O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

E do amor gritou-se o escândalo

Não só gritou! O escândalo foi pintado, referendado, imposto pelas armas mais covardes da sociedade: a institucionalidade do Estado. Não que se espere muito dessa entidade, mas se deparar  com o avesso, não é só retrocesso, é escândalo!

E não, não sou algum tipo de pollyanna que acredita na dádiva do estado a nós, pobres mortais, nos relegando meras migalhas e direitos que, cremos, podemos ter! É escândalo e contra o escândalo, a luta! E luta, porque se trata de um problema que vai além do estado, trata-se de um problema de reconhecimento, da eterna questão social do reconhecimento.

Conhecer o outro, entender o outro e ver no outro a mesma capacidade, a mesma possibilidade e a mesma disposição e satisfazer direitos e desejos que vemos em nós. Nisso falhamos e falhamos como sociedade, como grupo! A toda miragem de avanço, o escândalo do retrocesso  se coloca frente pessoas atônitas. Atônitas não por acreditarem não ser possível o retrocesso, mas por vê-lo justo onde se deveria garantir sua eliminação.

Impugnação da habilitação de um Casamento Homoafetivo em Santa Satarina

Impugnação da habilitação de um Casamento Homoafetivo em Santa Catarina

Exemplo recente e indigno disso é o documento acima, que se trata de uma impugnação realizada pelo Ministério Público de uma habilitação de casamento homoafetivo. Alheio à determinação do Conselho Nacional de Justiça de se reconhecer qualquer pedido de união igualitária em território brasileiro, o Ministério Público, por meio de seu representante, caçoa do pedido e o faz, como um Representante do Estado, em um Documento Estado, na própria Atribuição de Estado e aí está o escândalo!

Não se trata dos direitos alheios terem o poder, ou mesmo a pretensão, de se impor e querer modificar as consciências individuais, isso não é possível, nem desejável. Qualquer alienação deve ser rechaçada! O problema está em querer fazer a consciência individual explorar e extrapolar o coletivo, ainda que minoritário e alienar pela violência, ainda que simbólica, da ideologia majoritária.

Nessa mesma ótica escandalosa, mas ainda mais grave, encontra-se a Russia. Envolta novamente na sombria teia do controle íntimo da vida privada e retrocedendo ao ponto de legislar sobre a condição de vida a ser evitada pela população: a homoafetividade.

O protesto das atletas, que se vê na foto abaixo, após receberem a medalha de ouro pelo revezamento 4X100 talvez seja a fotografia que, num futuro próximo, iremos mostrar aos nosso filhos, netos, ou alunos como a imagem mais simbólica da luta contra a opressão do Estado que insiste em perseguir politicamente uma condição. E a pura idéia de aplicação de restrições legais (civis, criminais e políticas) por conta da condição de homossexualidade é o escândalo próprio que há muito pouco nossa acabou de rechaçar.

Beijo-Protesto das Medalhistas Russas em Oposição ao Regime de Contenção à Homoafetividade do Governo Putin

Beijo-Protesto das Medalhistas Russas em Oposição ao Regime de Contenção à Homoafetividade do Governo Putin

Beijem, russas. Beijem, russos. Beijemo-nos, nós, brasileiros. Beije homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher. E que o convite abaixo do Laerte seja extensivo a todos, independente de sexo, gênero e orientação, que seja um convite amplo geral irrestrito e biscate! Que nossas demonstrações de amor avancem contra o escândalo, que ele não se pinte em nós!

Solta a Franga - by Laerte Coutinho

Solta a Franga – by Laerte Coutinho

Biscate desde sempre!

#AlmaBiscate
Por Sara Joker

Quando li pela primeira vez o Blog em 2011 quis postar nele, me reconheci em cada texto que lia. Meu primeiro post aqui foi comemorado, divulgado, compartilhado ao exagero. Sou uma Biscate que gosta de mostrar a todo mundo a minha felicidade!

Mas, minha biscatagi vem de muito tempo atrás, quando eu era adolescente. Sempre fui questionadora, mamãe diz que brigava com meus primos pra ter os mesmos direitos que eles. Quantas vezes dava crise com eles só pra poder sair pra paquerar a vontade? E sempre falei no colégio que não existe profissões tipicamente femininas ou masculinas. Não era presa a amores eternos, não sonhava com príncipes encantados (sempre preferi os sapos, eram mais interessantes). Voltando a falar de mamãe, ela dizia que eu me apaixonava a cada semana por um cara diferente, e era verdade! Paixões avassaladoras, como as de novela, mas que só duravam 1 semana, tudo muito intenso, muita dor, muita felicidade, muito riso e muito choro. Passou a semana e, adivinha só? Tinha outro menino (ou menina) na minha cabeça.

Aos 18 anos, época de cursinho, correria, arrumei um “namoradinho” de 15 anos (mamãe sempre me chamou de “papa-anjo”). Como sou Biscate, assumi o papel que a sociedade entrega pro homem da relação. Levava a porta do colégio, ia a casa dele conhecer a família, levava pra sair e, claro, eu que tentava avançar o sinal durante os beijos! Não me lembro o motivo pra terminarmos, mas lembro que sofri exatamente duas semanas! Lembro de ciúme excessivo da minha parte e um equilíbrio excepcional da parte dele.

Nesse momento passei por uma fase de trevas na minha vida Biscate, meu primeiro relacionamento adulto (foi quando eu finalmente amadureci pra me comprometer sem deixar de gostar na semana seguinte). O relacionamento mais traumatizante na minha vida. Quando saí dele, aí me afirmei Biscate adulta! Essa fase de transição entre Biscatagi adolescente e Biscatagi adulta não houve Biscatagi, só sofrimento, conto isso muito bem nesse post aqui. Depois desse relacionamento, nunca mais fui a mesma, revi muitas coisas em minha vida, minha forma de me tratar, de tratar a outra pessoa ao meu lado, de como me impor como indivíduo de vontades. Acho que o que me fez não me impor foi o medo de nunca mais amar. Afinal, demorei tanto pra amar que, quando amei pela primeira vez acreditei que fosse a única vez que amaria na vida. Mal sabia eu que ainda amaria muito depois20121219-234504.jpg disso. Pessoas muito melhores e que compreendiam mais que ele.

