Beijos de rainha*

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“Foi muito bom te encontrar, Senhora”, disse o jovem submisso e masoquista.

Ela ainda estava se acostumando com a megalomania. Com a ambição. Com o desejo de controle. Com o sadismo físico e emocional que carrega dentro de si. Com a vontade de ser cultuada, venerada. Com a vassalagem que agora lhe oferecem, após uma vida toda de prazeres negados e de doar-se sem a mínima reciprocidade…

Ela e o rapaz se conheceram, fizeram seus acordos, falaram sobre seus limites (e isso serve para qualquer relação, né?). E com o tempo, com uma confiança mútua surgindo, ele se tornou em cena exatamente TUDO que ela queria:

– tapete;
– mesa;
– capacho;
– brinquedo;

E ele a servia com toda alegria, devoção e tesão.

“A Senhora mistura força com ternura”
“Quem lhe deu permissão para falar?”

Tudo isso era muito gostoso, mas a deixava confusa. Se engana bastante quem pensa que o **top está sempre seguro, que acerta sempre, que ele é sempre superior e imune às traquinagens da dúvida. O top é humano e humanos erram/cometem gafes e a única coisa que nascem sabendo fazer é chorar. Fora a responsabilidade gigantesca que é cuidar de alguém que lhe entregou seu corpo…

Ele pede permissão para gozar. Às vezes ela deixa, noutras não porque nem sempre o capacho merece. Acabam as sessões e começam os beijos. Ora tímidos, ora ardentes. Desviantes. Não normativos. Nada convencionais, mas repletos de intensidade.

Beijos de Rainha.

“Foi muito bom te encontrar, Senhora”, disse ela para a rainha insaciável, mimada, egocêntrica, sádica, carrasca, visceral e transformadora que vive dentro dela.

* Texto em comemoração ao 24/7, dia internacional do BDSM.
** Top: pessoa que numa cena bdsm assume a posição de comando, podendo ser dominador ou não, dentro dos limites do bottom (quem se submete às ações na cena).

Prefácio

#Alma Biscate
Prefácio, Cláudia

curtirTudo começou com um curtir, lá no Facebook. Lembro perfeitamente do dia em que a Luciana postou o primeiro texto por aqui. Daí, ela me disse algo como “Cláudia, para de curtir só e si joga”. Me joguei mesmo e aqui estou, feliz como nunca. Mas não foi tão fácil assim assumir (compreender se encaixa melhor, acho) essa biscatagi toda.

Tive um medinho. Aliás, um medão. Porque a palavra biscate assusta(va). Porque eu, em outros tempos, quando ainda era aquela garota que se fechava quase que totalmente para o novo, jamais aceitaria ser comparada com uma… biscate. Biscate para mim era algo ruim, algo que não poderia me trazer qualquer aprendizado. Algo do qual eu deveria manter distância. Que bom que não mantive distância daqui. E que bom que eu aprendi o que realmente tudo isso significa.

liberdade2Se eu fosse enumerar todas as experiências pelas quais passei depois que percebi a mim e aos outros como livres, não teria espaço neste texto em que tentarei ser sucinta. Mas foi muito transformador. Foi transgressor. Fez de mim uma garota muito mais forte para lutar e acreditar não apenas em minha liberdade: proporcionou a oportunidade de ver a vida com a leveza que preciso para seguir em frente. E me fez aceitar melhor e de forma mais verdadeira as inúmeras diferenças de pensamento e de escolhas que podem existir entre as pessoas.

Alma biscate hoje significa para mim o poder de se reinventar. Libertar-se das próprias convicções todos os dias. De se renovar. De transformar a si próprio e contribuir para que o mundo mude, ao menos um pouquinho. De fazer a cada dia um novo prefácio.

E que assim seja até que a minha breve vida termine, com boas lembranças e com a sensação de que tudo valeu a pena.

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