A Esquiva ou Somos Sempre Culpadas

Essa semana assisti “A Esquiva” um filme do qual nunca tinha ouvido falar (mas isso nem é novidade, sou mesmo desinformada, desligada e vários outros “de” como devassa, mas acho esse não vem ao caso dessa vez). O certo é que vi. “A Esquiva” (L’Esquive, 2003) é um daqueles filmes com cara de baratinho que agiganta sua forma via conteúdo. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, tem um enredo aparentemente simples e lança um olhar sobre jovens de um bairro na periferia parisiense.

O filme me conquistou pela interpretação cativante dos atores e pelo movimento pendular entre dureza e delicadeza no tratamento dos dramas dos personagens, especialmente das meninas/mulheres. O filme está cheio de personagens femininos. São elas que conversam, que agem, que gritam. Qual não foi minha surpresa ao começar a me preparar pra escrever este post lendo (as poucas) resenhas que encontrei e vendo-as, todas, centradas no personagem masculino, Krimo, e sem nenhuma palavra sobre o que recai sobre as meninas: os julgamentos, as obrigações, os papéis sociais, as queixas, as responsabilidades pelo seu próprio desejo e pelo desejo do outro.

Elas falam, agem, gritam...e sofrem.

Elas falam, agem, gritam…e sofrem.

Mas vamos por partes, o cenário: a periferia de Paris, uma escola, os ensaios pra apresentação de uma peça.  Os personagens: adolescentes. Os pesos: as paixões em ciranda, o fato de serem minoria étnica, os padrões e reputações que “precisam” ser mantidos. Krimo é um adolescente retraído que, ao terminar um namoro, apaixona-se por uma colega de sala. Esta mesma colega é a atriz principal da peça ( ”O Jogo do Amor e do Acaso”, de Marivaux) que é ensaiada na escola. Para estar perto dela, entre outras coisas, Krimo suborna um colega para atuar como par romântico na peça.

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é o confronto entre a linguagem da peça ensaiada (rebuscada, elaborada) e a linguagem dos adolescentes (direta, corrente, simples). Outra coisa interessante é a forma como se relacionam “arte” e “vida”, como a trama da peça (pessoas que se fazem passar por outras pra seduzir) se enreda com os amores e dramas juvenis. Há ainda o mote da peça que se coloca como pergunta que atravessa o filme: somos determinados pela nossa classe social, geografia e cultura? Somos presos ao de onde viemos? A linguagem é mais um personagem na trama, ela não leva ao entendimento, ela é expressiva mas não faz convergir, antes isola, separa, cinde. É o que não se pode ou não se deve dizer que aflige os jovens.

Há muito a se falar sobre o filme, especialmente como ele foge dos lugares comuns sem, no entanto, subtrair-se das questões difíceis, sem calar-se sobre o cenário político e social que opera sobre os protagonistas. O filme não vai tratar de integração dos imigrantes, de roubos e marginalização, de diferenças culturais ou religiosas, mas está tudo lá, sutilmente implicado, os pais na prisão, a impaciência da professora, a brutalidade dos policiais. O pulo do gato está em imbricar estes elementos aos mais universais – o romance, as dificuldades de passar da infância à idade adulta, as relações de amizade – e, assim, criar uma dinâmica em que se ultrapassam os estereótipos comumente usados para tratar deste cenário.

Lydia (Sara Forestier) em "A Esquiva"

Lydia (Sara Forestier)

Mas eu não escolhi falar deste filme pra tratar de nada disso. Eu escolhi falar desse filme por causa da Lydia. A primeira vez que vemos Lydia ela está negociando o vestido com que interpretará a personagem principal da peça. É tocante o seu entusiasmo, a sua persistência, a sua entrega. É a Lydia que ocupará o centro da ação dramática embora ela tenha pouco interesse em qualquer outra coisa que não seja a peça. Mas, mesmo assim, independente do seu interesse ou desejo, ela é convocada. Eu explico. Krimo se apaixona por Lydia e, a partir daí, ela é cobrada por todos os lados como se tivesse uma obrigação por ter “despertado” esse sentimento. Ela é xingada de puta e oferecida pela ex-namorada do Krimo (como se o “bom moço” só pudesse ter sido envolvido de forma passiva, como se ele tivesse que ser seduzido pra desejar) quando ainda desconhecia que o amigo agora fosse um apaixonado. Quando Krimo enfim se declara e ela pede um tempo pra decidir se quer namorar ou não é julgada pelas amigas como se uma mulher não pudesse pensar pra decidir sobre si mesma, tem que saber “na lata”, se não agir assim é porque está jogando, “fazendo doce”, etc. A sua dificuldade de saber se quer ou não ou mesmo a sua dificuldade de ceder ou negar ao seu desejo é ignorada por todos e tratada com violência e segregação.

Lydia é como uma qualquer de nós na boca de tantos: biscate se enuncia seu desejo, biscate dissimulada se não é capaz de fazê-lo. Assisti com aquele desconforto de reconhecer tanta gente e tantas situações parecidas: a mulher é culpabilizada pelo que “provoca” no outro e qualquer violência contra ela é justificada com “alguma coisa ela deve ter feito pra merecer isso”, a mulher é responsabilizada por coisas diversas que passam por usar uma minissaia e assim está “pedindo” a cantada, a passada de mão, o estupro até a justificativa por ter sido espancada ou morta por não “avisar” ao parceiro que é uma mulher trans. O filme não foge a essa cobrança em relação à mulher (fico pensando se foi intencional, torço que sim), a todo momento parece que se pergunta: porque ela não se decide logo, ora? Como se fosse um grande favor do moço tão legal se interessar por ela.

À Lydia (e às meninas, moças, mulheres, de maneira geral) não é concedido o benefício da dúvida. Não é aceitável que ela pense, que ela pare, que ela não tenha certezas. Ela é um corpo de mulher a ser dado ou negado sem reflexão, automaticamente, porque o corpo feminino é público até ser requisitado por alguém. Aí passa a ter “dono” – que não é a pessoa a quem o corpo originalmente pertence, atente-se.

“A Esquiva” é um belo filme, daqueles tão ricos e complexos que, certamente, atinge os diversos expectadores de diversas formas. Eu acho que nunca vou esquecer o tapa que uma das personagens recebe apenas porque é mulher e amiga. Vai doer aqui nessa biscate aqui um tempão.

Instante

Por Luísa  Molina*, Biscate Convidada

 

(para ler ouvindo “you don’t know me“)

 You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all…

sombra1

Teria tocado ao longe, ou no inalcançável apartamento vizinho, ou entre aquelas paredes que se dilatavam conforme a sua respiração. Não importava. Tocava ali, nela, seios descobertos diante da janela, e a fumaça…

A língua da noite era afiada, mas macia, e soprava sobre as árvores e entre os vidros: “fulgor”. Tudo ali me entorpecia, tudo era exato e absoluto; __________________; e me soprava calor ao pé do ouvido, o pescoço se virava doce, devagar, as pontas dos cabelos sobre a pele, o arrepio…

Diante da janela ela era tudo aquilo, e era só.

The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

O cigarro ardia entre os dedos, e os braços rendidos ao parapeito, na exaustão farta e feliz. Tudo era exato e absoluto.

 “Uma mulher livre…”, eu balbuciava, entre um e outro trago daquela avidez do corpo.

“…Uma mulher livre
É saciada”, e ria.
“Uma mulher livre…” em mim ecoava.