O sexo pra mim sempre foi coisa fácil de lidar, sou dessas que não se apaixona quando tem uma noite com um@ amig@ ou uma pessoa que conheço a pouco. Amor e paixão são coisas muito diferentes entre si e do sexo. Fazer sexo sem compromisso nunca foi um problema pra mim desde meu início de vida sexual. Isso assustava os meninos a minha volta, o curioso é que não assustava as mulheres com quem convivi. Me relacionei com poucas mulheres, nunca namorei uma mulher, talvez por ter me apaixonado apenas uma vez por uma mulher e não fui correspondida. Defini que desejo era algo que sentia sempre e nem sempre por uma pessoa que eu poderia admirar, paixão era o que sentia na adolescência, que durava uma semana e amor era algo duradouro, que aparecia vindo de uma amizade com desejo ou de uma paixão que consegui fazer durar mais que uma semana.

Na idade adulta, voltei a minha vida de Biscate, conheci a militância feminista através de uma comunidade de Orkut que militava pela legalização do aborto. Mas, só conheci algumas de minhas colegas de blog graças as minhas andanças pela internet quando militava por meus direitos de bissexual assumida, uma coisa levou a outra e conheci o Blogueiras Feministas em 2010. Como não amar essa vida de Biscate atuante?

Ser Biscate? Aprendi na Igreja

#AlmaBiscate
Por Luciana Nepomuceno

borboleta_pretaborboleta_preta

ilustração_mariamadalena lendo e borboleteando

Ela trepa. Ou não. Só se quiser, com quem quiser, mas não sempre que quer, infelizmente. Essa biscate se debruça na janela, vê a vida passando e faz fiu-fiu pra ela, enxerida e animada. Essa biscate canta alto, lavando a louça, e baixinho, lavando a alma. Porque uma biscate faz essas coisas de quem vive: limpa a casa, cozinha e, vez ou outra, sente o oco no peito e lembra de chorar. Essa biscate troca o dia pela noite, manda mensagem de Natal atrasada e bebe sozinha que os amigos ficaram do outro lado do mar. Essa biscate toma dois banhos por dia e ri de si mesma, tremendo de frio na frente do espelho borrado de vapor. Uma biscate esquece futuros e vive as alegrias que se apresentam. Viaja muito, essa biscate e deixa o olhar se perder na estrada como se fosse em encontros. Dorme de conchinha, vez ou outra, mas não se importa de ficar sozinha. Se sabe ótima companhia e descobre a nova cidade, rindo alto nas esquinas e pedindo cerveja nas pequenas vendinhas escondidas nas ladeiras. Essa biscate paquera no metrô, só pra não esquecer como é. Essa biscate soletra saudade e escreve emails doloridos pro filho. Outros dias não liga pra casa nem pra dar bom dia. Essa biscate passa a noite acordada, consolando a amiga, mas trocou o telefone pelo skype. Essa biscate diz sim. E não. Diz quando, encolhida na cama. Biscate tem cerveja na geladeira e se dedica a aprender outros sabores tão longe dos seus. Tem camisinhas na gaveta ao lado da cama. E livros empilhados no travesseiro. Essa biscate gosta de massagem no pé, banho de mar e mordidinhas ao pé do ouvido. Essa biscate curte palavras de ordem, movimento na rua e de uma série de revoluções por minuto. Essa biscate se preocupa. E se esquece. Dança na rua. Pula de um pé só. Compra guarda-chuva lilás. Essa biscate paga suas contas, paga mico, pede passagem. Samba sozinha, na rua e na lua. Essa biscate é em fragmentos e se faz na beleza de se saber senhora desses pedacinhos todos que, juntos, soletra assim: eu.

Esse texto aí em cima foi inspirado no primeiro post que escrevi aqui pro Biscate. Um e outro dizem da minha alma biscate. Como, aliás, cada um dos que postei por aqui. Entre mulher incrível e biscate, não tive dúvida: biscate. Eu sou biscate. Eu sou o Biscate (e o Biscate é cada um de nós, cada escrevente, cada leitor, cada um que divulga…). Dizer como cheguei a isso é tarefa que não dou conta, se soubesse psicologia e sociologia estavam resolvidas. Sei que me vi em cada post de #AlmaBiscate aqui deslindada. Relutei muito em escrever o restinho que não apareceu ainda. Porque eu sei que é bem esquisito dizer que grande parte da minha biscatagem eu aprendi na Igreja. Aquela mesma, Católica Romana, com um pezinho no ziriguindum cearense.

Uma das coisas que lembro, preparação da 1ª Eucaristia e a Ir. Eneida dizendo: quando Deus quis que Maria ficasse grávida de um filho dele não perguntou pra o pai da Maria nem pro irmão nem pro noivo de Maria. Perguntou pra ela e foi ela quem disse sim… e houve grande regozijo. Aprendi: é a mulher que sabe do seu corpo, da sua vontade e dizer sim é bem gostosinho.

Lembro das aulas de interpretação de texto com as histórias de Rute, Ester e Judite. Foi lá que aprendi: não se deve temer a sexualidade. Nem seu uso nem seu usufruto. Outra coisa, essencial pra minha biscatagem: cada pessoa é única, insubstituível, importante na sua particularidade. Como  diria o Gonzaga: essa égua eu não vendo, não troco, nem dou.

Lembro dos meus pais participando do Encontro de Casais com Cristo, lembro da casa invadida por pessoas em festa, luzes apagadas, todo mundo cantando, o casal valsando e o clima de recordação, promessa e sexo quase palpável no “beija, beija, beija” do final. Aprendi: intimidade é essa beleza.

