Sobre ser gorda e ser livre

Por Bruna Giorjiani de Arruda*, Biscate Convidada

Durante grande parte de minha vida, acreditei que chegaria o dia em que eu, finalmente responsável e esforçada, abandonaria minha “falta de vergonha na cara” e emagreceria. Achei que haveria de chegar o dia em que, de fato, eu mostraria meu valor para a sociedade e conseguiria atingir o ponto máximo da vitória, a conquista de um corpo esbelto.

Lembro-me, de maneira clara, as inúmeras vezes que, frustrada com a imagem do espelho, convencia-me de que aquilo acabaria e, na próxima segunda, eu começaria o caminho de uma vida melhor. A crença no amanhã perfeito me roubou risos, me roubou a autoestima e manteve-me presa na esperança de que, se somente os magros são felizes, em breve, eu seria também.

Acreditava que todos os meus problemas eram fruto direto de minha gordura e que, quando triunfasse, nunca mais teria motivos para chorar. Relacionamentos, roupas, espelhos, comidas, sorrisos, amor próprio confinados em algum canto obscuro dentro de minha mente, enquanto o que assumia o controle de meus pensamentos era a minha constante falha enquanto ser humano, a de ser gorda.

Demorou muito tempo para que eu, de fato, sentisse a libertação de todo estigma social que rondou a minha existência desde sempre. Nasci e cresci gorda. Em algumas épocas mais; outras, menos, mas sempre gorda. Descartada do conceito de “normalidade” corporal, demorou muito para que eu encaixasse o tamanho do meu corpo no tamanho da delícia de viver.

Meu processo de libertação teve início quando entrei em contato profundo com o feminismo. Foi difícil compreender que os padrões estéticos, estes que meus próprios olhos diziam ser perfeitos, eram, na realidade, uma manipulação da escolha sobre o “ser belo”. Entender a trajetória do corpo feminino e como, em tempos distintos, fomos tratadas apenas como adorno, enfeite, objeto de deleite masculino, fez grande diferença na compreensão do fato de que os padrões nada mais são do que grades que condicionam as mulheres em um viver passivo, sem ação e sem sentido. Enquanto nos preocupamos em sermos lindas e desejáveis (dentro dos moldes escolhidos pelos homens), perdemos nossa capacidade de entender o que nos é desejável e o que achamos realmente lindo na vida.

O corpo que eu, durante tanto tempo, neguei é o corpo que entendo hoje como meu templo de prazeres. Ele é gordo, mas sente; ele é gordo, mas goza. O sabor da liberdade, de ser sem prestar contas, de mostrar sem se constranger e de sentir sem medo de ser ridicularizada é palatável. É com base na liberdade que alcancei que me nego a viver em dietas ou fazendo exercícios intermináveis. É dessa liberdade, também, que emana minha ânsia pela vida e o desejo da saúde. Meu corpo é minha escolha. Ele não foi feito para o prazer do outro, ele foi feito para a minha satisfação. Não sou produto, não sou objeto e o sucesso que tanto desejava foi alcançado. Amo minha profissão, meu companheiro, minha família. Amo minhas gatas e, acima de tudo, amo meu corpo. Em mim, a sociedade, de fato, falhou. Falhou no projeto de me fazer infeliz e frustrada, falhou no projeto de submeter mais uma mulher aos anseios masculinos. Sou de fato, um erro, uma falha e, por isso, sigo feliz.

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11156222_10200533571418304_7454700366930713511_n* Bruna Giorjiani de Arruda é formada em ciências sociais, pós graduada em sociologia política e ensino de sociologia. Residente em São José do Rio Preto, professora da rede pública e privado e do ensino superior. Militante feminista e comunista, destaca dentro de sua militância a luta anti-gordofobia.

Romântico cru

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Gosto de colecionar pedaços. Pedaços caídos das conversas cotidianas, da tentativa de colocar o real entre nossas pernas. Retalhos. Desenho bonito de ser vida vivida sem planos perfeitos. Costuras. O possível, tão extraordinário, colhido do que não se compreende.

Revés. Tosse rouca de peito cheio, ar inspirado no pulso dos nossos dias. Cinzas, também. Pretos, de tão azuis que já foram. Nuvens que se desfazem em água, sol que clareia tudo de novo. Ciclo de crescer e expandir, retrair, morrer, renascer. Impermanência. Mutação de nós.

