Todas Essas Coisas Sem Nome – 4o Capítulo

Esse é o quarto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

12

Estou doente. Falo contigo enquanto engatinho tentando me arrastar de volta pra cama vazia. Ela. Eu também. O vazio é uma espera, poetizo. Mas estar de joelhos não é fácil para ninguém. Nem para pedir, muito menos para apoiar um primeiro pé que sirva de impulso para o corpo inteiro seguir junto com a necessidade de levantar. E continuar sobrevivendo.

Por onde você anda? O que tem feito?

Eu sabia que seria estranho. Você não fode nem trepa – faz amor -, me contou  na primeira noite.

E eu olhando estranho seu jeito estranho de me olhar, como se fosse uma mentira o que te flagrava desvelando entre cervejas e joelhos que se encostavam.

Você pinta e eu abomino suas criações, não quero ser mais uma, falei em tom de brincadeira de artista contemporânea cool. Mas era verdade. Aí teve o beijo, teve a porra do seu beijo.

Teve você me beijando e falando e salivando que verbalizar trepar era vulgar. E eu levantando a mão: presente!

Te mostrei meu sutiã vermelho e rimos. Também seus telefonemas “só para escutar minha voz”, e eu gelada fugindo da sua. Estava trabalhando.

Então teve o dia em que você me recebeu em seu abraço e massageou meus pés e, golpe baixo, você os beijou. Aí eu já estava em suas mãos, homem. Flagrei a adolescente que nunca fui, quando hesitei em ir para o quarto. Porque eu sabia, eu sabia, que você ia me foder. Literal e metaforicamente. Mas o que fez aquela noite foi amor, deixando-me atordoada, tanto que, canalhamente, vesti uma roupa apressada e saí em busca de um cigarro e de um abrigo. Apenas porque eu não podia ficar daquele jeito, tão nua, brega, vermelha e sóbria, sentada no seu banheiro com a cabeça entre os joelhos tentando parar de tremer para, logo depois, ensaiar na frente do espelho meu imbecil ar blasé.

Mas não adiantou. “Eu sou uma farsa” -, pensei enquanto me aconchegava no seu peito e descansava de mim naquela rede tão branca, tão porto, tão firme, tão certa.

“Você tem cara de menina de dezesseis anos com o primeiro namorado.”

“Desde menina que eu não sou mais menina.”

Era a verdade até aquele momento. Você lembra?

Estou triste. Mesmo. As razões são muitas. Mas sei que não é só isso. Ou só por isso.

Não sou de todo imbecil. Mas quem disser que mergulhar em suas próprias motivações, aquelas, escondidas por baixo de todas as confortáveis mentiras que contamos a nós mesmos é fácil, me indique o método. Ou uma anestesia. Porque quero evitar pensar no que me dói de verdade.

Nunca fui muito corajosa. Sei que existe tanta coisa mais importante, tanta gente mais legal… Essas frases tão suas que tentaram escrotamente me consolar. E, sim, eu já sabia que ia dar nisso. Essa neve toda. Que você me deixaria nua e sozinha no frio do Ártico.

Mas não ligue para o que eu digo, você me conhece e sabe que eu sobreviverei.

Sempre existem as possibilidades.

Ontem. Em que era muita gente culta para pouca referência bibliográfica na parte que me cabia naquele latifúndio. E eu que nem com óculos de leitura me enxergo mais nas citações de Clarice, porque parei de chorar e, muito menos encolhida, fiquei foi dançando pequenininho, numa timidez que não estava escrita. Torcendo para que outro avistasse em mim qualquer coisa além das aspas.

Algum dia poderemos nos ver novamente?

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

Todas Essas Coisas Sem Nome – 3o Capítulo

Esse é o terceiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

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Boa leitura!

21

Quando nos conhecemos eu tive a certeza de que seríamos apenas mais uma história triste, escrita com caneta a manchar-me os dedos no diário de capa vermelha. Sabes que carrego esse romantismo que desconstrói todos os meus discursos revolucionários, só para caber na fôrma que me é oferecida, ao mesmo tempo em que me faz vestir armaduras para combater em nome desses mesmos discursos. Um romantismo que é fardo… e asas.

Não, não foi seu olhar que me deu essa certeza, mas sim o espelho que trazes nele. Desde o nosso primeiro encontro.

Dia desses ligou um cara às quatro e meia da manhã. Não atendi porque não vi. Nada demais. E mesmo que tivesse visto, provavelmente não o atenderia.

Ele insiste – depois de termos entre bebedeiras e vontades -, que não é “isso” o que foi. Isso o quê? – dá vontade de perguntar: “Vontade de mim? Como a que também te fazia ligar sempre que bebia?”

