Declaro para os devidos fins

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Declaro para os devidos fins que…

Eu sou a fim de você.

Pronto. Falei. Ufa. Saiu. Nem foi tão difícil.

Peraí… Tá falado mesmo? Você ouviu? Ou escrever foi só um jeito que eu arrumei de não falar de outro jeito. Eu sempre com essa mania… Mas agora, fui lá, voltei na primeira linha e parece que eu falei mesmo, com todas as letras.

AFimDeVocê

Não sei se você queria ouvir isso. Nem sei bem o que eu quero dizer. Mal te conheço… A fim. A fim como? No dicionário diz que é: com intenção ou vontade de. É isso. Tô com vontade. Sou hoje uma vontade em forma de gente. E vontade é como fome, a gente sabe quando sente.

Quando eu tava pensando como é que eu ia falar isso, fiz até uma rima desajeitadamente adolescente que diz assim:

Vou falar de um troço bonito
De um jeito diferente
Vou pegar essa vontade
E embrulhar pra presente

A coisa em si eu não sei definir
Tá lá dentro e é bom de sentir
Faltava falar
Pra poder existir

E aí, você me pergunta: mas por que agora? O mundo caindo e você aí sentindo coisas? Ainda mais em público. Qual é o link? Explico. Outro dia, escrevi um texto aqui mesmo que era um pouco sobre isso. Era alguém muito seguro falando um monte de coisas sobre esse negócio de gostar, de ter vontade e não saber o que se passa na outra cabeça. O texto teve mais de 300 compartilhamentos. Uma penca de gente achou legal. Mas uma amiga observou que eu simplifiquei tanto tudo que aquilo não queria dizer mais nada. E que até parece que esse negócio de gostar é simples. Devo dizer que a amiga tende a ler entrelinhas, sobrelinhas, sublinhas, onde às vezes só tem as linhas mesmo. Mas nesse caso, ela tinha razão. Gostar não é simples.  A começar por mim que não consigo nem falar que eu tô a fim.

Me senti meio canastra, sabe? A real é que pra mim, falar é a última opção possível. Evito com todas as forças, sobretudo na vida pessoal. Falar pra mim é trabalho. Às vezes eu gosto que seja assim. Às vezes desgosto profundamente. Hoje particularmente eu tô achando uma covardia não te contar dessa vontade. Cara, não sinto uma vontade gostosa assim há tanto tempo que seria uma puta sacanagem guardar só pra mim.

Então pronto. Declaro para os devidos fins que… Ah, você já sabe.

Pode não ser a hora nem o lugar pra uma declaração de gostar desatinada. Essa cartinha pode ser datada, pouco moderna, nada cool, mas taí. E pensando bem, eu sou meio assim mesmo: datada, pouco moderna, nada cool, só que de tênis.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

O outro em mim

Por Helen Leal*, Biscate Convidada

“Se não me misturo
Ao que é diverso no mundo,
Fico ausente de mim.”

           Decidimos terminar. Ou melhor, decidi e ele me disse: espero que a certeza da tua certeza te faça feliz, porque, quanto a mim, seguirei juntando os pedaços. Fiquei com aquela imagem de corpo esquartejado na cabeça e me senti desconfortável, pois não queria fatiar nenhum corpo, nenhuma alma, nenhuma lembrança. Só queria recomeçar.

          Alguns dias se passaram e percebi que o meu próprio corpo se desmanchava. Por uns minutos poderia ser um saco vazio sem órgãos e por outros um canto de passarinho de manhã cedinho, ou ainda, o pelo macio do gato em contato com a pele. Me sentia ora repleta de mim mesma, ora sem os braços, os pés e até mesmo sem a cabeça. Dentro de mim fazia eco, por outro lado, sentia cheiro de mar e minha pele mudava de cor. Estava em transformação e gestava em mim algo desconhecido do meu inconsciente porque parecia vir de fora, mas um fora que era borda também e prenhe da minha história no mundo.

