recepção será fria , mas ele é tãocool quanto se pode ser. Mais cool não é possível. Mais cool e morre-se.

 

 Há simultaneamente à-vontade e cautela nos movimentos felinos de James. Ele não olha à volta para ver a vista, mas para entender o que o rodeia. Bond, James Bond é um gato e não escrevi uma metáfora. Um gato a quem não cortaram nada. Gosta de lutar, gosta de ganhar, volta para casa feliz mas em mau estado, ainda a sangrar da ultima escaramuça, aproveita o período de convalescença e mimo, como aproveita o sol, o luxo e o conforto. Mas não se apropria de nada, bens ou pessoas. E não deixa que se apropriem dele. Está de passagem. Nunca foi completamente domesticado, porque não é completamente domesticável. Dorme com um olho aberto e outro fechado, é ágil, é esperto, reage  depressa, tem muitas vidas.

E vive intensamente todas elas.

Last but not least, que o elogio vai longo, refiro outro traço da personagem, talvez o mais importante. O humor corrosivo, o gosto pelas coisas boas da vida, a aparente facilidade com que leva a cabo tarefas dificílimas, os misteriosos desaparecimentos * durante os quais  e contra a norma do bureau, fica incomunicável, a já referida indisciplina e uma auto-ironia desconcertante –  Brosnan ,mais do que qualquer dos seus antecessores, compõe um  James que está sempre a brincar com a sua persona  Bond, que não se leva demasiado a sério – tudo  contribui para criar uma aura de cinismo, de dettachement relativamente  ao seu trabalho e convicções. James sofre da  “maldição do dilettante”.

“James? James não se compromete a sério com nada, nem com uma mulher, nem com uma causa. “

Certo?

Errado. James não se compromete com uma mulher porque o trabalho que tem – e que leva muito a sério – não lho permite. Já tentou e os resultados foram trágicos. Sobretudo  para as mulheres.

Em “Tomorrow Never Dies”,  reencontra  Paris Carver, uma antiga namorada, a qual  percebemos ter sido bem mais do que um caso passageiro. Paris casou entretanto com Elliot Carver , o poderoso mogul da world wide web. Esse é o motivo que leva James a  julgá-la  protegida. Cede à vontade de ambos e passa a noite com  Paris.

 

 E por causa da sua fraqueza, Paris é assassinada. James é perigoso para quem está com ele e sabe-o. Não pode haver excepções. Assim, organiza as prioridades em torno do que faz. E tem certezas. Algumas. Tendo escolhido um lado, cumpre a tarefa ou está disposto a morrer na tentativa.  Mas sozinho. Não quer tornar-se vulnerável, nem quer causar danos às outras. Aos outros, digo. É algo que James, simplesmente,  não faz.

À cabeça dessa lista de  “coisas que James NÃO faz” , vem a traição.  James não trai e ponto final. O fim das ideologias não perturbou a sua ordem de valores. Há bem. E há mal. O seu papel é impedir que o mal seja feito. Não tem medo, não tem dependências que o impeçam de agir e não se vende.

Num mundo cada vez mais corrupto, o agente Double-0-Seven é incorruptível.

Prestes a ser assassinado por Electra King,  falsa vitima e verdadeira vilã  – e abro parêntesis para dizer que o nome da personagem, com as suas referências  escritas a mão pesada, toma um significado muito mais irónico e ‘culto’ quando percebemos que era o Pai quem ela odiava,  que a sua metade visível, ocidental , é  usada como máscara  e que é o seu lado Azeri , o sangue da Mãe, descendente dos primeiros persas, cujas raízes familiares se perdem na noite dos tempos, fincadas no Azerbaijão, na areia e no petróleo, é o  lado  que vai ganhar. Ou obter o poder, porque Elektra não tem outro interesse  que não o poder cada vez maior que ficará nas suas mãos.

Elektra, the king’s daugther ,  ordenou a morte do pai para vingar a mãe, subvertendo quer a génese da literatura clássica, quer a psicanálise d’aprés mitos, ambas matrizes  e marcos do Ocidente. Porque  ela está dividida em duas e uma das metades mora no outro lado do espelho, que nos devolve a imagem invertida.