Você me abraça forte, quase sem esforço. Corpo que vibra e me alcança em reverberações. Dança, remelexo, decorrência. Todo esse mar. Mergulho em ti, olhos vidrados, aconchego, maresia. Respiro de água salgada.

União. Ofereço-lhe minhas palavras como alimento. Levo a sua boca, uma por uma, desenhando imagens improváveis ao redor dos lábios. Contorno seu sorriso, seu cheiro, seus dentes. Saliva adentro. Você me lambe, língua desperta por todas as sílabas. Degustamos cada pedacinho, cada desajeito, cada incongruência. Navegamos nesse nosso beijo de roçar a alma. De tentar construir casa na areia do mar. Ventania. Reconhecimento.

Você me recebe assim, quase inteira, na busca sagrada dos meus avessos. Você acaricia meus olhos, e minha teimosia obstinada em perguntar a vida. Suspiramos. Eu te ofereço flores, você me devolve as mãos apertadas. Meu romântico cru, nudez rasgada, conta aberta, palpitação. Beleza de se pegar no colo com raiz. Plantio. Só é bom assim, com lama nos pés. E as mãos sujas de realidade.

 

 

Ela

Desde aquele dia, não fui mais a mesma…

A iniciativa foi dela. Sem que eu esperasse – ou me desse conta do quanto queria – recebi o doce e forte toque dos seus lábios. Os meus, tímidos, aceitaram este encontro. E meu corpo já não estava mais sob controle.

Ela sabia disso. E assim, me fiz entregue…

Aliás, ela sabia tantas coisas sobre o meu corpo que parecia conhecê-lo há muito tempo. Cada carícia dela me mostrava o que, por muitos anos, neguei a mim mesma sentir. Ela me ajudou a descobrir não apenas desejos, mas também um pouco de quem realmente sou.

Desde aquele dia, o que sinto por ela é gostoso e conflitante. Gostoso porque flui, sem grandes esforços de ambas as partes. Conflitante porque ainda existem em mim barreiras que me impedem de dizer a ela o quanto a quero outra(s) vez(es). Algumas dessas barreiras, infelizmente, eu mesma coloco. Porque sou aquela pessoa toda errada que não lida tão bem assim com as próprias vontades…

Acho que tudo seria bem mais fácil e menos doloroso numa sociedade aceitasse e compreendesse que o desejo muitas vezes transcende gênero e sexo. Que não diminuísse ou colocasse em descrédito as bissexualidades. Que não fizesse com que em alguns momentos, eu e mais um monte de gente pensasse que sentir algo por outra mulher fosse menor/uma fase/ uma mera experimentação.

No mais, tô aqui ensaiando como dizer a ela o quanto gostaria de ter ela em meus braços denovo. E como agradecê-la por ela, sem saber, ter me tirado desse limbo que é a negação…

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Tá tendo beijo

oafetoteafetaRecentemente assistimos um grande levante da chamada “família tradicional brasileira”, que rechaçou e propôs boicote à nova novela das 9 da rede Globo, Babilônia, porque,  pasmem, duas senhoras, interpretadas por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, casadas na trama novelística, se beijaram em horário nobre. Sim, um beijo, apenas um beijo, de afeto, amor e beleza, docemente embalado pelo som de Maria Bethânia.

Digna cena de arrancar suspiros românticos, de inspirar amantes, de exaltar o amor. Mas não. A cena provocou a ira e o ódio desgovernado daqueles que acreditam que pessoas homoafetivas não são pessoas dignas de viver livremente em sociedade, devendo ser escondidas debaixo do tapete. Tirem as crianças da sala, tapem os olhos, finjam que não estão vendo, saiam correndo, que horror: o amor entre pessoas do mesmo sexo está passando sem cortinas.  O nome disso é homofobia. E, não, você não está pensando nas crianças. Garanto-lhe, por experiência própria, que as crianças convivem bem com todas as formas de amor, como já contei aqui. O preconceito e a estupidez são coisas suas mesmo, as crianças não tem nada a ver com isso.

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No levante desenfreado, o lesbianismo foi equiparado a coisas como assassinatos, intrigas e criminalidade. A “família de bem”, em nome da moral e dos bons costumes, que de bom não tem nada, decidiu que já era demais. Até nota de repúdio de Deputados evangélicos teve. Correntes de whatsApp, mensagens mil, condenações cruéis às duas senhoras “do mal” e a emissora responsável por tal disparate. E, olha, nem tinha sido a primeira vez que essas criaturas assistiram beijo gay na telinha.

