Rotina

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Chico Buarque – Cotidiano

Acostumei com o meu todo dia, acostumei a ser sempre comum. Todos os dias eu estou ali, pronta pra trabalhar, pra estudar ou ir malhar. Parei de me questionar, de me perguntar se essa rotina me faz bem. Parei de ser quem eu deveria ser, uma pessoa incomodada. Costume.

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Quando alguns acontecimentos me fizeram acordar. Comecei a não suportar o costume, não suportar o meu lugar comum de todos os dias, o trabalho enfadonho, o estudo estilo “comer livros”, sem pensamento crítico, sem vontade alguma. Comecei a me cansar das unhas feitas com decorações, grandes e chamativas, cansei do cabelo comprido. Não que eu tenha decidido mudar tudo de uma vez, mas comecei a mudar aos poucos. Depois que adoecemos, nos compreendemos frágeis, incertxs. Não me via mais ali, não me achava e eu precisava muito de mim.

Precisei me ver doente, sem um monte de coisas pra fazer pra compreender que faltava eu acordar e me perguntar: tá tudo do jeito que eu quero? Minha vida tá indo na direção que desejo? Será que tô protelando coisas necessárias em minha vida por medo de mudar? Porque não tentar algo no susto, no chute? Fiquei sem emprego, porque não trabalhar de freelance? E o mestrado? Porque não voltar aos planos de estudo de antigamente, de antes desse emprego louco que tive?

Chegou a hora de sair da rotina, antes que ela me engula e eu vire mais um número. A rotina é gostosa, mas, pra mim, tem que ser moderada. Tem que ser a rotina do dormir de conchinha, do tomar uma cerveja toda sexta, de tirar uma hora do dia pra fazer nada, de estudar por amor e pra absorver coisas novas. Rotina sem pensar, pra mim, não dá.

You are only coming through in waves
Your lips move but I can’t hear what you’re saying
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons

Now I’ve got that feeling once again
I can’t explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

Pink Floyd – Comfortably Numb

Bem Maior

“O maior inimigo do bem é outro bem maior”
(Quevedo)

 Eu sou do time que não espera nem acredita em um bem maior (oi, tem mais alguém aí?). Não acredito em finais felizes, em fim da estrada, em linha de chegada. Não acredito no fim das mazelas, no mundo perfeito, no enfim, em alcançar o horizonte sonhado. Eu sou das miudezas, indo da gentileza de desconhecidos à busca da regulação social crítica e contínua. Sou da busca do melhor possível, agora e já. Pras pessoas do hoje. Acho que a valorização do bem maior pode trazer, junto, a noção de que o que se é feito pra atingir aquele bem, mesmo que machuque alguém no caminho, tá valendo. Bom, eu acho que não está.

E é por isso que sou implicante. É por isso que pergunto, que me pergunto. É por isso que não, não acho que as boas intenções devam ser o meu critério último. É por isso que me apego ao dito. Não ao que a pessoa quis dizer, mas o que ela disse. E porque disse. E a quem disse. E me pergunto e me apego ao como ouvimos. E porque ouvimos alguém e não o outro. E todas essas implicâncias que me fazem parecer mesquinha e tacanha e limitada (e não nego que posso ser – ora, que muitas vezes sou – isso aí mesmo). Porque acredito que a materialidade das relações passa e é ultrapassada pela linguagem (e, dialeticamente, a linguagem é construída na e pela materialidade). Eu não sou condescendente porque eu não vejo a vida melhor no futuro, eu quero que ela seja, hoje e agora, menos dolorida.

Por outro lado (ou pelo mesmo, nem sei), um dos meus compromissos comigo mesma é exercitar um olhar generoso. Um olhar generoso pra mim. Pros outros. Não julgar a pessoa (tem relação com esse texto que escrevi no BiscateSC). O olhar generoso implica em não nomear ou rotular a pessoa. Suas ações, suas ideias expressas, sim, me permito e acho necessário discutir, criticar, mas não limitar a pessoa a isso que fez ou disse ou aparenta. O olhar generoso lembra que somos mais, bem mais que um dos nossos aspectos, mesmo o mais admirável ou hediondo. Nem sempre isso é bem entendido. A gente diz: sua atitude foi machista (ou homofóbica, ou racista, ou transfóbica) e a pessoa entende que estamos dizendo que ela é assim. Cristalizada. Quando a vida é tão dinâmica, né. Não é uma questão de etiquetar, mas de problematizar. E, acho eu, ouvir é sempre um bom negócio. Antes de se sentir chateado, ofendido, antes de retorquir, tentar ouvir. E aquele lance lá de cima: saber quem fala, de onde e tal. Reconhecer que somos socializados pra repercutir opressões é um outro passo necessário, acho. Reconhecer que por mais que a gente se esforce, vamos enfiar o pé na jaca muitas vezes. Reconhecer que por mais que a gente tenha sofrido uma injustiça, uma violência, uma ofensa, isso não apaga ou anula os tantos outros privilégios que temos. Reconhecer que o que nos parece uma resposta desproporcional muitas vezes é a resposta de quem recorrentemente passou e passa por uma situação violenta que repetimos mesmo sem querer. E que não é porque eu “não quis dizer/fazer isso desse jeito” que o que foi dito/feito não ofende, não dói, não machuca.

