Uma nova biscate

Por Líli France*, Biscate Convidada

Minha paixão por este blog é tão grande, que meu desejo é falar tudo da minha vida, falar tudo que eu penso e que eu não posso conversar com muita gente. Criar textos e mais textos para o blog, em amor a ele, com as idéias que tenho diariamente e que não ponho no papel. Leio todos os posts, cheia de sede e de encantamento. E os que não posso ler no momento, ficam guardadinhos pra primeira sombra de espaço livre que eu tenho pra ler. É tanta vontade de fazer parte disso tudo aqui, que me transbordo de ansiedade. Mas vou me acalmar, não se preocupem. =D. Agradeço de coração por uma oportunidade que me cativa imensamente.

Vou falar um pouco de mim, da minha história, para que vocês me conheçam um pouquinho, já que eu conheço um tantinho das biscates escreventes e convidadas daqui.

“Curtindo a vida adoidado” — 1986

Nós já vimos por aqui alguns relatos de biscates casadas (e bem casadas), e eu sempre me identifico bastante. Mas nem sempre tudo dá tão certo, porque ser uma biscate casada, num relacionamento onde seu(sua) parceir@ compreende sua biscatagi é muito difícil.

Apesar de ter 22 anos, já fui casada. Estive nesse relacionamento por quase 6 anos. No início éramos o casal perfeito. Mesmo ele sendo caseiro e eu não, nós saíamos paa lugares que sempre eram do agrado dos dois, e programinhas caseiros também eram super bem-vindos.

Antes de completar 21 anos, comecei a ter uma daquelas crises de idade que tod@s têm. Foi a primeira (e única até agora, ainda bem), e me deixou num estado de reflexão, medo e “claustrofobia” contínuos. Eu comecei minha relação com ele quando eu tinha 15 anos, e ele 23. Sempre fui mais madura do que o convencional para minha idade, e não planejava o que é chamado de “auge da adolescência”. Na minha cabeça, tudo que eu precisava viver, o meu auge, poderia ser acompanhada, tudo que eu precisava viver, viveria com ele. E não posso dizer que minha adolescência deixou de ser especial, estaria sendo no mínimo cruel e mal agradecida. Mas a cabeça de uma garota de 15 anos não é a mesma de uma de 21. Então não foi o bastante.

Acho que todos precisam de porraloquices. Até os que acham que não. E foi assim que começou meu ano de 2011: numa sede absurda por liberdade. A dar partida pelo reveillon em que, tanto eu quanto ele, tivemos uma “noite não monogâmica” pela primeira vez. Que resultou, inclusive, em uma paixão por uma garota, sem deixar de amar meu marido. Poliamorismo que ele não aceitaria.

Sempre tive alguns gostos e amigos que não batiam com o perfil dele. Queria frequentar boates LGBTT e sair ao amanhecer, rir descontroladamente num bar, falar de sexo sem pudor. Coisas que eu não poderia fazer sem que ele cerrasse suas sobrancelhas arqueadas naquele olhar de quem teve seus conceitos desafiados. Eu queria passar a noite dançando, esquecendo de tudo. Ele queria passar a noite assistindo um bom filme, e não costumava dançar muito. Não que eu não gostasse de sentir o prazer intelectual que ele sempre prezava, eu adorava igualmente. Porém, eu queria também o prazer dos sentidos, eu queria viver o que nós líamos e assistíamos. O que mais se passava em minha mente era “que história eu vou contar quando tiver a idade da minha mãe? Reclamar que não tive juventude, como essas coroas que vejo por aí?” Não… eu não podia. Eu precisava voar.