A rede Globo, em espantosa mudança de seus roteiros, passou a incluir casais gays nas novelas. Já tinha sido a Giovanna Antoneli e a Tainá Muller como par lésbico, o Zé Mayer com o Kleber Toledo como par gay, já tinha acontecido beijo homo no plim plim. Mas duas senhoras na casa dos 80 anos foi demais para o moralismo condenatório. Porque né? Além do “pecado” da homossexualidade, duas senhoras não podem ser sexualmente ativas, não podem desejar e serem desejadas. Delas se espera apenas o papel de avó no fogão, e a sexualidade morta de algum dia. Mais moralismos que atormentam a sociedade, que castram alegrias e impõem barreiras a algo tão valioso e tão inofensivo quanto a felicidade e satisfação sexual de cada umx.

Essa sociedade acostumada a violências das mais diversas não pode conviver com o amor entre mulheres? Porque, pergunto-me, porque é tão difícil que esse amor seja aceito e recebido com alegria? Porque traçar regras para a vida afetiva e sexual alheia, porque machucar alguém que não faz mal a você a não ser….amar? Não, também não me fale em Deus. Nem na Bíblia. Já é hora dos homofóbicos pararem de mascarar seus preconceitos em nome de Deus. Como já assistimos de forma muito bem fundamentada no filme “Orações para Bobby”, as passagens da Bíblia devem ser revistas ao contexto atual, e não interpretadas literalmente. Ou os religiosos bíblicos pregam que devemos matar as pessoas adúlteras e as crianças que desobedecem os pais?

Ademais, seu Deus é apenas um Deus dentre tantos outros possíveis. Ou até Deus nenhum. Deveria uma sociedade laica ter uma frente Parlamentar evangélica e tentar impor suas crenças religiosas a todas as demais pessoas que tem crenças diferentes?  Se sim, pergunto-me de novo, é possível um Deus que prega exatamente o amor, ser contra uma família homoafetiva, ou qualquer forma de amor entre duas pessoas? Se seu Deus é contra, ele não me representa, e nem a milhões de pessoas que vivem na mesma sociedade que a sua.

Aí temos a tendência de falar em tolerância. Tolere o diferente. O ideal para mim não seria nem tolerância, seria respeito e aceitação de que as pessoas são diferentes e livres em suas individualidades, sexualidades e vontades. Que a liberdade do outro não lhe diz respeito. Que seu direito de opinar socialmente não inclui o que as pessoas fazem com seus corpos e com suas sexualidades. Mas tolerância já seria um bom começo.

Pois sim, está tendo beijo. Está tendo beijo todos os dias, e terão beijos e mais beijos de pessoas que se amam. Mulheres que amam mulheres, homens que amam homens. Homens que amam mulheres. Mulheres que amam homens, sejam elas e eles cis ou trans. Nosso beijo lésbico não será mais escondido, não será desprezado, não será menos relevante e nem motivo de vergonha. Nosso beijo lésbico é um beijo como outro qualquer, um beijo que estará cada dia mais presente, mais latente e mais corajoso. Um beijo que em breve ocupará sem medo as ruas, os bares, as casas, as famílias e terá forças para vencer o preconceito. Vem beijar também, que a vida é bem mais bonita com beijo na boca!

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Pequena Lista de Desejos e Um Grande Livro

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Adrianne Ogeda, Biscate Convidada 

Nigerian born, Chimamander Ngozi Adichie, author of the novel Purple Hibiscus.

Costumava fazer listas com os desejos e as fiz para muitos e muitos dos anos que já se foram. Nas listas, tem desde as coisas mais banais e triviais (cuidar da saúde, fazer atividades físicas e essas coisas) as mais subjetivas (focar nisso ou naquilo). Não tenho mais feito listas. Ou melhor, ainda as faço, mas são curtas. Singelas. Talvez porque nos últimos anos o meu desafio tenha sido lidar com aquilo que foge as listas, as previsões, ao controle. Aceitar mais o fluxo da própria vida. Imprevisível, surpreendente, dinâmico.  Da curta lista de desejos para 2015 um em especial: trazer a literatura para mais pertinho, bem pertinho. De tão bem me faz. De tão alargada que ficam as coisas quando novas formas de olhar surgem a cada livro que se abre. E quando o encontro é bom… ô, aí é demais.