Lembro do meu padre querido dizendo que depois do primeiro milagre Jesus não podia ver um balde dágua…e se não foi ali que aprendi a rir, foi um dos espaços em que entendi que rir de si mesmo é uma libertação. Foi com a Teologia da Libertação que aprendi o que era uma vaga intuição: o conceito de classe. E que a corda sempre rompe do lado do mais pobre. E, mais ainda, da mulher mais pobre. Foi lá que aprendi que luta rima com prazer. E com corpo que dança.

Lembro das Romarias da Terra, mulheres fortes e sensuais puxando a fila. Lembro dos Encontros de Jovens, todo mundo dormindo nos mesmos quartos, sem diferença de gênero. Lembro de namorar todos os moços do mesmo grupo de jovens e nunca ser apontada, julgada, rotulada.

Nunca fui religiosa, nunca tive aquela centelha, nunca tive fé, a não ser na vida, no homem, no que virá. Hoje, ainda menos, não digo atéia porque nem nisso acredito. Mas lembro. Lembro das palavras que foram ganhando sentido feito desfiar um rosário: liberdade, respeito, diferença, tolerância, gozo. Foi na Igreja que aprendi: o corpo pode, o corpo quer, o corpo é. O meu. O do outro. O da outra. Depois veio Monsieur Freud e outros aprendizados mais, mas isso fica pra uma outra conversa. Bem biscate.

Amostrada

#AlmaBiscate
Por Raquel Stanick

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Não sei desde quando sou biscate, mas lembro que aos dez anos, minha mãe foi advertida por uma amiga que a filha dela estava se “amostrando” demais, nas férias que passávamos em grupo num interior da Bahia. E que se eu continuasse “daquele jeito” iam acabar falando mal de mim. Para quem não sabe, em Recife, cidade onde nasci e morei um bom tempo, uma pessoa “amostrada” é alguém que se exibe, que se “acha”.

Mas vamos ao que interessa e tratemos logo dos assuntos que caracterizam e carimbam uma mulher como biscate. Sexo. E liberdade.

A primeira vez que fiz sexo foi com um cara que havia voltado há pouco dos States, usava brinco de caveira e calça rasgada. Tinha namorada “séria”. Me presenteou quando fiz quinze anos com um solo de bateria cercado de uns amassos leves. Algumas semanas depois perguntei se ele queria transar comigo. Com essas mesmas palavras. De forma direta, sem romantismo ou ilusões de manter algum relacionamento posterior com ele.

Querem algo mais biscate que isso? Pois tem.

Nunca namoramos, mas chegamos a morar juntos na casa da minha mãe, outra bisca de carteirinha, que sempre desejou, acima dos falsos moralismos, que eu fosse feliz. Eu tinha dezesseis anos.

Imaginem o escândalo.DIGITAL CAMERA

Desde então transei com eu queria, quando queria e onde queria. Simples assim. Para mim e pelo menos por um tempo. Algumas amigas passaram a ser aconselhadas por suas mães, mulheres mais “ajuizadas e sérias” que a minha, a não andarem comigo. Passei a ser má companhia. Muitas pessoas da minha família também criticavam abertamente meu estilo de vida, que incluía rock, cerveja, tatuagens e namorados demais, nas suas dogmáticas opiniões. É, os ônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade. Fazendo sexo. Se somos mulheres. E doem sim. Muito.

Falemos deles também.

Conheci o homem que se tornaria meu marido aos vinte anos. O traí. Ele ameaçou me matar. Me assustei mais do que quando era chamada de puta por alguém com quem tivesse compartilhado beijos e prazer no dia, no mês ou no ano anterior. Devia ter algo errado comigo, só podia ser isso- pensei. Tentei me “comportar”, pois. Casei. Vim morar na cidade desse homem. Muitas brigas, anos e violência depois, acabei me separando, quando um dia finalmente me convenci que eu acabaria morrendo se continuasse naquela relação. Nem que fosse de tristeza e murchando aos poucos. Não foi tão simples e quem acha que demorei demais para tomar a decisão não deve saber do que eu estou falando. Exigiu uma coragem que tinha se atrofiado com o tempo vivendo aquilo, que por mais que eu tentasse e diziam-me ser o certo, o que toda “boa” mulher almeja, o que tanta gente invejava, eu não conseguia mais desejar.

A terapia, a Arte e a escrita, essa última refúgio e fortaleza desde a infância, ajudaram-me a tomar essa e outras decisões e reafirmar-me como pessoa, e sim, sim, sim, biscate. Finalmente.

Foi como tal que escolhi largar uma profissão em que ganhava muito bem para tentar viver de cultura e arte. Voltei para a universidade. Mudei completamente de padrão de vida. Passei por algumas necessidades e sufocos financeiros, mas também a entender que o que eu tinha vivido não tinha sido culpa minha. Mas que sim, eu era e sou responsável pelas minhas escolhas e que mesmo errando, risco que corremos em maior grau quando livres de certezas absolutas, eu posso transformar esses erros em sentimentos e ações se não corretas no sentido literal da palavra, ao menos justas para comigo e com xs outrxs.

Também foi através da escrita, dessa vez em blogs, que conheci a Luciana. Estabelecemos uma amizade que só fez se fortalecer em vários encontros regados a cerveja, cidades variadas e compreensão e que rendeu o convite há alguns meses atrás (mentira, me ofereci mesmo. Sou dessas) de escrever por aqui.

Tenho assim, aprendido aos poucos, na prática e todos os dias, sozinha e acompanhada, lendo e escrevendo, pintando, bordando e fotografando o que é ter uma alma de biscate. Talvez eu nunca consiga entender completamente o que isso significa. Mas tenho tentado. Talvez daqui a alguns anos eu consiga. Talvez outras pessoas o façam por mim. Mas o que sei é que enquanto isso não acontece, já ajudei a organizar a primeira Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar também de minha, ministrei palestra sobre Beauvoir no interior do Estado, sobre a própria Marcha por aqui mesmo. Ganhei prêmio como artista, fiz várias exposições, escrevi e aprovei projetos. Minha arte cada vez mais tem se misturado com feminismo e literatura. E com meu próprio corpo. Viajei. Dancei. Usei muito decote, roupa curta e batom vermelho. Fiz outras tatuagens. Gargalhei muito também.DIGITAL CAMERA Alto.