          Meses depois de ter terminado, passeava por uma cidade pequena, encravada numa serra. Ali, me vesti de orquídea lilás, fui os matizes do verde das matas, fui o cheiro do café caseiro e me desfiz em noites frias ao lado da fogueira. Já não sentia mais minha carne e ocupava o espaço entre a correnteza da água do rio e a pedra quente do meio-dia.  Neste espaço exíguo de ser, fui cortada pela natureza que se desdobrava em luz, em elemental, em onda. Assim, no instante em que me recobri com a luz verde de um jacarandá, capturei a inteireza do sorriso dele, desdobrando a minha experiência presente em passado, através da sua lembrança, e em algo que ainda está por vir, através da interrogação: o que serei eu, depois de não-carne que se encontra com ele, pedaço-sorriso? Lançada em intimidade profunda com a leveza do seu sorriso, deixei-me atravessar por este impalpável que ali, na beira do rio, me fazia companhia.

          O tempo já não contava, pois não era mais medido e quantificado. Ele era o tempo da minha experiência com o seu sorriso lindo, mostrando dentes perfeitos e lábios sedutores. Meus sentidos se abriram e, como em mágica, minha visão tornou-se capaz de captar o inaudito e meu olfato foi dotado de habilidade para recolher o cheiro dos amores secretos. Fui invadida por ondas de amor carregadas por ventos fortes que, a cada lufada, faziam correr em mim partes da nossa história, já misturadas com o som da correnteza, já imiscuídas no que deixamos de ser.  Meu presente se tornou recipiente animado, conjunto de inúmeras forças que me faziam tocar o interstício de nós mesmos. Não apenas já não era eu, mas também já não era ele. Éramos nós que naquele instante se fez de maneira infinita e audaz, pois desse encontro entre não-eu e não-ele, surgiu um nós profundo, amoroso, sem amarras.

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          Ao ser percorrida por afeto tão forte, que abriu meus poros para o novo que estava ali em potência, percebi que abrigava os pedaços dele. Ele está em mim e me fez outremim, quando já não sou, mas estou em conexão com o que é dele e me afeta, desmanchando meu rosto. Já não posso mais questionar “eu ainda o amo? Ele está pensando na gente agora? Será que fiz bem em terminar com ele? Não poderíamos ter dado certo?”, pois não há certeza possível quando o encontro dos corpos não é promessa de nada, mas a passagem para a criação de algo novo dentro de nós mesmos.

         Quando vou à cachoeira, ele está dentro-fora de mim, quando o meu cabelo brilha, pode ser ele entrelaçando os dedos ali, como gostava de fazer. Hoje sou eu, não-eu, ele, parte dele, nós, eu nele, ele em mim e a superfície onde tudo isso se encontra e se refaz. Sou também a força de querer que, aquilo que me recorta, me desdobre em outra que olhe o mundo com olhos de criança e sorriso largo. Hoje amanheço o amor das incongruências.

 

foto Helen*Helen é vento inquieto, psicóloga freudiana por formação e nômade por profissão. Trabalha no Itamaraty, já morou em vários países e por estar em constante contato com outras culturas, todo dia desaprende um pouco mais. Tem por hobby unir em uma mesma sentença as coisas sãs e seus desvarios e está sempre atenta ao que pulsa para além do cotidiano desgastado. (na fotinha, dando as caras no Templo de Baco)

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Por trás de uma piada tem alguém descascando as batatas

Não acho a menor graça em piadas que mostram a mulher como a única pessoa que sabe o que se deve fazer na casa, e o marido como aquele bobalhão que precisa de instruções detalhadas e ainda se engana.

Isso me ocorreu por conta de uma imagem supostamente “engraçadinha”, que tratava do tema e circulou pelo meu feicebuque há um tempinho:

Cara, que cansaço me deu isso. A mulher pede para o sujeito descascar as batatas e colocar no fogo “para mim”. Claro, né. Ela é que faz a comida, sempre. Naquele dia, pede um favor para o marido. Algo que não faz parte das suas tarefas habituais: afinal, quem faz a comida é ela. Mesmo assim, o cara não tem ideia do que está fazendo, como fica óbvio pela imagem.

Qual é a graça mesmo? Um homem adulto, com as faculdades mentais perfeitas, não ter ideia do que faz quando entra na cozinha é engraçado? Cês juram? A mim me dá uma certa pena. Não ter ideia do que fazer na cozinha significa que você jamais precisou fazer comida para si mesmo. OK, você pode comprar comida pronta. Sempre. Se (pequeno “se”) tiver dinheiro para isso. Mas fica parecendo “bonito” um homem que não sabe nem por onde começar. Reafirma espaços: à rainha do lar – que tantas vezes só faz dar ordens para outra que não é rainha daquele lar ali -, o saber da cozinha; ao homem da casa, o provedor, o cuidador, o espaço lá fora. O trabalho duro, o dinheiro que traz para casa.