E a língua da noite na minha língua, meu silvo audaz às janelas desconhecidas, e o riso, o riso louco, o riso do corpo nu na madrugada, a saciedade latente no corpo, tudo exato e absoluto.

A mulher se alcança se lança de despe se deita se levanta e segue. Se permite se preenche se dissolve se resolve se refaz. A mulher espreita, escolhe, encontra, entrega, recebe, respira, transpira, segue, refaz. A mulher-corpo, a mulher-âmbito, a mulher-encontro. Tudo é exato e absoluto. Funde-se e confunde-se. Estilhaça-se em mil no fogo e fulgor. É ela, e é o outro, é um no íntimo, no último instante, instância e persistência do corpo, puro suor.

Mas o riso, o riso é só seu.

 

LuisaMolina*Luísa Molina é escorpiana, meândrica, hiperbólica. Tem gosto especial pelos avessos e pouco apetite para meios-termos. Vive a “dor e na delícia de ser o que se é”, escreve em incontáveis cadernos e no fundoinfinito.posterous.com. Viciada em intensidade, descobre, dia a dia, faces de uma alma biscate.

Entrevista com Yazda Rajab, mulher muçulmana de alma biscate fala sobre islamismo e cultura árabe

Conheci Yazda Rajab no mundo da dança do ventre.

Uma mulher absolutamente apaixonante, bailarina graciosa, que hipnotiza a gente sem o menor esforço. Mulher muçulmana, brasileira de alma biscate, dessas que vontade de passar mil tardes conversando… Filha de libaneses radicados no país há mais de 50 anos, guerreira, mulher de fé. E sobretudo, pessoa despachada que aceitou facinho falar pro Biscate sobre islamismo e cultura árabe.

Espero que seja tão bom para vocês como foi pra mim <3

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Charô – Quem é Yazda? Qual é a estória de sua família?
Yazda – Meus avós e pais eram camponeses. Meu pai veio para cá na década de 30, por navio, começou a mascatear como a maioria dos libaneses imigrantes e acabou fazendo a vida dele aqui. Depois que ele teve certa estabilidade, conquistou a vida dele, foi buscar minha mãe. Ele já dormiu na rua, lavou prato, fez de um tudo. A dança do ventre eu estudo há 12 anos, depois do 6º ano comecei a dar aulas. Mas sempre estudando.

Charô – Qual é a sua fé? Você decidiu seguir o islamismo depois de adulta?
Yazda – Na verdade eu sou desde criança mesmo. E mesmo depois de adulta, tirando essa parte da cultura na qual nasci e cresci, quando tive um pouco mais de discernimento e decidi estudar os porquês das coisas, continuei muçulmana. Ma seu tenho muita interferência de outras coisas…

Charô – Agora vou partir um pouco dos preconceitos que nós ocidentais temos para com a sua religião. Qual o papel da mulher numa sociedade islâmica?
Yazda – Ela tem papel fundamental como ela tem aqui no Ocidente também. Só que existem as questões culturais. O islamismo é uma coisa e a cultura árabe é outra. Quando a religião chegou lá em Meca, quando veio a palavra e o alcorão foi revelado, era um povo que sim… Tinham uma filha mulher eles matavam, era uma vergonha. A religião veio e mudou isso mas as pessoas tem uma essência, tem a cultura e isso meio que veio vindo junto. E vem até hoje.
Isso não faz parte da religião muçulmana. Vou te dar um exemplo simples, a castidade da mulher até o casamento e tudo mais, não é só da mulher muçulmana, ela é do homem também. Só que o machismo que a gente conhece e tem pavor, o mundo machista, os homens fazem o que eles querem e as mulheres se mantém castas. Mas o que se pede da mulher e do homem muçulmano são direitos e deveres iguais.

Charô – E em relação aos pais e aos homens muçulmanos, existe algum tipo de subordinação?
Yazda – Existe um respeito, um respeito que a maioria das pessoas tem ou deveriam ter. Por sabedoria, experiência. Subordinação acho que é uma palavra meio pesada. Mas ela existe, não vou te falar que não, mas como eu já disse antes mais por questões culturais. O alcorão prega o papel da mulher feminina, o papel do homem, o papel do filho, normais como aqui no ocidente também.

Charô – Agora um pouco da dança. Existe alguma contradição entre a sua dança e a sua religião?
Yazda – Todas (risos). Mas assim, vou te falar uma coisa muito particular minha, que eu acredito muito, tudo vai da intenção que a gente coloca nas coisas, que a gente tem dentro do coração. Então quando eu danço, dou aulas ou estudo, a minha intenção ali é uma. Se as pessoas tem uma visão distorcida, cabe a cada um resolver seus próprios problemas. Eu estou aqui fazendo uma coisa e você tá pensando outra, problema seu.

Charô – Existe alguma restrição à dança? No Egito é proibido dançar de umbigo de fora, no Líbano também?
Yazda – Ah sim, lógico. A gente sabe que a mulher muçulmana, não digo a maioria hoje em dia, ela tem todo aquele conceito do Hijab (pronuncia-se rijeb), de colocar o véu. Até aqueles que não usam, isso eu digo de cidade mais do interior tá. Porque eu fui lá um tempo atrás e está tudo mudo, mais peladinhas do que eu. Lindo, eu achei excelente. Mas com certeza tem a vestimenta, nem é tanto a questão do umbigo. O peito, os movimentos…

Charô – O que é o Hijab, para que ele serve?
Yazda – Em primeiro lugar, ele não é uma coisa obrigatória. Eu digo que não é obrigatória querendo dizer o seguinte- eu por exemplo, meu pai e minha mãe não podem chegar pra mim e dizer você vai colocar. Já não vai mais estar valendo, eu posso até colocar mas aos olhos de deus já não vale mais. Religião é uma coisa espontânea, ou você sente ou você não sente.
Então se você carrega aquilo e fala eu quero, eu vou colocar de coração porque eu quero, vai com deus. A minha mãe por exemplo não usa Hijab. Uma vez que eu pensei em colocar, meu pai me viu com lenço e disse tira essa porcaria da cabeça agora. Tira, pode tirar, não quero saber de você usando isso. Pelo respeito aos mais velhos que acabei de falar, ele me convenceu (risos).
O Hijab é usado como uma forma de proteção à mulher mesmo. Não é uma questão de submissão. Você precisar andar toda pelada também é uma forma de submissão uma mulher precisar andar toda desnuda só pra um cretino olhar pra ela. Tem de usar porque gosta, porque acha bonito e se sente bem. Não por causa de alguém.

Charô – E o que existe por baixo do Hijab?
Yazda – O Hijab que a gente está falando é um lenço que o rosto fica de fora e roupas compridas, posso usar blusa de manga comprida e uma calça comprida, daí você vê o que você quer usar. Uma calça branca, uma blusa azul, uma blusa colorida. Os preceitos são não usar roupa transparente porque aí já mostra o contorno do corpo ou uma roupa muito justa.
A questão do por baixo vem a burca, que é uma coisa diferente – é aquela roupa preta, tem só a redinha nos olhos. Eu acredito que ela não existe na cultura libanesa, eu não vi. Mais Arábia Saudita. E diga-se de passagem, não foi uma coisa imposta por deus e nem dita por ele. Ele falou sim do Hijab mas as mãos, os pés e o rosto podem sim ficar de fora e a burca cobre tudo.