E o Sexo?

Bom, ainda transo como eu quero, quando quero e onde quero. Simples assim. Para mim. Também ando na companhia de gente maravilhosa e que de um jeito lindo aconselham a outras pessoas, mulheres principalmente, a andarem, correrem, trotarem, se relacionarem com quem e como quiserem. É, os bônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade.

Tem como não ter um orgulho danado, desses que não podemos contar sem desnudar também um pouco de nossa história, em ter essa tal de alma biscate? Tem como não se “amostrar” em fazer parte desse club?

E como diz Piaf: “Avec mes souvenirs/ J’ai allumé le feu (…)”

Feliz ano novo, amores e amoras.

Quem tem fama…

#AlmaBiscate
Por Renata Lima

Não nasci biscate.

Me fiz biscate.

Nasci mineira, da tradicional família.

Mas sou ousada (palavras, em tom elogioso, de meu pai).

E por pensar diferente de alguns muitos e muitas, por agir diferente (nem sempre melhor, claro), muito nova, sem mesmo provar o gosto da fruta, já fui tachada de má-companhia.

Decorrente da língua de jovens homens que seguiram (seguem?) o roteiro, de falar mais do que realmente fizeram, de contar como vantagem, o que pra nós, mulheres, tem que ficar escondido.

E o primeiro namoradinho, tadinho, veio com tanta sede ao pote, achando que eu era… galinha, fácil, biscate…

Não era, ainda.

E ele se descobriu namorando uma jovem da TFM, com um pai zeloso e horários para chegar. Depois do primeiro “avanço” e do esclarecimento, o temor de se/me comprometer. E ele saia da minha casa, onde me deixava, virgem, pura, intacta, e ia se encontrar com uma ex (soube disso anos e anos depois, pela ex, imagine que mundo pequeno… realmente, Ovorizonte. )

O fato é que um dos primeiros caras que beijei, em uma festa, num canto, disse pra todo o colégio que me “comera”. E todos acreditaram… menos eu, que só fiquei sabendo mais de ano depois.

A verdade é que a fama não me fez deitar na cama. Pelo contrário. Por mais que eu quisesse, as vezes, temia o momento. Era romântica, jovenzinha, e queria toda a coisa de luz de velas, declarações de amor e um príncipe no cavalo branco.

Vieram príncipes. E sapos. E ogros. E dragões.

E demorei muito, muito tempo, para realmente descobrir o que eu desejava. Desejo: Amor. Respeito.

Sexo.

No fim das contas, com um ou com vários, o que define uma biscate, ao menos para os outros, é uma mulher admitir, em público, que gosta de sexo. E que faz.

Com amor, sem amor.

Mas sempre, com respeito. Respeito por si, respeito pelo parceiro.

Respeito pelos limites e pelos momentos uns dos outros.

Sempre questionei tantos duplos padrões, tantas coisas que meu irmão, mais novo, podia fazer, e eu não. Horários, locais. Mas admito que tive mais liberdade que a maioria das colegas da minha idade. Para as mães delas, eu era muito “solta”.

Hoje, me identifico cada vez mais com o texto da Márcia, biscate convidada, sobre ser Biscate Loser.

Sim, eu sou.

Ainda que não biscateie tanto quanto desejaria (ou quanto as vezes parece que biscateio), minha biscatagem é constante.

E é constante na busca da coerência de não julgar, de não medir outras mulheres (e até homens, claro!) pela mesma régua com a qual fui medida.

Nem sempre é fácil, e as vezes escorrego. Em pensamentos, e até em palavras. Mas me arrependo (sim, Jesus, vem e me chama de Madalena, seu lindo!) e logo volto a persistir no propósito:

Se não veio o anjo e me disse para ser biscate na vida, eu mesma decido e digo que sim, eu sou biscate, prá vida!!

E com a ajuda do super time de biscates super poderosas (e poderosos), sei que vencerei!

Uma Biscate De Família

#AlmaBiscate
Por Renata Lins

 

Pois é, gente. Sou biscate de família, confesso. Não tenho nem muito mérito nisso: a biscatagem corre solta há várias gerações. Da minha bisavó paterna Joana, dita Janinha, pouco sei: mas sei que ela causou escândalo em Areia, sua cidade natal, quando cortou os cabelos curtos, à la garçonne; quando andou a cavalo “como homem”, pernas abertas, e não de lado. É ou não é para ter orgulho?

Minha avó Maria, filha dela, parecia extremamente comportada. Silenciosa, ponderada, elegante. No entanto, botou os filhos – sob reprovação de boa parte da família católica – no Colégio Americano Batista do Recife: o motivo? Queria que seus filhos estudassem em colégio misto. Só tinha aquele. Minha avó não gostava desse negócio de homem prum lado, mulher pro outro. Quando resolveu deixar de pintar o cabelo e assumir o branco, foi no cabelereiro e pediu pro cara passar a máquina. A um. Essa eu me lembro. Tem foto linda da minha avó, toda sorridente, cabelinhos espetados. Minha avó só fazia o que lhe dava na telha.

De tia Sônia, irmã do meu pai, vou falar pouco aqui: dia desses faço um post só pra ela. Basta contar que ela foi presa e torturada pela ditadura. Guardou sequelas, mas não arrependimentos: nunca, nunca na vida vi minha tia dizer que deveria ter feito outra coisa. Tia Sônia, digna herdeira da linhagem Janinha-Maria. Dona do seu próprio nariz. Apesar do sofrimento.

