O campeão do bem-querer!

Brasileirão da Biscatagem
Brasil de Pelotas, Niara de Oliveira

Nasci numa família dividida entre gremistas e colorados. Os homens todos gremistas talvez expliquem a minha aversão pelo tricolor gaúcho, talvez seja o azul, não sei. Fato é que nunca entrei nessa disputa e cheguei a cogitar torcer por um time que não fosse gaúcho. Mas sem ver de perto e sem poder manifestar e nem com quem dividir a paixão o futebol perde muito da sua graça.

Tinha dezoito anos quando um grupo de amigos petistas estava combinando um churrasco  bem próximo da Baixada para ir depois ao jogo. Animei de ir, talvez mais pelo frege e pela curiosidade que sempre tive de ir no mítico Estádio Bento Freitas. Era um domingo sombrio, bem do tipo que gosto, quase chovendo. E ali, no meio da mais apaixonada torcida de futebol era impossível não se apaixonar também, e desde então meu coração é Xavante.

Títulos? O Grêmio Esportivo Brasil de Pelotas foi o primeiro Campeão Gaúcho, em 1919. Esse permanece sendo nosso principal título. Né… Fazer o quê?

Como um time consegue manter uma torcida tão apaixonada e fiel sem títulos? Ninguém sabe. Esse mistério não pode ser explicado, só sentido. Só estando na Baixada, em meio àquela torcida rubro-negra, barulhenta e exigente — sim, não tenham dúvidas disso — é possível explicar o que é ser Xavante.

Quando quero contar quem é o Brasil de Pelotas para quem nunca ouviu falar, falo do nosso maior feito: o terceiro lugar no Brasileirão de 1985, que incluiu derrotar o Flamengo não por sorte, mas por competência. E não era qualquer time. Era o Flamengo de Fillol, Mozer, Leandro, Adalberto, Tita, Zico, Adílio, Andrade, Aílton, Bebeto e Chiquinho; treinado por Zagallo. Foi esse time que o Brasil de Pelotas inacreditavelmente venceu na Baixada por 2×0. O time Xavante vencedor? João Luís, Jorge Batata, Silva, Hélio, Nei, Dias, Alamir, Lívio, Canhotinho, Márcio, Doraci, Bira (25’/1) e Júnior Brasília (86’/2) treinado pelo lendário Valmir Louruz. O Brasil perdeu o jogo de volta no Maracanã por 1×0, sendo que foi um gol de pênalti do Bebeto.

Se fosse hoje, onde os jogos são de 180 minutos, talvez o Brasil tivesse ido à final do Brasileirão de 85, talvez tivesse sido campeão. Mas… Se vocês notarem, o Brasil não conseguiu usar seu uniforme principal nem no Maracanã. Valia “a força da camisa”, leia-se o poderio dos grandes times de futebol.

Tem ainda a história da quase troca de Joaquinzinho por Pelé, história curiosa do futebol brasileiro. Joaquinzinho, craque do Brasil de Pelotas, interessou ao Santos, que na proposta de compra incluiu o empréstimo de Pelé na negociação. O Brasil pediu muito dinheiro pelo passe e o Santos desistiu do negócio. Joaquinzinho acabou indo jogar no Fluminense e depois no Corínthians. A história é confirmada por Pelé.

Não sei se a placa ainda está lá, e infelizmente eu não tenho mais a foto, mas ao chegar a Pelotas, próximo da Polícia Rodoviária, existia uma placa dizendo: “Bem-vindo a Pelotas. Aqui de cada dez habitantes, oito são Xavantes!“. Não sei se a proporção é exatamente essa (já teve até proposta do Cão Uivador de que a cidade adote o escudo do GEB nos órgãos públicos — proposta muito justa, por sinal), mas é mais ou menos isso. Diferente da grande maioria dos municípios gaúchos que se dividem entre tricolores e colorados, nós temos a nossa própria rivalidade. E Pelotas, além do arqui-inimigo Lobão (EC Pelotas), tem ainda o Farrapo (GA Farroupilha).

Por que o Brasil é tão popular em Pelotas? Bueno, lembrando que Pelotas é a cidade mais negra do Rio Grande do Sul e que a história de riqueza das Charqueadas foi construída à custa do trabalho escravo, talvez uma parte da letra do nosso hino — composto em 1956, pelos músicos José Costa e Victor Jacó — explique:

“Brasil, Brasil, Brasil
As tuas cores são nosso sangue nossa raça”

Entre as minhas lembranças mais ternas está eu cantando (não se iludam, só a lembrança é terna, eu canto muito mal) para ninar o Calvin quando ele era bebezinho (eu cantava o hino da Internacional também…). Agora que estou longe de Pelotas, ouço os jogos pelo rádio, via web. O Brasil está disputando nesse momento a segundona do Gauchão e acabou de ganhar na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Ou seja, só amor explica.

É assim que os jogadores na Baixada comemoram as vitórias, junto da torcida.

E só o amor imenso de sua torcida poderia fazer o time superar seu pior momento, que foi o acidente com o ônibus do time em 15 de janeiro de 2009 que vitimou o zagueiro Régis, o treinador de goleiros Giovani Guimarães e nosso maior ídolo, o atacante Claudio Milar. Após o acidente, o Brasil de Pelotas perdeu todos os jogos que disputou pelo Gauchão e caiu para a segundona sempre apoiado e aplaudido pela torcida Xavante.

ídolo Milar fazia esse gesto na comemoração de seus gols

Por que Xavante? Após a vitória do Brasil num BRAPEL em 1946 por 5×3 (havia terminado o primeiro tempo perdendo de 3×1, na casa do adversário) “a torcida vencedora não se aguentou nas arquibancadas, atropelou o alambrado e invadiu o campo para comemorar. Vendo toda aquela euforia, quase que descontrolada, um dirigente áureo-cerúleo (do Pelotas) comparou a festa em vermelho e preto ao filme “Invasão dos Xavantes” (em cartaz naquela época), dizendo: “eles foram um bárbaros ao final do jogo, pareciam uns Xavantes”. Irreverente que é, a torcida rubro-negro ignorou o tom pejorativo da expressão e adotou a simpática e querida figura do Índio Xavante como mascote do Brasil.”

Essa história de termo pejorativo ser adotado com orgulho e usado a seu favor, nós biscates conhecemos bem, né?

Mais sobre a história do Brasil de Pelotas? No site Xavante.

PS: Esqueci de dizer… O Felipão não iniciou sua carreira como técnico de futebol no Brasil de Pelotas, mas sua passada pela Baixada foi decisiva. Foi lá que ele conheceu seu fiel escudeiro Flávio Teixeira, o Murtosa, que é pelotense.

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