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Acho que tão ou mais importante que ter em mente a meta é cuidar da estrada e do passo. Olhar pro lado, aproveitar a viagem e as companhias. Curtir os meios. Cuidar deles. Fazer mediações. Parar de vez em quando, revisar rotas, olhas mapas, recriar percursos. Descansar. Celebrar os avanços.

Eu caminho devagar. E, às vezes, paro pra respirar. Errei e erro muitas vezes. Mas vou tentando. Sigo tentando. Porque eu não quero chegar naquele horizonte idealizado, não me submeto ao bem maior, mas acho que caminhar até um encontro no bar da esquina, inclusivo, reflexivo e biscate, é bem atraente.

Separação e Sofrimento

Por esses dias vi, na TL de uma pessoa querida, esse link que rendeu uma boa conversa. Uma fotógrafa registrou mulheres depois do fim de um relacionamento. E é tão bonito na imensa tristeza e melancolia que transmitem. Esteticamente encantador.

Dá pra lembrar tanta coisa bonita assim, nesse mote, né? Elis Regina cantando Atrás da Porta, o livro A Dama das Camélias, o filme sobre Camille Claudell, Fafá de Belém batendo a real em Abandonada. Sem falar na loucura de Ofélia. Pra completar temos as incontáveis matérias em revistas femininas tratando do tema: como a mulher pode abandonar a tristeza do fim de um relacionamento, como superar, dar a volta por cima, etc, etc, etc. Se você colocar no google: “mulher fim relacionamento” vai ver a profusão de resultados.

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Daí que me bate a inquietação. Essa narrativa única que relaciona mulheres e sofrimento no término das relações. Onde estão os outros sentimentos? E não digo só o riso, embora ele também. Onde a raiva? Porque tão poucas Medéias? Onde o prazer da liberdade? Onde o alívio? Onde o medo do futuro? E, claro, a fotógrafa não tem obrigação de dar conta de todos os registros, já não estou conversando sobre este trabalho especificamente. Mas entender que este trabalho se inscreve em uma tendência majoritária de tratamento do tema. O discurso geral, homogeneizante, uniforme e autorreferente é: as mulheres sofrem no fim dos relacionamentos. Parece que esse é o único caminho, o único sentimento possível para a mulher: lamentar o fim do relacionamento. E, aparentemente, como passiva. Porque tanta tristeza só faz pensar que ela não decidiu. Foi decidido por ela. Objeto da solidão e não sujeito dela.

Não é que eu esteja negando o sofrer. Eu também sofro, às vezes. Eu escuto Maysa, eu canto Dolores Duran. Eu assisto Casablanca e Suplício de uma Saudade com o propósito específico de reviver a solidão e dar sentido à ausência.  Não sou nada contra a estética da dor. Nem questiono a identificação. Mas eu acho cruel que seja a narrativa não só principal como única que se possa ter de um momento do relacionamento. E acho que é o ampliar das possibilidades de sentir que enriquece a vida. Porque o registro: mulher que sofre por ser deixada sozinha é, não só o registro mais escolhido para ser feito mas também o mais divulgado. Não precisamos reivindicar espaço para a tristeza, ela já é a norma.