Não importa que a mulher trabalhe fora de casa também, que ela volte para a segunda jornada enquanto o homem-supostamente-provedor vai se sentar na frente da TV, tomar a merecida cervejinha, descansar das agruras do dia de serviço.  Não importa que, no Brasil, o percentual de mulheres chefes de família já chegue a quase 40%: entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda. Mantenha-se a piada. Junto com o que está nos bastidores da piada: quem cuida da casa é a mulher, quem provê para a casa é o homem, segundo a regra desse jogo. No  caso raro em que o homem vai se atrever a fazer tarefas domésticas, mete os pés pelas mãos. Fica tudo como está, pois. Tadinho, ele nem sabe fazer, ou ele faz errado, ou faz devagar, ou não faz do meu jeito. Deixa que eu cuido disso: de arrumar as crianças, de preparar a comida da família. O jogo tá mantido, assim como o futebol aos domingos. Às mulheres, as batatas.

Comportas

Por Maíra A., Biscate Convidada
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Às vezes é preciso não se saber para se encontrar. Deixar que as coisas explodam e se quebrem irremediavelmente. O que eu queria mesmo era os seus dedos nos meus cabelos. E mais um dedinho de prosa para arrefecer essa carência. Queria eu, nos meus dias de 365 horas, que você não tivesse entrado tão insuspeito, ou queria mesmo era que não tivesse saído. Mas você ficar é a vida como ela era. É demandar uma resposta que nem eu mesma tenho, porque a resposta antiga já não comporta mais. E eu também não me comporto naquela vida de ontem. O que eu queria mesmo era você lambendo os meus pés, chupando cada um dos meus dedos, subindo a língua morna e úmida pelas minhas coxas, passeando pela minha virilha, até eu não aguentar mais e explodir de tesão, gemendo feito gata no cio. Mas, na verdade, todas as nossas conversas foram imaginárias ou insuficientes. E eu cansei de escalar o muro da indiferença. Tudo não passa de uma noite escura, um vaso quebrado e um coração latejante da promessa que foi aquela noite. A cama já não comporta apenas dois. A vida estilhaçada entrecorta todas as promessas daquele conforto de “casa-marido-cachorro”. Porque a vida de gata no cio é a vida da noite, de quem pula de telhado em telhado, boêmia e vadia, sem eira nem beira nem garantia. De quem vai rondando os espaços ao sabor do vento, que entra pelas narinas enquanto corro, chegando a doer o peito e tontear a cabeça. Enfim, respiro.  O que eu desejo ainda não tem nome. Mas pulo assim mesmo no abismo da noite. Queria mesmo era me enredar no aconchego dos seus braços, mas não consigo parar quieta: é o corpo que explode em festa. Não me sei, apenas me desconfio um bocado. E insisto em não me comportar.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

Uma onda colorida

Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

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Mais e Menos

Ainda bem menina do juízo ouvi falar de Freud e da ideia de que viver é um estado permanente de incompletude. De que a possibilidade de ser/existir advém justamente dessa impossibilidade de ser-todo que nos estrutura. E para mim isso fez – e continua fazendo – todo sentido. Além, isso me proporcionou uma bem vinda liberdade, especialmente no que tange a relacionamentos.

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Saber que não é possível a metade da laranja, a tampa da panela, o encaixe perfeito, o sapato velho pro pé cansado (qualquer que seja a alegoria preferida), me fez lidar de maneira mais solta com as idealizações, demandas e expectativas tão disseminadas na cultura a respeito do amor romântico.

Não importa o quão bom seja o relacionamento, não importa o tanto que o moço ou moça nos faça bem, não importa o quanto a gente se acerte, se ajeite, se curta, vai ser menos do que o que nos completa (ainda bem). Reconhecer isso geralmente me garante duas frentes:

1) ter a monogamia como algo irrelevante nos meus vínculos: saber a minha incompletude é, também, reconhecer e respeitar a das outras pessoas. Sentir que ninguém vai ser capaz de me completar (inclusive ninguéns, porque não é uma questão de quantidade) me faz lidar de forma leve com o fato de que eu também não sou “o que basta” pra alguém. Que o que falta ao outro, para além de mim, se encontre ora em um disco, em uma caminhada, em um programa de tv ou em sexo onde eu não estou envolvida não implica na diminuição, aviltamento, whatever, do que a pessoa sente e vive comigo.