Parece complicado? Não é.

Os “filmes do 007” têm a  característica que Vargas Llosa aponta e elogia ao romance  “A Grande Arte” ,de Rubem Fonseca e que é extensível a todos os ‘mandrakes’ do mesmo autor. Escreve  Llosa:

“…sucesso bem merecido, pois o seu romance, uma divertida história policial…todos os ingredientes do género e acessível ao leitor mais elementar, é também um livro elegante e subtil. O seu pequeno mundo de assassinos, prostitutas…constitui  um irónico caleidoscópio de alusões e paráfrases históricas, mitológicas e literárias que dignificam a matéria narrada, tornando-a uma proposta cultural e uma disfarçada zombaria do próprio género. Essas duas leituras possíveis do romance não se excluem . O leitor mais avisado pode ir detectando…sem que tal atenue ou anule o interesse pelas peripécias do romance.”

 (Llosa, M.V., posfácio  a “A Grande Arte”, Fonseca, R. ; p. 339, Ed. Sextante, 2012) .

O texto de Vargas Llosa pode ser aplicado, quase ipsis verbis, a estes filmes.

 Prestes a morrer, amarrado a um aparelho de tortura primitivo, Bond   assiste à encenação quase escabrosa que Elektra lhe preparou e ouve as suas insinuações, pejadas de troça despeitada e de conotações sexuais.  É necessário, para o êxito dos seus planos,  que James morra, mas esta morte  é também uma vingança. Porque ele recusou,  ele atreveu-se a recusar,  a linda princesa e ela, como todos os psicopatas, não pode ser contrariada. Mas nesse aspecto James só faz o que quer . E nem nesse ‘aspecto’ nem nos outros  é passível de suborno.

Elektra, imediatamente antes de desencadear o processo que levará Bond à morte, deseperada com a aparente indiferença e dele, incapaz de o ferir mesmo que o mate,  remata, a conversa, com desprezo:

I could have given you the world. “

Amarrado, indefeso, sem escapatória à vista, Bond  responde-lhe:

– “The world is not enough.”

Vou parar por aqui ou acabo por chorar. E ainda tenho que tratar do Beluga e verificar se a encomenda de  Kina Lillet chegou a tempo.

(E sim ele escapou. I mean…meninas mimadas com aliados super-terroristas  à prova de dor  e todo o dinheiro do mundo?  Brincamos?  Servem para pequeno-almoço e já é muito…)

 É verdade, não se esqueçam!   Estão todos convidados para hoje, pois claro!

 

 

Quando Biscatagem e Feminismo andam no mesmo passo

Por Teresa Font*

Não me lembro da data certa, do dia, da hora em que o meu feminismo nasceu. Sei que foi mesmo uma epifania, uma revelação – ou um “helloooo!? acorda!” mais prosaico. Lembro-me do ataque de fúria. Isso sim.

Há mais de quinze anos, o tempo chuviscava e chateava e era ainda inverno e depois de uma tarde de lutas com o telefone, a ser passada de criatura amável para criatura amável durante horas, lá consegui que o banco transferisse determinada quantia, não muito elevada, de uma conta minha para outra conta minha.

A diferença é que num caso eu era primeira titular e no outro segunda. Como os dois titulares eram os mesmos, o banco enganou-se a fazer um depósito. E, em vez de corrigir o engano depressinha e pedir desculpa pelo incómodo causado, andou uma tarde inteira a encanar a perna à rã. Que era eu.

Quando cheguei a casa a urrar contra a incompetência nacional, um calmo marido riu-se e disse-me com toda a placidez: “É que andaram toda a tarde à minha procura, para perguntarem se podiam fazer a transferência”.

CORTA PARA:

FADE IN:

Portugal, fim dos anos anos 60

FADE OUT:

(flash-back, preto e branco)

O primeiro-ministro é Marcelo Caetano. Salazar , muito doente, morreria pouco tempo depois. Existe uma policia politica de acção selectiva, ou melhor, escalonada por crimes e razoavelmente incompetente como serviço de informação, já que o uso da palavra “inteligência” como em “intelligence” é, neste caso particular, completamente despropositado. A vida, essa, corre pacata, para quem não se “mete em trabalhos” e tem emprego certo.

