Essa Gente Sem Vergonha

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

O convite da Lu já quase caducou antes de eu fazer minha estreia no Biscate. Em minha defesa, digo que tive um início de ano atípico (ou, pelo menos, assim espero, pois se isso for ficar comum, acabarei numa camisa de forças). De início, eu tinha combinado que escreveria sobre a Mary Wollstonecraft (tipo: biscatage também é cultura), mas ainda não é o momento. Depois pensei em escrever sobre a magnífica Mae West, uma das minhas biscates favoritas (o que era aquele andar, gente?), porém ainda não rolou. Se alguém quiser escrever sobre ela, pode avançar o sinal que eu deixo, incentivo e facebookeio.

BEIJINHO , MARIA SEMVERGONHA

Maria Sem Vergonha: fazendo jus ao nome, encostada no pau.

Então, acabei achando que não tinha melhor jeito de fazer meu outing no Biscate do que escrevendo sobre “essa gente sem vergonha”. Bem claro que não estou me referindo a corruptos e ladrões. É o “sem vergonha” noutro sentido, sabe? É, aquele… Pois é. Acabei ficando meio obcecada com essa coisa de ter vergonha e ser sem vergonha e como isso mexe com os nossos sentidos, com a libido e com o que queremos que os outros pensem da gente. A coisa toda me surgiu com a Marcha das Vadias. “Pôxa, a causa é show, mas eu teria vergonha de andar por aí com uma placa escrita: sou vadia.” Ouvi essa de gente insuspeita, surpreendentemente desconfortada com ouvir para si o termo que usa para xingar as outras. “Por que esse nome? Bradaram moralistas e machistas enrustidos. “Querem ser levadas a sério? Usem outro.” Respondo sempre que, quem se choca com o termo vadia, certamente não entendeu a ironia.

Não é diferente quando indico o Biscate para leitura. “O quê? Aquele blog de gente sem vergonha?” É, é sim. Só que, se é para brincar e ser subversivo com a história das palavras, então, vou dizer que o pessoal desse blog tem vergonhas sim. Só que não as esconde. As coloca à mostra, as deixa a nu, não tem vergonha de exibir suas vergonhas.

O fato é que, do meu ponto de vista, ter vergonha (ou vergonhas) não é problema, colocar folhinha de parreira sobre ela, é sim. Expor o que se pensa, num mundo tão limitado pela hipocrisia, é sempre obsceno. Dizer o que se quer, numa sociedade moldada a que todos digam apenas o que se quer ouvir, terá sempre um componente subversivo. É como deixar as vergonhas bem altinhas e peludinhas todas de fora (lembrando o anuncio de Caminha sobre as gentes destas paragens). É o que se encontra no Biscate e é por isso que passei a ler o blog e depois indicá-lo. Porque, na minha lógica, sexo não é vergonha. Nem desejo, nem tesão. Vergonha é ter regras que se apliquem mais aos outros que a si mesmo. Vergonha é patrulhar o cu alheio.

Passado o primeiro choque, muitos se deixam convencer e há os que estacionam em gradações intermediárias. O interessante é que entre os renitentes, os que se vergonham com simples palavras, estão os que, em grande parte das vezes, acham que estupro só acontece com quem “tá pedindo”; que criança de 8 anos que aparece grávida “era bem sem vergonhinha”, pois não tem sinal de violência. São os mesmos que idealizam a única e “verdadeira” vítima de estupro: bela, virgem, jovem, “decente”, com corpo escultural e roupas doadas pelo Exército da Salvação, agarrada por um desconhecido, em plena luz do dia (oh!). São os mesmos que acham que piada envolvendo violência sexual e doméstica, mulheres grávidas e espancamento de gays são: “poxa, só uma piada”. Aí, essa mesma gente se envergonha do que? De sua falta de noção? Não, de palavras. Palavras bobas, com um significado cultural eivado de preconceito como vadia ou biscate. E chamam de sem vergonha quem as usa assim, sabe, sem vergonha nenhuma, quem brinca com a história, quem subverte e expõe a tolice dos rótulos que só servem para cercear a liberdade.

Se o rumo disso pode ficar pior, contabilizem comigo. E acompanhem o raciocínio deste povo que se acha moral e cheio de vergonha na cara.

É feio e coisa de “sem vergonha” falar de sexo na escola e se fornecer educação sexual para crianças e adolescentes. Contudo, crianças abusadas que não sabem identificar a agressão por mal entenderem o que lhes acontece, tá na boa não é? Ensiná-las a se defender, nem pensar.