Eu estou pra ver o foco de fim de relacionamento pra mulher no cinema, na música, nas fotografias que não seja essa ideia aí de solidão e dor e sofrimento, E, olha, digo por experiência própria que nem sempre é tristeza. Mesmo quando o relacionamento era bom. Especialmente quando era. Pode ser riso, inclusive conjunto. Mas não achamos que seja porque não aprendemos que pode ser assim. Não há, significativamente, fotos, relatos, músicas nem filmes que desvelem outras possibilidades. A narrativa única é que me irrita. Porque molda. Porque faz com que as mulheres acreditem que TEM que ser triste primeiro pra depois ser riso. Não tem não. Pode ser alívio, pode ser reencontro, pode ser qualquer coisa. E mesmo quando é tristeza tem intervalos. Mesmo na dor e na angústia tem o abraço do amigo, as compras de calcinhas novas com a amiga, tem a trepada casual do fim de semana, tem aquele riso leve diante da salada de frutas com sorvete, tem sair pra cortar o cabelo. Tem vida. Tem respiros e não só o encarar o vazio e chorar na cama. Como a gente pode aprender outro lugar se só nos oferecem esse?

Claro que ninguém chega pra uma menina e diz que romper dói e ensina: olha, menina, você vai ser mulher e vai sofrer sozinha sempre que acabar um relacionamento. Mas ninguém chega e diz pra gente que tem que ser magra, alta, branca, jovem e de cabelo liso pra ser bonita e desejável, assim como ninguém chega e diz que mulher direita não goza – e mesmo assim a gente aprende isso. Porque é o que está por aí, no senso comum e representado esteticamente. Porque eu acredito que a gente vai dizendo o que aprendemos a dizer e a sentir, né? Pelo menos a maior parte das experiências não é de admoestação direta. É de construção simbólica. Então o “nosso sentir” não é um dado de essência imutável. É uma construção subjetiva a partir de narrativas sociais e vivências.

Não estou dizendo que sofrer não tem espaço e razão de ser. Claro que sim. Doer faz parte de ser humano. A falta é estruturante da nossa subjetividade. Sermos incompletos é, justamente, o que nos faz ser – e as experiências de separação são o reviver dessa angústia. Mas o sofrimento não é o único sentir proveniente dessas experiências – mas muitas vezes é o único que aprendemos a nomear e a dar concretude. E aquela borboleta na barriga? Alívio? Excitação? Curiosidade? Alegria? E tanto espaço, tanta vida pra viver, que outros sentimentos nos podem acompanhar? O que podemos escolher, para além do que já escolheram pra nós?

Pra mim é como o lance da beleza. Tem que ter opção. Tem que ter todo tipo de corpo nas capas de revistas, tem que ter todo tipo de rosto nas telas, tem que ter todo tipo de gente pra gente poder sentir, verdadeiramente, que nosso corpo é válido. Tem que ter pintura, filme, fotografia, música, cartaz com mulher vivendo as separações de várias formas para além do sofrimento pra gente poder aprender que nosso sentir é verdadeiramente válido e aceitável.

Reinventar a narrativa. Ser protagonista. Escolher o riso e o bom. Minha bandeira.

Lidando com Nevascas

Angústia não pede licença. Não manda aviso. Não precisa de batedores. A angústia mora no sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando lhe dá agonia de ser ela mesma, ela, a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa. Percorre-me, em corredores que se tornam sombrios, lâmpadas que amarelam os cantos e aquele vento frio que assovia como a manter acordado o desespero. Ela, a Angústia, em seu desbotado estar, se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Corto cebolas pra nos alimentar e não confessar minha entrega. Ela revira os armários e desordena o tempo que eu pensava meu. É sempre frio por dentro quando a angústia faz a ronda.

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Pra sentir-me melhor e reconduzir a angústia pra seu embolorado sótão – porque embora ela só vai quando vamos todos: sonhos, esperanças, amores, alegrias, suspiros, até o último – tem que ter comida que conforta. E, como todo mundo sabe, há 3 coisas que fazem a vida ter sentido: açúcar, gordura e fritura (rá, vocês pensaram que eu ia dizer sexo, né?). Então, comida que conforta deve ter pelo menos um desses ingredientes. Se eu fosse de doces, abria logo uma lata de goiabada, uma caixa de chocolates ou fazia essa receita da Niara. Como não sou…

…quando é frio em mim, faço coisinhas. Tipo bruschetta (já disse como faço as minhas aqui mesmo nesse blog). Ou corto cubinhos de queijo coalho, tempero com azeite e ervas finas e coloco um minutinho no microondas. Linguiça no forno com mel pra comer com pãozinho de leite. Torrada com patê, farinha de castanha com queijo gorgonzola e uma taça de vinho branco seco. Ou os quitutes que outras biscas já fritaram e garantem.

