A (in)visibilidade trans* é problema meu também

trans*Nesses poucos anos de militância, aprendi muita coisa. E talvez, a maior e mais importante lição que tive em meio a todo este processo foi reconhecer meus privilégios.

Explico.

Ninguém nunca questionou a minha identidade de gênero. Eu nasci com uma vagina e me identifico como mulher ( no caso, sou uma mulher cis). Mas, e se eu tivesse nascido com um pênis e me identificasse como mulher, será que esses questionamentos continuariam inexistentes em meu cotidiano?

Seria fácil arranjar emprego ou tirar meus documentos?

As pessoas me aceitariam facilmente como sou?

Como eu lidaria com o fato de que muita gente considera transexualidade como uma patologia e pessoas trans* serem marginalizadas?

Pois é. Pessoas cis jamais saberão como é ter que enfrentar algo assim.

Pessoas trans* convivem com situações como as que descrevi acima durante boa parte de suas vidas, quase sempre sem ter a quem recorrer. Hostilizadas, muitas vezes, até mesmo por colegas de militância (que, na minha modesta opinião, deveriam ouvir o que elxs têm a dizer, não contribuir para difundir ódio e preconceito). Como se esta causa fosse menos urgente ou importante.

Honestamente, acredito ser perfeitamente possível abraçarmos várias bandeiras. Uma luta não anula ( ou pelo menos não deveria anular ) a outra. Eu, como feminista interseccional, sigo a seguinte premissa: enquanto todxs não forem livres, eu também não serei. Não me parece minimamente razoável eu ficar aqui, brandando aos quatro ventos que luto por igualdade, enquanto existirem pessoas que sofrem a mais alta gama de dificuldades por não expressarem identidade ou papel de gênero condizente com seu sexo biológico.

Toda forma de opressão deve ser combatida. Que o direito de ir e vir, a ter dignidade humana e a livre expressão não seja uma exclusividade das pessoas cis.

Hailey: Mulher e Transfeminista

#LuznasMulheres

Desnaturalizar as relações sociais, os vínculos, os gêneros, desnaturalizar os discursos de opressão e exclusão. Essa é uma das muitas formas que a militância trans* tem contribuído com o feminismo. Constantemente questionadas, as mulheres trans* lutam contra a visão de que são menos mulheres, erradas, menos humanas do que as mulheres “originais” ou “naturais”, visão esta que encontram muitas vezes na mulher ao lado, companheira manifestante, também ela feminista.

 Hoje, sob os holofotes na Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher,  ensinando a incluir, a lutar e, se preciso, chutar a tampa, Hailey.

 “Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo…”

Meu nome é Hailey. Sou uma mulher trans* e sou ativista por diversas causas, mas principalmente pelo Transfeminismo.

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 Ser mulher é algo que uma pessoa define individualmente.

Não há fórmulas ou mapeamentos que possam definir nem mesmo superficialmente o que é ser mulher. É um fenômeno cultural e social malvisto, inclusive, em nossa sociedade. Ser percebidx como mulher e/ou como uma pessoa feminina é algo considerado degradante.

Quais as principais dificuldades que você encontra no cotidiano que você relaciona com sua condição de mulher?

O cagarregrismo nosso de cada dia. Críticas ao modo de falar, de vestir, de se portar. Críticas sobre o que fazer, com quem sair, com quem se relacionar. O tempo todo há um intenso shaming que vem por todos os lados quando você menos espera. Isso irrita e estressa muito, mesmo quando estamos em espaços considerados seguros. Detesto quem intencionalmente ou não quer cagar regra em cima da vida alheia.

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 Há vezes que me olho e me acho linda! Outras, porém, estou me sentindo horrorosa. Creio que todxs passam por isso, especialmente as mulheres que sofrem com a pressão por um ideal de beleza inexistente. Some isso à famosa tão-falada disforia que muitas pessoas trans* sentem e então você tem dias e dias de depressão. Mas no geral, me sinto bem comigo e com meu corpo.

“qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”. 

Você concorda? há algum limite? e o sexo, entra nessa operação? é dela dependente?

Isso depende do que uma pessoa entende como amor. Em nossa sociedade misógina e da cultura do estupro, sabemos que feminicídio e estupro são considerados frequentemente formas de amor. Para mim amor deve ser algo bom para todas as partes envolvidas, seja ele romântico nos moldes convencionais de relacionamentos românticos, ou de outro(s) tipo(s). Não há amor que gere sofrimento, quando há sofrimento é outra coisa influenciada pelo nosso modelo social monogâmico-egocêntrico de relacionamentos (inter)pessoais. Quanto ao sexo, é facultativo e deve ser acordado entre as partes; não vamos nos esquecer das pessoas assexuais e demi-sexuais que não necessariamente fazem sexo e/ou sentem atração/necessidade de sexo, e nem por isso seus relacionamentos são menos legítimos.

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 Atualmente, a relevância [do sexo] é mínima, senão nenhuma. Por causa da administração do anti-andrógeno (hormônio que suprime os níveis de testosterona no corpo) sinto pouca ou nenhuma libido. Para se ter ideia, me masturbo a cada 2 ou 3 meses. É raro alguma imagem ou pessoa me despertar tesão. Por causa da violência cissexista que o Estado me impõe para legitimar minha identidade, não posso interromper o tratamento hormonal ainda, mas pretendo (ou ao menos, diminuir). Por vezes me sinto muito mal por não sentir absolutamente nada. Sinto que sexo é algo que me faz falta (não necessariamente sexo com outra pessoa, diga-se de passagem – sex toys já me renderam muitos bons orgasmos). Sinto falta daquela vontade louca que de vez em quando dá, mas que eu não tenho mais.

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”.Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas?

Do Feminismo não; do Transfeminismo sim: “O Feminismo será Transfeminista ou não será”. Alusão ao Feminismo Intersecional, a frase explicita a urgência da inclusão de outras categorias de mulheres nos discursos (re)correntes do Feminismo Tradicional. Certamente, a frase “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente” é muito importante e de grande impacto, mas a mim não gera nenhum sentimento de pertencimento, visto que como mulher trans* ainda me sinto apartada do Feminismo.

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Gostaria que todas as pessoas se sentissem livres para vivenciar gênero e sexualidade sem receios, sem medos, sem shamings, sem repressões. Que não houvesse freios para oprimir e suprimir os desejos. Que soubessem que não existe nada mais legítimo, nenhuma sexualidade(s) e/ou gênero(s) é/são mais legítimo(s) do que outro(s). A vida é um eterno deslocamento entre as possibilidades e os devires. Em suma: a vida é muito curta, vamos aproveitar!

“Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim”Onde você gostaria que se chegasse? Quais seus sonhos, individuais e/ou coletivos…

Gostaria de ter recursos suficientes para colocar em prática ou melhorar todos os meus projetos ativistas. Atualmente meu sonho mais próximo é de ingressar na Unicamp, no mestrado em lingüística. Sempre quis seguir carreira acadêmica, e acho que é importantíssimo que nós trans* comecemos a ocupar posições de poder e agência dentro das estruturas sociais.

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 Cada um é (ou deveria ser) livre para fazer o que quiser, sem shamings, sem repressões, sem receios; contanto, é claro, que haja consenso. Sempre.

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