Cicatriz

Tem o corte. Que mais arde que dói e vai daqueles mais superficiais aos que precisam de pontos. Se foi fundo, sangra e ficamos fracos. Depois do corte, uns dias de tontura. Não sabemos direito quem somos sem aquela parte lacerada, por que nos expusemos ao corte, por que ficamos, por que fomos. Por quê ainda queremos. Ou pior, nem queremos mas sentimos a noite vazia como se quiséssemos. Decerto é a perda de plaquetas. Ou hemácias. Ou dos projetos de futuro a dois, sei lá. Um copo de suco de goiaba e um misto quente diz que ajuda, como depois de doar sangue. Provavelmente à meia noite, sentada no ladrilho frio da cozinha, com um pouco de secreção balançando na ponta do nariz.

Às vezes o corte inflama ou infecciona. Aí é que dói de verdade. Lateja. Fica sensível toda a área ao redor. “Poxa, não fala em X porque parece com Fulano”. “Ah, ele gostava/praticava/era de X?” “Não, não, ele gostava/praticava/era de Y, mas Y é quase parecido com X…”.  Mas não entreguemos os pontos, a inflamação é o corpo reagindo. Os leucócitos tentando garantir alguma saúde. É um pouco melancólico lembrar que muitos deles morrerão no processo. Bom, mas dizia eu, os leucócitos precisam de tempo para fazer seu trabalho.

Vem o tempo, passa o tempo, traz alívio e casquinha. Que protege, mas só se. Se a gente não coça. Se não esbarra em alguma coisa. Se não roça com a toalha de banho. Se não vê no bar da esquina, se não esbarra por acaso no samba, se não percebe online no messenger, se não precisa encontrar pra tratar de alguma coisa importante como a divisão dos LPs. Quando qualquer uma dessas, magoa. Magoar a ferida é osso. Dependendo, começa tudo de novo, da hemorragia ao risco de infecção. Mas a gente torce que não, ferida quase secando.

A casquinha insiste e por baixo dela, o corte vai deixando de ser. Já não lateja. Já não perdemos sangue, já não ficamos fracos. Nem percebemos mais a luzinha verde entre tantas outras pessoas online e chegamos no bar sem fazer o rastreamento de identificação em todas as mesas. Passou. Não arde, não dói, não sangra. É quase como se não tivesse sido. Passou. E não. Já não há corte, é certo. Mas também não há a integridade antiga do corpo. Aquele risco branco na pele é história.

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PS. Se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção:

Diferenças Irreconciliáveis

Por Tâmara Freire*, Biscate Convidada

Eu fui casada por três anos.

E me separei pelas tais diferenças irreconciliáveis, ou qualquer nome que a gente dá para quando não houve nada além da vida, encaminhando um dos dois, ou ambos pra uma direção diferente.

E hoje voltando do trabalho eu estava cantarolando essa música e lembrando de quando eu fui morar com o Bruno.

A gente alugou uma casa toda engraçada, que não tinha sala (!), não tinha nada. Era um puxadinho, por um preço módico, numa localização nem tão razoável e que vivia uma zona, porque nenhum de nós era muito afeito a trabalhos domésticos.

Os móveis eram simplérrimos, comprados numa loja generalista, passavam longe de qualquer acepção de design. Tínhamos quatro pratos, quatro garfos, quatro colheres… E um único objeto de decoração: três baianinhas que a gente trouxe de uma viagem à Salvador.

Nessa casa ficamos seis meses. Nessa casa, eu enfrentei as crises de terror noturno de uma criança de um ano e meio. Nessa casa, eu flagrei um flerte na internet e dela saí prometendo nunca voltar. Nessa casa, Miguel firmou seu andar. Nessa casa, eu mudei de emprego, acordava cinco e meia, viajava duas horas pra ir, duas pra voltar, e só voltava nove da noite. Nessa casa, eu me deitava todas as noites dividindo as agruras com um outro alguém. Nessa casa, a gente também brigava, é claro.

E dessa casa, eu saía todos os dias pro trabalho, com essa música tocando a todo volume no carro, “pra energizar”, porque os dias eram sempre foda.

Faz dois anos que eu não sou mais casada e eu não me arrependo nem um minuto por ter tido essa casa, e as outras duas que tivemos, e todas as outras coisas, incluindo a separação.

A vida é feita de ciclos. Só mesmo quem nunca foi casado pra acreditar nessa visão catastrófica de que o fim de um casamento é a decretação de seu fracasso.

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Tâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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