O mesmo vale para a gravidez adolescente, quase epidêmica, abortando a vida de um sem número de meninas – ou pelo aborto mal feito mesmo ou por terem de criar outra criança sem ainda deixarem de sê-lo. Muitas destas meninas ficam sozinhas nesta tarefa imensa de cuidar de crianças, enquanto os pais, irresponsáveis como os garotos (quase meninos) que são, continuam a sair, ir à escola, à balada. Algumas têm sorte (?), são assumidas (?), casam e com 14 anos já são totalmente mulheres, isto é, não tem mais direito a estudar, têm filho pra criar, casa para cuidar e gerenciar e uma mini-troglodita a lhes regular os passeios, a saia e a vida. Alguém que lhes diz que “mulher minha não faz isso ou aquilo”. Mas, claro, a culpa é da menina, não é? Quem mandou ser sem vergonha? Quem mandou ser curiosa e jovem? Sexo, afinal, é uma coisa feia, a ser evitada, mas, aparentemente, filhos aos 14 anos (ou menos) não. A educação que tudo lhe escondeu não tem culpa nenhuma, pois nunca se falou, explicou, nem se estimulou o sexo. Sabe? Aquilo que não é falado, simplesmente, não existe. Como se precisasse falar? Lembram-se do filmezinho tolinho Lagoa Azul? Pois é, ignorância total e ainda se descobriu como é que se faz. Ninguém precisa ensinar a transar, se aprende. Ensinar a não ter filhos… ah, isso, bem, hã, é… desconversam. Afinal, o problema é que não se deve fazer sexo, certo? Isso é que tem que ser coibido. Mas, se fizer e o filho vier, foi deus quem mandou e é uma benção. Mesmo que a pobre criatura não tenha corpo ou estrutura. Mesmo que a vida dela e das crianças que tiver tenho como destino o abuso e a miséria. (O aparente exagero não se refere, certamente, aos casos felizes, as exceções que, de fato, só servem a confirmar a regra). Evitar é pecado. Um pecado maior do que fazer. Sério? No nosso mundo?

É uma lógica interessante esta que acha que falar ou usar as palavras: sexo, estupro, vadia, biscate, racismo, homossexualidade, etc. é estimulante. Vai fazer com que as pessoas pensem nisso e saiam por aí transando, biscatiando, vadiando, se tornando mais racistas do que já são ou pegando geral na parada gay. De tudo isso, preserve apenas: vai fazer com que as pessoas pensem nisso, PENSEM, e isso sempre é melhor do que não pensar.

Não é nas palavras que o perigo se esconde, mas nos seus conceitos. As palavras só dizem o que queremos dizer com elas e onde elas silenciam é que ficam suas zonas mais obscuras. No silêncio destas palavras estão as crianças abusadas e sem defesa; estão as pessoas que acreditam que o mundo é assim mesmo e não há o que se possa fazer; estão os que acreditam que você pode evitar a violência doméstica se obedecer; que pode escapar de ser estuprada se seguir rigidamente um código que envolve toque de recolher e roupas abotoadas.

Não é das palavras que devemos ter vergonha. Nem de expor aquilo que, gente adulta, vacinada e dona do nariz faz e gosta. Vergonha é de se ter quando a gente cala, quando não ensina, quando não exige, quando baixa a cabeça, quando obedece. É por isso que, mesmo que com algum atraso, estou aqui, me somando com essa gente sem vergonha do BSC. Que fala em alto e bom som as palavras, subverte-as, brinca com elas, atira pra cima e dá risada. Essa gente sem vergonha que também não se cala, não se intimida e ainda diz: não, não passarão!

Ô mãe! Ô pai! Tô no Biscate!

flivrostmaria2012062*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Minha cidade se chama…

Dia 9 de junho teve a Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar de minha casa. Ela se chama João Pessoa e o seu nome sempre me pareceu redundante. Mas nenhum nome vem sem causa, não é?

De acordo com a Wikipédia a história é a seguinte:

“Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado (governador) da Paraíba, João Pessoa. Depois do violento confronto político que deu origem ao Território de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa reagiu, mandando a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na Cidade da Paraíba (atual João Pessoa), invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.”

Ui!!! Tem sexo, violência e glamour, não é?

Mas continua…

“Nos dias seguintes, o jornal governista “A União”, e outros órgãos de imprensa estadual ligados à situação, publicaram o conteúdo das mesmas, visando atingir a honra de Dantas.

Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida, com sangue.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa, que causou comoção popular. Desse modo, abandonou a sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

(…)

Anayde veio a falecer, dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente por envenenamento provocado por ela, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro.”

Assim se consumou o nome da cidade onde moro.

Antes de (também) criticar apenas um ou outro, lembremos que o Nego de nossa atual bandeira (vermelha e preta, flamenguista!) vem de uma frase de João Pessoa que tentava livrar o Estado de uma política oligárquica, e na época representada pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais com aquele negócio que a gente estuda em história e chamam de política do “Café com leite”.

Pois é. Confusão.

E é nessa cidade que pela primeira vez aconteceu uma Marcha das Vadias há nove dias atrás. Não pude comparecer, mesmo tendo me programado com antecedência e por causa de um trabalho. Eu estava em outra cidade, no sertão Paraibano, há seis horas de João Pessoa e que se chama Sousa.