Mas se é nevasca no peito, apelo. E convoco Ele. Isso mesmo. Bacon. Com carboidrato, então, é batata (#trocadilhoinfame). Deixa ele chegar como for. Em quadradinhos que se juntam ao gorgonzola e envolvem o penne (quase, quase #12anos), em fatias finas torradas com ovo pra acompanhar as torradas, com cogumelos dando novo status ao arroz cremoso, pode ser com requeijão e cebola no recheio de uma torta rápida com massa de pizza… pode ser envolvendo, amorosamente, nosso rocambole de carne. Pode, pode, pode, desde que seja ele, a frigideira e aquela crocância que faz, de quase todo mundo, um devoto fiel.

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Um dos jeitos mais legais: pega aquelas batatas miudinhas e coloca pra cozinhar por uns dez minutos em água temperada com aqueles tabletes de caldo de bacon. Depois faz uma pasta com manteiga, azeite, alho amassado, pimenta-do-reino e mais as ervas que você curtir. Passa nas batatinhas com vontade. Luxúria. Deixa a batatinha lambuzada. Aí embrulha com aquelas fatias finas de bacon, prende com palito e coloca no forno por mais ou menos meia hora (até o bacon ficar crocante). Se não tiver a batatinha miúda? Ué, biscate improvisa. Cozinha a batata maior conforme indicado, amassa como se fosse fazer um purê, faz as bolinhas, espalha a pasta e cobre com os bacons da mesma forma.

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Se não resolver com bacon, bom, aí só com sexo mesmo ;-)

A fórmula única – garrafas aos mares

Tem dias que tudo é dúvida. Todo dia, na verdade, é dúvida. E eu penso se estou me perdendo em batalhas perdidas, afundando em derrotas e amarguras.

Tem dias que é Adelir, grávida e em trabalho de parto, sendo arrastada no meio da noite, com um mandado que violou não só a lei federal, a Magna Carta, mas a mais fundamental parcela de dignidade de um ser humano: autonomia.

Tem dias que é brigadeiro de colher e carne moída com batatinha, sabor de colo e aconchego.

Tem dias que a inspiração não vem, sobre nada. Tudo de profundo e relevante já foi dito, por alguém que diz melhor que eu o que eu quero dizer. E só cabe compartilhar, curtir, curtir mil vezes, postar dez vezes o texto fantástico que, olha que fantástico, as vezes foi escrito por gente que eu conheço e gosto pessoalmente.

Essa internet é muito boa, no final das contas. Se permite que grupos de ódio se propaguem, garante também que nós possamos denunciar.

Se permite que personagens caricatos à esquerda e à direita se revelem, de forma anônima e invisível e covarde, garante que a gente possa se juntar, dez doze vinte cem, e formar nossos coletivos de amor. Nosso clubinho.

Sabem, mesmo quando a gente acha que não tem ninguém lendo, nem se importando, a gente pode estar sendo aquela garrafa lançada ao mar e encontrada pelo náufrago, à deriva ou nem tanto. As vezes somos todos náufragos. As vezes o mar é terra firme e concreto, e estamos à deriva.

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Ontem eu li um artigo de um blog sobre criação de filhos com apego. E foi logo depois de ter lido um amigo postar aquele quadrinho da Super Nanny.

E como é que a gente fazia antes, quando não tinha tanta “corrente” dizendo como é que devemos ser/estar/parecer? Como a gente criava filho?

A Deborah Leão respondeu lindamente à minha angústia: “Antes era assim: você fazia como a sua mãe. E cada mãe fazia de um jeito, mas a gente não sabia bem disso. Algumas coisas davam mais certo, outras davam mais errado, mas a humanidade está aí criando filho não é de hoje. (…) Mas isso é meu. Vai ser o meu filho. A minha criação. Vai ter hora em que eu vou deixar chorar, vai ter hora em que vou pegar no colo. Vai ter hora em que vou estimular o apego, vai ter hora em que vou ter certeza que o melhor pra ele é algum distanciamento. E vai ter hora em que eu não vou ter certeza de nada. Já não tenho. Faz parte. Não sofre com isso, não, Rê. Já tem angústia de mais na experiência toda, a gente não precisa acrescentar, não.”

E ai eu pensei também numa mensagem que recebi outro dia, eu também náufraga, na qual uma pessoa que eu conheço pouco e admirava quando conheci, à distância dizia que se sentia feliz em saber que havia mais gente que pensava como ela (no caso, eu) e agradecendo por postagens minhas numa rede social (onde eu sou daquelas que postam “demais”) pois a faziam sair da zona de conforto (acho que saímos juntas dessa zona).