Minha mãe? Biscate 100%. Das seis filhas do meu avô Pimentel,  a única que foi para a  faculdade: imagino que pra isso deva ter cantado meu avô, que esse era o jeito da minha mãe conseguir exatinho o que queria (e isso, eu, que bato de frente, nunca aprendi). Minha mãe que tinha sido proibida pelo meu avô de namorar tal ou qual sujeito, e combinou com a madre superiora da sua escola que iria ver o rapaz ali mesmo, na escola. Com o argumento razoável que ela iria vê-lo de qualquer jeito: será que a madre superiora não preferia que fosse sob as vistas dela? Minha mãe morena e seus microbiquínis, suas gargalhadas. Biscate toda vida. Casou com meu pai por procuração, porque ele já tinha saído do Recife após o golpe de 64 – e por isso não se formou, já que do casamento eles foram pra Paris e depois pra Argélia, onde eu quase nasci. Aliás, no dia em que saiu da maternidade, foi  a um churrasco… comigo. “Você tava bem, ia mamar, tinha um quartinho onde eu podia botar o moisés”, explicou.

Então, quando chegou a minha vez, acho que não tinha nem muito jeito, não levo nem muito crédito: não há saída senão fazer o próprio caminho, escolher as próprias dores, viver  as alegrias. Conquistar as gargalhadas, soltar o choro.

O que eu demorei a aprender, e que a coragem de vir fazer parte do time incrível do Biscate Social Club me ensinou, foi como é bom dizer-se. Contar-se. Deixar-se ver. Abrir esse espaço pra mais gente. Eu sou do tipo privado, introvertido. Por muito tempo eram vastas emoções e pensamentos imperfeitos guardados dentro. Ou escritos só pra mim, em cadernos trancados. Comecei a escrever “pra fora” porque ganhei um blog de presente no ano passado: obrigada, Cacá! E, pelas redes, conheci as super-fundadoras do Biscate, Niara e Luciana. Primeiro pelas redes, depois pelas ruas: amor eterno, encontro de almas. Mas mesmo assim foi devagar. Fui chegando de mansinho, olhando, visitando. Depois, como biscate convidada. E, finalmente, cheguei de verdade.
Ufa. Achei meu canto. Um canto de militância com muitas gargalhadas. Um canto de liberdade como poucos. Primeiro ano. Lindamente primeiro ano. Vamos mais!

Biscate de berço

#AlmaBiscate
Por Lis Lemos

Era mais ou menos assim que eu queria ser

Era mais ou menos assim que eu queria ser

“Menina não senta de perna aberta” “Menina não brinca de carrinho” “Você tem que se casar virgem” “Se você continuar assim nunca vai arrumar alguém que te queira” “Você pergunta demais, a vida é assim e pronto”.

Talvez eu sempre tenha sabido que nunca fui “moça pra casar”. Aliás, sempre achei meio tacanho essa história de separar as mulheres entre as boas e as más.

Talvez porque a minha linhagem seja de mulheres ditas perdidas, que se esforçaram pouco pra entrar na caixinha que lhe empurraram. Começou na minha bisavó (que até onde sei teve três maridos oficiais) e torço que não pare em mim. Talvez porque minha mãe não tinha marido e nem o meu avô era o marido da minha avó.

Talvez porque uma das imagens que eu guardo na lembrança é de uma propaganda do Domus (jabá, estamos aqui) em que aparecia uma mulher linda, sensual, num vestido vermelho jogando sinuca. Não lembro direito da propaganda, mas eu queria ser igual àquela mulher quando crescesse. (não, eu não achei esse vídeo). Ou talvez porque eu adorasse “Elvira, a Rainha das Trevas”, e queria maquiagem, roupa, e peitos iguais ao dela.

Daí que há um ano eu descobri o Biscate Social Clube e ele foi entrando bem devagarinho (ui, ui) na minha vida. Eu lia quase todos os dias e percebia que esse era (é) o lugar, o blog, o clube que mais bem me representava e onde eu me sentia acolhida. Toda vez que eu lia um texto pensava: “era isso o que eu queria dizer”. Mas, ao mesmo tempo em que adorava aquelas palavras todas, pensava de novo: “ah, eu não teria coragem nunca pra dizer das minhas biscatices por aí”. (Sou tímida e espalhafatosa)

E num lampejo, mandei um texto pra Luciana pra ela ler e ver se rolava de ser publicado aqui. Biscate é assim: se oferece toda! Talvez esse tenha sido meu primeiro ato biscate-consciente: quis me mostrar, me jogar e aceitar tudo o que viesse depois disso. E a Lu-bidinosa fez a proposta mais indecente que eu podia imaginar: “vem biscatear mais nóis!” E eu fui, cá estou. Desavergonhadamente feliz.

Cada post que escrevo e que leio aqui ajudam a forjar essa mulher-feminista-biscate que sou e que vou me tornando e da qual gosto cada dia mais. Que me dá mais prazer, mais alegria, mais tesão, mais força. Nessa troca toda aprendo mais sobre mim e sobre liberdade – palavra cara e apreciada por todxs do clube.

Sempre fui biscate, ainda que só conhecesse o lado pejorativo dessa palavra. E, como eu acredito na “dialética interna do signo” (Oi, Bakhtin) sei que é possível fazer de biscate algo do que se orgulhar. E eu tenho um orgulho despudorado de ser Biscate e de estar no Biscate Social Clube.

Inventário de uma alma rebelde

#Alma Biscate
Por Niara de Oliveira

recorte d'eu, pela lente generosa de um amigo

recorte d’eu, pela lente generosa de um amigo

Por ter colocado o Biscate SC no ar há um ano, poderia, ao escrever sobre minha alma biscate, fazer uma espécie de inventário ou histórico do blog. Cometeria uma indelicadeza ímpar com a Lu e com todxs xs biscas que ajudam a manter essa bagaça diariamente. Mas, não só por isso. Não quero fazer inventário. Pelo menos não do blog. Quero falar de como me sinto quando sento ao computador para escrever aqui. Vou tentar, então, fazer inventário da minha alma biscate, de como sou neste espaço.

