O rebuceteio exala sexo

E O Rebu começou quente, edição cinematográfica, cortes rápidos, fotografia caprichada (cargo de Walter Carvalho, responsável por Madame Satã e Lavoura Arcaica, entre outros).  É remake de uma novela de Bráulio Pedroso, considerada inovadora em sua época pela narrativa em três tempos já que tudo se passa numa noite, o crime acontecido numa festa, no dia seguinte a esse crime e na sua investigação, o que leva a fatos passados.

O título é uma referência à expressão criada por Ibrahim Sued, famoso colunista social, para “rebuceteio”, que significa aglomerado de mulheres bonitas ou confusão.  Por exemplo, esse blog é um rebuceteio. 🙂

foto: GShow

Angela, personagem de Patricia Pillar

A estética de O Rebu me lembra muito Walter Hugo Khoury, cineasta brasileiro que gostava de sexo nas classes altas. Tudo muito sacana e muito chique, claro, pobre sacana nunca é chique, é no máximo engraçado. A série respira sexo. Até agora não sei quem pega quem, acho que todo mundo pega todo mundo, na verdade. Patrícia Pillar está linda, divina, um olhar matador, inclusive acho que ela está também querendo me pegar toda vez que ela olha pra tela da tevê. A mulher está exalando sensualidade.

foto: GShow

Duda (Sophie Charlotte) dança para Antonio Gonzalez (Michel Noher) durante a festa

Tem gente que tem dúvidas sobre a relação de Patrícia e de Sophie Charlotte que faz sua filha adotiva na série. Olha, não é a gente que tá maldando a coisa, é a série que tá exalando sensualidade pelos pixels da tevê. Juro. Acho que é só carinho de mãe e filha mesmo (ou não, sei lá, todo mundo nesse jogo aí guarda mil segredos loucos, não boto nem meu mindinho no fogo).

Jesuíta Barbosa, um dos garotos sex appeal do momento está na série, é gato, e ótimo ator, e essa semana nos brindou com uma linda cena de ménage com ninguém menos que Camila Morgado que faz uma socialite muito doida e inconsequente.

O sexo na série não é reprimido, as mulheres são sexualmente livres (como todas nós deveríamos ser, né?), mas acho que isso se deve ao ambiente social da série, a classe média alta. O único momento mais repressor veio da policial, interpretada por Dira Paes, membro da classe média baixa, como deixou clara a ambientação da cena da casa da personagem. Também não há por parte do público reclamação quanto ao conteúdo sexual explícito da série nem ao comportamento de homem, e em especial, das mulheres mas acho que devido a baixa audiência e ao horário da série (depois das 23 horas).

O fato é que um sexo livre e bacana na tevê parece ser ainda um privilégio da elite branca numa estética bem glamourizada.  Quanto ao resto da série perdeu um pouco de ritmo, vamos ver se com as investigações engrenando as coisas fiquem tão boas quanto a trilha sonora.

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

Quem ama não bate

Sílvio Santos é um mito da tevê. Sílvio Santos despreza as regras da tevê quase sempre, faz e desfaz das grades de programação a seu bel-prazer e acerta e erra de forma mítica. Dá entrevistas onde se mostra um empresário cheio de ética, sua ética particular, e já foi candidato a presidente mas a gente deve sempre se lembrar que esse cara querido e simpaticão, no auge da ditadura, tinha o minuto do presidente na sua emissora para elogiar o militar presidente da vez e que, agora, em 2014, não foi capaz de dizer a Rachel Sheherazade que não promover censura é diferente de salvo-conduto para emitir opiniões ofensivas aos direitos humanos e dizer bobagens.

O SBT é seu reflexo, acerto e erros igualmente catastróficos, nada é embalado em busca da ética, embora possa parecer ser, somente na busca da audiência e nisso muitas vezes a responsabilidade social ou mesmo a jurídica se vão pela janela. O acerto nesses campos SBT sempre me parece aleatório ou a busca  obstinada de uma ou outra pessoa, não exatamente do ‘Seo Sílvio’.

E aí tivemos mais um “Casos de Família” com a Cristina Rocha e esse teve como tema “mulher que não gosta de apanhar, tem que se comportar”, e espancadores de mulheres tiveram seu palco para defender seu machismo sob aplausos talvez de boa parte da “família brasileira”, embora  a chamada do programa invoque a Lei Maria da Penha em defesa das mulheres.

