Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

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11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

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As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O que é cis ou cisgênero? Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).

Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).

Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.

Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.

Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.

As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.

Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando.
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.

Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

– parada GAY
– movimento GAY
– orgulho GAY
– HOMOfobia
– casamento GAY
– adoção por GAYS
– família HOMOparental
– direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

– ter o nome desrespeitado cotidianamente

– ter o gênero deslegitimado o tempo todo

– precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

– possuem o acesso ao banheiro barrado

– seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

– possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

– sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

– possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

– acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

– você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

– possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

– possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

– sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

– esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

– sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

– contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

– o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

– sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

– a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

– você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.

Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.

Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.

Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?

E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A família de Arthur, a exceção que questiona a regra

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada
Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur, transexual, 13 anos recebendo o apoio e o carinho do seu pai. Foto de Rafa Borges

Arthur é um menino transexual de 13 anos de idade, que vive em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Sua história difere das narrativas mais usuais das pessoas transexuais porque Arthur conta com apoio familiar.
(leia aqui)

Achei linda a história de acolhimento e afeto dos pais do Arthur quando descobriram que o filho era transexual. Acho muito importante essa compreensão, sobretudo em uma idade em que estamos em fase de transformação radical externamente.Eu nunca tive isso, como a maioria das pessoas trans* também não tiveram. Não havia pai, mãe, familiares ou amigos para compreender quem eu era, o que eu estava passando: pelo contrário, era violência de todos os lados. Se hoje em dia eu sou quem sou, devo à minha resiliência, à minha vontade absurda de resistir, eu me considero uma sobrevivente diante de tanta violência que sofri, que todas as pessoas trans* sofrem: umas um pouco mais, outras um pouco menos, ninguém deixa de sofrer quando descobre-se não pertencendo ao mesmo grupo que os demais, ainda mais em uma idade tão precoce, sem conhecimentos do mundo fundamentais, de como se hierarquiza e se constrói a transfobia e o cissexismoFelizmente, vejo que os pais com mais acesso à informação e com a cabeça mais aberta, passam a compreender que o filho ou a filha é transexual, e não outra categoria de gay ou lésbica. E descobrir-se tão cedo, ainda mais com o suporte daqueles que deveriam nos amar, nos compreender e aceitar nossa identidade é imperativo para ter mais qualidade de vida – infelizmente não é a realidade da maioria de nós. Que, inclusive, passamos uma vida tentando nos encontrar, com a sociedade inteirinha dizendo e nos impondo que somos gays ou lésbicas; dado que nada sabem e nada se fala em quase nenhum lugar sobre as identidades trans*.

Enfim, quanto ao texto no iGay, parece que vai cair alguma parte do corpo dessas pessoas (incluso ativistas LGBTs) se escreverem transfobia ao se referirem às opressões que as pessoas trans* sofrem. Essa palavra HOMOfobia, em sua própria raiz remete-se à homossexualidade – campo das orientações sexuais, e portanto eu a rejeito para traduzir o que passamos, pois inclusive contribui para o preconceito eterno que enfrentamos, aquele que dá conta que as mulheres trans* são homens gays querendo ser mulher e os homens trans* são mulheres lésbicas querendo ser homens.

Outra coisa, não considero que o Arthur tenha nascido mulher ou menina como diz a reportagem do iGay, ser mulher ou menina não é algo instalado no genital, na anatomia; fosse assim, se perdêssemos o genital, imediatamente passaríamos a ter outro gênero. Mas não, podem transgenitalizar à força um homem cis, ele não passará a se reconhecer como mulher por conta disso. Não nascemos meninas ou meninos, não nascemos nem homens e nem mulheres, nascemos com determinada conformação anatômica que NADA pode dizer sobre nosso gênero, nascemos nus, sem saber que regra vamos ter que seguir, que gênero irão nos impor; o resto é construção.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Transfobia no espaço escolar: a exclusão que não é ocasional