E voltando ao começo, eu acredito que esse clube, esse coletivo, assim como uma rede de amor e amizade, as vezes virtual mas sempre real, mora no meu coração porque não propõe uma fórmula única, não propõe sequer uma única fórmula. Se há algo que tentamos ter aqui é a proposta inicial:

“Este é um blog de princípios, os textos são concretude dos pensamentos individuais e revelam especificidades, mas não se afastam de uma reflexão abrangente e coletiva.

Acreditamos, convictamente, que todos e cada um deve ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Sim, estamos falando desexo, mas não só.

Escrevemos por prazer. Aliás, é assim que tentamos viver. Beleza, Gentileza, Leveza, eis as musas.

Não sabemos de tudo. Muitas vezes suspeitamos que não sabemos de nada. Não escrevemos pra convencer ninguém, mas para expressar o que sentimos, pensamos, queremos. Tentamos construir diálogos.”

Jogamos mensagens em garrafas, esperando que um dia elas voltem, com a resposta ou só com um oi e um abraço.

Nos dias em que a gente tiver certezas, não vai ser tão divertido.

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O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

Labirinto 2

Abre os olhos que não reconhecem onde estão, eles e ela que espanta-se com o tremor de ansiedade que lhe percorre a carne como um choque, estimulante e dolorido. Andar, eis a ordem que o cérebro emite a um corpo relutante. Andar até encontrar uma saída. Qualquer saída. Uma possibilidade qualquer que se desmaterialize em passagem para sair deste labirinto. Pois é aí que estão presas ela e sua angústia. Como vim parar aqui? A pergunta percorre o cérebro num arremedo das passadas que percorrem o labirinto, sem expectativa de encontrar a resposta, mas ainda insistente, na única esperança possível de não morrer sem saber. Eu, que a tudo organizo, classifico, planejo, ando sem rumo e sem ordem, proferindo desatinadas palavras nos corredores da minha solidão. São sons sem nexo que imitam uma religião antiga, esquecida por ela e por todos que se gabam de sua razão, mantras que dirigem-se ao grande mistério: ser uma Iniciada do esquecimento. A razão não a protegeu deste labirinto que se levanta insultuoso à sua volta. As paredes riem ou este é o som do vento submetendo-se às curvas e reentrâncias do labirinto? No instante seguinte, o grande medo: o que há no centro do labirinto? Que monstro indescritível espera por ela numa curva qualquer dos corredores que ela não pode evitar-se percorrer pois podem conduzir não à perdição e ao devoramento, mas à saída? Nenhuma resposta emerge da grande névoa que tomou o que antes eu chamava memória. As paredes me oprimem, mas oprime ainda mais este céu sem telhado para segurá-lo, esta amplidão, este negrume salpicado de estrelas que me empurram ao chão como o advento da liberdade. Olhar tudo isto é temer que este manto de espaço me envolva, é arriscar um feitiço que me estabilize e imobilize, impedindo a única possibilidade que me resta: andar. Andar ao encontro do fim: seja ele o fim do labirinto com o advento abrupto da saída ou o fim no encontro indesejado com o proprietário deste hotel de horrores. O grande horror é esta névoa a toldar suas lembranças. A encobrir o que ela sempre, com disciplina e determinação, nomeou, dominou, rotulou. “Cada parede, uma história”- esta frase dita por ninguém parece um gemido a ecoar em sua cabeça. Ou será um som que vagueia pelos corredores e não lhe diz respeito? Não sei, mas este dito, assim presente, exige um sentido. Como um punhal a rasgar o véu do esquecimento, empunho esta frase nos lábios, repetindo e repetindo como se seu significado pudesse vir não do seu conteúdo, mas de sua forma. É assim é. Minha vida em compartimentos. Família, que lindo nome. Uma gaveta especial, como não. Entre as primeiras, posto que precisa estar acessível. Lá estão a infância, os personagens, os desafios. Uma gaveta para os amigos, outra para os colegas de trabalho. Uma gaveta empoeirada e pouco visitada para os amores do passado. Um compartimento bonito para os filhos. Outro para o marido. Marido, repito e estanco diante de uma enorme e sólida parede que há pouco eu não via. Continuo a andar mais por hábito que na busca da saída. O labirinto agora me enfeitiça. A gaveta dos projetos iniciados e não concluídos. Eu a tudo precisei dar um nome, o medo constante e silencioso de perder-me nas relações. Cada gaveta era um escudo, você está aí, perto demais, mas eu o domino, vê, posso dar-te um nome e assim encaixar-te  na história da vida que me constrói. Sei agora que não mais me dirijo para a saída, o centro do labirinto é um ímã de força letal, as pernas resistem mas conduzem-me com constância aos braços do monstro talvez agora adormecido, mas no exato instante do encontro sei que o encontrarei atento e indomado. Outra lembrança: os monstros do labirinto são meio homem, meio bicho…onde foi que aprendi sobre isto? Onde foi que aprendi sobre os homens, sobre a vida, sobre mim? Há um silêncio tão intenso que é chega a ser sólido, eu o afasto com a mão, é a cortina que protege o desconhecido vértice do desespero. Abre os olhos que reconhecem: ela deitada e morta no centro do labirinto.