Charô – Como é a beleza para a mulher muçulmana?
Yazda – A mulher muçulmana é muito vaidosa, muito vaidosa. Se enchem de ouro e aqueles olhos pretos (maquiagem), adoram cabelo. O padrão de beleza da mulher árabe, da mulher muçulmana, também não deixou de ter um pouco de interferência de fora. Por que a mulher muçulmana é morena de cabelo preto… mas elas afinam sobrancelha, colocam botox no olho, plástica no nariz…

Blogueira usando Hijab

Blogueira usando Hijab

Charô – Existem outros códigos de vestimenta, para os homens por exemplo?
Yazda – O profeta Maomé deixou alguns costumes que seria a forma ideal de o muçulmano se comportar. Então fala que o homem anda com a barba um pouco maior, com a barra da calça um pouco mais curta, mas ninguém faz isso. Não é uma coisa que se diga faça ou você não será um muçulmano.

Charô – Nós temos muitos preconceitos sobre a sua e a sua cultura, concorda?
Yazda – A gente ia ficar aqui umas 3 horas falando dos preconceitos. Não digo que eu sofro porque pra sofrer preconceito você tem de ligar mas… Que a mulher não tem liberdade nenhuma, o que mais falam. Ou vocês são violentos, por conta das brigas entre Israel e Palestina..

Charô – Sobre o sexo na cultura árabe e na religião muçulmana, como ele é visto?
Yazda – Na verdade o sexo é visto dessa forma, uma coisa sagrada, linda, lícita, maravilhosa, gostosa, tudo isso mas tem essa questão de praticar o sexo depois do casamento. Eu vejo isso mais como uma preservação de muita coisa que a gente acaba sofrendo, que a gente vê que as pessoas sofrem também, de fazer antes. As pessoas que eu falo que não sabem usar o sexo, que não sabem fazer com responsabilidade. Não mais uma questão de você está pecando ou você não é de deus…

Charô – E os jovens praticam? E o namoro?
Yazda – Risos. As meninas estão agora mais saidinhas. Elas adoram fazer sexo anal para preservar ali na frente e dizer eu sou virgem. Tem muitas que fazem isso. Muitas que enfiam o pé na jaca e é isso. Não pode ter contato mas sempre tem (risos). Ainda tem famílias que preservam um pouco isso mas são muito tradicionais e muito raras.

Charô – Falando um pouco sobre inserção da mulher na política, existem mulheres nos cargos de comando?
Yazda – Lá você vê muito pouco. A gente não foge desse preconceito não. A política lá já é muito difícil, os homens não dão contam, já é a maior bagunça. Se eles não conseguem se manter no poder, imagina a aceitação de ter uma mulher ali. Isso está extremamente longe e não sei isso vai acontecer e tem preceitos religiosos aí no meio também, de uma mulher em posição de comando político.
Porque (o cargo prevê) reuniões íntimas, mais confidenciais, de ter de ficar sozinha com um homem… Tem toda essa coisa puritana do islamismo que existe. Nem é tanto porque a mulher não pode ou não tem capacidade de estar no poder. É mais para a mulher não ter contato direto com o homem.

Charô – Sobre a tolerância religiosa, como são vistos os outros deuses e as outras culturas?
Yazda – Tem até um versículo no alcorão que diz que nós temos de respeitar a tudo e a todos. Existem muitas brigas entre eles mas foi isso que foi mandado pra gente. A mensagem é muito clara e o versículo é muito simples, independe de interpretação. Ele é simples e direto. Conviver sempre com as diferenças e fazer o bem sem olhar a quem.


Mas é claro que a coisa toda tem de terminar em ventre, então assista a essa apresentação da Yazda com o grupo Les Almées.


AGRADECIMENTOS ou YAZDA SUA LINDA

Antes de fazer essa entrevista, a primeira da minha vida, falei com a Yazda sobre os meus preconceitos e a minha ignorância acerca da sua religião e cultura. Ela, com muita paciência, topou a empreitada de explicar o básico, responder essas perguntas tão primárias sobre a sua concepção de mundo.

Uma estória que não entrou pra entrevista, o significado do nome Yazda. O pai sempre disse para ela que se tratava de uma princesa e ela sempre acreditou nisso. Um dia, maiorzinha, descobriu que essa princesa na verdade era a sua avó <3

Em meu nome e em nome do time Biscate Social Club, muito obrigada.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

Dina, primeira bailarina de dança do ventre do Egito, biscate e delícia

Recentemente ouvi de um bailarino de danças orientais, de ascendência árabe, que sua família temia que ele seguisse a carreira artística. O receio nada tinha a ver com quaisquer questionamentos sobre sua sexualidade como muitos poderiam pensar. O problema era frequentar aquelas mulheres que dançam de umbigo de fora, ato proibido pela lei egipcia desde a década de 1950.

O assunto de hoje é uma dessas mulheres, a bailarina, filósofa e biscate Dina Talaat.

LOOOOOSHO, VOLÚPIA E PROTESTO

Nem toda família de ascendência árabe tem a mesma visão de mundo sobre a dança, assim como nem toda mulher que faz dança do ventre é biscate, vero. Só que probabilidade de a dança despertar a bisca que existe dentro de cada uma é muito grande pois a visão do umbigo emoldurado pelo vai e vem do próprio quadril (e o das zamigas, aiaiai, uiuiui)  é qualquer coisa de solene. Fora o acinte uma mulher ser indenpendente, tendo como instrumento de trabalho o próprio corpo.

Dina Dança do Ventre

Dina e um figuro looooosho

Esses detalhezinhos fornecem pistas sobre o status da mulher na sociedade egípcia. A feminista muçulmana  Nihad Abu el Konsa reporta que a nova constituição ignora os direitos das mulheres. A cláusula que assegura a igualdade entre todos os cidadãos perante a lei existe, mas não garante a não violação dos direitos humanos da população feminina.

Em contrapartida,  o vocabulário visual da dança do ventre parece indelevelmente associado ao universo do harém. São princesas e odaliscas inacessíveis. Não é raro esquecermos que sua dança geralmente se desenvolve num contexto de opressão. É por isso que quero apresentar uma personagem muito singular no mundo da dança, toda luxo, volúpia e protesto – Dina Taalat.

A PRIMEIRA BAILARINA DO EGITO

Dina é a última entre as egípcias,  está para dança do ventre assim como Alcione e Bete Carvalho estão para o samba. Antes dela, mulheres como Badia Massabni, que abriu uma casa noturna aos moldes europeus em plena Cairo da década de 1930. Ou Tahya Karioca, preterida por Farid el Atrash que preferiu se casar e ter filhos. Um mundo de babados homéricos.

Mais uma vez que as bisca pira!

Mais uma vez que as bisca pira!

Desavisada de todo esse background, acabei me acostumando a pensar a dança do ventre como coisa de princesa. Meus olhos transbordavam ignorância e preconceito toda vez que assistia uma apresentação da bailarina. Como assim começar uma dança do ventre que deveria ser toda elegância exibindo o derrière para o público¿ Detallhe que para a cultura egípcia, essa atitude tem nada de vulgaridade.

Tudo mudou quando uma professora me fez pensar sobre a coragem necessária para dançar numa sociedade estruturalmente machista , tão afeita ao slut shaming. Como não é possível proibir as mulheres de dançar, algumas adaptações são feitas. Assim se desenvolveu a dança Shaabi que, grosso modo, é o funk da dança folclórica, praticado por quem goza de relativa liberdade.  Assim as bailarinas cobriram o umbigo com broches, diminuiram o tamanho das saias e aumentaram os decotes.