1 – INT.- CASA DE TERESA-QUARTO-DIA

É domingo, dia de folga da empregada.

MÃE

Vá fazer a cama.

TERESA

Mas a Isabel…

MÃE

A Isabel já fez a dela.

Vá fazer a cama.

TERESA

Mas o João…

MÃE

O João é rapaz.

TERESA

E depois…?

MÃE

Vá fazer a cama.

2-EXT.- PÁTIO DA ESCOLA-DIA

O meu irmão João e eu esperamos que nos venham buscar para o almoço. Como acontece muitas vezes, estamos quase sozinhos. Os pátios são separados, rapazes de um lado, meninas do outro. Estou distraída a ler, quando reparo que o meu irmão começou uma luta. Observo. Está a perder. Não, está mas é a levar uma sova. Levanto-me e atiro-me ao contendor a soco e pontapé. Param os dois, boquiabertos, a olhar para mim.

RAPAZ

A tua irmã é parva ou quê?

JOÃO

(olhando par mim, zangado, um fio de sangue a aparecer no nariz)

És parva ou quê?


3 – INT.- CASA DE TERESA-QUARTO-DIA

(flash-back, anos 70, cores kodachrome da época)

Tenho treze anos, é dia de aulas e acordo com um entusiasmo pouco habitual. O que é? Está para acontecer qualquer coisa hoje…ah! É o primeiro dia em que as raparigas podem usar calças no liceu.

Salto da cama.

As Levi’s de bombazina tiveram uma venda nunca vista, por essa época..

Agora que relembro, é verdade que as cores mais vendidas foram rosa e encarnado.

Os rapazes compravam azul-escuro e castanho.

3-INT – GARAGEM – ENTARDECER.

(flash-back, anos 70, cores kodachrome da época)

Adolescentes dançam Led Zeppelin e Deep Purple. Um deles aparece na porta e faz um sinal. Na mão traz um single de vinyl. Põe o disco e começa a tocar o “Je t’aime moi non plus”. Algumas das raparigas sentam-se. Os outros pares começam a dançar o slow.

As raparigas sentadas cochicham e riem-se.

Depois, de repente, houve a revolução.

E, de repente toda a gente estava na rua, a gritar, a cantar, a dançar. Além dos principais partidos havia mil outros grupos. Não havia aulas. Os graffttis mais divertidos eram os dos anarquistas.

E eu, com dezasseis going dezassete, como a menina da”Musica no Coração” embriagada de liberdade…

4 – INT.- CASA DE TERESA- SALA-DIA

TERESA

A vida é minha e faço o que quiser!

PAI

Com o meu dinheiro não, Teresinha.

As pessoas só são livres quando não

dependem dos outros. Para nada.

TERESA

Então vou ganhar a minha vida.

E ser livre.

Saí de casa e fui ser livre para ali para os lados de Santa Isabel ao Rato. Dos graffiti pseudo-anarquista, o meu preferido dizia: “as meninas boas vão para o céu, as más vão para todo o lado”.

Eu fui para todo o lado. Agora, penso que essa época foi aquilo que os tecnocratas chamam “uma janela de oportunidade”.

Tinha dezassete anos quando fui viver sozinha e entrei na faculdade, a meio de uma revolução que não matou ninguém. Tinha vinte e sete quando conheci o príncipe de verdade, THE príncipe e estava cansada e começavam outras sombras a aparecer.

A revolução tinha acabado há muito, desenhava-se o futuro do país a negro-carvão e a sida tinha começado a matar toda a gente e não só os maus.

Nunca, durante esses anos, me senti discriminada por ser mulher, nunca percebi o que se passava, de tão entretida que andei. Mudei de casa e de terra, tive filhos, alegrias e desgostos, o costume.

Mas foi aí, fora de Lisboa, que fui percebendo.