A flor que repousa em mim

Sim, você pode me chamar de flor. Desconfio que sempre possa me chamar desse jeito. Meu nome pra você é nome de flor, de planta, de pedra, de madeira opaca, de céu, mar e maresia, de qualquer coisa que tenha o cheiro de nossas lembranças, nosso patrimônio de vida, delicadezas perdidas e achadas. Aqui, na ilha quente e urgente ou em cidades geladas, sempre serei a sua florzinha. E na minha memória, rosa, cravo, lírio, margaridas, açucenas e jasmins… Porque meu nome é também isso o que te ensinei, quando achei estar roubando sua paz. E vi que você aprendeu a liberdade do amor-pássaro, a voar fora da asa, a ver para além dessas convenções caretas que jamais darão conta da beleza que vivemos. Entre uma cama e outra, entre um comentário difícil de ouvir, entre atenções divididas, você foi sutilmente aprendendo a se equilibrar, mambembe e matreira, por mim e outras histórias. Teu desejo oscilava entre aquela, que poderia te dar o mundo, a firmeza, a segurança, a estabilidade. Mas quem disse que você quer isso? Acho que você quer mesmo é ir pra rua e beber a tempestade. Não sou calmaria. Não ofereço compromisso. Não quero planos. Nem A ou B. Nunca quis te colonizar. Mas a minha cama é quente, meu corpo se ajusta muito bem ao seu e quando acordas, já tenho o café pronto e sorriso aberto no rosto. E ainda reclamas meu bem? Das pedras e distâncias, fizemos um bom caminho. Como quem olha pra trás e sorri da alegria do encontro. Por isso, admito que te devo uma constelação toda, bálsamo e folhagem. Flor minha, o que te dei, nesses momentos que repousaste em mim, foi a vida. Um beijo, Narcisa. Com carinho, raízes e estrelas, eu, inegavelmente, sempre tua.

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O que mais quero é mais bem querer

#UmaBiscateQuer #2anosBiscateSC

(Abre parenteses)

imageEscrevo esse post diretamente do hospital onde minha avó está internada desde outubro, com Alzheimer e Parkinson em estágio avançado. E juro que tinha planejado outra coisa e a minha ideia de post para a nossa festa de 2 anos era totalmente diferente. Infelizmente, não estou em ritmo de festa tanto quanto gostaria…

Verdade seja dita: nunca gostei de fazer planos pois, como diz a canção, “tudo muda o tempo todo no mundo” e a gente pode ir da mais perfeita ordem ao caos completo em questão de segundos. E 2013 tem sido exatamente assim para mim, em quase todos os sentidos. Muitas, MUITAS lutas. Cansaço. Momentos de desânimo desesperadores. Raiva contida. Decepções com a falta de amor e daquela fatídica “sororidade” que assola a nossa existência. E no que tange a mim, essa falta surgiu de quem se dizia próximo e é isso que f*de (no pior sentido possível) com tudo.

Ninguém disse que a vida seria uma coisa muito fácil, evidentemente. E perrengues fazem parte do que minha prima de 9 anos chama de “vida chata de adulto” (acho que ela é a primeira criança que conheci  que nunca quis ser adulta antes da hora. Ela é das minhas!!!). Mas talvez, tudo seria menos doloroso se cada um se colocasse, genuínamente, no lugar do outro.

(Fecha parenteses)

Ademais, 2013 foi o ano do segundo aniversário do nosso amado blog e através dele, exprimi muito do que eu sempre quis. Quereres esses que nem sempre consigo dividir com alguém no tête-a-tête, aí com palavras escritas eles fluem mais. E é com muita honra que encerro as postagens de 2013 com uma das categorias mais subjetivas e especiais do BSC. Afinal, não é uma delícia falar/fazer/gostar/sonhar com o que quiser?

gatos_coracao_01Essa bisca aqui quer – para ela e para todos – um  2014 com mais leveza. Mais momentos gostosos. Mais breja ( ou insira sua bebida favorita aqui) gelada numa tarde quente. Mais amizades, mais carinho, mais afeto, mais sonhos e mais meios de realizá-los. Quero desejar e ser desejada, e desejo a vocês o mesmo. Quero beijos intermináveis, mais abraços apertados e mais banhos com corpos colados. Como disse a Jeane, “a vida se esvai e não há tempo para ingratidão”.