Foi assim com “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie. Essa jovem escritora nigeriana já tinha me tocado fundo com sua palestra para o TED em 2009, “O perigo da história única”, quando dizia tão bem dito o quanto enclausuramos pessoas e culturas ao conhecer apenas uma faceta de suas expressões em estereótipos que limitam a possibilidade de ver mais amplo. Com olhar mais aberto.

Seu livro trata disso. Trata das roupas que nos vestem sem que tenhamos a chance de ser mais do que aquilo que dizem que somos. E da dureza que é viver com essas roupas, apertadas que são. Em seu livro, essa questão está ali. Pulsando. Os personagens denunciam os lugares consagrados a que estão destinados. Ser negro, ser negro americano, ser negro nigeriano. Ser visto como negro e se ver como negro aos olhos de outros. Os desafios de jovens imigrantes africanos nos EUA e em Londres são o mote e uma deliciosa história de amor costura encontros, desencontros, reflexões. Personagens com nomes africanos dão um sabor especial ao romance, todo entrecruzado com o panorama cultural e político da África e dos países para os quais os personagens imigram.

Hoje acabei o livro. Li daquele jeito que livro bom é lido. Levando na bolsa para tudo que é canto, gostando até de fila de banco.  E já estou com saudades de Ifemelu, Obinze, Uju e tantos outros com os quais convivi esses dias. Meus amigos.

Sua palestra sobre feminismo, “Todos nós deveríamos ser feministas” também fala dessa mesma e mesmíssima história: as marcas da cultura em cada um de nós. Mas também do tanto que a gente é que a faz, e que por isso pode fazer diferente. Melhor. Mais bonito.

As palestras abaixo dão uma ideia da mulher forte, articulada, bonita e sensível que Chimamanda é. Leitura das boas.

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Adrianne* Adrianne Ogeda é pessoa sensível, sem qualquer fragilidade. Muita força. A luz brilha nos seus olhos, vinda de dentro dela e das marcas que deixa fora. Sua busca pelas ideias no que lê não é só a fonte dos saberes e vivências que semeou e ainda semeia dentro de muitas pequenas almas: é também e principalmente o resultado da sua paixão visceral pelas boas histórias e do desejo sincero e genuíno de propagar vida e conhecimento.

 

Êxtase

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Às vezes é muito rápido, vai, entra, faz e sai, urgente, correndo, fugindo do mundo, nem que seja só por um instante de calor e esquecimento. Um instante de explosão, um instante de paz. Um minuto para suportar todos os outros minutos do dia. Um minuto tão rápido, os gestos quase de máquina, a eficiência quase de funcionário, a atenção só no no essencial, no objetivo, no fim.

Outras vezes não, é devagar, sentindo cada momento, cada carícia, cada toque. Se deixar envolver, ver quase que de longe o calor crescer, perdida do mundo, perdida do tempo, rendida. Tudo bem lento, tudo quase parado, gestos longos, olhando para cada pedacinho do corpo, para cada canto escondido, para cada vontade insatisfeita. Sem hora para começar nem dia para terminar. Várias vezes. E de novo. Até não aguentar mais.

Às vezes é em pé, quase um exercício, quase uma dança. Giros de corpo, a cabeça virada para trás, as mãos se esforçando para alcançar todo o corpo, a pernas ora levantadas, ora estendidas, por vezes dobradas. Por vezes ajoelhada, por vezes curvada até tocar os pés.

Outras vezes deitada, imersa, coberta. O corpo todo tocado ao mesmo tempo, a pressão, o abraço, de algum controle, de chão. Acolhida, envolvida, entregue. Dada. O corpo inteiro envolto vagarosamente, o calor nascendo nos lugares mais inesperados.

Rápido ou devagar, mas sempre. Todo dia. Pelo menos uma vez por dia. Duas, nos dias em que o calor cresce. Três, quatro, muitas, nos dias de feriado e férias, nos dias vadios de verão na praia.

Em pé, deitada, mas sempre. Todo dia, como uma rotina cega, o dia todo como respirar. Nos dias de lida, rápido e em pé, nos dias de folga, devagar e deitada. Nos dias de férias o dia todo, nos dias de suor, todo dia.

Como? Não. Não é nada disso. Não tenho culpa se você só pensa nisso. Eu estava falando de banho.

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PauloCandido

Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Porto de chegada

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Então eu amanhecia, no colo do amor que me deitava o peito. Esse amor trazido pelo rio da vida, pelas águas que me banharam o tempo. Pelos gostos que senti, pelos caldos que levei, por todas as faltas de ar que me calaram a voz. Corredeiras. Tempos submersos, tempos de sol, tempos de medo, tempos de plantio. Meus tempos. O tempo do amor plantado no meus pés quando tudo era água, e tudo escorregava. O tempo da desova. Rio que encontra o mar. Águas salobras. Terra fértil fecundada pela maré dos meus anos.