Uma dança que exala sensualidade mas se esmera na exposição de conflitos sociais, políticos e raciais. Algumas letras falam abertamente sobre o consumo de substâncias entorpecentes. Apesar de dominar diversas modalidades da dança oriental inclusive a dita clássica, Dina é a mãe dessa modalidade irreverente e tão amada pela classe trabalhadora. Não por acaso, detem o status de Primeira Bailarina do Egito, título informal muito parecido com aquele o Princesa do Povo conferido à Ladu Di.

SEX TAPE TIMES E DIAMANTES

Apesar disso, o ano de 2002 não foi nada glamouroso. Dina teve sua intimidade exposta numa sex tape difundida por um ex-marido desejoso de vingança. Sua reação foi se exilar e adotar o hijab (código de vestimenta muçulmana para mulheres). Logo ela que faz tanta questão de se apresentar com trajes provocadores, subversivos. Ah sim, com uma discreta jóia no umbigo, como manda a boa moral e os bons costumes.

Pelo que sei, passou 2 anos em Meca, ainda que não haja fontes para comprovar esse fato. Deu entrevistas chorando diamantes, sem jamais borrar o rímel e tentando contornar a situação. Apesar dessas tentativas de se retratar perante o público, sua carreira parecida irremediavelmente destruída (qualquer semelhança com o caso Kristen Steewart não é mera coincidência).

A parte boa é que, após alguns meses de jejum, Dina retomou sua agenda de apresentações com um cachê mais alto que nunca. Finalmente superava uma (malsucedida, ufa) tentativa de suicídio. As acusações contra o ex-affair foram formalmente retiradas sob a alegação de que tudo foi feito com seu consentimento, o que me pareceu uma estória pra lá de mal contada…

ESSA VADIA SOU EU

É muito fácil rotular Dina como vadia. Gosto de imaginar que, se ela soubesse o que a palavra biscate significa, seria a primeira a menear seus lindos cabelos negros e dizer – EU SOU. Foi justamente por esse motivo, e para deixar de lado meu próprio olhar viciado, que decidi trazer para vocês essa mulher delícia. E olha que nem falei sobre filosofia, área do conhecimento em que Dina é bacharel.

E pra terminar, o mais importante: vídeos! Dina fazendo a linha primeira bailarina e biscate do país num porgrama de TV. Depois se jogando num clipe de Shaabi bem humorado e muito distante dessa coisa melosa dos harens ou de uma cultura sisuda. E pra terminar com Fatme Serhan em Taht El Shibak, essa música que tanto amo ouvir e dançar. Botem reparo na roupinha Xeeeeena mais linda de todas. E o menear de bunda inesquecível, tem como não amar? Aprecie sem moderação!



MUCH MORE

Se você quiser comparar o modo como a música é interpretada hoje e ontem, veja esse vídeo bem legal de Taheya Carioca que integra uma seleção feita por mim para aprender dança do ventre.

AGRADECIMENTOS ou AYSHA SUA LINDA

A dança do ventre sobrevive porque mulheres se dispõe a aprender e ensinar. Comigo não foi diferente. Tenho por inspiração artistas como Dina que estão lá longe no Egito, mas também gente que trabalha muito duro pelo desenvolvimento da dança com acento brasileiro. Todo meu agradecimento e admiração pelo talento e pela pessoa de Aysha Almée que você encontra facinho no facebook e teve a paciência de fazer imprescindíveis observações para a feitura desse texto.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

Do Desejo

De pé, defronta-se com o espelho como se este fosse um enigma. Os olhos vasculham a extensão deste território outrora desconhecido: seu corpo. Procura marcas, sinais. Seu corpo, ela reconhece, é um território em convulsão. É-lhe estranho que nada se note, ainda ontem era, assim, uma pessoa, dentro e fora. Complexa e unicamente: ela. E, agora, embora não se encontre signo desta devastação sentimental, é uma pessoa ainda, mas, em reconhecido prazer, ela sabe, já é uma mulher. Dentro, já sente o veneno do gozar agindo no sangue. Virão mudanças no andar, no sorriso, o corpo todo se fazendo desfrutável, ela antecipa, em tremores, o deleite de não poder esconder: conhece o prazer. Mas, agora, madrugada partindo, nada há que indique o gozo morno que ela prende entre as coxas.

Vasculha na imagem tranquila um indício qualquer do desvario a que sucumbiu. Talvez os olhos estejam mais velados. Talvez. Talvez seja apenas a pouca claridade da manhã que não chegou inteira. O corpo é o mesmo, como são os mesmos seus sinais no mundo, mesmo cheiro, mesmo sorriso, o mesmo corpo no mundo. E, mesma, ela já se conhece outra. Alguém que teve o mundo entre as pernas.

Ela nunca soube que podia ser assim, como o mar e seus segredos, tempestade e calmaria. Fartura e beleza. Ainda ontem ela dançava com um corpo que por tantos anos fora seu. Carregava-o para lá e para cá sem compreender direito seus poderes. O corpo pode. Ele sente. Ele vibra. O corpo agora, já sabe, reconhece, é preciso saber fazer tudo isto com o corpo: senti-lo vibrar. Era noite e a mulher não sabia que perderia o corpo. Ou melhor, era noite e a mulher não sabia que se perderia no corpo. Também o homem não sabia, mas seus corpos sabiam e atraíram mulher e homem e eles se souberam. Se souberam em mãos e saliva, tato e paladar, sentindo o agridoce da vida. Sentir o gosto. Sentir o cheiro. Sentir o som, alto e baixo, um mundo se faz num discurso que é um gemido.

Há luz no quarto porque o olho do outro é a delícia de conhecer-se na revelação do desfalecer alheio. O que os corpos sabiam, fizeram, ainda que mulher e homem se constrangessem um pouco. O que os corpos queriam, faltou, posto que queriam começar sempre e não parar nunca de se fazer gozo. Mas a mulher e o homem souberam que o que faltou aos corpos tem nome e a este hiato de insatisfação chamaram amor e se chamaram por toda a noite falando de toda a vida.

Pau-grandescência – ou sobre “bucetinhas e paus enormes”

Uma das constantes no pornô mainstream, além da recente ou não tão recente onda de filmes com conteúdo de violência real ou simbólica contra a mulher, é o mote: bucetinha e pauzão.

Pênis grandes são a epítome de uma determinada masculinidade.

Uma masculinidade associada às armas. O falo, enorme, desproporcional, contrapõe-se à delicadeza com que Afrodite-Vênus, a deusa Greco-latina do amor, é representada, e também à representação atual de Cupido, filho de Afrodite e Ares, o deus da guerra e das armas.

Curiosamente, Priapo seria filho de Afrodite com Dionísio-Baco.

Enquanto Eros-Cupido é representado atualmente como um garotinho rechonchudo e travesso, Príapo é relegado a um relativo ostracismo…

Mas na pornografia Príapo reina.

São paus enormes. E dildos ainda maiores.

E se as mulheres cis hoje somos cobradas por padrões estéticos de depilação, clareamento, cirurgias estéticas, para ficarmos com a eterna aparência pura e virginal, os homens com pênis vem sendo cobrados para terem paus enormes.

Mas sobre o quanto isso afeta aos homens, não sei dizer.

Apenas que da mesma forma, mulheres somos levadas a acreditar que é preciso um pau grande para nos satisfazer. E acontece de usarmos metáforas depreciativas para dizer que homens com paus pequenos são “menos” homens. Que são “menos”, em qualquer coisa.

A supervalorização do tamanho do pau, pelo que soube, afeta também os homens gays.