2) amenizar aquele momento pós lua de mel dos afetos: a gente se encontra, se esbarra, se roça, se enrosca, se encanta, mergulha. A pele arde, o corpo pede, palpitação, falta de ar, deslumbramento. Gozo. Muitas vezes se pensa: agora vai, é essa “A” pessoa. E quando o desassossego encontra o cantinho dele no peito que lhe é de direito (seja primeiro no nosso, seja primeiro no do outro), sem a ideia da incompletude ali na mesinha de cabeceira, a desilusão com a outra pessoa, com a gente, com os relacionamentos de maneira geral cai na cabeça que nem piano em desenho animado da infância.

Lembrar que a impossibilidade da completude é o que nos define e nos possibilita viver me ajuda a reconhecer meu desejo e lidar com ele. Seja para partir em busca do coração em descompasso e da sensação de inebriante bebedeira de um começo outro com outro pequeno vislumbre do encontro perfeito, seja para respirar, puxar o cobertor mais um pouquinho pro meu lado, encaixar no abraço e seguir.

É que, penso eu, não há garantias. Não há escolha certa. Saber o não-toda tem uma beleza silenciosa que é acolher, em antecipações, o que vem. O que faremos de nós. O que nos acontecerá e o que faremos com isso. Vem, vida. Sentir que amor e felicidade não vivem uma relação causal, que felicidade é nas horinhas de descuido, alivia.

Então eu falto, eu falho, eu tropeço, eu manco. Eu não-toda. Buracos. Espaços. Às vezes úmidos de lágrimas. Mal não há, o molhado faz o fértil, tantes vezes. Então o mais, o além, o depois, o também. Então o desconforto, o desassossego, o desmantelo, a demanda. Então o repouso, o morno, a certeza, o descanso. Então os encontros, as marés, as danças, os ritmos. Tudo menos do que. Bonito. Gostoso. O vão, a brecha, o intervalo, lacuna. Os outros. E a voz da Elza Soares no peito:

Você poderia ser mãe dele

“Você poderia ser mãe dele” – disse. E, já enquanto dizia, soube que nada estava mais longe da verdade.

Bastava prestar atenção no rosto dela.

O rosto dela. Os olhos cintilantes dela.  Aquele brilho. Aquele ar de que apenas segurava o sorriso pronto. Por pura bondade, por generosidade: não escancarar a felicidade na frente dele. Não o deixar mais no chão do que já estava.

O olhar que ela lhe lançava era assim, piedoso.

E permanecia sem dizer nada.

Pra quê?

Estava tudo tão claro.

Ofuscante.

Ele fechou os olhos com força: tentativa de apagar a imagem que rodava na sua cabeça como carrossel. Os dois abraçados. Fundidos. Derretendo-se um no outro. Exatos.
Precisos como um soco no estômago.

Quando os abriu de novo, ela já não estava mais ali.

Ouviu, ao longe, a porta da sala bater.

 

Nua

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Imagem daqui

Eu gosto de estar nua. Gosto, especialmente, de andar nua. Não foi sempre assim, lembro que com doze, treze anos, pra trocar de blusa na frente de alguém, nem que fosse, sei lá, minha mãe e mesmo que eu estivesse de sutiã, virava as costas pra pessoa. Aí o tempo passou e eu fui aprendendo sobre meu corpo, vivendo sua gostosura, apreciando senti-lo e deixando as roupas cada vez mais tempo em seus cabides. Hoje em dia tenho que me lembrar de me vestir pra sair e muitas vezes assusto as visitas começando a tirar a roupa na sua frente até me tocar e ir pro quarto ou algo assim.

Sim, eu gosto de estar nua pelos óbvios motivos biscates. Gosto de tomar banho, água quente na nuca, espuma na pele, gosto de me esfregar com vagar e deixar o corpo gozar de ser tocado. Gosto de estar nua ao me masturbar. Gosto de me despir na frente do (s) moço (s) e ver seu olho me vendo. Gosto de ir deixando pele nua encostar em pele nua. Gosto de mãos espalmadas no meu corpo. Gosto de línguas umedecendo carne. Gosto do roçar, do calor que vem de dentro pra fora, gosto do suor escorrendo na nuca, dos mamilos endurecidos, dos pelinhos se eriçando.