De início foi um tanto na paz. Eu tinha meu espaço. Já estive numa banda de eletropop totalmente biscate, e eu tinha que me caracterizar e exteriorizar tal perfil. Poderia encontrar meus amigos, sair com eles sem meu marido, mas ainda assim não era o bastante. Eu ainda não poderia chegar depois das 23h, a não ser se fosse para dormir na casa de alguém da confiança dele; tinha que falar de baixaria e bebedeira sem comentar com ele; não podia sair sem destino, sem tudo programado; ficar numa boate até o dia amanhecer? Nem pensar. Mas tudo isso acabou acontecendo. As consequências foram brigas e brigas. Não o julgo, cada um sabe seu limite. Mas o meu também estava sendo atingido. E mais brigas. Silêncios que incomodam, expressões frias e decepcionadas. Assistíamos nossas séries sem comentar e discutir, como fazíamos antes. Pois nossos pensamentos ainda estavam na discussão ofensiva que tivemos outrora. Eu me afastei de algo que havia ali, e não sabia o caminho de volta. A frieza tomou conta. As coisas que eu não deveria comentar com ele ficaram mais abrangentes, pois estava tudo mais frágil. E qualquer comentário do tipo “aprendi a beber cerveja com o pessoal do meu trabalho”, feito entre os amigos dele, se tornava motivo para desentendimentos (true story). O que as pessoas poderiam pensar? O que elas vão dizer se eu tivesse aprendido a beber cerveja com um monte de homens? Se eu voltasse da balada só e pela manhã? A fragilidade do relacionamento foi aumentando tanto, que eu estava me sentindo privada de ser quem eu sou, simplesmente por ter que pisar em ovos. E a vontade de sair com ele acabou diminuindo por causa disso. Imagina falar besteira com meus amigos na frente dele e acabar tendo dr depois. O clima na minha casa ficou tão tenso que as vezes eu chorava quando tinha que ir pra lá no fim do dia. Todo dia poderia ser o último com ele. Todo dia eu pensava em terminar. Nós tentamos consertar muitas vezes. Tivemos muitas conversas metódicas tentando encontrar uma solução, como curtir mais estando juntos. Mas nada adiantou.

A Dido me entende.

Um dia eu fui forçada a ter coragem por causa das circunstâncias criei coragem e terminei, com muita insegurança. Terminei com aquele que parecia ser meu par perfeito pra vida inteira, mas que na verdade ele era o par perfeito pr’aquela outra garota de uns anos atrás. Ele disse que já tínhamos terminado, só que ainda estávamos morando na mesma casa. Fato.

Minha vida desmoronou. Não digo sentimentalmente, porque nessa parte o alívio era maior que outra coisa, porque como ele disse, o que havia entre nós já tinha acabado antes de terminar o relacionamento. Mas em questão de planejamento, estava tudo destruído. Tudo que eu já tinha planejado pra minha vida, tudo que minha família esperava de mim, tudo que eu planejava ser, foi perdido. Uma vida foi perdida, um caminho inteiro, uma Aline morreu. Um universo paralelo (fã de Fringe detected) foi destruído. Eu não sabia sequer como minha família olharia pra mim, como ela reagiria. Mas eu tinha força o bastante pra continuar. Era como a disposição em deixar uma cidade falida de Sim City de lado e começar uma do zero, com tudo novo, tudo desconhecido. Ou jogar as roupas do seu guarda roupa bagunçado em cima da cama, e dobrar tudo de novo. Naquele mês eu passei meu primeiro(em minha vida toda) fim de semana sem rumo, saindo de um lugar, indo pra outro porque deu na telha e sem saber onde iria dormir. Tudo esperava pra ser descoberto.

E é nessa vibe de andar por estradas que nunca planejei, que me encontro há 8 meses. Desbravando um mundo desconhecido. Biscateando de bar em bar (sem medo de ficar bêbada demais e ser julgada), de boate em boate (sem saber a hora de volta), de boca em boca (que nunca seriam descobertas), de risada em risada. Estando disponível para meus grandes amores, que são meus amigos, sempre que eles precisarem, só precisando ligar. Assim, sem planejamento de rotina nas noites e fds por aí. Tenho meus momentos de solidão, afinal dormir sozinha depois de tanto tempo tendo meu lençol já quente é bem difícil. Ainda mais pra mim, que tenho medo de ficar só, desde pequena. Morar com minha mãe, tendo saído de casa assim que completei dezoito anos, igualmente difícil. Mas nada foi desperdício. Eu o amei com tudo que eu tinha. O amei como se não houvesse possibilidade de fim. Amei como se fosse início de namoro sempre. E todo o amadurecimento e conhecimento que ganhei estando ao seu lado, não se mede.

Já desisti de planejar o que não dá pra saber. Deixa essa parte metódica pra vida material/profissional e olhe lá. Não sei o que vem pela frente, não sei se vou terminar sozinha. Mas no final das contas a gente nunca sabe de nada.

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Líli France* Aline na certidão, mas Líli desde que se assumiu biscate. Aos 22 anos já foi casada, hoje o carinho que ela tem no fim do dia é de sua gata Ísis. Web designer, maquiadora, rpgista, cinéfila, gamer e a caminho para ser cantora. A amizade é o que há de mais importante pra ela, seja por pessoas com laço sanguíneo ou não, e tá sempre fazendo barraco em proteção das questões LGBTT e biscáticas. Ri fácil, ri alto, é avoada e esquece de qualquer tristeza quando está com os amigos nos botecos e boates por aí.

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