contra a transfobia

Sou professora e pedagoga. Em quase uma década de trabalho, venho presenciando cenas de exclusão (e também algumas poucas de acolhimento) de pessoas no espaço escolar que desafiam as normas impostas de gênero. Sem buscar homogeneizar a questão trans* que tratarei adiante, alunxs e professorxs homossexuais já costumam causar algum tipo de estranhamento, porque, de certo modo, tiram as pessoas da zona de conforto de seus preconceitos, pautadas em preceitos heteronormativos. No exercício da convivência diária, percebo que algxns optam em se abrir pra lidar de forma positiva com as diferenças, enquanto outrxs apenas reforçam todos os seus estereótipos discriminatórios. Não foram poucas as vezes que tive a infelicidade de ouvir de algum colega piadas homofóbicas, misóginas e sexistas, quando não, dxs próprixs alunxs. Difícil (mas não impossível) desestabilizar tais configurações e relações assimétricas de poder.

Claro, a cultura escolar é algo maior que a postura dos professorxs, dxs alunxs e da equipe pedagógica. Assim, a exclusão operada é também proporcionada pelo silêncio das abordagens curriculares que segmentam uma pretensa fala sobre diversidade, divididas em temas transversais. Quer dizer, eu até posso abordar sobre algumas questões candentes de gênero, desde que ocupem um espaço acessório (ou irrisório?) no currículo. Mas, para subsidiar minha aula, onde estão os materiais didáticos? As oficinas de formação continuada? Por que foi vetada a distribuição do kit do programa Brasil sem Homofobia? Por que tanto medo em falar sobre as relações de gênero? O que está para ser desestabilizado é algo tão grande assim que não se pode sequer questionar profundamente a norma hetero no espaço escolar?

Além da homofobia, a transfobia também provoca sofrimento. Eu me interrogo sobre a condição dxs alunxs trans* nos bancos escolares. Já é sabido que a população trans* tem grande índice de abandono e evasão escolar, o que não é ocasional de forma alguma; transexuais e travestis são expulsxs da educação formal a partir de mecanismos muito eficazes que operam na construção de suas invisibilidades. O currículo escolar não contempla suas identidades. Existe toda uma série de dificuldades até para que sejam chamadxs por seus nomes sociais, causando-lhes grande constrangimento público. Relatos que chegaram até mim, de pessoas trans*, falavam de perseguições e ameaças de professorxs e gestorxs, de tratamento inferior e de desprezo dispensado (lembro do caso de umx alunx que me relatou que tinha virado uma “coisa”. Chamavam-na na própria faculdade que estudava, de “isso” ou “aquilo”). São postos obstáculos para se usar o banheiro (como se alguém tivesse que se definir pra ser autorizado em suas necessidades fisiológicas), dentre outras histórias de abuso e discriminação. Hostilidades parecem ser a regra nesses casos em que o ser humano merece nada mais ou nada menos que compreensão, respeito e acolhimento em suas diferenças.

Lembro de um episódio exemplar quando trabalhava como supervisora pedagógica em uma escola pública de ensino fundamental. Atuava no turno vespertino. No entanto, fiquei sabendo de um ocorrido bastante simbólico disso que estamos tratando, no turno matutino. Tratava-se dx alunx, denominadx ao nascer, como Gabriel. Tinha sete anos. Gabriel queria e pedia insistentemente pra ser chamada de Gabriela, gostava de ter amigas meninas e de se comportar como uma delas. Aí a diretora interveio e quis conversar pessoalmente com a criança. E sabe o que lhe disse? Que Deus tinha lhe dado um pintinho, portanto, era homem. Que parasse com esse absurdo de querer ser menina. Na lógica de Deus, explicou que quem nasce com vagina era menina e quem nasce com um pintinho era menino. E só, somente só. E mandou Gabriela de volta a sala. Assunto resolvido.