Mas tem mais nisso de gostar de estar nua, mais do que deixar meu corpo nu em outro corpo nu (e isso não é pouco). Gosto do meu corpo nu por ele mesmo. Pelo que me conta. Pelo que diz de mim pra mim. Gosto de levantar os braços e ver os seios subindo, as aureólas mudando de lugar. Gosto de deitar e vê-los escorrendo pro lado. Gosto de pressionar os braços e ver aquele vale a la espartilho antigão se formando. De olhar minha mão e reparar que os dedos do cotoco são meio curvados pro lado enquanto os outros são tão retinhos. De cutucar os pelos nascendo na perna, macios, alguns encravando depois de uns dias da depilação com lâmina. Não gosto muito do cotovelo, daí todo dia, depois do banho, fico na frente do espelho olhando pra eles um bom pedaço, dizendo pra mim mesma que, ué, são esquisitinhos, coitados, mas são meus. Gosto de colocar reparo se meu tornozelo está caminhando em direção a se tornar membro da família do meu avô ou se é impressão causada pelas coxas grossas. Gosto do meu totó, corcundinha de estimação. Gosto dos inexplicáveis arranhões que consigo fazer nas costas, em uma flexibilidade noturna que nunca consigo repetir acordada. Do sinalzinho de carne que tenho na parte interna da coxa. De fazer ponta e sentir o esticadinho que dá do dedão até a coxa. Gosto.

E de andar nua, já disse né? Tudo isso, mas em movimento. Gosto de sentir o peso alternando de um pé para o outro, a palma toda encostada ao chão. Do movimento da bunda, o sobe e desce. Do peso da barriga, o ondular ao mover-me. Do roçar dos braços nos lados do peito. Das coxas no encontro, desencontro, encontro, desencontro. Do respirar e sentir o ar levinho, fugindo, entre os lábios. Sentir o corpo meio cortando o vento, o tempo, as coisas que o negam ou definem.

Andar nua na frente do outro: bônus.

Ficar nua, estar nua, ser nua na vida. Como metáfora, mas, principalmente, como materialidade. Não ter vergonha. Meu corpo não tem erros, tem história. Estar nua me lembra as alegrias, as dores, os desassossegos, os prazeres, os soluços, o parto, os abraços, a amamentação. Estar nua me conta infâncias de rua, asfalto, quedas e brincadeiras. Estar nua me diz de adolescência em flertes, livros e amassos. Estar nua me recorda amores, rugas, rusgas, encontros, viagens, praias e cobertores e risos e riscos, cicatrizes, caminhadas, repouso em camas e corpos outros. Envelheci. Engordei. Enruguei. Eu. Estar nua me lembra que o aqui é tudo que sou, que me fiz ser, que pude me fazer. Queria contar isso para vocês: é bem bom estar nua. É bem bom estar.

Eu gosto de estar nua.  E vocês?

 