 O rio me trazia o merecimento de um porto de chegada.E eu chegava, onda por onda, vento por vento, até sentir-me inteira em solo firme. Corpo de areia, pés fincados à beira mar. Com as mãos abertas e o coração leve, eu chamei por ti. Ali, onde me via terra, onde sentia a liberdade de poder voltar para mim, eu te procurei. Chamados de vento que te balançaram os cabelos.
Ecos, reverberações. Envolta nas marolas que embalavam os sonhos tão despertos de nós, você chegava. Seu rosto reconhecia o meu, seu corpo fazia morada no gozo das nossas bocas unidas. Nossos corpos fincados na terra do tempo presente. Nosso amor lavado pelas águas da vida, forte de batalhas vencidas e coragem de seguir em frente. Nós, juntas, nesse porto de abrigar o tempo porvir.
Esse nosso tempo.

Não dou conta

Confesso. Tá cada vez mais difícil tomar parte no que está acontecendo. E nesse instante exato, o que está acontecendo agora? Qual a treta mais cabeluda do momento? Qual o mais novo velho escândalo do cenário político? Qual a questão mais urgente e emergente está sendo encampada? Por quê? Para quem? Quando? Onde? Oi?

Sim, realmente não dou conta nem de conseguir sossegar nas minhas férias. Nessa aceleração carnívora e ansiosa da vida e nestes tempos não-humanos quem consegue viver alienado de todo e dizer-se feliz?

Confesso que às vezes tenho a precisa sensação de ver de camarote vip a banda passar e eu estática, sem poder me mexer, enxergo esse desfile de precisões e necessidades artificiais ficando desgostosa de prosseguir, de continuar girando essa roda que nem sei onde vai parar, mas se parar, meu nome vai pro SPC e pro Serasa. No mínimo.

E tudo é pra ontem.

Atualização de lattes. Juntar documentos. Protocolar. As contas do início, meio e fim do mês. As faturas (altas) do cartão de crédito. Papel, papel e mais papel. Os prazos dos (muitos) eventos. Os inúmeros editais. Os amigos que reclamam atenção e que vão ficando perdidos na estrada. A família que se sente abandonada. O trânsito ruim. O calor e a falta de chuva. A hora do barco. A carga horária. O conserto do celular. A pia cheia de louça suja. O antivírus do computador. As demandas dos outros. Os aniversários esquecidos. Os presentes não comprados. Os encontros desmarcados. Os livros não lidos. Os check-ups preguiçosos. A comida sem glúten. A revisão do carro. A casa bagunçada. Os sapatos espalhados. As ligações não atendidas. O IPVA pra vencer. O medo da multa. Os diários eletrônicos. As correções a serem feitas.

E os resultados agora, agorinha, pra já, nesse instante senão o mundo desaba e a culpa é sua, só sua.

Quem consegue sobreviver? Quero abraçar essas pessoas… Cadê a beleza, cadê o glamour, cadê o movimento sexy? Será que essa vida só tem interditos?

Será?
Final nada otimista.

Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

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Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

Não Pode ou Um Dedo Sempre a Postos

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Não pode sentar de perna aberta.

Não pode dar de quatro.

Não pode andar de roupa curta.

Não pode gostar de ser chamada de cachorra na hora do sexo.

Não pode trepar sem ser casada.

Não pode estar em um relacionamento hetero e se sentir bem.

Não pode ter sexo casual, é coisa de vadia.

Não, não pode mesmo ter sexo casual, é coisa de mulher que agrada ao patriarcado sem saber.

Não pode sair sozinha pra beber.

Não pode estar em uma relação a três, a quatro, a muitos.

Não pode ter pau.

Não pode esconder seu pau e “fingir” ser mulher.

Não pode não ter peito.

Não pode colocar peito.

Não pode esquecer de cuidar do seu corpo.

Não pode ter prazer em mudar o seu corpo.

Não pode gostar muito de sexo.

Não pode gostar de dar o cu.

Não pode tocar sua buceta.

Não pode tocar o cu do parceiro.

Não pode gozar.

Não pode querer agradar.

Não pode gostar de dominar na cama.

Não pode gostar de ser submissa na cama.

