O dia que fui crucificada: A migalha, o desserviço e a necessidade de maturidade política nos ativismos identitários

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

No ano passado, escrevi a matéria da capa da Revista Galileu de Novembro, sobre gênero. Aquela foi a primeira vez que uma pessoa trans havia escrito, para uma revista de circulação nacional, uma matéria de capa. E foi também uma das poucas matérias a abordar a questão da transexualidade fora do viés patológico, trazendo relatos e vivências e pensando nisso como uma questão identitária.

O texto saiu com inúmeros problemas: a revisão modificou meu texto, termos foram imensamente simplificados pra atender ao pública da revista ( que, imaginávamos, nunca havia tido contato com as teorias de gênero ou com o ativismo trans) – o resultado? Um texto útil, porém falho em muitos sentidos. Tudo bem. Recebi uma imensidão de críticas: enquanto eu era atacada por religiosos, por pastores, por todo tipo de gente que veio ao meu perfil me ofender, era, igualmente atacada por outras ativistas, algumas, que nem haviam lido o texto, atacaram a partir da narrativa de outras pessoas.

Aquela situação me deixou imensamente chateada. Eu realmente achei que havia feito um ” desserviço” pra ” causa trans”. Isso até que comecei a receber relatos de pessoas trans do país inteiro que tiveram contato com o a Revista. Professores que utilizaram o texto em sala de aula, e principalmente, o relato de um rapaz, do interior do Pará, que não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa trans e que não sabia como explicar a sua transgeneridade para seus pais: ele dialogou com pais e amigos a partir do texto da revista.

Naquele momento, percebi que, ainda que meu texto não fosse ” ideal”, que não estivesse conceitualmente perfeito, ele teve efeitos positivos, pôde ser usado como instrumento de conscientização e de luta. Houve que lesse e pensasse: ” Meu filho não é doente”. O texto não foi um desserviço. Eu falei em ” sexo biológico”, mas aquilo não foi um desserviço. Então, porque eu fui tão criticada? Porque meu texto foi chamado de “transfóbico” e de “um desserviço a causa trans”?

As razões que consigo pensar são as que enumero agora:

1) Profissionalismo linguístico: É a exigência de que tudo, absolutamente tudo, seja sempre narrado de uma única forma; é o detalhismo, o cuidado que nos impede de ser “simples”. O desprezo da eficácia do processo de comunicação e seu aprisionamento em moldes linguísticos inacessíveis pra muita gente. Um termo ” fora do lugar” e todo o texto perde valor.

2) Migalhismo: Chamo de ” migalhismo” nomear “migalha” todo e qualquer avanço que não tenha ocorrido como no plano ideal. É uma migalha de representação escrever um texto, mas ter de se adequar a exigências da norma. É uma migalha que a Universal fale das pessoas trans, mas use um ator cisgênero. O migalhismo recusa tudo. Desculpe, aos que consideram migalha qualquer avanço que não seja ideal, mas é uma postura bastante privilegiada optar pelo “nada”. As lutas sociais, a política, ocorrem sempre no plano da negociação, e a gente precisa aprender a ceder, assujeitar-se é também uma forma de resistência.

3) Ausência de estratégia política: Como assim? Criticar os problemas do texto não é uma atitude política? Certamente, porém criticar um avanço mínimo sem no entanto pensar o que podemos fazer com este avanço é um problema. Precisamos pensar a realidade a partir dos recursos de luta que ela nos oferece. Não adianta dizer: ” Só aceito se for do jeito que eu quero”, não é assim. Existem uma demanda do real que está alem de nós mesmos.

4) Imaturidade: As temáticas trans estão entrando na agenda agora. Os meios de comunicação, respondendo à nossa pressão, vão buscar formas de acomodar a presença trans nestes espaços. Essa acomodação exige maturação de pauta, de abordagem. Hoje traz-se o tema, amanhã avançamos na abordagem e, assim, incrementalmente, vamos construindo e acessando outros espaços. Infelizmente, a luta não se dá no plano ideal, como gostaríamos. Existe um tempo e uma ação no tempo: compreender o que fazer em cada momento para agir com mais vigor em seguida é fundamental. Numa escritura budista, creio que chamada Kaimoku Sho, diziam que “compreender o tempo é o primeiro passo”. Concordo em absoluto.