E, como devassa libertina que sou, e que já provei do maduro e enorme visconde ao jovem cavaleiro, tenro em idade, quase imberbe, posso afirmar: é um despropósito essa crença…

Tive um dia um homem com um pau grande. Grande, grande. Foi bom, claro. Ele era bom, mas o principal é que ele não tinha problemas em explorar as possibilidades, não tinha aquelas limitações que na hora do sexo, só atrapalham. Não tinha medo de experimentar.

E tive homens com paus “normais”, na média – que, no Brasil, segundo “estudos”, é de 16 cm – quando ereto. Bem, bem, bem… acho que poderíamos “cortar” de três a cinco centímetros aí, e teríamos uma média mais realista (claro que falo apenas da minha experiência). O que não se fala por aí (não muito) é que as paredes da vagina são realmente elásticas, e que uma mulher com tesão fica molhada, como clitóris ereto, e com as paredes internas da vagina cheias de sangue e aumentadas de volume…(Sobre o tamanho do pênis e afins, espie aqui, sem medo)

 …e aí, o tamanho e a circunferência do pau pouco importa, via de regra. (se duvida da minha palavra lasciva, pesquise por aí, o Google ajuda nessas horas – temos até esse interessante Mapa dos tamanhos dos pênis do mundo inteiro – interessante que estudos de pesquisadores colocam a média mundial em 11 cm, e pesquisas de internet, nas quais o tamanho do objeto do estudo é informado pelo sujeito que o tem entre as pernas, a média é consideravelmente superior = 15 a 16 cm. Mais interessante ainda – e material para reflexão – é notar que esse “grande portal de notícias” colocou a matéria na seção “Esquisitices”).

Vamos parar de endeusar o pau grande? Deixemos isso para os agricultores romanos da Antiguidade Clássica, que adoravam ao deus menor Príapo.

Pornografia é ótimo ou, ao menos, tem coisas ótimas no meio de coisas ruins (e não é sempre assim com tudo?), mas não é regra de conduta. Sexo anal (assunto para outro post, prometo), porra na cara, pauzões e bucetinhas lisas não são obrigação para uma trepada fantástica. E nem são garantia de que vai ser uma trepada ao menos razoável.

Tesão não tem medida, nem tamanho.

Criatividade, respeito mútuo, confiança para experimentar e tentar de tudo, são uma receita que é melhor do que um pau de 25 centímetros, eu garanto!

Adieu, mes amis

Je vois que vous les gars plus tard !

Mme le marquise !

sobre corações grandes e seus perigosos vazios

Por Raquel Drumond*, Biscate Convidada

mas os passarinhos sabem. sabem, sem entender como. só sobrevivem porque não têm medo. e se têm, não deixam de voar por isso. a vontade das suas asas é mais forte. morrerão tão depressa, das maneiras mais ridículas, como voando com toda a força contra um vidro de qualquer janela despercebida. sabem que há sempre gaiolas à espera, e que estão à mercê de todos os outros grandes perigos do mundo: frutas venenosas,  maldades diversas, armadilhas e outros animais. eles não se assustam com espantalhos, e continuam a fazer ninhos novos ainda que saibam das ameças residentes nos grandes prédios modernos; enormes e bastante altos. sabem também que mais deles continuarão a ser construídos, mais depressa do que nunca, e que mais ninhos serão sempre destruídos.não se mede os riscos enfrentados por um passarinho com as medidas da razão. (…) um dia podem bem acabar com uma pedrada vinda de uma criança má, por puro tédio, ou com um tiro de homens de coração grande e sem nenhum sentimento. em corações muito grandes há sempre muito espaço vazio. o mesmo vale para promessas e futuros, e para todas as outras coisas chamadas “importantes” pelos homens cegos, surdos e vazios, que têm armas nas mãos, autorizações, contratos, leis e certezas absurdas sobre aquilo que não entendem e que não podem possuir de verdade. homens que matam e torturam os menores, que se enchem daquilo que não precisam e por isso estão dispostos a morrer.(…) olho sempre para os passarinhos, com os seus corações pequeninos e frágeis: neles só cabe o que é verdadeiramente importante, imprescindível. tudo tem seu lugar, a medida certa da alegria, do contentamento. neles não há o luxo doente dos espaços vazios – casas sem mobília, cômodos sem moradores, paredes sem quadros, gavetas organizadas, infância sem memórias, papéis arquivados, cartas sem palavras, palavras sem sentido, pele sem cheiro, cama sem corpo, títulos de posse, comida apodrecendo, disputas e desperdícios. ali, só há espaço suficiente para a vida, não importa vinda de onde e nem quando. (…) só conhecem o que é pequeno, só sabem do pouco que preenche os seus corações pequenos, sempre a bater fora do compasso dado pelo mundo. comem porque têm fome, voltam por ter saudade, e ninguém jamais os obriga a voar, se não quiserem fazê-lo.

Raquel Drummond veio a nós. É biscate que se sabe e se diz. E diz assim, em duas palavras: demodê e margosa. Quer ler mais? ela escreve o Pretéritos Imperfeitos.

Inverno

Aviso aos Navegantes: Ontem a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
Inverno, Perséfone*

É inverno. Daqueles em que nesta cidade miserável as ruas e as paciências transbordam. Por isso hoje eu telefonei e fingi uma gripe para o chefe que insiste em me chamar de minha filha enquanto eu engulo a ânsia de vômito e a vontade de esbofeteá-lo.

Me encolho na mentira, enrosco-me na minha solidão e começo a praticar meu esporte favorito em dias de tempestade.

Primeiro eu tiro a roupa. O frio e a barulho da chuva já se encarregam de arrepiar-me os bicos dos seios. Lembro que você os chamava peitos e enchia sua boca com eles, depois de pronunciá-los. Fecho os olhos e tento esquecer. Percorro meu repertório de fantasias enquanto meu dedo indicador molhado em saliva percorre um caminho que vai deles até o meio das minhas pernas. Abro-as com mãos imaginárias e as minhas próprias e deixo que o vento da janela que deixei aberta sopre desejo dentro de mim. Depois protejo com as mãos em concha meu sexo, só para brincar de não quero. Por pouco tempo. Já estou molhada.

Fecho os olhos, gemo baixinho e deixo que escapem-me dedos e o controle quando volto a pensar na chuva e em nós. Enfio-me um dedo, depois dois. Mexo com os dedos molhados de mim, da esquerda para direita, da esquerda para direita, e de novo e de novo e de novo.

Devagar, muito devagar, tudo fica nublado. Como naquela noite em que eu não queria sair de casa, mas você insistiu porque era inverno, ia chover e você me amava.

Antes de conseguimos chegar a qualquer lugar, a tempestade nos surpreendeu. Lembro de ter tirado os sapatos e corrido para debaixo de uma árvore. Sua mão achou minha boca e meu sexo e levantou minha saia e puxou meus cabelos, enquanto tua boca percorria meu corpo bebendo de mim e da chuva que caia.

Enfio-me um dedo, depois dois. E de novo e de novo e de novo. Rápido. Rápido. Rápido. Mais. Mais. Mais. Gozo. Gozo. Gozo.

É inverno.

 

*Diz Perséfone: Já fui Core até comer a romã. Eva? Não conheço. Sou desde sempre. Vago entre sombras e desejos subterrâneos até que o canto da primavera me chame e eu sempre, sempre, volte á superfície. O que quiseres posso te dar. Juventude ou morte? Prazer ou dor? Gritos loucos ou suaves sussurros? Ambos?

Em busca da perfeita imperfeição

 

Com agradecimento especial à amiga e escritora que eu tanto admiro: Lélia Almeida, pelas tantas conversas inspiradoras. 