Não pode gostar de variar, inclusive, quedê sua coerência?

Não pode, não faça, não pode, não seja. Escolha sua cartilha e se atenha a ela. Não, seu desejo não é desculpa. Não, sua vontade não é motivo. Não, seu querer não é legítimo. Estamos todos prontos pra te julgar. Lá e cá. Todos os dedos prontos pra apontar. Ei, pera, o que você está fazendo com meu dedo apontado? Para já de chupar meu dedo. Para, para de lamber meu dedo, assim, assim, sugando, chupando, mordendo. Para, para de se esfregar no meu dedo, ai, ai, para de enfiar gostoso meu dedo na buceta molhada, assim, um, dois, roça, roça, mais, mais…

Gostos e jeitos

Ele não quer ser mulher. Não quer mudar de nome, mudar de gênero. Está bem assim. Gosta de usar saias, vestidos, corpetes. Maquiagem, brincos longos, colares. Meia-calça, salto alto, unhas pintadas. Sexy, sedutor. Saboroso.

***

Ela não gosta de sexo com penetração. Gosta de roçar, encostar, esfregar, tocar, bulir.
Adora a sensação do pau passando pelo corpo dela. Goza quando ele esfrega o pau no rego da sua bunda, deitada de costas, na cama. Por cima dela, nos peitos. Embaixo do braço. Na barriga.

***

Ele gosta de ser penetrado. Seu maior tesão: ela penetrando-o por trás, segurando na sua bunda, quente, forte, intenso.  Indo, vindo, apertando. Puxando-o. Ele se encanta com o corpo dela, o gosto dela, o cheiro dela. A forma como ela o penetra.

***

Ele gosta de olhar. Pira no olhar. Recosta-se nos travesseiros. E olha. E se toca. E saliva. Enfia os dedos na boca. Morde os lábios. chupa o dedo. E se masturba com a outra mão.  Lentamente. Saboreando o olhar.

***

Ela gosta de passar a buceta no rosto dele. Na língua dele. Se demorar no nariz. na testa. Puxar seus cabelos. Gemer rouco, gemer alto. Escorrer para dentro da boca dele, por cima do nariz dele. Deslizar. Soltar-se.

Até a próxima paixão

Por Dani Damaso, Biscate Convidada

Acorda e sente o cheiro nas mãos. O banho da madrugada não apaga. Retira o cabelo do rosto, retoma as lembranças: sexo gostoso tem cheiro. Marca a pele crua e urgente. O estouro da cereja no céu da boca, o lambuzar de línguas. Epiderme tatuada pelas sensações.

Não foi a primeira e nem a última. Mas havia algo a mais naquele cheiro. Lamber, morder, chupar o sexo dá. O encontro de ontem arrepiava, fazia gargalhar, dançar pelos corredores tomados de sol.

Ah, como é insaciável o sexo dos que sentem cheiros. O suor dos que amam contidos, dos que soltam a voz, dos que buscam novos sons. Vai e vem. Sangue pincelando a entrega. Como o sal reconhece a maresia. Simbiose de odores.

A noite surge e a memória daquela troca segue até o amanhecer. Queria mais! E então coloca de lado a biscate convicta dos encontros regados a apenas sexo e amizade e busca a noite passada, do beijo avassalador, da pele aquecida, do cheiro. Aquele cheiro… Liga. Pouco ouve, fala demais, mas compreende: quero, sim!

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O dia chega. Vão a um café. Pedem vinho. Riem contidamente. Mais vinho. Gargalham. As luzes se apagam. Buscam uma dose de música noutro lugar. Dançam. Falam sobre lugares e amizades. Olham o céu e logo chove.

Com a língua escapando pelos lábios, ela sorri. Não falam mais nada. Os cheiros sufocam. Lambem olhos, fuçam nucas, trocam pernas, empurram portas, fazem barulho. A presa e o predador invertendo papeis. Mãos envoltas em corpos, cintilantes, fluídos, marcados. Encaixe, desordem, gozo.

Se lambuzam até a próxima paixão. E se cheiram mais uma vez como se fosse a última.

dani damaso*Dani Damaso é mulher da Amazônia, mãe, pisciana, jornalista, tuiteira, torcedora do Paysandú e do Botafogo, nessa ordem de prioridades. Adora olhar as ruas. É do rock e do samba, do reggae e do jazz. Curte paixões descalças e os botequins mais vagabundos. Mas na hora da alvorada, vai sempre atrás de sombra e água fresca.
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