Eu sou ativista e absolutamente compromissada com a causa trans, mas isso não me faz absolutamente compromissada com esta ou aquela estratégia em específico.

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

escoteirasamericanas

As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Eu? Trans?

contra a transfobiaOutro dia, um conhecido do trabalho me perguntou se eu era travesti. De acordo com ele, eu tinha “tipo de travesti”. Quando respondi que não, ele até se pareceu meio desconfortável, como se tivesse me ofendido. Não fiquei em momento algum ofendida. Diferente de algumas mulheres cis, não me sinto mal em ser confundida com uma trans ou uma travesti. A única coisa que REALMENTE me incomoda é saber que ainda existem clichês que diferenciam mulheres cis de mulheres trans. Como se essa diferença fosse necessária para “defender” os homens do “engano”. Eu, como mulher cisgênero, não vejo diferença alguma entre homens ou mulheres trans e cis. Apenas enxergo diferença entre pessoas que, sem querer ou de propósito, separam e diferenciam pessoas por motivos de seu gênero social não ser seu sexo biológico.

Tinha uma amiga do coral, na ala das contraltos, que tinha a voz tão grave que chegava a ter gogó. Eu sempre achei minha voz muito grave, mas não havia conhecido uma mulher com pomo de adão, quando falo que conheci uma mulher, heterossexual e cisgênero, que tinha voz grave e pomo de adão me perguntam se “eu tinha certeza que era mulher de verdade”. Peraí, ser mulher de verdade é nascer no sexo biológico feminino?????

Lidar com essa questão sempre me intrigou, quem diz para nós que estamos erradxs ao afirmar o que somos? A sociedade, deus, a religião? O que faz de nós homens e mulheres? Hormônios, sexo biológico, cirurgias? Não consigo me sentir bem ao ver rótulos sobre ser homem e ser mulher. Não existem rótulos que afirmem que alguém é ou não do gênero que afirma ser!

Ano passado e retrasado, dei aula a uma criança que afirmava ser mulher, mas seu sexo biológico era masculino. Uma criança de 6 anos de idade que dizia para mim que queria ser mamãe quando crescesse, que ia deixar seu cabelo comprido igual a personagem da novela. Essa criança era tolhida por outras pessoas que educavam-a, com medo de virar homossexual. Como se reprimir fizesse qualquer pessoa deixar de ser o que é, infelizmente essas pessoas só conseguem machucar pessoas que não se encaixam ao formato que a sociedade exige.

Esse domingo a noite, assisti ao programa Tabu Brasil no NatGeo, falando sobre transexuais. João W. Nery era uma das pessoas que foi entrevistado, duas trans mulheres e ele de trans homem. Ele é uma pessoa que tenho uma admiração tremenda, por ter lutado por seus direitos em um país que, até hoje, não consegue se adaptar a transexuais homens. No meio das entrevistas, conversaram com uma mulher que trabalha há anos na casa dele, que só descobriu que ele era um trans homem vendo-o na TV. Ela falou “ele não parece que não era homem” ou algo parecido, ela não foi preconceituosa com o João em momento algum da entrevista, só me incomodou essa frase. O que me incomodou foi a procura pelo estereótipo. Sofremos com os costumes da nossa sociedade, eu mesma já fui preconceituosa sem querer, com falas ou atitudes que rotulavam fortemente uma pessoa.

Hoje em dia acredito que ser homem ou mulher não tem nada a ver com sexo biológico ou com cirurgia de troca de genitália, retirada de peito, uso de hormônio, quanto mais “ser feminina” ou “ser masculino”. Somos o que sentimos que somos, sem rótulos. Acho que até mesmo que, por isso, não me foi ofensivo a confusão, é pra mim uma pergunta tão comum quanto, “qual é a cor da tinta que você usa em seu cabelo?”

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