A paixão é feita do imperfeito. Mora bem ali no território do impossível, das coisas indizíveis, do inalcançável. Um terreno de fantasias, que são fantasias exatamente porque não tocam os pés na terra. O desejo da paixão é um desejo feito de irrealizações. A gente quer sempre mais. A gente quer o que o outro nunca pode dar. A gente deseja um algo mais que não se toca com as mãos, cria expectativas que nunca podem ser satisfeitas. O desejo é mágico, é aquele pó dourado que faz brilhar a pessoa onde só a gente consegue enxergar, em lugares inventados e inalcançáveis.

 A paixão é egocêntrica, e ela sobrevive porque é assim. Porque ela é nossa, é nossa fantasia projetada no outro, é a vontade de seguir com ele até o reino do inimaginável, onde moram os tesouros escondidos da transcendência. A paixão quer transcendência, vida líquida, imaterialidade, projeção louca que nunca será alcançada. E é dessa matéria lúdica e rarefeita que ela se alimenta, que ela se cria, e é tão bom que a gente não quer que acabe nunca. 

 O que alimenta a paixão é justamente a falta, a incompletude, o buraco não preenchido, a ausência não suprida, tudo isso que faz com que a gente busque, com que a gente se reinvente, com que a gente reinvente o outro a cada momento, com que a gente chore e sofra e queira  mais, porque quando estamos cansados e queremos ir embora o desejo nos invade e grita: aqui eu sou feliz. Porque aqui eu posso ser impalpável e incerto, porque aqui o outro é faltante – e que bom que ele é faltante, porque é na falta que mora o combustível do querer-mais, e do querer-sempre. É da falta que se faz a pulsante natureza humana, o enigma da existência e da vida, o curso do rio que nunca cessa – em busca do mar-mundo e sua inquietude de ondas.  

 E mesmo que haja dor (sem que isso soe masoquista), há alimento para a alma. Mesmo que hajam lágrimas existe a vontade de fantasiar mais, porque aqui o humano se potencializa e rompe barreiras, porque aqui o sexo é algo mais do que prazer, é aqui onde a vida se faz mágica e cheia de indefinições. E no fundo, acredite, a gente gosta das indefinições e dos improváveis, porque são eles que nos motivam a buscar mais, a movimentar a vida como ela pulsa por dentro, a sermos mutáveis e vibrarmos com a constante energia das nossas menores partículas – que nunca se aquietam.  

Quando tudo tá certinho e cor de rosa, quando não tem desejo louco nem impossível, quando não  há algo escondido a ser descoberto, quando o outro é fácil e previsível nas suas ações, quando a gente tá “satisfeito”, quando a gente decifra os passos e sabe tudo que vem do outro, a gente enjoa. E a gente enjoa porque é da natureza humana, porque quando tá tudo perfeito a gente vai buscar a imperfeição de novo – já sabia bem disso o velho Freud. E quando a gente não busca a gente se resigna, a gente se diminui, a gente vive sem sobressaltos, quase apático para tudo que pode ser, quase cego e quase mudo, fazendo de conta que a gente é feliz ali, no morno. E fazer de conta, às vezes, é uma espécie de morte. 

 E também porque os encaixes perfeitos não são aqueles que a primeira vista a gente julga perfeitos, são os improváveis, são aqueles que a gente olha e dói a vista e não entende nada nem porque encaixa, são aqueles completamente imperfeitos. A incompletude é, talvez, o único modo de nos sentirmos completos, porque é exatamente um reino onde tudo pode ser diferente e sempre se pode sentir desejo de mais. Porque o humano, lá no fundo, não se contenta com certezas fáceis e corriqueiras. 

 Algo acontece por dentro quando não é assim, algo chora e vai buscar mais, a gente – espero eu – larga o casamento porque não tem ambição, a gente termina o namoro porque ficou morno, a gente rompe aquela relação duradoura que os amigos achavam que era a “relação perfeita” porque ficou chato, de repente ficou chato, e a gente se culpa por querer mais, por querer exatamente sair do conforto. “Mas, porque?”, perguntam. “Vocês se davam tão bem!”. Pois é, a gente se dava bem demais e não sei porque alguém teve que ir buscar algo fora, a gente se dava bem, estava certo e fácil, porque, céus, porque alguém quer sair daí? A dura resposta é porque estava desinteressante, porque o bem ficou bem demais e acabou o tesão, porque o bem era bom mas ficou sem graça, o bem era legal e previsível mas deixava um gosto de insatisfação no final, e essa insatisfação foi crescendo e sufocou. E aí a gente quer de novo a falta, algo novo que nos revire em desejos contraditórios e impossíveis. Porque, oras, Roberto Freire já disse com propriedade: “sem tesão, não há solução”!

 E é exatamente nessa dinâmica – e na negação compulsória dela – que mora uma das nossas ilusões. O mundo ocidental, desde os tempos modernos, capitalistas, dos Estados de Direito e dos impérios da lei, busca uma segurança ilusória que não existe. Deve haver segurança social, relações regulamentadas, fatos previstos, penas definidas, investimentos financeiros certos, casamentos de papel e “para sempre”, propriedade privada inabalável. Segurança jurídica é o nome do jogo, quer-se segurança, lucro e conforto, vida estabilizada, poder investir e não ter prejuízo, evitar os riscos. Evitar a dor, a doença, a loucura, a insegurança, o sonho, a confusão, a matéria prima de que somos feitos, a própria vida que corre indefinidamente para a morte.

 E nessa batida vamos tentando achar a fórmula de “como fazer durar um relacionamento”, negando a vida indizível da paixão e querendo acorrentá-la em certezas e solidez sem graça, em pequenos desejos satisfeitos que viram tédio, em mornidão bege. E tudo que consigo pensar, navegando pelos meus desejos e buscas impossíveis é: que eu consiga sempre me livrar da mornidão. E que a imperfeição seja meu norte!

 

Traição – O Nome do Jogo

Por Renata Lins*

“Traição”.

Pausa.

Vamos de novo, com mais vagar: traição.

Pausa de novo, pra você ter tempo de pensar.

Pensou? Feridas nunca curadas, amizades destruídas, ser passado para trás, duelos de espada … ? Bom, tem isso tudo também. Mas o que a gente quer tratar aqui é, biscatemente, a traição amorosa. Ou o que chamam de traição amorosa. Porque, claro, chamar de “traição” já dá um peso. Já legitima. Já justifica tanta barbaridade. Traição é o que de pior pode acontecer. Uma palavra feia. Uma palavra dura. Palavra sem volta. Julgamento inapelável.

Nossa sociedade estruturada em torno da propriedade privada e do seu simbólico transfere, sem nem piscar, o direito de posse para a relação amorosa. Meu marido.Minha mulher. Meu namorado. Minha noiva (inda existe isso, né?). Numa relação amorosa, dor e delícia, sonho e desejo, entra primeiro o possessivo. Entra com tudo. E com a exclusividade. Porque amigo também é meu: mas é meu e pode ser seu, dela, dele também. Amigo a gente compartilha, a gente apresenta aos outros amigos e torce pra que eles também fiquem amigos: entre amigos a gente confraterniza, se abraça, se agarra, se beija ladeira abaixo. Dança junto, bebe junto. Nas dores dos amigos, a gente chora junto. Amigos a gente ama. Ama, de verdade.

