Annie Walker

Eu vivo assistindo seriados, acabo me apaixonando por alguns em especial. A menina dos meus olhos de agora é o seriado Covert Affairs. O motivo, bem, sempre fui louca por séries policiais e por enredos que trabalhassem com FBI e a CIA, com agentes infiltrados. Mas, sempre faltou uma personagem forte, que não fosse frágil e secundária, que fosse uma protagonista a altura. A agente Annie Walker (Piper Perabo) fez eu me identificar com ela.

Annie Walker

Annie Walker

Uma mulher inteligente, com seus vinte e poucos anos, que tem um emprego “masculino”, agente da CIA que trabalha em campo, sem parceiro para ajudar. Sei que é uma realidade longe da minha, ou de muitas outras mulheres, mas me sinto feliz ao ver uma mulher na posição de protagonista em uma série desse tipo. Todas as outras séries atuais com personagens mulheres que são agentes têm uma fragilidade, têm parceiros, não vejo uma protagonista tão forte e presente quanto ela desde o seriado Cold Case.

Annie é uma mulher inteligente, vive na casa de hóspedes de sua irmã, trabalha como agente secreta, então sua família não sabe. Todos acreditam que ela é curadora de um Museu. Interessante que sempre que assisto lembro do 007, uma agente secreta que trabalha sozinha.

Annie, sua chefe, Joan  e Auggie, seu colega de trabalho.

Annie, sua chefe, Joan e Auggie.

Sua irmã se preocupa por ela trabalhar demais e não conhecer caras interessantes: mal sabe ela que Annie tem vários casos rápidos, afinal, são em suas missões. Diferente de sua irmã, ela é mais solitária. O que, na série, não é melhor nem pior que ser casada e mãe, só é diferente. E a escolha de uma não atrapalha a vida da outra, são companheiras e irmãs.

Além de Annie e sua irmã temos muitas personagens femininas: sua chefe, Joan Campbell, também é uma personagem interessante, uma chefe um tanto quanto mandona, mas no fim das contas, ela age assim para reforçar que ela não é apenas “esposa do seu chefe”. São personagens mais profundas e muito maiores que mulheres indefesas de séries comuns. Na verdade, todxs xs personagens da trama são complexxs. Por isso gosto tanto de Covert Affairs. Estou cada dia mais apaixonada pela série.

Lado a lado, uma novela e suas mulheres livres e biscates

Novela também é cultura, informação e, porque não, biscatagem, em forma de entretenimento. Sem perder que mais que cultura novela é um produto feito para dar lucro temos que admitir que é um produto brasileiro, apreciado em vários lugares do mundo, e que pode ser feita com muita qualidade. O filósofo pop star Slavoj Žižek diz que as novelas brasileiras são uma contribuição genuína para a cultura mundial. Ou seja, agora você pode dizer que é noveleira sem culpa de ser chamada de fútil, desinformada e inculta.

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Isabel e seu corpo, livre.

Tivemos recentemente o sucesso retumbante de Avenida Brasil e Cheias de Charme, mas quero é falar da novela que ganhou o meu coração – Lado a Lado. Ela não atingiu na média o Ibope que a emissora pretendia como média para o horário, mas é um sucesso de crítica. Esse texto excelente do Maurício Stycer explica algumas das razões,  por exemplo, excesso de didatismo no começo e  um ritmo mais lento que as novelas atuais. O texto também fala uma boa reflexão sobre o dilema audiência x qualidade.

Mas entre várias noveleiras amigas e amigas feministas (algumas são as duas coisas) a novela está nos nossos corações.  Lado a Lado me ganhou logo de início: ambientação de época linda, como só a vênus platinada faz, atores dando o melhor de si e muito bem escalados para o papel e texto ótimo, com diálogos ágeis e bem escritos como há tempo não se via (sou fã de filmes calcados em bons diálogos). Aliás, do lado de cá da telinha é quase palpável a alegria dos atores ao interpretar, o carinho por suas personagens e suas falas, como demonstra Lázaro Ramos nesta entrevista linda aqui. 

E não há só diálogos maravilhosos quando a novela toma um lado, digamos, panfletário, há diálogos ótimos na parte dramalhão – nos embates entre Isabel e Constância (Camila Pitanga e Patrícia Pilar, que aliás está novamente dando um show como grande vilã da trama). Digo que na novela há um tom panfletário porque são claras as bandeiras levantadas pelos autores – o racismo e  a emancipação feminina e a liberdade de culto – tendo como pano de fundo no início do século XX. Em vários momentosa novela deu uma aula de História, melhor que vários livros didáticos, sobre a expulsão dos cortiços da cidade, o início da formação das favelas, a Revolta da Chibata e a Revolta da Vacina.

Mas ao meu ver o grande fio condutor de toda a trama ainda é o amor, e encarnado numa das formas mais belas de amor, porque não tende a aprisionar – a amizade profunda que nasce entre as duas mocinhas da trama, Isabel e Laura, uma negra e a outra branca. Elas se encontram no dia que deveria ser o mais precioso de suas vidas, o dia  de seus casamentos. Uma indo casar com o amor de sua vida (Isabel) e a outra casando com um homem que não amava e mal conhecia, por conveniências sociais. Uma alegre outra infeliz. Os acontecimentos do destino mudam a vida de ambas – Isabel não se casa e Laura encontra com o tempo sua alma gêmea no marido Edgar (Thiago Fragoso, também em ótimo momento).