Por partos e mulheres livres


Recentemente temos assistido uma grande polêmica envolvendo o parto domiciliar. Casos de partos fora do ambiente hospitalar que tem motivado uma série de debates sobre a liberdade da mulher parir onde bem entender, e como bem entender. Médicxs, juízes, juízas, promotores de justiça, gente da medicina e do direito vem se debatendo para barrar, tolher, regulamentar esse tipo de parto. Para entender até onde a mulher pode ser livre para dispor do seu corpo e da sua gravidez como quiser.
É preciso que se diga que esse é um debate um tanto elitista, pois se resume àqueles casos de partos domiciliares daquelas mulheres e famílias que puderam arcar com o que significa ter um parto domiciliar bem assistido hoje em dia: pagar umx médicx ou uma parteira, uma doula, umx neonatologista para ir em casa. Não estamos falando as mulheres pobres que pariram em casa por falta de opção ou por morarem num lugar inacessível a qualquer Hospital. Dessas não se fala, nem se preocupam os doutos magistrados e médicos. Essas são as invisíveis, excluídas, e não aparecem na mídia vendendo notícia. Estamos falando do parto domiciliar que não é para todas. É para quem tem acesso, muitas vezes, a círculos privilegiados e com dinheiro em estoque para arcar com isso. É para quem pode pagar. Mas, ainda assim: é um direito de quem pode. Como é um direito privilegiado de quem pode pagar um plano de saúde ter seu parto na suíte master do Hospital estrela mais mais. Ou daquelas que pagam um plano de saúde com muito custo e acabam nos protocolos de hospitais que, nem sempre, ou melhor, quase nunca, garantem seus direitos na hora de parir.
Infelizmente, a saúde capitalizada em nosso país como um bem de consumo. Temos o SUS para nos salvar e para continuarmos brigando por um sistema universal de saúde que reverta essa lógica. Mas ainda temos muito chão pela frente. O SUS tem incentivado a criação de casas de parto e a realização de partos naturais e humanizados, mas estamos longe de termos respeito às mulheres na hora de parir nos hospitais públicos. Basta que ver na pesquisa feita pelo Ministério da Saúde para avaliar a Rede Cegonha, seu programa integrado de promoção do parto humanizado, 62% de mulheres não conseguem sequer terem um acompanhante na hora do parto, direito legalmente garantido e que deveria pressuposto básico de todos os partos. Mas não é.
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Queria ressaltar, com todas as ênfases, que esse tipo de parto domiciliar não é a mesma coisa que um parto desassistido. O parto domiciliar é um parto onde existe uma equipe de saúde que atende à mulher, mas uma equipe que foge da lógica medicalizada e centrada no poder biomédico que existe nas instituições de saúde. Uma equipe que vai acolher a mulher no melhor lugar do mundo para que sua cria venha ao mundo: na sua casa. Parto que pode ter todo mundo peladx na banheira, parto com massagem, parto com a avó passando um café na cozinha, parto com respeito ao momento e a hora de parir, parto com música, parto com beijo, parto com amor. Mas, e se der algo errado? Bom, nos partos domiciliares existe sempre um plano B e um hospital de referência para seguir caso algo não saia como o esperado. Porque sempre é possível que algo não saia como o esperado, em hospitais ou em casa. Com ou sem médico. A vida sempre escapa de certezas. Mas o mito de que o parto domiciliar é menos seguro é o que querem vender como certeza.
Não temos estatísticas para evidenciar o número de partos domiciliares com qualquer tipo de intercorrência, mas sabe-se que são muito poucas, pois quando um caso surge, contra-hegemônico, cai o mundo na imprensa e nos fóruns de debates médicos e jurídicos, como assistimos nessas últimas semanas aqui no Distrito Federal. Um único caso. E o que temos do outro lado? Sabemos que a mortalidade materna no Brasil é enorme nos ambientes tão “seguros” dos hospitais. A Pesquisa “Nascer no Brasil” feita pela Fundação Oswaldo Cruz em 2014 trouxe o alarmantes dado de que a mortalidade materna no Brasil atinge o patamar de 69 mulheres a cada 100.000 nascidos vivos. É. Isso tudo. Temos ainda o Relatório da CPI da Mortalidade Materna de 2000 que apurou que 68% da mortalidade materna ocorre durante os partos e que em 98%  dos casos as mortes são evitáveis. Hum. Será que sair de casa e ir parir no Hospital é mais seguro mesmo?
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Mas aí vem algo que aprendi e vivenciei durante um Fórum sobre Parto que participei como debatedora pela Artemis na Associação Médica de Brasília: a mulher não é o foco de preocupação dos médicxs. Dane-se a mulher. O que importa é se o bebê vem ao mundo vivo e saudável. Não importa se a mulher pariu na posição de frango assado, se ela foi cortada sem necessidade por episiotomia ou numa cesárea desnecessária, se rasparam seus pelos pubianos para ficar “mais fácil” e “mais higiênico”, se ela passou horas desconfortável e sem a menor assistência.
O mundo machista acostumou-se a usar o corpo feminino e dele dispor sempre em benefício de outrem. Ou em prol da “família” ou em prol dos desejos do homem ou, ainda, para facilitar o serviço médico. Não é dado à mulher falar, reclamar, argumentar, não querer. “O que importa é a criança que carregas em teu ventre, mulher!. Fica quieta e aguenta”. Aguenta a violência, tão real e tão simbólica, e tão naturalizada na sociedade. Como nos mostra o Dossiê da Parto do Princípio é “normal” as mulheres passarem por violências das mais diversas ao parir, desde físicas até morais. Falas como: “na hora de fazer você não reclamou né? agora fica quieta” são corriqueiras, assim como cortes e invasões desnecessárias e sem o devido consentimento da mulher. Marcas que ficam, e seguem, no corpo e na mente de tantas de nós. Sim, eu também fui vítima de violência obstétrica.