-Uma colega, professora universitária, sempre grávida, porque o marido “não a deixava” tomar a pílula”.

-Outra mulher, que se matava a trabalhar e para pagar as fugas ao cabeleireiro, tirava as notas muito embrulhadinhas de dentro de um frasco de remédios, porque o marido “não a deixava” ter uma conta no banco, nem usar cheques.

Etc, etc, etc……

Mas eram sempre excepções. Outras pessoas. Casos. Nada daquilo tinha a ver comigo. Até ao dia em que percebi. Que aquilo não me aconteceu a mim. Acontece a todas as mulheres. Não é uma conspiração. É o estado da arte.

Agora percebi.

Agora, também sei quanto é preciso pá, caminhar, caminhar.

Espero um cheirinho de alecrim.

FADE IN:

2012

(imagens de mulheres e crianças a serem maltratadas pelo mundo inteiro. Noticias de assassínios de mulheres. Estatísticas do numero de mortas mulheres pelos maridos, namorados, etc. )

FECHA A NEGRO

.

*Teresa Font escreve uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club (post de estréia foi esse). Ainda não foi dessa vez que ela e o wordpress se entenderam, então apresentamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

B. de Biscate

Quando recebi o convite da Luciana para escrever no “Biscate Social Club” fiquei: contente, lisonjeada, entusiasmada e algo temerosa. Estados de alma esses que não requerem grandes explicações. Até porque os leitores do BSC são inteligentes. E começava já a escrever. Mas. Há um mas. Ou vários, mas vamos com calma. O “Biscate Social Club”, qual  Super-Gestor Fashion Pré-Troika tem uma Missão/ Visão e um  Conceito.

Esta  blog-situation  requer que o escritor/colaborador/ocasional biscateiro, ou seja, moi se identifique tanto com a Missão/Visão como com o Conceito postos a uso. Ora eu não tenho duvidas, identifico-me com a Missão/Visão : “Um tantinho de felicidade por dia…”,  e adoro de paixão o Conceito: «Aqui, somos todas “biscates”»

Acrescento que era- e é –  meu desejo, apresentar em termos aos meus conterrâneos  o “Biscate Social Clube” e a ideia que lhe deu vida. E assim, voltamos ao princípio. Ou seja a…

Este cartãozinho

Este cartãozinho, em que dois felizes jovens WASP mostram a sua felicidade ao lado da pérola que se lê. Ele, o FELIZ homem inteligente, deu-se conta de que mais lhe valia ter a INCRIVEL MULHER, loira e terna, ao lado, do que uma colecção de “biscates”. A colecção não sabemos onde.se posicionaria. Imaginamos. Mas não sabemos. Mais.  Do que é que a loira se deu conta, não nos é dado conta a nós. Mas supomos que estará embevecida quer na FELICIDADE dele, quer na suprema honra de ser considerada uma MULHER INCRIVEL pelo HOMUS INTELIGENTUS – claro que nos fica a esperança de que ela esteja a pensar em algo muito diferente, como, hmm, por ex.:”Quando é que desengomas daqui, paspalho, para eu telefonar ao teu grande amigo Joe e termos sexo fantástico na cama dos teus pai. Adoro que ele seja namorado daquela sonsa da Alicinha…”  Eii! Teresa! Basta.

O cartão provocou espanto, repulsa, hilaridade e pensamentos diversos num interessante grupo de mulheres. A ideia da “biscate” como, alguém que simboliza, de certa forma, o contrário desta ganga toda, está formulada, mais ou menos assim, no primeiro post do blog:

Uma “biscate” sabe que um ser humano inteligente nunca pensaria numa mulher como “parte de uma colecção”. Uma “biscate” sabe que não precisa de estar sempre maravilhosa. Mas maravilha-se com as possibilidades que o aceitar das próprias limitações lhe traz. Uma “biscate” sabe que ‘estar ao lado’, seja de um  homem seja de outra mulher, é só mais uma posição. Como ‘estar por baixo’, ‘estar por cima’… ou ‘estar longe’.