Captura de tela de 2014-06-19 03:40:53

Isso me lembra o Jairo de “Em Família” que sempre solta pérolas machistas, é grosso  e mal-educado com a Juliana e ela suporta tudo por amor (personagens do Maneco sempre suportam tudo por amor). No entanto acho que Jairo é um personagem com um forte recorte de classe por parte do autor da novela com fortes traços de preconceito social demonstrado nessa oposição vida na comunidade X vida no Leblon (sendo o segundo sempre melhor e o outro mostrado de forma estereotipada e pior).

O traço em comum entre o personagem os personagens da novela e os participantes do programa como a vida real no SBT é que fica clara a cultura onde a  mulher deve sempre buscar ser feliz num relacionamento e que isso é tarefa dela, mesmo apanhando, a culpa é dela e ela deve ou obedecer ou evitar o conflito. E é isso que a que gente deve começar a desmitificar. Ser feliz não significa estar num relacionamento a qualquer custo e não é unicamente da mulher o ônus de um relacionamento feliz. E mais que tudo, violência física e verbal não é demonstração de afeto, é inaceitável e ponto.

ps: você quer ver o programa do SBT? clique aqui (o programa foi forte em transfobia também).

ps2: cenas do Jairo e Juliana em Em Família aqui.

Feminismo na tevê, tudo a ver?

Em uma conversa informal com uma amiga no ano passado ficamos debatendo sobre programas de tevê e filmes, e as cobranças de que sejam feministas ou de que assumam posturas feministas. Ora, vivemos em uma sociedade capitalista ( #cejura? ) e obviamente produtos feitos para o mercado terão características designadas por seus produtores aptos a agradarem a determinado nicho de mercado.

malu  mulherO feminismo voltou a ser pauta na imprensa mundial. Miley Cyrus se declara feminista, outra jovenzinha de Hollywood se declara não feminista, e por aí vai. No Brasil a bela campanha da jornalista Nana Queiroz #eunãomereçoserestuprada virou pauta nacional. Antes disso o feminismo ganhou capas de jornais e revistas semanais. O feminismo voltou a pauta, e não me parece mais uma palavra démodé como foi nos anos 80/90. Muitas garotas bem jovens (me sinto quase avó delas, e acho bacana. #bençavó) e antenadas buscam saber mais sobre o feminismo e onde atuar.

E a tevê? A tevê tem por obrigação pautar o feminismo? Não vejo como obrigação pautar o feminismo ou levantar bandeiras feministas. Tevê é mercado, é produto. Já o feminismo é movimento social, político e filosófico que visa a igualdade de direitos entre os gêneros e a libertação de padrões opressores baseados em modelos patriarcais e de mercado. Como se vê, o feminismo de identifica com valores reconhecidos como de esquerda (ver aqui). Sendo assim, a tevê — produto concebido para o mercado, para o lucro e a venda do supérfluo — e o feminismo podem se encontrar na sua tela, mas será um acaso fruto de conveniência e força de vontade de algumas partes envolvidas como já tivemos em Malu Mulher e Lado a Lado. Belos acasos, de belos frutos, é verdade. E acasos frutos de seus tempos também.

laerte e luiza

Mas e aí? Como faz uma blogueira feminista que assiste e adora novela? Joga tudo fora e torce pro Laerte tacar uns tabefes na chata da Luiza? Bate palmas pra misoginia pura da novela do Maneco? Acha bacana que todo personagem negro de novela tenha que ser salvo do racismo por um branco? Acha legal pacas que boa parte da crítica seja feita por quem aceite os padrões machistas, racistas, homofóbicos classicistas e de comportamento? Sim, porque uma coisa é o discurso da venda do produto, esse não tem interesse social, mas o discurso de quem compra, nós que assistimos a tevê, temos interesse social e assim podemos rejeitar personagens como o Laerte e torcer fervorosamente pelo primeiro beijo gay. E assim mudamos um pouco o mundo, a tevê, ganhamos mais um espaço. Cidadania não é consumo, não é isso que estou dizendo, mas a posição crítica diante do que consumimos já que é inevitável consumir, é cidadania.

E é isso que vou fazer aqui quinzenalmente, primordialmente falar de tevê, séries etc, o que der vontade, sendo eu, biscate e feminista e sendo crítica. E detestando a novela do Maneco. #VoltaCarminha

carminha_01

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...