Eu fico me perguntando onde estará Gabriela hoje. Nas minhas contas, deve estar com 12 ou 13 anos. No que aquela traumática conversa deve ter lhe afetado? Como deve ter elaborado isso, em sua cabeça de criança, ter negada, de forma tão brutal, a sua identidade naquele momento? E se Gabriela só gostasse mesmo de brincar de ser menina, qual o problema disto a ponto de merecer um sermão da diretora? E se não, se Gabriela fosse mesmo uma criança trans*, quais consequências terríveis essa conversa teve na construção de sua auto-estima?

Difícil ver uma luz no fim desse túnel. Mas uma vontade imensa de ver a escola que temos hoje, sem querer essencializar o que se entende por escola, aberta para Gabrielas, Gabys, Sofias, Pedros, Pamelas, Felipes, Maitês e Danielas.

Meninas, brincos e Delegadas

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Essa semana é a Semana da Visibilidade Trans*. E eu vou falar sobre a minha experiência, de mulher cis (que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer). Eu podia acrescentar meus outros privilégios, privilégios que talvez você leitor(a) também tenha, ou não. Mas hoje vou me deter nesse ponto.

Eu, me identificando como “menina”, tinha os cabelos curtos, estilo “joãozinho”, e aos cinco anos de idade me foi negado o direito de usar o banheiro de meninas, que tinha uma peixinha de brincos e lacinho rosa, e me indicaram o banheiro de meninos, com o peixinho de bigode e gravata azul. Uma menina, mais velha (hoje, em retrospecto, imagino que ela devia ter uns nove ou dez anos) me disse que o meu banheiro não era aquele. Era inverno, o uniforme era moleton marron e eu não usava brincos.

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Ao sair da aula e encontrar com minha mãe, em prantos eu exigi que minhas orelhas fossem furadas e me fosse concedido aquele precioso símbolo da minha identidade de gênero. Não foi possível furar as orelhas no mesmo dia, e então, mesmo no frio, usei o uniforme de verão, sainha curta, para ir às aulas no dia seguinte.

Esse episódio se tornou meio que uma anedota familiar, e eu meio que o ignorei, afinal, não fazia sentido ficar remoendo. (…)

Já adulta, Delegada de Polícia, a militância em Direitos Humanos, que me acompanha desde o ensino médio, me aproximou de grupos ditos (e feitos) vulneráveis, entre eles o grupo das pessoas trans*, dentre a população LGBT.

Em uma conferência de Segurança Pública, dentre toda a fauna de policiais, gestores, sociedade civil, tive o prazer de conhecer Walkíria la Roche. Me impressionou sua delicadeza e feminilidade, fez com que eu, a menina “tomboy” dentro de mim, me sentisse quase “masculina”.

E depois, conheci, em 2012, pelo Blogueiras Feministas, Haley Kaas e outras pessoas trans*, mulheres e homens, e comecei a conhecer (um pouco) mais e pensar (muito) mais sobre as questões de gênero e identidades.

Percebi que o que eu achava que era “natural” não é bem assim. Que muitas mulheres em processo de transição sofrem enormes pressões para serem femininas e delicadas, para se enquadraram perfeitamente no molde da “MULHER”, esse ser que não se nasce, se torna, para todas nós, cis e trans*, mas que para uma mulher trans* é ainda mais opressivo.

No texto que abriu essa semana, a Daniela Andrade falou sobre as profissões que são designadas à mulheres trans*, às travestis: a prostituição ou os salões de cabeleireiros, quase sempre vilipendiadas, estereotipadas, violadas pelo preconceito.

Na semana passada, foi divulgado o fato de uma mulher trans* haver se submetido à cirurgia de redesignação de sexo, em uma profissão que muitos consideram masculina, e que por coincidência, é a minha profissão: Delegada de Polícia Civil. Foi em Goiás, e a mulher é a dra. Laura.

Eu tenho tentado não ler comentários em portais de notícias. O anonimato permite uma virulência que enoja, assusta, entristece. Mas li alguns, na matéria malfeita e maldosa de um jornal local. E uma das “preocupações” de alguns comentaristas era com a situação juridico administrativa da delegada. Afinal, ela entrou como “homem”, e de repente, “virou” mulher. Logo, ela fraudou o sistema.