Sejamos gratxs à ela, vivendo. E ter passado quase todo o final de 2013 num hospital vendo tanta gente lutar para continuar a viver me fez conhecer de verdade a importância disso.

Que em 2014, possamos nos querer melhor. Que o calor e a esperança de um novo ano faça com que esse sentimento permaneça firme em nossos corações. E que venha mais um, dois, três, dez anos de BSC!

 

#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

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Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? ”A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* ”O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie ”Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! ”Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? ”De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

O que é que vão pensar?

O que é que vão pensar se eu, gorda, for de biquíni à praia? O que é que vão pensar se eu, magra, sair com um decote? O que é que vão pensar se eu, médica, gostar de funk? O que é que vão pensar se eu sair de roupa justa, se trepar no primeiro encontro, se tiver rolos de uma noite? O que é que vão pensar se eu andar de mãos dadas com outra mulher? O que é que vão pensar se eu resolver não fazer cirurgia de redesignação genital e escolher ser uma mulher com pênis? O que é que vão pensar se eu fizer a cirurgia de redesignação genital e viver todos os estereótipos do feminino? O que é que vão pensar se eu abortar? O que é que vão pensar se eu resolver criar meu filho sozinha? O que é que vão pensar se eu resolver levar à frente a gravidez e deixar a criança ser adotada? O que é que vão pensar quando eu contar que namoro mulheres? O que é que vão pensar se eu criar meu filho com minha mulher? O que vão pensar se eu não depilar as pernas? O que é que vão pensar se eu não pintar os cabelos, não fizer as unhas, não seguir a moda? O que é que vão pensar se eu gostar de sexo, se eu tirar uma foto fazendo sexo, se eu aparecer em um vídeo de sexo? O que é que vão pensar se eu preferir me divorciar? O que é que vão pensar se eu resolver seguir carreira em TI? O que é que vão pensar se eu escolher ser modelo, atriz, dançarina no palco de programas de tv? O que é que vão pensar se eu não souber andar de salto? Se eu não usar batom? Se eu sentar de perna aberta? O que é que vão pensar se eu deixar o meu ex-marido com a guarda dos filhos? O que é que vão pensar se eu deixar o namorado da minha filha dormir aqui em casa? O que é que vão pensar se, se , se e se?

 O que é que vão dizer?

violência

-foi – não foi – foi

A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos. E ela, e nós, nos perguntamos: o que é que vão pensar? não porque somos inseguras, histéricas, submissas, whatever, mas porque é o papel que nos é imputado e que, diariamente, lutamos pra nos desvencilhar.

E é por isso que eu, biscate, todos os dias chamo pra festa. Pro riso. Pra o dar de ombros pro preconceito, pras perguntas e olhares alheios. Não porque seja fácil. Não que não cobre seu preço. Às vezes dói. Às vezes pesa. Às vezes é quase caro demais. Ser livre é, também, um ato político. E a gente vai, devagar, um corte aqui, uma gargalhada ali, uma incompreensão na esquina, um encontro prazeroso acolá. Biscateando. Biscatear é nossa forma de lutar.

Masturbação também é coisa de mulher

Onze anos. “Você ficou mocinha!” Não entendi bem. Ainda era uma moleca completa, que se preocupava mais em subir em árvores do que em paquerar ou aprender maquilagem, e não via muito sentido nessa história. Então a parte que registrei foi: a partir de agora é isso todo mês, incluindo as cólicas, e você já pode engravidar (socorro!!!).

Quinze anos. Adeus virgindade. Conclusão: sexo é um troço que dói pra caralho, e tirando isso, não entendi porque falavam tanto nele. Mas estava apaixonada…

Dezoito anos. Sozinha no quarto, resolvi insistir na tal da história de mexer no grelo, que já tinha tentado antes sem ver nenhuma graça. Surpresa! Insistindo, ficava bom. Primeiro orgasmo.

Quarenta anos. Caminhos todos descobertos.

Será?

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Garotos brincam de corrida de submarino. Garotas brincam de casinha.

Homem vê pornô pra bater punheta. Todo mundo sabe, todo mundo brinca com a coisa, todo mundo aceita. Aí você vai perguntar sobre o assunto para uma mulher, constrangimento imediato.