Começo dizendo que fiquei toda comovida quando xs biscas escreventes do BSC, ao escolherem um texto de outrx bisca numa espécie de mandala ou amigo-bisca-secreto, escolheram cada um/a um texto meu. Gostei de todos os textos que escrevi aqui, principalmente os que são misturas doidas, confissões e que falam de cinema. Mas apenas o Fernando, bisca convidadx, citou um dos meus queridinhos — estrelinha pra ele! Mas, não vou fazer apenas uma colcha de retalhos citando os posts. Vou justificar a motivação para escrevê-los, porque acho que é aqui que está a minha alma biscate, na motivação, no que empolga, move.

Tiveram textos movidos pela raiva e pela indignação, que foram os mais fáceis de escrever. É como se o que faz a cabeça esquentar e o sangue ferver escorresse pelas veias até a ponta dos dedos. O texto simplesmente flui. Sempre fui adepta das discurseiras, do dedo em riste, do peito estufado de razão. Foi-se a época em que subia no banco para me fazer ouvir melhor, e hoje me restam apenas as redes sociais e os blogues. Rá!

Os textos movidos pela admiração e prazer são os que envolvem, adivinhem..? Po-lí-ti-ca! É fácil escrever sobre política, embora eu fique cheia de #mimimi se vou cometer algum deslize (e eu sempre os cometo). Porque política é isso, erro e acerto, na mesma medida. Nem sempre um, nem sempre o outro, é aprendizado, negociação, mediação e, principalmente, construção. Não existem verdades a serem ditas, mas debate a ser feito (não esqueça de ler os comentários). E como eu gosto disso tudo! Me deleito e me lambuzo toda, como na humilde homenagem a minha musa biscate Pagu, que deu trabalho mas deu muito prazer também.

E quando misturei política com biscatagi não foi nada, porque teve texto que escrevi pura e simplesmente para biscatear. Usei mesmo o espaço para mandar recados, e eles foram recebidos (teve até comentário para comprovar)… Mas, claro que esses eu não vou linkar, até porque estão misturados com as tantas receitas que postei, e das receitas a minha preferida é uma que mistura comida com indignação e o debate sobre valores construídos, e porque além de fazer a receita beuba, eu escrevi o texto beuba, e embriagada estava no encontro lindo com a Lu e na primeira reunião da gerência da biscatagi e naqueles dias de outono em que tudo foi celebração. Teve celebração em outros encontros com a biscatagi escrevente e com a biscatagi da vida, e que tinha até cantada (brega, claro) e que não teve um comentariozinho sequer… #chatiada

Teve texto sobre moda misturado com receita, texto sobre política misturada com gramática, texto sobre outras lutas, paixão pelo futebol, teve receita safada e até gramática biscate…Tiveram os textos escritos a quatro mãos em parceria com a Lu. Três deles foram especiais: Estupro não é sexo (biscatagi séria, porque a violência de gênero é ampla e democrática e é preciso combatê-la SEMPRE), Pingos nos Is, ou o que é ser biscate (serviu para comemorar nosso primeiro mesversário), e o post mais divertido ever de escrever… “Você escolheu errado o seu super-herói” (basta ler para ouvir nossas gargalhadas). Teve texto dolorido também. Em que o debate não foi exatamente fraterno e eu me senti muito sozinha e foi difícil não responder na medida em que sentia atacada. C’est la vie!..

Teve coisa à beça. E sinto que ainda falta muito. Muito do meu ser biscate, das gargalhadas que dou ou da raiva que passo enquanto estou escrevendo e que não consigo colocar em letrinhas no texto, das minhas lutas e indignações tantas… Ainda terá muito de mim por aqui.

Estou/tamos apenas começando. 😛

e se alma biscate tivesse música, essa seria a partitura...

e se alma biscate tivesse música, essa seria a partitura…

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EM TEMPO: Aproveitando… Vou escolher agora os textos dxs outros biscates escreventes que mais gostei, um de cada.

Luciana — Não Tem Graça (não tem mesmo, e a Lu desenhou direitinho)

Renata Lima — Biscate Absoluta (para jogar no chão os preconceitos todos)

Cláudia Gavenas — De você para você mesma (porque perde-se o pudor a partir de si)

Silvia Badim — Yes, nós temos barriga! (aceitação é tudo para auto-estima)

Renata Lins — O monstro de olhos verdes (aceitar as contradições é o primeiro passo)

Augusto Mozzein — Antibiscatista (sobre recalques… nossa antítese?)

Raquel Stanick — Tá combinado! (dose homeopática de noção)

Lis Lemos — A escolha de Ana (pingo no i)

Bete Davis — As regrinhas ou você não é o síndico (dose cavalar de noção)

Sara Joker — Só fico com quem eu quero! (uma tonelada de noção)

E repito o trecho que escrevi sobre o texto preferido de biscate convidadx, que serviu como homenagem e agradecimento pela belíssima participação de todxs… Porque amo de verdade esse post e ele é o meu preferido entre todos os textos do BSC:

Nesse um ano de BiscateSC foram muitos os textos que gostei de ler e escrever. O BiscateSC pra mim, para além do trabalho que dá co-gerenciá-lo, é só prazer. Entre os textos dxs biscates convidadxs, dentre os quais tenho que escolher APENAS UM, também foram muitos que se encaixaram na série “os textos que gostaria de ter escrito”. Mas teve um em especial que me ganhou desde o primeiro parágrafo. Quando o terminei de ler, sabia que ficaria para sempre entre os meus favoritos. Não só porque traduz o BiscateSC — o que somos e queremos e o que não somos e o que não queremos –, mas porque aponta para o surgimento da opressão e do machismo nas nossas vidas. Mais do que isso, ele é uma ode à rebelião contra a opressão, de forma prática, concreta. Quer saber como ser uma Mocinha de Valor? Ou melhor, quer saber como NÃO SER uma Mocinha de Valor? A linda da Renata Corrêa ensina de forma clara, direta e objetiva.