Muito me espanta, gente até inteligente e estudada, falando isso. Não há cotas, nas policias civis e federal, como há nas PMs. Logo, a situação juridico-administrativa, ao meu ver, não sofreu alterações.

Outros, preocupavam-se com a dita “reserva de mercado” das DEAMs, que são as delegacias de atendimento à mulher, delegacias que tradicionalmente são ocupadas por mulheres.

Voltando ao tema, eu torço para que Laura, minha colega na PC, em Goiás, seja feliz, no caminho que trilhou. Seja na DEAM, seja numa depol de área, aquelas “chão de fábrica”, como a minha. Onde cabe “macheza” suficiente em uma mulher, como cabe em mim, o que quer que seja isso.

Porque hoje eu luto por um mundo onde a falta ou não de brincos não seja definidora de gênero. Para que crianças possam crescer sabendo que os banheiros não devem ser motivo de opressão de gênero, e que meninas podem ter bigode, meninos podem usar lacinhos e cor-de-rosa, e que isso não define quem somos.

Luto e torço e espero por um mundo onde papéis de gênero não sejam tão fixados que impeçam que um homem possa ter empatia e capacidade de sensibilidade suficiente para trabalhar com mulheres em situação de violência, em uma DEAM, ou que, pelo oposto, imponham a todas as mulheres a obrigação de sermos sensíveis e “boazinhas”, portanto, ideais para trabalharmos “na Mulheres”.

Queria voltar ao passado e dizer para a Renata de 5 anos que tudo bem usar o banheiro de meninos, e que ela não precisa furar as orelhas se não quiser.

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Mas o que realmente dói é saber de tantas meninas em situação de disforia que não tem apoio, não tem amparo, não tem a quem recorrer.

Hoje eu vejo que o meu trauma é meu, e não é “bobo”,não vou diminuí-lo, pois ele me ajuda, agora, a calçar por alguns segundos, o sapato de uma criança trans*. Meus brincos me garantiram de imediato o ingresso no meu mundo, onde nunca mais me foi negada a minha condição de mulher. Eu quero que meus filhos vivam em um mundo onde não seja preciso um par de brincos ou um médico ou juiz para garantir que todos e todas possam ser felizes, da forma como escolheram.

A Luta Por Se Fazer Visível

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

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* Nesse texto, toda vez que você encontrar a palavra trans* ou população trans*, estou me referindo à pessoas travestis, transexuais e demais pessoas que possuem uma identidade, papel ou expressão de gênero em não conformidade com aquilo designado compulsoriamente quando nasceram.

No Brasil, pessoas trans* estão expostas a uma alta taxa de violência apenas por possuírem uma identidade de gênero em não consonância com o restante da população. Geralmente são pessoas que desde muito cedo são expulsas de casa pelos pais, pois ao contrário da orientação sexual que pode ser escondida pela mentira ou pelo armário, se assim a pessoa desejar ou se ela não tiver condições de se assumir, a identidade de gênero, à certa altura da vida, se torna impossível de ocultar sob qualquer disfarce. Não há como os pais mentirem para os familiares, amigos e restante da sociedade que a filha ou filho não são trans*, com muita frequência por conta do fato de que essas pessoas vão requerer modificações corporais e a exigência do tratamento por um nome e gênero que elas reconhecem como seus, em detrimento daquele que lhes foi designado quando do nascimento – em que pesem aqui o fato de que há pessoas trans* que não alteram seus corpos por motivos de sáude, por dificuldades financeiras ou mesmo por não sentirem necessidade.

Também a escola é um motor de exclusão, lugar onde não só os colegas de classe mas os professores e gestores escolares vão se negar a tratar a pessoa trans* pelo seu nome social e pelo gênero que reivindicam como seus. Não aguentando as violências físicas, psicológicas, verbais e institucionais, essa população geralmente abandona a escola, ou melhor, de lá são expulsas indiretamente.