Ok, ficou meio conto de fadas. Mas esse modelão clássico do drama vem junto com o pacote de duas mulheres que também lutam contra toda espécie de preconceito do início do século, muitos deles ainda presentes nos dias de hoje, infelizmente. Duas mulheres bem  biscates, por assim dizer. Elas almejam ser independentes, dentro das relações amorosa, em  suas vidas profissionais, pessoais e na vida sexual, na liberdade de ir e vir sem ser vista como mero objeto de desejo dos homens.

Laura quer ser reconhecida como pessoa, como mulher capaz de se sustentar sem um marido, depois de um divórcio (na época mulher divorciada e prostituta eram a mesma coisa). Laura que ser jornalista (homenageando talvez  o papel desempenhado pela primeira mulher  a publicar textos em jornais do Brasil e precursora do feminismo, Nísia Floresta). Isabel também quer ser profissional reconhecida – empresária e bailarina (inspirada talvez  em Josephine Baker), com o adendo da dificuldade de ser negra, aliás um grande obstáculo no seu caminho. Ser mulata, negra, a faz sofrer ainda mais que Laura na trama, bem mais. Ela é além de vítima do machismo da época, vítima do racismo, esse mesmo racismo que até hoje negam existir entre nós, mas insiste em mostrar a sua face perversa aqui e acolá.

E, claro, a  liberdade sexual de ambas as moças é questionada – uma porque é negra e dançarina no teatro (algo equivalente a prostituição na época) e outra porque é divorciada, logo, sem dono. Laura, inclusive, é vítima de uma tentativa de estupro em dado momento, e pesa contar ela o fato de ser divorciada, como se por isso só instigasse os avanços indesejados dos homens. Afinal a mulher até o hoje é  considerada muitas vezes culpada pelas violências que sofre. Isabel, para piora é ainda mãe solteira, um terror na época.

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Uma mulher “sem dono” que escolhe quando e como quer ficar ao lado de quem ama

E é essa a novela que amamos todos dias ás 18:15. Que nos emociona, nos faz ver o quanto  as mulheres que lutaram antes de nós fizeram com que possamos ser mais livres hoje, mas ainda não totalmente livres, somos prisioneiras de nossos corpos, da nossa cor, de imagens preconcebidas do que é ser mulher. Somos, ainda, vítimas de sexismo e violência doméstica, mas estamos lutando para que isso tenha um fim.

E todo esse pano de fundo da trama vem  colorido por  excelentes atuações e diálogos finíssimos. E ainda temos o amor, porque somos biscates românticas (quem disse que feminismo não combina com romance?) e faz a gente torcer pelos casais: Laura e  Edgar (Laured) e Isabel e Zé Maria. Porque na novela a vida sempre tem final feliz.

Suelen, uma biscate exemplo de liberdade

Ahh as biscates das novelas… quase sempre são um grande sucesso. Uma das minhas favoritas recentes é a Camila Pitanga com muita catiguria fazendo a Bebel  em Paraíso Tropical de 2007, que além de biscate era prostituta, uma prostituta meio romantizada, estilo Julia Roberts, mas que conquistou o Brasil e o Wagner Moura na novela, redimindo vilão de suas vilanias.

O grande sucesso entre as biscates das novelas atuais é a maravilhosa Suellen de Avenida Brasil que par nosso orgulho biscateiro agora vive um amor a três. Casada por Roni, que ama Leandro quer por sua vez ama Suellen os três resolveram morar juntos, para escândalo geral do bairro do Divino e ciúme dos outros jogadores do time todo com quem a gata já saiu.

Isis Valverde está ótima no papel, mas em recente aparição no programa da Fátima Bernardes que teve a honra de contar com a participação da nossa maravilhosa diva Luciana num debate sobre biscates e periguetes. Isis deixou claro que não tem nada em comum com a personagem.

O que acho de mais interessante em Suelen é exatamente o que o senso comum condena: ela sabe que é sexy, poderosa e usa e abusa disso em seu favor. O senso comum aprova que mulheres possam usar em seu favor doçura, meiguice, lágrimas, chantagem emocional e até beleza, mas nunca o sexo. Sexo é um tabu tão grande que é condenado só por ser isso- sexo. Não entendo porquê, já que sexo é tão bom, tão gostoso, delicioso tanto quanto brigadeiro de colher. Poucos não apreciam, possivelmente somente os celibatários não gostam de sexo. Ainda assim as pessoas adoram condenar o gosto pelo sexo, principalmente nas mulheres desinibidas. Desinibidas. Nós, as biscates e periguetes.

Suellen usa o sexo para cavar o seu lugar ao sol. Acho justo, não vejo nada de errado nisso. Ela usa seu poder. O corpo é dela, o sexo é dela, ela faz como e quando quiser. E leia Suellen aqui como toda mulher que faz o que quiser na cama como, com quem e quando quiser. Suelen poderia ser libertária para o imaginário feminino. Mas ainda assim é perseguida, sua personagem só dá certo porque descamba para o homem. Uma biscate como personagem séria que levantasse a bandeira do sexo livre dificilmente seria querida pelo público como Suellen é. Ainda mais vivendo uma gostosa relação a três ( não vou entra aqui na questão da personagem estar aí para redimir Roni da homossexualidade, o que acho, obviamente, besta).

Mas ainda assim vou defender a biscatagem de Suelen, suas roupas, sua barriga de fora, sua gostosura, seu sexo saindo pelos poros, sua segurança a toda prova de que pode tudo porque seria bom que todas as mulheres sempre se vissem como ela. Poderosas. Sendo uma Isis Valverde ou não, porque gostosura está em se sentir gostosa e usar e abusar dela, dá sim, poder na vida. Poder de ser o que quiser. Suelen é um exemplo de biscate, um exemplo da liberdade feminina de ser o que quiser, muito mais do que libertinagem. Beijo Suellen, te aguardo no final da novela registrando uma união a três.

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