Ah, eu sei. É só porque ele ri comigo, se sente à vontade. Mas só de ligar. E de falar sério. Falar besteira. De apenas escutar em silêncio minhas coisas todas. E rir novamente. E sentir vontade de novo. De comentar o filme. O trânsito ruim. Do seu dia. Da noite de ontem. De escutar uma música e acha-la a minha cara. Lembrar-se de lembrar, se por acaso nos encontrarmos, de contar. De tal artista. A tal piada. Os fatos.

Não, eu não sou a tal. Não precisa me lembrar. Eu sei que ele quer ser apenas meu amigo, como você também disse, ao se despedir, que um dia conseguiríamos.

Também houve um. Outro. Quarenta e oito horas de anestesia. Mentiras amigas, daquelas antigas. Num quarto de hotel turismo em corpos e garrafas. Fez as malas e foi embora. Deixando-me com a bagagem de sempre. Tudo de anterior. Pesar, saudade, medo.

Dor.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

 

 

 

Todas Essas Coisas sem Nome – Prefácio e 1o Capítulo

Esse é o prefácio e primeiro capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

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6

Para W.

Eu queria te fazer feliz. No meio da estrada, no meio do mundo.

Como contar apenas agora que estou só nossa história?

Poderíamos ter tentado antes. Quando você sabia, eu também.

Mas ficamos em silêncio. Calar a boca era o mínimo que devíamos ao cinismo e a todas essas coisas sem nome que nos obrigaram a permanecer assim. Mesmo.

Ainda somos a geração dos que morrem de medo. O tipo de gente que sempre pode tentar ser novamente feliz para sempre – como na música que ainda não acabou de tocar.

As palavras que poderiam ter nos servido de salvação, foram embora cedo demais.

Nós também, meu amor, antes mesmo de termos começado a acreditar um no outro.

Inverno

“Meu coração tropical está coberto de neve,
 mas ferve em seu cofre gelado,
 a voz vibra e a mão escreve mar
 bendita lâmina grave que fere a parede e traz
 as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.”

 (Corsário- João Bosco cantado por Elis Regina)

I

Porque eu ainda acredito que você possa mudar de ideia, escrevo. Sinto-me com setenta anos, e hoje tentei não me olhar no espelho. Também não saí por aí tentado entender e perdoar em outros corpos o aprendizado que fostes. Sim, fostes. Algo… Ao menos.

Mas confesso que me sinto muito, muito aliviada sem a expectativa opressora de ter que reencontrá-lo. Acontece que sem ela tenho me cuidado muito mal. Não posso culpá-lo, nem a mim. Isso me envelheceu demais, sabe?

Tenho agido no automático. E uma das poucas coisas que tenho feito de forma consciente, é drenar o tom emocional de nossa última conversa. Tentar entender o que realmente foi dito, sem tantos sinais, exclamações, acusações ou enfado excessivo. Sem entonação, sem riso, sem grito, sem desejo.

Nada era tão bom, nem tão ruim. Penso e arrepio de medo. Fui nossa história por um tempo. Sozinha. Não posso esperar mais nada de você, nem mesmo uma leve culpa, isso me causa horror, como se espíritos maus estivessem me roubando alguma coisa muito importante ao passar roçando seus lençóis em mim. Procuro nas gavetas e dentro dos bolsos. Onde é o lugar certo de guardar as ilusões do para sempre?

Escrevo, escrevo, escrevo. Escrevo para não enlouquecer. Até a raiva é mentira. Talvez sinta apenas uma leve vergonha. Tenho uma comiseração nojenta ao assumir isso.  Sinto pena de mim, eu estou com muita pena de mim. Mesmo. Mas é uma pena intercalada com uma total frieza. E desprezo.

Penso que quando se sente dessas coisas, deveríamos apenas narrar fatos. Como numa necrópsia. Mas ninguém morreu. Ninguém sofreu. Ninguém está feliz também, já que a sua felicidade com ela é apenas mais uma ilusão. Torço os dedos e bato na madeira para que seja isso.

Estou definitivamente congelando aqui. Querendo agradecer de joelhos por isso. Dizer: “Moço, você me salvou de mais uma idealização. Obrigada, Obrigada, Obrigada.”

E depois, chamá-lo de canalha. Mas só depois de ser educada e contida. Aí eu vou me convencer. Nunca conversamos. Nunca trepamos. Continuarei fantasiando nas músicas, nas coincidências e no gozo solitário de depois do almoço.

Não quero mais escrever tristezas, no entanto, que diferença pode fazer agora?

Talvez eu ainda me importe.

Merda.

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