Não é, portanto, a questão da intensidade, como poderia parecer: o que diferencia o relacionamento amoroso do amor-amigo na chamada sociedade ocidental é a necessidade que ele seja único.Que supra tudo. Que dure. Que tenha paixão. Sexo selvagem. Filhos. Tanta coisa. Tanta, tanta coisa. Coitada da relação amorosa: muito peso pra ela. Muitas exigências.

Vi na semana passada o programa do Pedro Bial (Na Moral, of all names) que “discutia” traição. Lá havia um casal que estava junto há, se não me engano, 52 anos. E, segundo disseram, sempre foram um do outro. Sem trair. Sem escapadelas. Foram aplaudidíssimos. “Parabéns!”. Emoção, alegria, uma filha linda. Conforto para os telespectadores, moral da história e do programa: o ideal é mesmo ficar junto e ser fiel – mesmo que a gente faça de conta que tá abrindo a conversa.

Era um casal bonito, e parecia feliz. Não quero falar do casal, e sim dos aplausos, que me deixaram pensando. Aplausos pela vitória. Pelo esforço. Pelo sacrifício. É, gente, não dá pra negar: é um sacrifício, sempre. Se você é interessante e interessado. Se você está na vida e gosta de gente… você sempre encontra. Um olhar, um sorriso. Umas letrinhas, como dizia uma amiga que se encanta com textos alheios. Você pensa “e se…” e no “e se” está contido um mundo de aventuras. Junto com a sombria palavra traição.

Com ela, a idéia de traição, vem o medo da liberdade do outro. A necessidade de vigiar. Ah, pra isso, a era internética é fantástica. Fica fácil. Como no caso daquela moça que se desesperou ao fuçar as mensagens do celular do namorado. Fuçar as mensagens do celular? Imagina você fazendo isso com um amigo – a invasão, a falta de respeito à privacidade. Não aconteceria. E, acaso você não resistisse a dar uma olhadela, seria por diversão. Provavelmente nem mencionaria. Já na relação amorosa, a pessoa se acha no direito. Não só de ler, mas de fazer barraco caso leia algo que não esteja a seu gosto.

Antes mesmo dos tempos hiperconectados, já haviam me contado aquela história da moça que foi olhar o extrato do cartão de crédito do namorado. Surtou com ele: tinha feito uma compra na rua que era a rua da ex. Muito estranho isso. O que é que você estava fazendo naquela rua. E … dá pra imaginar como continua. E como é absurdo. Olha o tamanho da maluquice: o cara tinha feito uma compra numa loja situada na rua em que morava sua ex-namorada!!!!

Tem também o contrário do surto: o silêncio, a mágoa contida. Digna. Elegante. Mas como dói. Tudo isso por conta da droga do medo de ser traído.

E aí, tantas separações. Tantos machucados. Tantas brigas, tantos soluços, tantas portas batidas. Tantas culpas por não ter resistido. Tá certo, eu errei. Não era, não devia ser. Foi só uma vez. Eu prometo, não vai mais acontecer. Eu tava frágil, você tava viajando. Eu tava carente. Ele que quis, me provocou.

E nunca: eu tava feliz. Eu tava bem, eu tava bonita. Eu encontrei e tive vontade e fui. Porque aí não. Assim não pode, assim não dá. Traição é o nome do jogo, e o mínimo que se pede é a culpa. Não fica nem bem.

Num mundo em que a propriedade privada é totem, amigos se pode ter muitos. E com eles se festeja, se chora, se vive a vida. Amigos ficam e podem, sim, ser pra sempre. Pra uma vida inteira. Porque amigos, a gente compartilha e multiplica.

Amores? Relações amorosas? Às vezes são pra vida inteira. Mas é tão difícil. Implica tanto. Tanto a fazer, mas tanto também a deixar de lado. A não viver. A não experimentar. Tanto que, quando a gente encontra um casal que está junto há 52 anos, não resiste: aplaude. E o aplauso nos traz de volta para a zona de conforto. Aquela que nos impede de pensar “e se”. Se eu tivesse ido, testado, experimentado. Se eu tivesse ousado. Mas tem a “traição” no meio.

Ninguém quer ser “traidor”. Mesmo que o que se chama de traição seja um tipo de honestidade. Com nossos próprios desejos. Com nossa própria integridade, nossa própria liberdade. Que tenha como arcabouço uma ética que não inclua a hipocrisia amorosa. Até porque, né. Nada é assim preto no branco. Tem zonas cinzentas, tantas gradações. Tem os que são, é certo; mas também tem aqueles que talvez. Aqueles que quem sabe. Aqueles que às vezes. Aqueles que não era pra ser, mas. Aqueles que quando viu, já foi. Aqueles que a gente nem viu quando foi. Aqueles que um dia. Amanhã ou depois. E aí, como fica?

*Renata Lins agora escreve aos sábados no nosso clube. Carioca tranquila e bem humorada, economista e tradutora, que já esteve exilada, socialista e de uma sensibilidade ímpar, apaixonada por livros, filmes e música e que, acima de coisas, gosta de pessoas. Saiba mais dela no seu blog Chopinho Feminino ou a acompanhe no tuíter @repimlins.

E Quando Acaba?

A música começava assim; “eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar…” e quase não precisava de mais nada, você já sabia que o tadinho do cara estava era lascado mesmo, afinal aquela voz de Dolores Duran arrastando-se não prenunciava boa coisa.

Música e dor de cotovelo sentida ou causada parecem uma combinação quase perfeita. Eu sei e não sei disso. Sei porque adoro uma música desse naipe. Fico toda arrepiada só de lembrar a Maysa e sua voz quente e clara quase soletrando “é que isso acontece porque vou passar minha vida esquecendo você” ou a Elis rasgando tudo “te adorando pelo avesso até provar que ainda sou tua”. Sei também porque tenho amigas e elas, vez em quando, dizem: “ai! (sempre tem um gemidinho antes) essa música parece tanto quando eu e o fulano terminamos”. Sem falar as incontáveis trilhas sonoras de filmes e novelas, de bom (e às vezes nem tanto) gosto.

E não sei da combinação música/dor de cotovelo porque nunca fui boa em sofrer por fim de relacionamento. O mais que rendeu foi: a) uma carta até fofa, dividida em capítulos e que continha a pérola: os dezesseis dias seguintes ao fim do nosso namoro… pode rir, pode rir, isso mesmo, eu escrevi “os dezesseis dias seguintes”; b) uma noite com três cigarros, trancada no quarto, ouvindo na radiola (mais risos, eu sei) o LP (mais pausa para as gaitadas) Drama 3 ato da Maria Bethania e c) uma viagem sobre o Atlântico porque chorar no travesseiro é quente, mas não tão divertido quanto ouvir Lucciana no pé do ouvido com aquele sotaque delicinha. E só. Mesmo. Podem perguntar por aí. Se você pensa que meu coração é de papel… talvez ele seja!

Não costumo sofrer quando acaba, mas explico, é que se tiver que dar uma dorzinha, dá logo ali, no durante, eu sinto os percalços na hora exata em que machucam. Passou? Pois passou. Também, devo confessar que não fui muito testada, pode até ser que ainda passe um trator na minha vida e eu volte aqui toda alcione e fafá de belém. Mas até agora eu já cortei mais do que sangrei e olhe que nunca foi intenção andar com punhais. Mas, então.