Amo vocês tudo, biscas! ♥

Prefácio

#Alma Biscate
Prefácio, Cláudia

curtirTudo começou com um curtir, lá no Facebook. Lembro perfeitamente do dia em que a Luciana postou o primeiro texto por aqui. Daí, ela me disse algo como “Cláudia, para de curtir só e si joga”. Me joguei mesmo e aqui estou, feliz como nunca. Mas não foi tão fácil assim assumir (compreender se encaixa melhor, acho) essa biscatagi toda.

Tive um medinho. Aliás, um medão. Porque a palavra biscate assusta(va). Porque eu, em outros tempos, quando ainda era aquela garota que se fechava quase que totalmente para o novo, jamais aceitaria ser comparada com uma… biscate. Biscate para mim era algo ruim, algo que não poderia me trazer qualquer aprendizado. Algo do qual eu deveria manter distância. Que bom que não mantive distância daqui. E que bom que eu aprendi o que realmente tudo isso significa.

liberdade2Se eu fosse enumerar todas as experiências pelas quais passei depois que percebi a mim e aos outros como livres, não teria espaço neste texto em que tentarei ser sucinta. Mas foi muito transformador. Foi transgressor. Fez de mim uma garota muito mais forte para lutar e acreditar não apenas em minha liberdade: proporcionou a oportunidade de ver a vida com a leveza que preciso para seguir em frente. E me fez aceitar melhor e de forma mais verdadeira as inúmeras diferenças de pensamento e de escolhas que podem existir entre as pessoas.

Alma biscate hoje significa para mim o poder de se reinventar. Libertar-se das próprias convicções todos os dias. De se renovar. De transformar a si próprio e contribuir para que o mundo mude, ao menos um pouquinho. De fazer a cada dia um novo prefácio.

E que assim seja até que a minha breve vida termine, com boas lembranças e com a sensação de que tudo valeu a pena.

O Mapa Natal do Biscate

MapaBiscateSC

Sol em sagitário, que é pra lembrar que o Biscate tem por trás uma filosofia de vida, uma forma de se apresentar que é um ensinamento, um aprofundamento do olhar. Sagitário é sábio e com ele a gente aprende. Com ele também, signo de fogo, a gente se engaja para ir “ao infinito e além”. Bora? Na casa VIII, casa de submundos e desapegos, de morte e renascimento. Morte de idéias preconcebidas, transmutação em novas formas de pensar.

O ascendente tá em Touro, um dos dois signos regidos por Vênus/Afrodite: o outro é Libra. Mas enquanto a Vênus libriana é esteta, toda elegância, a taurina é a sensual por excelência, a deusa do prazer, do tocar, do encostar, do … biscate, né? O ascendente Touro, de pés no chão fincados na terra, teimosamente, persistentemente, nos lembra que nada do que é do corpo e do reino dos sentidos nos é estranho. Lamber, cheirar, provar, roçar, esfregar-se… verbos taurinos. Biscatemente taurinos.

A lua, essa, é de Virgem: virgem dos pequenos gestos, da delicadeza, dos finos bordados e dos sutis artesanatos. Virgem obreira, exaltando no cotidiano a simplicidade do que é básico. O que é básico pra mim, pra você? Virgem analista, separando o joio do trigo: o que é ser mulher, o que é ser biscate. O que não é. O que quer dizer assumir-se biscate. Lua conjunta a Marte, o deus das batalhas: lutadora. Porque a gente segue gargalhando, mas não é todo dia fácil. Tamos na luta. Marcando posição. Negando, desde o princípio, a falsa dicotomia “biscate X mulher para casar”. Somos biscates pra casar: se quisermos. Se.

Vênus, regente do ascendente, está em Capricórnio, altaneira: lá em cima no céu, quadrada a Júpiter e Saturno. Pra reforçar que é preciso coragem pra seguir viagem quando a noite vem. Que é preciso ter força, é preciso ter graça, é preciso ter gana, sempre. Maria Maria mistura a dor e a alegria. A gente monta a tenda, a gente faz o fogo, a gente se junta, a gente se esquenta e arregaça as mangas: é muito trabalho pela frente ainda, nesse mundão machista de meus deuses. Mas a gente não arrefece: Capricórnio sabe que tijolo com tijolo, num desenho mágico, a gente chega lá. Andando. Sob o sol, andando.

E, pra fechar esse mapa em pinceladas da estrutura essencial, o Meio do Céu: Aquário, por suposto. Aquário, signo da liberdade, das transformações, da fraternidade e das revoluções. Aquário que diz que do nosso jeito é melhor: que não vale forma pronta, molde comprado, feito pra outros e por outros. A gente faz como a gente sente, como a gente intui, como a gente vislumbra. Do nosso biscate jeitinho. Só nosso. Livre. E bagunçando essa festa, à base de gargalhadas.

Do muso Laerte - sugestão da bisca convidada Patrícia Sampaio

Do muso Laerte – sugestão da bisca convidada Patrícia Sampaio

***

Agora, na contagem do “nosso time” fixo, um panorama astral do Biscate, pelos signos solares de cada um:

Peixes -I

Capricórnio -III

Touro -II

Cancer -I

Sagitário -II

Aquário – I

Libra -I

O nosso clube, como visto acima, tem: Sol em Sagitário, Lua em Virgem, Ascendente  em Touro, Vênus em Capricórnio.

Capricórnio: o signo da Vênus é  que tem mais gente, e nem surpreende… é o da nossa musa inspiradora Ni de Oliveira, e também do bisco Augusto e da Lis.

Lua em Virgem: oposta exatinho ao sol em Peixes da Borboleta Lu, as pernas do projeto. Contraponto e equilíbrio.

Touro (signo do ascendente) e Sagitário (do sol) têm dois cada um: em Touro, a Raquel e eu (Renata Lins); em Sagitário, a Bete Davis e a Silvia Badim.

Libra, o outro domicílio de Vênus, trazendo elegância, ponderação e senso estético para o time, com a Claudia.

Cancer da xará Renata Lima: a casa natural da Lua, o signo que conforta e acolhe, e aconchega.