Sem o apoio familiar, sem estudo e detentoras de uma identidade que a sociedade desde sempre associou à criminalidade, à patologias, ao exotismo e à ridicularização, também terão a entrada no mercado de trabalho formal negada. A sociedade considera que o lugar dessas pessoas só pode ser na prostituição ou no salão de beleza – caso das mulheres trans* ou os subempregos – caso dos homens trans*, como se não tivessem talento para qualquer outra função – e, ainda que sejam diplomadas, é incrivelmente difícil que consigam emprego. Com isso, temos dados da ANTRA – Associação Nacional de trans* que revelam que 90% das mulheres transexuais e travestis estão se prostituindo no Brasil.

Uma das bandeiras de luta do movimento organizado de pessoas trans* no Brasil é a aprovação da lei João W. Nery (5002/2013), apresentada em janeiro de 2013 pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF). A lei consiste em conceder a essa população, de forma menos burocrática, um direito negado: ter em todos seus documentos o nome e o gênero que reconhecem como seus. Embasada na lei de Identidade de Gênero aprovada na Argentina, considerada a lei mais avançada do mundo nesse aspecto, ter o reconhecimento legal de suas identidades proporcionará a essa população amenizar as violências que sofrem. Por exemplo, ao usarem um banheiro; lugares de onde frequentemente são expulsas por não terem documentos que comprovem o gênero com que se identificam.

Recentemente quatro meninas transexuais foram expulsas de um banheiro público em um Shopping Center em plena avenida Paulista, cartão postal de São Paulo – essa atitude gerou uma grande mobilização e manifestação dentro do Shopping, onde se foi exigido o respeito à identidade de gênero das pessoas trans*. Sem poder usar o banheiro feminino, o masculino não lhes é opção, dado que da mesma forma que as demais mulheres, as mulheres trans* estão sujeitas a sofrerem violências, agressões e estupros.

Não ter esse reconhecimento legal leva a população trans* a passar por inúmeras violências em escolas e universidades, consultórios médicos, casas noturnas e restaurantes que cobram preços diferenciados em função do gênero, aeroportos e rodoviárias, bancos, hoteis e tantos outros estabelecimentos em que a apresentação de um documento de identificação é requerida.

Some-se a isso o fato de o Brasil responder por mais da metade dos crimes transfóbicos no planeta – segundo dados do TGEU (aqui: http://www.transrespect-transphobia.org/en/tvt-project/tmm-results/march-2013.htm). E quando uma pessoa trans* é assassinada, os processos geralmente não acontecem, os assassinos não são presos, os processos não vão para a frente; pois a sociedade sempre considerou que essas pessoas não têm humanidade o suficiente para ocupar o mesmo espaço no mundo que os demais. A transfobia que está permeada por todos os alicerces dessa sociedade induz e produz os assassinos das pessoas trans*, via de regra usadas como objeto de estudo e não sujeito do próprio discurso, via de regra usadas como personagens perfeitas para ‘inocentes piadas ou textos humorísticos’ em que se naturaliza a desumanização dessas pessoas, via de regra quase que tão somente expostas como criminosas pela mídia ou personagens caricatas, mídia essa que é reflexo da sociedade; ou então, pessoas com alguma anomalia, tratadas com exotismo.

Tomemos o caso de Luiza Mouraria, mulher transexual assassinada por seu namorado e um comparsa em 2001, em São Vicente/SP, quando o primeiro descobriu que ela era transexual, os assassinos nunca foram condenados; ou Nicole Borges, transexual assassinada o ano passado no Paraná, Curitiba, pelo mesmo motivo. A sociedade, também via de regra, culpabiliza as próprias pessoas trans* pela morte que sofrem, há sempre uma desculpa pronta para isentar o criminoso do homícidio, por exemplo:

 – Ela devia ter contado que era transexual/travesti.

– Ela estava se prostituindo.

– Era dívida com cliente.

– Era dívida de drogas.

