A família de Arthur, a exceção que questiona a regra

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada
Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur é um menino transexual de 13 anos de idade, que vive em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Sua história difere das narrativas mais usuais das pessoas transexuais porque Arthur conta com apoio familiar.
(leia aqui)

Achei linda a história de acolhimento e afeto dos pais do Arthur quando descobriram que o filho era transexual. Acho muito importante essa compreensão, sobretudo em uma idade em que estamos em fase de transformação radical externamente.Eu nunca tive isso, como a maioria das pessoas trans* também não tiveram. Não havia pai, mãe, familiares ou amigos para compreender quem eu era, o que eu estava passando: pelo contrário, era violência de todos os lados. Se hoje em dia eu sou quem sou, devo à minha resiliência, à minha vontade absurda de resistir, eu me considero uma sobrevivente diante de tanta violência que sofri, que todas as pessoas trans* sofrem: umas um pouco mais, outras um pouco menos, ninguém deixa de sofrer quando descobre-se não pertencendo ao mesmo grupo que os demais, ainda mais em uma idade tão precoce, sem conhecimentos do mundo fundamentais, de como se hierarquiza e se constrói a transfobia e o cissexismoFelizmente, vejo que os pais com mais acesso à informação e com a cabeça mais aberta, passam a compreender que o filho ou a filha é transexual, e não outra categoria de gay ou lésbica. E descobrir-se tão cedo, ainda mais com o suporte daqueles que deveriam nos amar, nos compreender e aceitar nossa identidade é imperativo para ter mais qualidade de vida – infelizmente não é a realidade da maioria de nós. Que, inclusive, passamos uma vida tentando nos encontrar, com a sociedade inteirinha dizendo e nos impondo que somos gays ou lésbicas; dado que nada sabem e nada se fala em quase nenhum lugar sobre as identidades trans*.

Enfim, quanto ao texto no iGay, parece que vai cair alguma parte do corpo dessas pessoas (incluso ativistas LGBTs) se escreverem transfobia ao se referirem às opressões que as pessoas trans* sofrem. Essa palavra HOMOfobia, em sua própria raiz remete-se à homossexualidade – campo das orientações sexuais, e portanto eu a rejeito para traduzir o que passamos, pois inclusive contribui para o preconceito eterno que enfrentamos, aquele que dá conta que as mulheres trans* são homens gays querendo ser mulher e os homens trans* são mulheres lésbicas querendo ser homens.

Outra coisa, não considero que o Arthur tenha nascido mulher ou menina como diz a reportagem do iGay, ser mulher ou menina não é algo instalado no genital, na anatomia; fosse assim, se perdêssemos o genital, imediatamente passaríamos a ter outro gênero. Mas não, podem transgenitalizar à força um homem cis, ele não passará a se reconhecer como mulher por conta disso. Não nascemos meninas ou meninos, não nascemos nem homens e nem mulheres, nascemos com determinada conformação anatômica que NADA pode dizer sobre nosso gênero, nascemos nus, sem saber que regra vamos ter que seguir, que gênero irão nos impor; o resto é construção.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A (in)visibilidade trans* é problema meu também

trans*Nesses poucos anos de militância, aprendi muita coisa. E talvez, a maior e mais importante lição que tive em meio a todo este processo foi reconhecer meus privilégios.

Explico.

Ninguém nunca questionou a minha identidade de gênero. Eu nasci com uma vagina e me identifico como mulher ( no caso, sou uma mulher cis). Mas, e se eu tivesse nascido com um pênis e me identificasse como mulher, será que esses questionamentos continuariam inexistentes em meu cotidiano?

Seria fácil arranjar emprego ou tirar meus documentos?

As pessoas me aceitariam facilmente como sou?

Como eu lidaria com o fato de que muita gente considera transexualidade como uma patologia e pessoas trans* serem marginalizadas?

Pois é. Pessoas cis jamais saberão como é ter que enfrentar algo assim.

Pessoas trans* convivem com situações como as que descrevi acima durante boa parte de suas vidas, quase sempre sem ter a quem recorrer. Hostilizadas, muitas vezes, até mesmo por colegas de militância (que, na minha modesta opinião, deveriam ouvir o que elxs têm a dizer, não contribuir para difundir ódio e preconceito). Como se esta causa fosse menos urgente ou importante.

Honestamente, acredito ser perfeitamente possível abraçarmos várias bandeiras. Uma luta não anula ( ou pelo menos não deveria anular ) a outra. Eu, como feminista interseccional, sigo a seguinte premissa: enquanto todxs não forem livres, eu também não serei. Não me parece minimamente razoável eu ficar aqui, brandando aos quatro ventos que luto por igualdade, enquanto existirem pessoas que sofrem a mais alta gama de dificuldades por não expressarem identidade ou papel de gênero condizente com seu sexo biológico.

Toda forma de opressão deve ser combatida. Que o direito de ir e vir, a ter dignidade humana e a livre expressão não seja uma exclusividade das pessoas cis.

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