 Passo no sex shop, depois vou tomar um café com uma amiga, mostro a nova aquisição. O olhar dela é de criança fazendo arte escondida. Digo que, para mim, o único problema de um pau industrializado é que não vem com ombro… E ela acaba me confessando que também tem um. Mas quando a conversa surge tempos depois, com outra amiga do lado, ela finge que não sabe de que se trata. Eeeeuu? Imagina.

Mas gente… qual o problema? Mulheres se masturbam. Ponto. E têm vergonha de assumir que usam brinquedinhos? Ou mesmo sem eles, que mulher conta para outra de que forma se masturba? Pouquíssimas.

 Um amigo me descreve em detalhes como masturba as namoradas. E eu fico pensando que a forma dele parece infinitamente mais poderosa que a minha…

Aí entro em um site e abro a categoria de mulheres se masturbando. Coisa que nunca tinha pensado em ver. “Ah, isso é pra excitar homem, pra que eu quero ver outra mulher se masturbando?” E não é que a coisa é educativa? Há vários modos. Não só o meu. E alguns são bem interessantes…

 Por que a gente não conversa sobre essas coisas? Por que tem de ser um caminho trilhado sozinha, às cegas – às apalpadelas… Por que quase não trocamos dicas e informações? Cadê a confraria feminina do bem? Por que ela não atua em prol do nosso prazer? Quem disse que se ele não envolver um parceiro é coisa para ser escondida? Vamos democratizar as informações, minha gente. Eu tenho várias dúvidas, vocês não tem? Por exemplo, será que as diferenças na “anatomia íntima” influenciam no tipo/intensidade de estímulo de que uma mulher precisa para gozar? O Ponto G, esse desconhecido… sei muito bem onde o meu está, mas tenho problemas em descobrir o que/como fazer com ele… Por que algumas mulheres gozam tão facilmente com sexo oral, e outras nem a pau, Juvenal? Verdade que tem mulher que goza pelo rabo, sem nenhum estímulo no grelo?

 Já ouvi relatos de mulheres que foram ter o primeiro orgasmo aos 40, com a duchinha do banheiro. É uma forma. Vibradores? Já descobri que a intensidade da vibração nem sempre basta para gozar… se for baixinha, acaba só sensibilizando, e se tornando desconfortável. Filmes, livros? Ajudam, abrem o apetite. Quanto a filmes, odeio os americanos, onde tudo parece plastificado. Tenho um critério básico pra gostar de um filme: a mulher tem de estar se divertindo também. Pragmaticamente: a buceta tem de estar molhada. Só isso não garante, é claro, pode ser um gel qualquer, mas nada me incomoda mais do que ver um filminho onde um homem com um caralho gigante fode sem parar uma mulher seca. Tudo o que consigo pensar é em incômodo.

Mas há filminhos amadores bem interessantes e excitantes. Há fetiches para todos os gostos. E hoje já é fácil encontrar a categoria “Orgasmo” (feminino) em vários sites. Em geral são de squirting, porque sabe como é, filmes feitos por homens, eles acham que se não esguichar alguma coisa não vale como happy end. Mas mesmo assim alguns são ótimas inspirações para auto-punhetagens.

Aí vem a coisa em si. Percebi que tenho um ritual meio fixo de punhetagem. Sentada ou deitada de barriga pra cima. Primeiro mamilos, até dar um grau, depois grelo, movimentos laterais-circulares. Às vezes penetração, com dedos ou vibrador. (Nessas os orgasmos são muito mais intensos. Não me perguntem por que não faço sempre assim então, porque eu também não entendo…)

Mas vendo os tais filmes de masturbação, confirmei a minha impressão de que havia muitas outras formas. Mulheres que cavalgam travesseiros até gozar. Mulheres que enfiam dois dedos na buceta enquanto estimulam o grelo um pouco mais pra cima do que eu. Mulheres para quem um ovinho vibratório encostado no lugar certo é suficiente para orgasmos intensos. E por aí vai.

(Detalhe: tirando os filmes de fetiches, não vi nenhuma se masturbando com vibradores em tamanho ator pornô, o que confirmou minha teoria de que a geral prefere o standard plus, e essa coisa de enormidades é só fixação masculina mesmo.)

 Achei também esses dois vídeos, super explicativos. Meio toscos, mas, na falta de melhores, já ajudam.

 

E você, qual o seu estilo? O que já aprendeu que vale a pena compartilhar? Que tal quebrar esse contraproducente pacto de silêncio? ;-)

 

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