Mas ninguém quer se questionar o que levam essas pessoas para a prostituição, para as drogas, o que a sociedade faz para incluir essa população dentro de seu projeto de humanidade, de estado. Quantas pessoas não teriam qualquer problema em trabalhar ou contratar uma pessoa travesti ou transexual? Quantas pessoas não teriam qualquer problema em tratar uma pessoa travesti ou transexual pelo nome e pelo gênero que reivindicam como seus? Pouquíssimas.

Estamos falando de uma população invisível para os dados oficiais, invisível para as estatísticas. E quando nos debruçamos sobre os dados do Disque 100 (mantido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a fim de contabilizar os dados de discriminação também contra a população LGBT no Brasil), descobrimos que quem menos fez denúncias de violência que sofreu no Brasil dentro da sigla LGBT foram as pessoas trans*, mas quando nos deparamos com o resultado dos dados hemerográficos (violências e mortes coletadas da mídia, em relação à população LGBT), percebemos que quem mais sofreu crimes de ódio no Brasil foram as pessoas trans*. Como ler esses dados? Grande parte dessas pessoas estão desacreditadas desse ente chamado estado, pois inclusive, grande parte das vezes, quando procuram os representantes do estado sofrem ainda mais discriminação. Tome por base as agressões que mulheres trans* no Brasil ainda sofrem de policiais, quando trabalhando na rua, como profissionais do sexo. Em que pese o fato de se tratar de uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho, as mulheres trans* que a exercem, também são tratadas como criminosas por esse motivo. A mesma sociedade que empurra essa população para a prostituição é aquela que irá condená-las por se prostituírem, que irá privá-las de qualquer direito trabalhista assegurado por lei – e nisso é preciso amadurecer o debate sobre os projetos de legalização da profissão, como se dá como o projeto Gabriela Leite também do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ).

Quando o tema é saúde, também temos aqui anos de atraso e precariedade do serviço. Para as pessoas trans* que almejam a cirurgia de trangenitalização, o Protocolo Transexualizador, estabelecido pelo Conselho Federal de Medicina e Ministério da Saúde, exigem tratamento compulsório de no mínimo 2 anos com psicólogo, psiquiatra, endocrinologista e assistente social que ao final do processo, devem dar um laudo autorizando a pessoa a dispor do próprio corpo. Atualmente, apenas 4 hospitais públicos em todo o Brasil estão realizando essa cirurgia, e as filas são de centenas de pessoas, no estado de SP, o Hospital das Clínicas tem realizado uma cirurgia de transgenitalização por mês. Há também o fato de que só é permitido o tratamento hormonal para as pessoas com mais de 18 anos, o que impede que adolescentes trans* sejam atendidos para essa finalidade e os priva de ter mais qualidade de vida, quando o seu sofrimento psíquico e social está ligado à alteração de seus caracteres sexuais secundários.

A falta de uma política de saúde pública que vise atender a requisição de implante de próteses de silicone para essa população, também leva muitas dessas pessoas a fazer uso do nocivo silicone industrial – que não foi feito para uso humano, mas para lubrificar motores e peças da indústria automobilística e aeronáutica. Muitas dessas pessoas acabam falecendo por conta desse uso ou tendo diversas complicações de saúde. Modificar o corpo significa não só, muitas vezes, amenizar o sofrimento psíquico de ter um corpo que não reconhece como seu, como também uma das exigências do mercado da prostituição: que exige corpos desenhados e padronizados acerca de um modelo pré-estabelecido de perfeito corpo feminino. A problemática em torno de todas as demandas da população trans* deve ser ampliada e difundida em todos os espaços, não só nesse mês de janeiro – em que se comemora no dia 29 a visibilidade da população trans* que se faz urgente, mas o ano todo. Não podemos visibilizar essas violências e essa luta apenas um dia, uma semana, um mês. A população trans* merece vez, voz, espaço e protagonismo.