Triste, eu sei… eu sei…

Mas enfim…

Os comentários machistas e preconceituosos que surgiram desde que começou-se a falar da Marcha das Vadias aqui, e que pareceram se intensificar quando passei a ajudar a na organização da mesma, e que em muitos momentos me tiraram do sério, hoje não me parecem tão importantes, perto de outros comentários, da conversa de bar que acabei de ter, e das fotos que compartilhei de mulheres e homens, que pela primeira questionaram falsas, limitantes e sufocantes noções de “moral”, que aprisionam seus corpos e suas mentes em prol de uma suposta ordem social, que nada mais é, a grosso modo, apenas o que possibilita manter o status quo dominante que é branco, masculino, heterossexual e classe média.

E o que Anayde (o sobrenome é Beiriz, se lhe interessar) tem a a ver com isso?

Anayde se tornou a “prostituta do assassino do Presidente” por aqui na época em que viveu. Hoje ela é homenageada em casas populares e nomes de escolas. É mote de mestrado e motivo de orgulho, de uma Paraíba feminina, mas “mulher macho, sim senhor” retratada inclusive por Tizuka Yamazaki em filme.

Mas sabe o que ainda assim me entristece?

Não achei nenhum texto, nenhum, nenhunzinho, dentre muitos que ela tenha possivelmente escrito enquanto pensadora da sua época, porque sim, ela não era apenas uma mulher dividida entre uma coisa e outra, entre um ideal e outro, entre alguém que lavava sua honra e outro que a dizimava…

Ela era poeta, professora, pensadora, escrevia em jornais, vivia entre intelectuais, ditava opiniões…

A única poesia disponível na web coloca-a como um personagem dúbio, entre puta e santa, entre mártir a algoz. Isso é bom ou ruim? Inclusive enfia historicamente, um outro homem a quem ela escrevia. Isso é bom ou ruim?

Ah, tudo bem, tudo bem… a vida é assim mesmo…

É?

Quem é essa mulher alem desses homens? Além da história?

E você, quem é além desse ou daquele? Disso ou daquilo?

Então escrevo esse texto como quem pede: questionem seus pensamentos e padrões!!! Suas histórias!!!

Sejam livres! A liberdade é uma escolha, mas precisamos lutar por ela, acreditem!!!

Que ninguém, além de você mesm@, possa escolher quando calar e quando falar. E em que tom. Não são nossos peitos que algumas pessoas que nos criticaram não queriam ver, porque “isso” toda a sociedade assiste hipnotizada em desfiles de carnaval e em qualquer programa de televisão.

Não se deixe iludir!!!

O que penso sobre os críticos da Marcha das Vadias aqui, na minha cidade, é que essas pessoas não queriam, quando reclamavam das pessoas, homens e mulheres, que defendiam uma causa, era ter que escutar os gritos de dor, medo e revolta escondidos durante muito tempo. Palavras que clamam justiça, igualdade e liberdade.

Porque eles incomodam quem prefere manter-se dormindo em sua zona de conforto e não quer pensar sobre si mesm@ e no quanto suas escolhas, mesmo que seja a de manter-se em silêncio, arrombar casas ou “defender a honra”, também destroem, machucam, mutilam e matam.

De quem você é filh@? Qual seu sobrenome? De que partido?  Com que roupa?

Sim, mulheres também são machistas, como muitos nos apontam os dedos para não ter que novamente (ai, que cansaço!) pensar sobre si.

Sim, talvez eu seja preconceituosa e carregue machismo como todo mundo, vejam só! Mas eu não sou só mulher, artista, pagã, romântica, divorciada, filha, amiga, feminista, louca, poeta, machista ou preconceituosa. Novas versões de mim podem surgir simplesmente quando penso, questiono ou apenas aceito que certas atitudes que tomo e pensamentos que tenho, farão diferença no meu caminho, só ou acompanhada, mesmo nesse mundão tão grande, todos os dias, todas as horas, em todos os momentos. Que posso inclusive MUDAR meus pensamentos, se eles forem machistas ou impliquem em qualquer dor ou mágoa, se eu for preconceituosa ou sexista com meu semelhante.

A Marcha não mudará nada? Faremos alguma diferença?

Minha cidade poderia se chamar Anayde, se ela não tivesse sido tão esquecida, mesmo quando lembrada. E a sua?

P.S: Nenhuma luta é isenta. Nenhuma bandeira é carregada sozinha. Esse texto é para Ieda, Tony, Wagner e Lauro. Porque sim.

P.P.S: As imagens que ilustram esse texto acima foram “roubartilhadas” do grupo Marcha das Vadias João Pessoa no facebook. Exceto a que me conta (ou não) aí embaixo.

.

* Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso), é, não apenas biscate na vida mas biscate-fixa-escrevente no nosso clube. Quer mais Raquel? Ela é colunista da Revista Mostra Plural, se desalinha em Todas Essas Coisas Sem Nome e ainda tem este blog onde você esbarra em um pouquinho do lindo trabalho dela: Ceci, n’est pas un blog .

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