Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

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As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Aborto e arrependimento

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esta semana, foi divulgada uma pesquisa norte-americana mostrando que 95% das mulheres que fizeram um aborto acreditam que essa foi a melhor decisão, sem arrependimentos.

Do total de pessoas avaliadas, 40% justificaram a decisão com base em aspectos financeiros; 36% das mulheres disseram que “não era o momento certo”; 26% recordam que a escolha foi tomada facilmente ou muito facilmente; e 53% dizem que a decisão foi difícil ou muito difícil.

Os pesquisadores destacam que a amostra foi diversificada no que diz respeito a métricas como cor de pele, educação e emprego. Eles também procuraram mulheres com diferentes contextos de gestação. Segundo os autores, a grande maioria das mulheres que participaram do estudo sentiram que o aborto foi a decisão certa “tanto no curto prazo, como ao longo de três anos”.

Para mais detalhes, divulgo aqui a tradução que fiz do texto ‘Study finds 95 percent of women who had an abortion say it was the right decision’ de Maya Dusenbery, publicado no site Feministing.com em 14/07/2015.

O mito de que o aborto provoca problemas de saúde mental nas mulheres é usado há muito tempo e agora pode ser colocado de lado. Porém, no caso de você precisar de mais evidências para responder aqueles cartazes contrários ao aborto que insistem em dizer “as mulheres sempre se arrependem de um aborto”, há inúmeras fontes, aqui estão algumas.

De acordo com este novo estudo que acompanhou centenas de mulheres que realizaram abortos, mais de 95% das participantes relataram que a interrupção da gravidez foi a decisão certa para elas. Sentimentos de alívio ultrapassam quaisquer emoções negativas, mesmo três anos após o procedimento.

Os pesquisadores investigaram tanto mulheres que realizaram abortos no primeiro trimestre da gestação, como mulheres que realizaram o procedimento após esse período (casos que muitas vezes são classificados como “abortos tardios”). Quando o assunto são as emoções das mulheres após o aborto, ou suas opiniões sobre se era ou não a escolha certa, eles não encontraram nenhuma diferença significativa entre os dois grupos.

A pesquisa, que é a mais recente fora o Turnaway Study, encontrou alguns fatores que levam as mulheres a terem sentimentos negativos. Como você pode imaginar, um aborto que pôs fim a um gravidez planejada ou uma pessoa em conflito com a decisão tomada relataram mais emoções negativas e menos confiança de que essa foi a escolha certa. Além disso, aquelas que precisam desafiar as regras de seus grupos sociais para realizar o procedimento tendem a ter menos apoio social e sentem mais o estigma do aborto.

Em outras palavras, a esmagadora maioria das pessoas não se arrepende de seus abortos, e para a minoria que se sente mal sobre sua escolha, isso acontece, pelo menos em parte, graças ao empenho e esforço do movimento anti-escolha para que elas se sintam mal. E mesmo assim, eles não parecem estar fazendo um trabalho muito bom nesse campo.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

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