Sabemos que o Brasil é campeão de cesarianas. Na rede pública vamos para um número parecido com 52% desse tipo de parto, enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15%. Na rede privada, pasmem, o índice sobe para 83%, podendo até chegar a mais de 90% em algumas maternidades. A cesárea, obviamente, pode salvar vidas. Como é bom poder ter esse recurso. Mas, como toda cirurgia, devia ser usada para casos de necessidade. Tem que ter indicação correta. o que não acontece, por certo, nos 80% dos casos de cesárea de uma maternidade.

Ademais, se formos ainda olhar pelo “bem do bebê”, as cesarianas fora de hora podem acarretar males bem preocupantes para os bebês, como diz Melânia Amorim: “diversos estudos apontam que taxas de cesariana superiores a 15%-20% não resultam em redução das complicações e da mortalidade materna e neonatal e, ao contrário, podem estar associadas a resultados prejudiciais tanto para a mãe como para o concepto”.

Mas não, é o parto domiciliar, com sua liberdade e não enquadramento no poder médico e machista que querem tolher e problematizar. É o parto da mulher protagonista que querem apagar com falsos medos, é o parto onde a mulher tem voz e que tem vez que querem calar e abafar em uma dita normatividade científica e biomédica que de dados científicos não tem nada. É o parto da mulher que não se curva, que não se deixa deitar como é melhor para o outro, que não fica quieta e que assume as rédeas de seu corpo que querem culpar e colocar cabresto.

O que tem nesse falso problema é um monte de medo da mulher fora da curva, da mulher que teve seu parto como quis, que deu uma banana para os senhores de jaleco branco e foi ter seu filho com outra mulher que lhe afagou os cabelos e lhe olhou nos olhos sem bisturi nem injeção em punho. Se querem culpabilizar a mulher pelo parto domiciliar que resultou em qualquer dano para o bebê, que culpabilizem também a mulher que escolheu uma cesárea eletiva que resultou em danos para o bebê. Mas de preferência que não culpabilizem ninguém. Que as mulheres possam dispor sobre seus corpos como quiserem. E que tenham suporte de saúde, de direito, e informações claras para decidir.

feminista

Nem Tão Silenciosa Assim

Porque nos reencontramos, reencontrei o desejo que eu já nem sabia. Você falava e eu quis, como na canção, rodar as horas pra trás e ficar no tempo em que eu vadiava em seu dizer. Mais: em que seu dizer vadiava em meu corpo. E não só ele. Voltar a uma tarde que não ficara, em mim, tão silenciosa como eu imaginava.

Trouxe o desejo pra casa, comigo. Como quem sabe o bom, esperei deitar-me pra sentir o querer inteiro. Queria sim. Queria assim. Queria, outra vez, essa risada que me distrai, assim, pertinho, ao pé do ouvido. Fazer reais, úmidos e curiosos os beijos educados que se espalham nas palavras que trocamos. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria voltar a saber mãos, pele, olho. Língua, queria sabê-la. Queria aquela força com que me colocaste de bruços no sofá. A mordida, queria. Queria que você sentisse agora, como eu sentia – mesmo ali, naquele espaço tão cheio de gentes e assuntos outros – que as roupas nos atrapalhavam, como sentimos antes. Queria o dedo duro molhando-se na minha cona. Queria os apelidos engraçados que no esfregar das peles se fizeram tesão. Queria ter a boca ocupada de você. Queria outra vez aquele choque de te ter percorrendo sem dúvida o que eu nem pensava que viesses a demandar. Queria aquela dor que gozei, cada vez mais e cada vez melhor. Queria o peito molhado da tua agonia quase riso. Queria o sem jeito do depois. Os olhos enevoados. O sutiã na maçaneta da porta. O telefonema antecipado. O adeus apressado. O banho corrido. E a rua, aquela esquina e tanta vida que seria.

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Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

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11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

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