Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

carreira2

Até no trabalho

Aprendi que a mulher que trabalha trava uma batalha muito maior que muitos homens. O motivo disso é o famoso assédio moral! Alguns homens não aceitam ter uma mulher ocupando um cargo acima deles. Infelizmente, somos vítimas de uma violência tão sexista e ao mesmo tempo tão “invisível” a alguns olhos – quantos de nós nunca ouviu, sequer, a expressão “teto de vidro” e nunca refletiu sobre o número insignificante de mulheres em cargos executivos, nas capas das revistas de trabalho e negócios, etc. E, no entanto, o problema está presente, acintosamente e há diversos registros das dificuldades encontradas pelas mulheres no trabalho, indo da dificuldade de encontrar um trabalho fora do estereótipo até a dificuldade de ascender na carreira, passando por perguntas invasivas nos processos seletivos referentes à vida pessoal e relacionamentos, passando pela dificuldade de conciliar filhos e trabalho, pela inspeção diária e ofensiva de cabelos, unhas, roupas e seus tamanhos e decotes. Além, claro, das análises e avaliações tendenciosas, a dúvida recorrente sobre a incompetência e piadinhas sobre tpm (quer saber mais, é só colocar no motor de busca: mulher, dificuldades e trabalho e encontrará desde matérias jornalísticas a artigos e pesquisas científicas). Tenho passado nos últimos anos por histórias, ouvido outras mais que me fazem embrulhar o estomago.

E como é difícil abrir os olhos de nossxs colegas para a  violência que sofremos, são poucas as pessoas que entendem a humilhação que passamos quando passamos por cima de estereótipos e clichês na área profissional. Mulheres não são criadas para exercer certas profissões, como a área de vendas, informática, engenharia, policial e militar.

trabalho

Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.

Aprendi que se eu me acovardar sempre serei vítima! A posição de vítima nunca me caiu bem e, não cairá bem dessa vez também.

A PEC das domésticas, o machismo, a nova economia, o trabalho da mulher e outras reflexões

PS. Esse é um texto que se dirige às mulheres de classe média, predominantemente héteros, usualmente brancas, quase sempre cisgênero. Sabemos que existem outras mulheres, com outras queixas, outras demandas e outras realidades. Quando o texto refere-se à “você” e suas escolhas, pensamentos e possibilidades é esse “você” socialmente designado.  

Sobre a PEC das domésticas hoje ouvi choro e ranger de dentes. “não se consegue mais empregadas decentes/de confiança” é a frase recorrente. Aí, um dos homens mais machistas  que conheço declara ao outro colega que choraminga sobre a falta de babás: “olha,  não quero dizer isso, mas…se a fulana (mulher do outro) não tivesse tido essa conquista recente (passar num concurso) era melhor não trabalhar, porque quem vai olhar o filhinho de vocês?” E por isso ele acha melhor que a mulher fique em casa com o filho, como a dele faz. São escolhas.

Tenho dois filhos e gosto de trabalhar, além de obviamente precisar. Mas, a gente sente saudade deles, se culpa (por nós mesmas e pelo que nos culpam) por não estarmos com eles como ficavam as mães de outras gerações que não trabalhavam fora, mas davam um duro danado dentro de casa, quase sempre não reconhecido. Se a gente se preocupa com os filhos? Claro, né?! E o que está errado nessa estrutura aí é a mulher trabalhar? Discordo.

Simone de Beauvoir já disse há mais de 50 anos: “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.” Isso não é um chavão, é concreto. O casamento (aleluia!) não é para sempre, você pode se separar se estiver infeliz, filho não sustenta casamento. Aliás, acho que ao perpetuar o padrão — ‘serei infeliz, mas darei uma família, um pai pro meu filho’ — a gente está ensinando que ninguém é responsável pela própria felicidade, mas que deve aceitar desígnios do destino (que nem o são desígneos, a gente escolheu casar, e às vezes escolhe bem errado).

Hoje, felizmente, a não ser que você queira, você não depende mais de um homem para lhe sustentar, você pode fazer suas escolhas, inclusive financeiras e amorosas, você pode sair de um casamento que não lhe agrada, que lhe faz infeliz, que lhe faz mal em vários sentidos, inclusive  em casos de violência doméstica.

Se você não depende de ninguém para morar e comer, você pode escolher mais livremente ir embora. Isso acaba com a família? Só se os adultos envolvidos forem imaturos ao ponto de passarem o resto da vida brigando ao invés de saberem que tem algo em comum, e legal, que precisa deles, os filhos. E família é um conceito bem mais amplo que papai, mamãe e filhinhx. E isso serve para famílias heteroparentais e homoparentais, aliás família é um conceito social e não religioso para o sentido das leis. Se a sua religião não permite casais homossexuais ou monoparentais é escolha sua, mas não pode ser imposta por lei ao resto do país, relembrando pela milionésima vez nos últimos meses que o estado é laico e por sua vez sua políticas também deveriam ser.