Longe deles, cá para mim.  A menos que o Joe e tal…

Mas o que é uma “biscate”? É que “biscate” calha ser daquelas palavras que, sendo de uso corrente  em Portugal e no Brasil, têm significados diferentes num e noutro país,significados objectivos e subjectivos e tudo isto se torna menos simples do que parece.  O que, aliás, era de esperar, Ou alguém esperava que “biscate” fosse uma palavrinha bem comportada, das que não dão trabalho, obediente, uma palavrinha boaaaazinha!? Dah! E  andava eu a brigar com a descrição mais exacta possível do sentido, do significado de “biscate”, que, nos dicionários sérios e nos populares, – dicionários biscate, pode ser? –  vai desde o puro e duro: prostituta, puta, mulher de vida fácil, passando pelos ambíguos: mulher que anda com os maridos das outras, promiscua, até aos mais suaves: veste-se de forma provocante, dá nas vistas, e mesmo, em nota de rodapé, misteriosamente escondida, a frase:

1)-  No liceu, a rapariga que andava com todos e permitia avanços de natureza sexual era uma biscate.

Uhhh. Andava com todos.Uhhh Natureza sexual. E desde o liceu. Tchhh…Mas não ajuda muito. Tomei nota de sinónimos: vadia, cabra, bitch, allumeuse, slut, não. Tramp.

É isto. Tramp! The lady “biscate” is a tramp. Relembrei a letra (tradução aqui):

 

Ela é A TRAMP, não é uma gaja.

Ela gosta de sentir o  vento no cabelo, gosta de viver sem maçadas, ela está falida e depois? Ela faz o que quer. Ela faz o que acha bem. Ela age pela própria cabeça.

The lady é uma biscate! Q.E.D.

E dou com o significado de biscate neste estabelecimento:

Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Esse é o nosso clube.

Ei! Podia ter poupado trabalho. Mas é isto mesmo e cheguei lá sozinha.

Terei o direito de aqui estar – com elas? Memórias. Três anos e em frente do nariz o terceiro cestinho do dia. O desafio era enchê-lo com ovos de plasticina feitos por mim.  E andei pelos corredores desertos até sair da escola infantil, que odiava, e seguir sozinha até casa. Isto é verdade. Era só um quarteirão, mas percebem a mensagem. Biscate pode até ter três anos. Mas não atura nem mais um cestinho com ovinhos de plasticina. No Crap! Salto 15 anos e há revolução e tudo na rua a cantar, tanto mar, tanto mar. As discussões em casa.Não vai viver sozinha. Vou. Enquanto viver à minha custa não vai. Então vou viver à minha custa. Um curso abandonado – isto foi um engano. A solidão do wild side. Um  namorado despejado à porta de casa, com uma bebedeira enorme. E eu para o taxista: siga, que ele fica bem. No crap. O amor proibido, clandestino. A minha falta de culpa. As unhas que nunca deixei de roer. A semana passada, eu a discutir com o polícia mais velho, enquanto os outros interrompiam a sua tarefa, a tarefa injusta, feita de má fé, para ouvirem, trocistas. Só estou a cumprir ordens minha senhora. E eu, ahaha é agora que digo aquela olhe que em Nuremberga trataram da saúde a muita gente que só estava a cumprir ordens.  E a Ana e eu, de bikinis minúsculos, como há trinta anos, a sentir a areia quente e o cheiro do mar na primeira praia do ano. A rir a rir a rir. Memórias. Posso aqui estar.

Uma biscate faz o que quer. Não tem receio de levantar a voz e por a mão na cintura, varina. Ou de seduzir de baton e vestido à jessica rabbit. Ela pode ser rica, pobre ou remediada. Mas se é “biscate” mesmo, fica do lado dos nada têm. Ela repõe a justiça como pode – a lutar numa barricada ou a morrer por uma causa. A dormir com o boss ou a roubar um pão. Ela ama quem ama e não quer saber se o seu amor é homem, mulher, casado, solteiro, bígamo ou lobisomem. E, se não amar, ela dorme com quem lhe apetecer. E com quantas pessoas lhe apetecer. Uma, duas…Ou três. Ou com a prima do ex-marido. Ou então com ninguém. Ela não é obrigada a. Ela é fiel ou não. Ela tem filhos ou não. Ela pinta o cabelo de azul ou não. Ela decide. Dificil? Põe difícil nisso. Ela vai ser olhada de lado. Ostracizada. Apontada a dedo. Vai andar com a letra escarlate, vai ser apedrejada logo que o zeppelin desapareça. Biscate não pode ter medo. Ela age como se tudo lhe fosse permitido  ou como se nada lhe fosse permitido. A biscate tanto parece Louis L’État c’est moi XIV,  como o mais despojado, despossuido dos seres, parece  a frase pirosa de Me and Bobby McGee, freedom is just another word for nothing left to lose.. É tudo ou nada.