 Pra saber mais: www.transrespect-transphobia.org

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

 

Não é Pelo Direito ao Amor

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Tem uma parte da militância LGBT*, mais precisamente G, onde me encaixo [na verdade, eu nem me considero um ‘militante de verdade’], que tem um apego que considero excessivo ao discurso sobre o amor. O discurso é quase sempre baseado no poder amar ao próximo. No poder constituir família. Poder viver o sonho do amor romântico burguês e heteronormativo. E não me importa muito que alguém queira vivenciar isso como um desejo individual. Incomoda-me quando isso vira um discurso militante, onde os direitos são reivindicados – pelo menos no nível do discurso – apenas aos que se enquadram nesses casos.

Não é pelo direito ao amor que eu faço minha luta. Não é pelo direito de amar quem eu quiser. Não é pelo direito de manifestar meu amor em público. Não é pelo direito de amar e ser amado por outro homem. É pelo direito de vivenciar minha sexualidade da maneira mais ampla possível, sem ser marginalizado, discriminado, violentado e desumanizado. É por eu poder trocar afetos sem necessariamente ser com alguém que eu ame. Pode ser com alguém que eu tenha conhecido hoje. Ontem. Semana passada. E não amar.

É pelo direito de quem não quer amar. Quem não quer manter um relacionamento estável, monogâmico, heteronormativo, etc. Quem não quer manter um relacionamento. É também pelo direito ao amor pra quem quer amar, mas não é só por isso. Minha luta não tá baseada no amor, nesse sentido. Minha luta tá baseada no direito de vivenciar. E não é um direito que eu suplico. É um direito que eu exijo.

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É importante que, principalmente nós gays, revejamos nossas posições de certos privilégios em relação aos outros grupos da sigla LGBT*. Que desconstruamos nossos  machismos, homofobia, misoginia, transfobia. É inegável que entre  gays há muita misoginia, que quase sempre se manifesta em forma de “humor”. O machismo, em grande parte, se manifesta na ridicularização “das passivas”, que também é  reflexo da misoginia. Sem falar no elitismo e classismo que são fortemente reproduzidos entre gays – o clássico caso da “bicha pão-com-ovo”. O preconceito geracional se mistura com homofobia e machismo na divisão dos homossexuais mais velhos em “tios” ou “daddy” e “bicha velha” ou “tias”. Sendo classificados como tios ou daddy os homossexuais com mais idade que se enquadram num perfil mais higienista, reprodutor de padrões de corporalidades e beleza. No segundo caso, resta aos homossexuais a partir de certa idade, que estão mais à margem desses padrões, e são, em geral, efeminados.

Outro ponto que precisa servir de reflexão e desconstrução por parte dos homossexuais masculinos, é o binário ativo/passivo como categorias fixas. Quando essas categorias são fixadas e se tornam um discurso normativo, a reprodução dessa binaridade também é a reprodução de ordem heteronormativa e misógina. A visão de ativo como desempenhante do papel de homem, provedor, líder e de fodão, enquanto o passivo é retratado como submisso, projetado como a mulher da relação, é marginalizado e muitas vezes ridicularizado é extremamente machista, misógino e – de novo – heteronormativo.

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É função e dever de todos nós gays, especialmente gays brancos, de continuarmos em luta e não nos acomodarmos com a conquista de alguns direitos que beneficiam principalmente nós mesmos, e em especial os de poder aquisitivo maior, enquanto os outros grupos continuam na marginalidade, invisibilidade e discriminados. É importante continuarmos atentos às investidas de grupos conservadores e somarmos forças no combate à lesbofobia, bifobia, transfobia. É importante que todos nós trabalhemos para mudar a sociedade e não para que a sociedade nos mude e nos molde a ela: classista, machista, misógina, elitista, capacitista etc.

Para que o combate às reações conservadoras sejam ainda mais eficazes, é preciso que haja uma radicalização por parte das pessoas que lutam contra essa ordem heterossexista, que é responsável por centenas de mortes por ano e aprisiona milhares de outras vidas em seus aspectos sociais e psicológicos. É preciso que os gays em geral percebam que continuar reproduzindo uma série de comportamentos e discursos que visam  manter o status quo pode tornar a luta mais longa e difícil.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

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