Mas voltando ao assunto… Antes da mulher trabalhar, quero dizer, as mulheres de classe média trabalharem — porque as pobres sempre trabalharam — a mulher era um ser completamente dependente. Dinheiro é poder, dinheiro é poder de escolha. Se você trabalha você escolhe, ir, ficar, e como e quando gastar. O trabalho também enriquece a nossa vida em outros sentidos, pois convivendo com outras pessoas e não ficando restrita ao ambiente caseiro aprendemos a tolerância, o respeito a todos porque convivemos, conhecemos pessoas que tem ambiente social e cultural diverso do nosso ambiente originário.

Deputada Federal Benedita da Silva, autora da PEC das Domésticas

Deputada Federal Benedita da Silva, autora da PEC das Domésticas

Não estou fazendo aqui um libelo contra as mulheres que decidiram deixar o trabalho e cuidar dos filhos, cada qual com suas escolhas, seus ônus e bônus. Porque eu, ao escolher trabalhar, perdi os primeiros passinhos do meu filho mais novo, por exemplo, mas não me arrependo. Tive ônus e bônus, como em qualquer escolha. Tenho meu emprego, dependo de mim. E entendo quem escolheu não passar pela tristeza de perder os passos do filho.

Não acho que o erro está no fato da mulher escolher trabalhar ou não, mas no fato do Estado não ter políticas públicas de apoio à mulher, de não termos creches, assistência pediátrica e médica de qualidade, da licença maternidade ser diminuta.

Mas, o principal problema é mesmo o machismo, inclusive de algumas mulheres, que não veem o homem como alguém que possa ser responsável por cuidar de um bebê ou de uma criança. Alguns países tem licenças maternidade que são longas e divididas entre pai e mãe, para não pesar só sobre a mulher o peso da família e afastá-la do mercado de trabalho, de postos de comando por ter menos tempo para o emprego, já que obrigatoriamente deve ser dela o dever de cuidar da família, organizar compras, limpar a casa, alimentar a todos… Isto não é uma obrigação divina, cultural e até biológica, como querem alguns. Exceto pela amamentação, já que não dá para desatarraxar os peitos, o companheiro, ou companheira, é capaz de executar as outras atividades todas, e não só ajudar tocando uma fraldinha quando está a fim.

E que o machismo tem a ver com o suposto sumiço das boas empregadas? Aquelas que davam sua vida por nós e eram como se fossem da família e o encarecimento desse serviço? Boa parte, o resto se deve a evolução do mercado.

A mulher de classe média quer e precisa trabalhar. Mais até do que quer, precisa e às vezes, tem um bebê, e obviamente o bebê é dela e deve cuidar dele — mesmo devendo ser uma obrigação compartilhada com o pai, esse quando está presente no máximo “ajuda” –, mas para ter a solução que acomoda a mulher no trabalho sem ônus para os demais membros da família passa pelo fato da  mulher de classe média repassar o encargo das tarefas do lar para uma pessoa que muitos veem como uma escrava,  pois deve estar a disposição 24 horas por dia. Não  se enxerga  a doméstica como alguém que presta um serviço contratado, uma trabalhadora, afinal o serviço doméstico é socialmente desvalorizado, exatamente pelo machismo.

Não tenho nada contra pessoas que gostam ou acham que precisam ter  empregadas. O que não dá é para conviver com esse resquício de escravidão e achar que o salário dessas profissionais deve ser baixo e que essas trabalhadoras não merecem as  mesmas garantias trabalhistas das outras categorias. Essas pessoas tem seus sonhos, família e filhos e merecem o mesmo que você deseja para você e os membros da sua família. Aí, entra também o preconceito de classe. Uma incapacidade de enxergar a outra trabalhadora merecedora dos mesmos direitos, mesmo com outro grau de escolaridade.

Passar a culpar a falta de empregadas (note, empregadas no feminino, pois a maior parte dessa mão-de-obra barata e desvalorizada socialmente é de mulheres, e de mulheres negras) por não ter alguém para cuidar da sua casa e do seu filho enquanto você trabalha não resolve o problema. Mas, talvez, resolva o problema repensar essa estrutura machista da relações familiares e de trabalho que ainda veem a mulher como rainha do lar . O que ajuda é promover mudanças nos relacionamentos, na estrutura familiar. Dividir igualmente as tarefas da casa, por exemplo. E para os direitos de nós todas, trabalhadoras, domésticas ou não, devemos pressionar o governo para que institua políticas públicas específicas para mulheres.

As culpadas não são as domésticas. Elas são trabalhadoras como nós, a culpa desse desespero causado pelo “apertem os cintos, a doméstica sumiu” é de se tentar manter uma estrutura patriarcal num mundo que evoluiu.  E continuará a evoluir. Devemos nos adaptar a essa nova estrutura que nasceu com o desenvolvimento do país e  fazer com que as leis se adaptem a ela.

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