E  o Aquário da Sara, signo do Meio-do-Céu, lembrando pra todo mundo que a condição da biscatagi é ser livre. Livre de corpo, mas também de alma, aquarianamente.

 

Corpo Livre – autor: Flavio de Oliveira

Quem Ama o BiscateSC Levanta a Mão

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Como diria o Chico: foi bonita a festa, pá…mas com um errinho de tempo verbal. Não foi, ainda é. Porque biscate não faz por menos e deixa os festejos se estenderem até surgir a questão: é uma festa que não termina nunca porque está sempre começando ou não se sabe quando começa porque não lembra de acabar? (sim, nós lembramos do Programa legal sobre a Bahia).

Já tivemos, nesse furdunço comemorativo, a retrospectiva dos posts que nós, biscateiros-escreventes, mais curtimos esse ano, as respostas aos motores de busca mais inusitados, tivemos as mensagens dos biscxs-convidadxs, o nosso strip tease coletivo de fim de mundo…e hoje é dia de curtir um pouco a interação com nossos leitores, comentadores e afins.

É uma delícia quando passamos na nossa página no FB e encontramos algum leitor mais costumeiro marcando umx amigx e dizendo: lê esse, é a tua cara. Bom saber que tem gente cara de biscate por aí. E é igualmente saboroso receber mensagens dizendo: comecei a ler o blog por acaso/por curiosidade/por x motivos que não seja identificação e com o tempo fui me descobrindo biscate, compreendendo mais minhas vontades e inquietações.   O Biscate se anima de ser um espaço coletivo, de diálogo, interação e aprendizado constante. E devemos isso, além dxs nossxs biscxs convidadxs, aos leitores.

Aos leitores, esses lyndos, nosso obrigada. Aos leitores de fim de semana, obrigada. Aos leitores que chegaram por acaso, foram ficando e voltam sempre, obrigada. Aos que passaram uma vez, curtiram um post e o divulgaram, obrigada. Aos que lêem quando podem, obrigada. Aos que tratam o blog como a um amigo querido e distante, que se frequenta uma vez por ano mas lembra-se sempre com carinho, obrigada. Aos leitores que tem seu bisca-escrevente preferido e só lê quando é ele que escreve, obrigada. Aos que lêem tudo e acham que todos os posts são escritos pela mesma pessoa, obrigada. E um obrigada com xêro no cangote e cafuné, aos queridos que passam aqui diariamente, aos que comentam, aos que divulgam.

E nessa semana de celebração, andam fazendo a festa com a gente no twitter: Lucia Freitas ‏@lufreitas, Suzana GuaraniKaiowá ‏@sudornelles, Cristiane ‏@_Cris_Rangel, Escrever dói ‏@fuiobrigada, Patricia ‏@SampaioPatricia, Cadu ‏@cadulorena, Márcia ‏@fimdepapo, Deh Capella @dehcapella, Silvia Sales @silviarsales, Miss Beauvoir @missgarden, renata correa ‏@letrapreta, Chico Tiago ‏@FTiagoCosta, Brukmüller ‏@PaulaBruk, Black soul Foda ! ‏@Jorge_Maravilha, Aline França ‏@lili_france, Maria S. Magnoni ‏@Salmagnoni, Dani Bispo Guadalupe ‏@lelibispo, Marcos ‏@marcosfaria70…

Festejaram em comentários gentis na nossa página no Facebook: Lilian Angel, Alessandra Trindade, Carolina Simões, Welber Santos, Fernando Amaral, Carlos Alberto Heillman, José João Louro, Aureliano Monteiro Neto.

Responderam nossa perguntinha e escolheram seus posts queridos deste ano:

Mone Gardênia: Uma Mulher Casada Incrivelmente Biscate.

Adriana Torres: Quem Não Curte Um #Brega?

Soraya Souza Guarani-Kaiowá: Biscate Casada

Selma Carvalho:  Viver, Nossa Maior Oportunidade

Welber Santos: Não Posso Ficar Nem Mais Um Minuto

E aqui, na caixinha de comentários do clube, tivemos a Alessandra falando da programação de aniversário(Que maravilha! Já fiquei toda animada para comemorar o aniversário deste querido clube. Vida longa para o BSC! <3), Gi. Somente Gi comentando nosso post sobre os motores de busca (Eita que a festa tá danada de boa! Li num fôlego só, texto gostoso e arretado!! Eu sugiro que a mulher não se comporte na cama, que seja insubmissa aos comportamentos previamente planejados, “no se reprima, no se reprima”!! Parabéns às biscas e ao Biscate social club, amor eterno!), também sobre os motores de busca, Maria S. Magnoni (Eu ri tanto que cheguei a chorar, de rir, lógico! È muita biscataria pra um post só!! <3) e Mari Biddle que além de dar uma resposta mara pra um dos motores de busca ainda trouxe sugestões (Ri muito e esse post deveria virar uma coluna semanal aqui no biscateiro). Comentários também de Aline França (LOL é cada doideira. Morrendo de amores por esse blog. Sempre!), Danieli (Muito bom! Adorei! Sem contar o que ri! Mas #TrazemosOCuAmadoEm3Dias é a hastag! Hahahaha), José Wagner (Putz,que texto!confetes,serpentinas,poesias….Como não gostar das e dos BISCATES?), Isabela Casalotti (Caramba!!! Um ano já?!?!?!?!? Ai ai, essa vida voa mesmo, só sendo biscate pra conseguir aproveitá-la. Parabénsss!!! Esse blog é mara tem um lugar bem especial no meu coração!).

Tem também os comentários que parecem abraços da Iara Paiva, da JuFinaFlor, dos biscxs convidados: Dandi, Cris Rangel, Tiago Costa, Mari Biddle, Miss Garden e a interação divertida com os comentários dos biscas-escreventes: Augusto, Charô, Lis, Luciana, Niara, Renata Lins, Sara e Silvia Badim.

Vem pra festa você também, deixe seu comentário, escreva um texto para o clube, leia, divulgue e torne o mundo um lugar mais divertido 😉

 

 

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