Citando Rita Lee, eh, sua biscate doida, este caminho, como o rock, não é para frouxos.

Mas compensa, ah se compensa. Porque escolheu a Liberdade e honrou a escolha. Porque há outras como ela por aí e a vida é de tal modo também outra nesses lugares. Porque é para ela – sim, vaidade, faz mal? –  é para ela que  foi apedrejada pelos mesquinhos, pelos invejosos, ou tão só pelos que não entendem porque não lhes foi dada a bênção de entender, é para a biscate que génios escreveram, pintaram, esculpiram, compuseram, pensaram.

Ser biscate, para muitas de nós – olha este nós, Luciana! – é um caminho. Poucas mulheres nasceram biscates, como poucos têm o ouvido absoluto, ou a capacidade de ver dentro da cabeça uma demonstração matemática. Há quem tenha morrido na tentativa. Há rendições. Há quem tenha conseguido e faça da biscatagem um estandarte. Há quem lá chegue com toda a simplicidade. E há muito para dizer. Mas entretanto, olhe, venha cá. Sim, estou a falar consigo. Entre, venha conversar, venha ouvir a musica. A musica é sempre óptima aqui. Sente-se, descalce os sapatos se lhe apetecer. Peça uma bebida.

Willkommen, Bienvenue, Welcome.  

Bem –vindos ao Biscate Social Clube.

Teresa Font escreve, a partir de hoje, uma segunda feira por mês aqui no Biscate Social Club. Enquanto não se cadastra como autora (biscate ocupada, ai ai ai) colocamos aqui sua auto-descrição:

Sou mestiça. Lisboeta por nascimento e sangue da Mãe e açoriana por sentimento e sangue do Pai, tenho as metades de mim  separadas por 1.500  km de oceano AtLântico. Ao lado materno devo o amor por esta cidade bela e maltratada e pelo seu rio e o  esbarrar com o Fernando António, mais conhecido cá e no estrangeiro por Fernando Pessoa, em todas as esquinas da vida. O lado paterno deu-me um ADN marinho, guelras desde criança e a estranheza, vulgo maluquice, que caracteriza os insulares. Apaixono-me de caixão à cova, desvairadamente. De envergonhar as Bronte. Gosto com devoção: dos meus filhos, de livros, de cinema, de música, do mar, de vadiar em cidades, de igrejas desertas, de feiras de velharias. Adoro café, vinho tinto, o primeiro dia de praia, jantar com amigos, conversar muito e rir-me até às lágrimas. Vivo com pouco, sou impulsiva, corro riscos, esqueço-me de comer, o meu sono é caótico, os horários delirantes. Tenho uma gata. Trocava a minha alma imortal pelo dom de escrever como Nemésio, Faulkner ou Madox Ford em “The Good Soldier”, mas o  Chandler já era um grande negócio. Falo sozinha. Falo com a gata. Sei de cor metade do “Mau Tempo no Canal”, mas não sei onde ponho chaves. Físico: 1,59 mas digo 1,60, peso ridículo, loira, dolicocéfala. Roo as unhas. Um dia escrevi,  escrevi até ter um livro impresso na mão. Desde aí, já devia ter escrito mais três. Estão quase completos, imprimi-os e tudo. Li algures que este comportamento se chama auto-boicote e tem cura. Mas não tenho dinheiro para terapia, por isso vai ter mesmo que ser à força.

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