Eu sempre ficava um pouco chocada com a dificuldade que as pessoas pareciam ter de simplesmente seguir em frente. Porque é assim que eu faço. É que sou meio Wolverine nessas recuperações de dor de amor. Como faz tempo que eu intuí que relacionamento é um troço impossível – tem uns que dão certo só pra sustentar a regra que toda regra tem exceção – não me lembro de um tempo em que eu tivesse expectativas do tipo: “agora vai”, “é esse” ou coisa que o valha. Hoje, continuo dando ratas, pisando na bola, enfiando o pé na jaca, essas coisas: por exemplo, encontro uma pessoa uns quatro, cinco meses depois que um relacionamento acabou e ela me diz o quanto ainda sofre, aí me dá um oco no juízo e eu digo: ué, mas já faz tanto tempo… como se o relógio de todo mundo corresse igual. Alô, biscate (sou dessas, puxo minha própria orelha), e liga que você não é régua de nada, o tempo de cada um corre conforme quer e pode, eu sussurro pra mim e vou tentando aprender.

É que nos meus envolvimentos, eu vou vivendo o que está sendo. Tem hora que eu penso que amar é justinho como comer: gostoso devia ser o critério principal. E não acho que exista um modelo de relacionamento feliz. Não acho que existe um jeito melhor, que serve a todos e que se sairmos ligando os pontinhos vamos sair do labirinto. E se não há um relacionamento certo, viável e feliz garantido, porque eu deveria doer por este, concreto, real e historicamente delimitado? Não há nada, acho eu, que um relacionamento deveria ser. Ele é o que é, inclusive sua ruptura. Isso é libertador, porque elimina parâmetros de comparação e queixas sobre metas e sonhos irrealizados.

Sabe a frase inicial (brilhante) de Anna Karenina? “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”? É o mesmo com os relacionamentos amorosos – só que praticamente pelo avesso. O que vai dando errado nos ensina. A gente vai percebendo o que não funciona com a gente. O que nos dá prazer é, quase sempre, descoberta. Imprevisível. O que nos encanta e envolve está ali, tão perto e, ao mesmo tempo, sob um véu que costumamos chamar amor.

Porque a gente ama? É sempre difícil falar de amor. Diz Lacan (aquele biscatinho nhami,nhami – cês já viram a foto dele sem camisa, fumando e tomando sol?) que é impossível, mas é do cerne do humano tratar do impossível. Aí estão os poetas, que não me deixam mentir, rimando e rimando para escamotear que não há palavras para dizer o desejo. É impossível falar de amor, talvez, porque dizer do amor é dizer da falta que o estrutura e da entrega que o mantém: “amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Não quer porque o que lhe falta não é o mesmo que nos faz incompletos e que supomos que ele anseie. Assim, oferecemos o que sobra ao Outro pensando suturar uma ausência. O amor remete ao vazio e é pelo vazio diariamente convocado.

O amor vem falar do que nos diferencia, do que nos faz únicos: o meu amor sou eu, irrepetível. A falta que se faz amor é constitutiva do ser humano. O amor é pra trás, está lá, na memória, o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi. Chegamos atrasados ao nosso amar, é isso. Procuramos nos alcançar e ao que sentimos, mas quando damos nome, quando batizamos o sentir, é aí que o perdemos, porque o que podemos falar não consegue dizer de tudo que é. Amar é solitário. Por sermos únicos, a forma do sentir também o é. E isso faz com que os momentos que chamamos encontros pareçam ainda mais belos.  E, claro, torna-se mais difícil seguir sem eles.

Eu sei, agora pelo outro lado da janela, que quando um relacionamento acaba, quem a gente era naquele relacionamento morre. Isso dói. Às vezes a saudade de quem éramos naquela relação machuca mais que a ausência do outro. E nem sempre conseguimos conviver com o fantasma de quem fomos. E, quase sempre, é mais de um fantasma. Porque morre quem a gente era e morre também quem a gente acha que seria. Morre quem a gente planejou, a pessoa que achamos que seríamos, tão mais feliz, resolvida e realizada do que quem a gente é na vida real. É difícil abrir mão desses eus que seriam tão felizes. É difícil fazer o luto pela relação, pelas esperanças, por nós, é difícil velar esse vazio e angústia que nos ocupam. Mas não é nada difícil, pra mim, entender que, depois do choro e vela, a dor virando memória, as belezas vividas possam manter boas amizades ou, pelo menos, relações cordiais de carinho, admiração e respeito mútuos.

Nisso de relacionamentos com o que já não é, eu costumo ter muita sorte. Sou amiga de vários ex-namorados, ex-marido, ex-rolo, ex-tico-tico-no-fubá. Os que não são amigos, amigos, são contatos friendly. E os que nunca mais vi ou falei, foi por acaso e estradas diversas, mas tenho, por eles, ternura. Lembro carinhosamente os sorrisos todos que eles me proporcionaram. Meus envolvimentos sempre foram bons. Começaram bem, seguiram bem, e, com certa habilidade, bem terminaram. Eu os quis com intensidade quando os queria e não mais quando não queria, mas há que se aprender a cuidar e eu cuidei e fui cuidada. O certo é que fui feliz com estes homens que me habitaram e em quem habitei. Mais ainda, fui alegre.

Mas sempre tive nostalgia de uma grande dor. Romântica de verdade, não esperava o grande amor, mas o grande sofrer. Um tango habita meus íntimos espaços. Eu esperava aquela dor que ocupa as melhores canções, os maiores filmes, as indescritíveis solidões. De vez em quando, suspeito do meu riso e a espreito a alegria, esperando que ela fraqueje e deixe ver que é só um vazio. Mas ela segue, firme. Fui me acostumando a não sofrer e, às vezes, tenho medo de ter me acostumado a não sentir. Quando esse fantasma suge, não tenho dúvida, já logo convoco a Izmália que, ao invés de pôr-se na torre a chorar, foi lá, pegou o microfone e disse a que veio:

Paixão? Amor? Outra resposta possível?

Aqui em Minas, a gente tem um jornal. Quer dizer, temos uns três, mas acho que um é “O grande jornal dos mineiros” ¬¬ e é o Estado de Minas – EM (uma grande porcaria, se querem minha opinião. se não quiserem, azar.).

Meu pai ainda o lê. E minha mãe, na segunda feira, me mostrou uma coluna escrita por um deputado e conselheiro sentimental, cagador de regras, chamado Antõnio Roberto, o artigo em comento, que começa, via de regra, como as colunas dele no tal jornal, com a pergunta de um leitor(a).

Eis a pergunta:

“Antônio Roberto, apaixonei-me por um rapaz, há um ano. Foi uma loucura nosso relacionamento nesse período. Vivíamos exclusivamente um para o outro. Há um mês, ele terminou, após um período de esfriamento. Por que a paixão acaba? Estou sofrendo muito. Me ajude. Beatriz de Belo Horizonte.”

Me peguei pensando em todas as paixões, paixonites e amores que já vivi na vida.

E lembrando de Legião Urbana e do amor que é fogo que arde sem se ver e que sem amor, eu nada seria…

E de todas as canções de amor que já foram escritas.

E de que alguém já disse que de amor não se morre, se vive.

E que sou uma eterna romântica, mesmo quando faço cara de biscate blasé.

E lembrando de Legião, busquei o Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E lembrando da Luciana, que freudianamente me indico este texto, eu lembrei de um post do Borboletas, e quando o encontrei, me perdi. E me achei.

A resposta, Beatriz, afinal, eu não sei.

Paixão, amor, amor, paixão? Quem é que sabe?

Mas explicação para eu escolher os dois, sempre, mesmo com a dor e a agonia, é essa aqui, do vídeo:

Enquanto dura, é bom pra caralho! (E pra buceta!)

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